Apresentação

  • Carol Martins da Rocha Universidade Federal de Juiz de Fora

Resumo

Apresentação

 

Neste segundo número do ano de 2018, a revista Rónai – Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios da Universidade Federal de Juiz de Fora apresenta a seus leitores 12 contribuições. Seguindo a tradição e a preocupação editorial da revista em articular estudo e práticas no que diz respeito às àreas de Estudos Clássicos e Tradutório, a revista se divide em duas seções: artigos e traduções.

Na seção de artigos, a área de Estudos Clássicos conta com o texto “O aidós de Clitemnestra: política e poder no Agamêmnon de Ésquilo”, de autoria de Tiago Irigaray. Nele o estudioso discute, com ênfase na questão do gênero, o modo como a relação de Clitemnestra e o poder político é representada ao longo da trilogia Oresteia, com especial atenção à peça Agamêmnon, que retrata uma cultura que nega à mulher tal aspecto.

Os estudos tradutórios contribuem para o número com dois artigos voltados para realidades linguísticas e percursos teóricos bastante distintos, trazendo à tona a tradução como lugar de diversidade e alteridade. Em “A pál utcai fiúk: um olhar discursivo sobre as modalidades tradutórias nas traduções da obra em inglês e português”, Evandro Oliveira Monteiro se debruça sobre as traduções brasileira e norte-americana da obra do autor húngaro Ferenc Molnár. O estudo traz um olhar discursivo e comparativo para entender os aspectos de domesticação e imaginários envolvidos no trabalho de tradução e no texto que dele resulta. Já o artigo de Jacquelin Ceballos Galvis, intitulado “La traducción de un testimonio imposible”, aborda, sob um olhar múltiplo – unindo filosofia, psicologia e história –, a ambiciosa associação entre o trabalho tradutório e aspectos do testemunho, aproximando os dois conceitos no intuito de trazer nova luz sobre ambos e mostrar como eles são capazes de se se ressignificarem mutuamente.

Na seção de traduções, foram cinco contribuições da área de Estudos Clássicos. Na primeira delas, “Cartas de Plínio o Jovem – seleção temática”, Adriano Scatolin e Marly de Bari Matos apresentam uma antologia de 21 cartas selecionadas dos 10 livros de epístolas de Plínio, o Jovem dedicadas a diferentes destinatários. A organização de tal antologia é baseada no intertexto que se estabelece entre as epístolas a partir de temas variados, como, por exemplo, a questão do ócio ou da morte prematura ou imerecida.

Já a tradução de “Vida de Ésquilo”, feita por Marcus Mota, traz outra contribuição relacionada ao tema do teatro neste número da revista. O estudioso propõe uma tradução do texto anônimo, que se encontra nos manuscritos medievais que nos transmitiram a obra de Ésquilo. Tal texto é fruto da colagem de diversas fontes como Aristófanes e as próprias tragédias de Ésquilo e foi importante não só para construção de certo éthos desse dramaturgo, como para fornecer informações sobre o contexto histórico e cênico em que ele produziu sua obra.

Guilherme Horst Duque, em “Ars Amatoria, I, 89-134: o rapto das sabinas (tradução)”, oferece uma tradução poética, em versos de 12 e de 10 sílabas, que busca recriar efeitos sonoros e poéticos do mencionado texto de Ovídio, em que se narra uma das versões do mito do rapto das mulheres Sabinas liderado por Rômulo.

Duas traduções dizem respeito a textos escritos em grego antigo, mas de diferentes épocas. O primeiro deles, de autoria de Ticiano Curvelo Estrela de Lacerda, intitulado “Tradução do discurso Contra os Sofistas de Isócrates”, apresenta não só a tradução do mencionado discurso do autor grego, que é dividido em três partes principais, como também o argumento de um gramático anônimo (sem data), que antecede o texto do discurso Contra os Sofistas propriamente dito, preservado por parte de seus manuscritos.

