Apresentação, vol 5 n 1

Autores

  • Adauto Lúcio Caetano Villela Universidade Federal de Juiz de Fora
  • Fernanda Cunha Sousa
  • Charlene Martins Miotti

Resumo

É com grande prazer que a Rónai: Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios abre espaço, neste número, para mais um dossiê de trabalhos apresentados em evento da Universidade Federal de Juiz de Fora. Desta vez, trazemos quatro artigos que fizeram parte, em outubro de 2016, do Seminário Traduzindo a Tradução. Trazemos também, em tradução, quatro trabalhos inéditos em língua portuguesa que representam importantes contribuições para estudos e pesquisas nas áreas de crítica literária, estudos clássicos e linguística. Comecemos por estes.

O artigo “Intertextualidade e o cânone retórico”, assinado por Richard Joseph Schoeck (1920-2008), da Universidade do Colorado, parte de uma história etimológica dos termos "retórica" e "cânone" para abordar a interdependência de métodos e meios entre a arte literária (produção e crítica) e o tradicional sistema retórico que esteve na base da educação europeia desde a Antiguidade. O autor reconhece a intertextualidade como uma "constante literária universal", apontando os modos pelos quais o ensino formal (particularmente britânico) na Idade Média e no Renascimento teve um papel central na validação do cânone literário. Ao final, Schoeck aponta caminhos para avaliar, decodificar e relativizar a tradição retórica no contexto da crítica moderna, ressaltando que o processo de desconstrução, tão em voga, não deve implicar o desmantelamento das estruturas, mas uma manifestação consciente de cada uma delas. 

Em seguida, temos a contribuição de Marc Baratin, professor da Universidade de Lile, na França. Seu artigo “Sobre a estrutura das gramáticas antigas” nos traz uma análise da estrutura e da constituição de um tipo de descrição gramatical que ocupou posição dominante no final da Antiguidade: os tratados intitulados Artes grammaticae. Embora seja destacada uma tentativa de inferir, a partir dos textos estoicos, um modelo grego original nas Artes latinas, o autor demonstra que a lógica interna da descrição gramatical artigráfica difere essencialmente da lógica que rege os textos estoicos.

Os dois artigos seguintes correspondem a capítulos do livro Linguistique historique et linguistique générale, de Antoine Meillet (1866-1936), professor do Collège de France. O primeiro deles, “A evolução das formas gramaticais” (1912), é um marco para os estudos linguísticos modernos, pois empregou o então neologismo "gramaticalização" (grammaticalisation, no original francês), sendo citado ainda hoje nos mais diversos trabalhos sore o tema. Meillet se dedica à definição e análise do que seria o processo que denomina gramaticalização, combinado à maneira de agrupar palavras em uma língua e à necessidade que tem o falante de ser expressivo, a partir dessas diferentes possibilidades de agrupamento.

Já em “A renovação das conjunções”, publicado originalmente na seção histórica e filológica do Anuário da École Pratique des Hautes Études de 1915-1916, Meillet afirma, a despeito da tendência esperada de manutenção das conjunções em línguas de uma mesma família, que ocorre o inverso, ou seja, a renovação constante das conjunções em função das necessidades expressivas dos falantes, e faz isso com base em extensas comparações entre as línguas indo-europeias. Ainda que sua origem remonte à linguagem familiar, é na língua erudita que as conjunções são desenvolvidas e fixadas, uma vez que esta última é particularmente suscetível ao empréstimo de palavras de todo tipo. Dessa forma, o pesquisador demonstra como, salvo algumas partículas indispensáveis, as conjunções são pouco empregadas na língua corrente e, ainda assim, estão sujeitas a se renovar ininterruptamente.

Para abrir a seção Dossiê do Seminário Traduzindo a Tradução, apresentamos o artigo “A tradução de expressões idiomáticas da série Friends: legendas profissionais versus legendas amadoras”, de Andressa Christine Oliveira da Silva. Com a expansão da Internet, vimos surgirem as legendas amadoras ou fansubbing que, em geral, acompanham produções disponibilizadas de forma gratuita, enquanto os modos de distribuição pagos e outros mais tradicionais, como canais de TV e DVDs, trazem legendas realizadas por tradutores profissionais. O artigo busca comparar as soluções dadas nos dois tipos de legenda para as expressões idiomáticas, com análises bem abalizadas e interessantes.

A tradução dos nomes em Harry Potter”, de Isabella Aparecida Nogueira Leite, traz uma discussão acerca de opções tradutórias envolvendo nomes das casas, de títulos de capítulos, de personagens e criaturas da saga Harry Potter, de J.K. Rowling. Foi enfocada especificamente a obra “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, a primeira da série, que tem a característica de possuir dois títulos distintos em inglês, um para a Inglaterra, outro para os Estados Unidos. A autora se vale, como aporte teórico, dos artigos de Germana de Souza et al. e de Dalila Lopez, que discutem a tradução de nomes próprios. São analisadas as traduções de 38 nomes e 17 títulos de capítulos.

O interessante artigo “Mia Couto em tradução: a escrita entre a subjetividade e as emoções do gesto pictórico”, de Iago Marques Medeiros, parte de uma aproximação dialógica entre literatura e artes plásticas para avaliar a tradução de algumas imagens literárias miacoutianas do português para o francês. Vale-se, para tal fim, da analítica proposta por Antoine Berman como instrumental para uma crítica da tradução de prosa literária. O artigo leva em consideração o contexto político-ideológico de surgimento das obras do escritor moçambicano, avaliando como a tradução das mesmas, consideradas parte de um sistema periférico, é feita para uma língua e cultura historicamente mais centrais. A análise conclui, nos termos de Berman, que aconteceram deformações da “letra” do original, momentos em que a tradutora implementou uma “normalização do diverso”.

Encerrando este número, temos o artigo “As políticas linguísticas e a questão da tradução de literatura japonesa para a língua inglesa: um projeto político-ideológico estadunidense”, de Marcionilo Euro Carlos Neto. Nele, o autor enfoca a formação de identidades culturais a partir da leitura de obras traduzidas. Afastando-se do antigo paradigma da tradução como uma transferência neutra de conteúdos de uma língua para outra, o autor se baseia em teorias culturalistas dos Estudos da Tradução para apontar como posições política e ideologicamente marcadas podem levar a sutis manipulações, tanto no nível textual como, antes, na própria seleção do material a ser traduzido. Tais posições moldam a imagem que o leitor estrangeiro fará da cultura de origem a partir da leitura de obras literárias traduzidas.

A todos, uma boa leitura.

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Biografia do Autor

Adauto Lúcio Caetano Villela, Universidade Federal de Juiz de Fora

Professor do Bacharelado em Tradução
Faculdade de Letras/DLEM - UFJF

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Publicado

2017-07-10

Como Citar

VILLELA, A. L. C.; SOUSA, F. C.; MIOTTI, C. M. Apresentação, vol 5 n 1. Rónai – Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios, [S. l.], v. 5, n. 1, p. 1–2, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/ronai/article/view/23207. Acesso em: 25 maio. 2024.

Edição

Seção

Apresentação

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