Publicado 2026-05-13
Palavras-chave
- crimes dos poderosos; dispositivo de racialidade; maldiçōes coloniais; Minaçu; amianto
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Resumo
Este artigo examina a continuidade do extrativismo colonial no Brasil através do caso de Minaçu (GO), onde a histórica mineração de amianto cede espaço à exploração de terras raras pela empresa Serra Verde. O objetivo central é propor o conceito de "corporificar os poderosos" como uma ferramenta analítica para tornar visíveis os mecanismos de imunização do poder e a normalização do dano social em projetos de transição energética. A metodologia adotada baseia-se em uma análise qualitativa que reconstrói a história de Minaçu, examinando discursos corporativos, acordos políticos em torno e as decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o banimento do amianto. O marco teórico articula a criminologia crítica, a perspectiva do dano social com contribuições do feminismo negro brasileiro, especificamente os conceitos de "dispositivo de racialidade" de Sueli Carneiro e a distinção entre consciência e memória de Lélia Gonzalez. Os resultados demonstram que a dependência mineral de Minaçu não é uma fatalidade, mas um projeto político deliberado sustentado por "acordos de cavalheiros" e pelo pacto narcísico da branquitude entre o governo de Goiás, elites políticas e ministros do STF. A investigação conclui que a transição energética reproduz lógicas coloniais e racistas ao decidir quais corpos podem ser sacrificados em nome do progresso global. A proposta de "corporificar os poderosos" revela agentes situados na "zona do ser" que produzem a própria inocência enquanto autorizam a dor alheia, reforçando que uma transição justa exige mudanças estruturais sobre quem lucra e quem decide sobre os territórios.
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