Quebremos o espelho!

Colonialismo, golpe e genocídio como evento complementar em Nossa Senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga

Autores

DOI:

https://doi.org/10.34019/1982-0836.2025.v29.49536

Palavras-chave:

Genocídio em Ruanda. Colonialismo. Literaturas Africanas. Scholastique Mukasonga. Memória

Resumo

Este artigo analisa o romance Nossa Senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga, contextualizando-o no genocídio de tutsis em Ruanda e suas profundas raízes coloniais. A narrativa, situada no liceu Nossa Senhora do Nilo em 1973 descreve o cotidiano de alunas do internato, explorando seus conflitos como reflexos das divisões étnicas no país. O objetivo é demonstrar como a obra ficcionaliza as relações causais entre o processo colonial, a independência do país e o golpe de 1973, sugerindo o genocídio como seu evento complementar. Metodologicamente, propomos uma revisão bibliográfica do processo histórico ruandês, da fortuna crítica do romance, aliando-os às reflexões de Fanon (2008; 2022) sobre a sociogenia colonial. Adicionalmente, empregamos as noções de Assmann (2011) e Collot (2012) para definir o espaço narrativo como simbólico e mediador, e as conceitualizações de Seligmann-Silva (2022) sobre o testemunho. Como resultado, observamos que o romance expõe como a tese nilo-hamita desestruturou a sociedade ruandesa, solidificando barreiras sociais e econômicas. A instrumentalização da figura de Gloriosa e a simbologia da quebra da estátua revelam a transição da retórica de ódio para a violência explícita, culminando na catarse coletiva. Enfim, concluímos que Nossa Senhora do Nilo atua como um poderoso testemunho, figurando uma “política do esquecimento” ao mesmo tempo em que oferece uma lente crucial para a compreensão das complexidades históricas de Ruanda e para a busca de uma reconciliação ontológica da população negra.

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Publicado

2025-12-27