Já em “Sexto Empírico e os Animais: tradução espelhada do primeiro tropo de Enesidemo (Esboços Pirrônicos I, 36-79.1)”, Rodrigo Pinto de Brito oferece uma tradução bilíngue e espelhada de Esboços Pirrônicos I, 36-79.1, do médico e filósofo Sexto Empírico (II-III d.C.) No excerto, que corresponde ao primeiro tropo de Enesidemo, são discutidas idiossincrasias dos animais quanto aos seus órgãos dos sentidos, de maneira tal que se conclui que não há critérios para preferir entre determinadas percepções em detrimento de outras, o que levaria à suspensão de juízo sobre o tema.

As traduções de textos modernos trazem também um amplo campo de atuação, dando acesso ao leitor lusófono tanto a textos do mundo da teoria da tradução, quanto a textos literários, depoimentos e textos ligados ao mundo da sociologia/antropologia. As línguas abordadas também variam significativamente passando pelo alemão, inglês e francês.

Em “Uma tradução de Décoloniser l’esprit de Ngugi wa Thiong’o”, Yéo N’gana apresenta ao leitor lusófono um depoimento com cores de manifesto por parte do autor africano. O tom forte e assertivo do texto ressalta não só a importância das questões tratadas, mas a necessidade de difusão desse tipo de discurso. A tradução de N’gana assume nesse sentido o aspecto engajado do trabalho tradutório, seu impacto direto nas formas de diálogo no mundo contemporâneo.

Tiago Marques Luiz contribui com este número trazendo ao português uma importante, e pouco discutida, questão teórica e metodológica no campo dos estudos da tradução: o jogo de palavras. “Os jogos de palavras na tradução”, de autoria de Jeroen Vandaele, é um texto fundamental neste sentido, por fazer um balanço informado e sintético da questão, tendo sido originalmente publicado como capítulo do importante livro Handbook of Translation Studies editado por Yves Gambier e Luc van Doorslaer e publicado pela John Benjamins em 2011. Os editores da revista agradecem, portanto, a confiança que os editores estrangeiros e o tradutor depositam em nossa publicação.

Ingressando nas contribuições de teor mais literário, temos a importante contribuição de Beatriz Furlan Toledo, intitulada “Tradução dos contos Cacoethes scribendi e A razão por trás da razão, de Charles Bukowski”. Nessa tradução, a estudiosa apresenta não só grande força linguística e soluções de tradução criativas e coerentes, mas também aponta para possíveis novos caminhos para a tradução de Bukowski em português. Do mesmo modo, são suscitadas importantes reflexões mais gerais sobre os problemas tradutórios sobre os quais ela se debruça, notadamente questões de estilo e vocabulares.

Por fim, o escritor e tradutor Clélio Kramer de Mesquita nos apresenta um primoroso trabalho de tradução em “Tradução dos capítulos da obra Vom Roroima zum Orinoco, de Theodor Koch-Grünberg (1924), em que são narradas lendas do mito indígena Makunaima”. Não se trata somente de uma contribuição para os estudos tradutórios mas para os mais diversos campos das humanidades por ser um texto fundamental na cultura brasileira. Além de ter sido uma das fontes de Mário de Andrade para criação de Macunaíma, esta obra traz um relato de alto valor histórico e antropológico com o qual, agora, o leitor lusófono poderá ter contato.

 

O conjunto de textos desta edição vai portanto além de seus campos de atuação específicos, lançando-se em assuntos e assumindo posturas que transcendem os limites das discussões internas tanto no quesito dos Estudos Clássicos quanto Tradutórios. Esperamos que os leitores possam também desfrutar da abertura aqui proposta e dos desdobramentos interpretativos, teóricos e práticos que este número pretende proporcionar. 

 

Os editores

Carol Martins da Rocha

Yuri Cerqueira dos Anjos

Publicado
2018-12-17
Seção
Apresentação