Dossiê: Patrimônio e Relações Internacionais - Vol 26, n. 2 (2020)

2019-12-09

Dossiê: Patrimônio e Relações Internacionais - Vol 26, n. 2 (2020)

Organizadores: Prof. Dr. Rodrigo Christofoletti (UFJF, Brasil) e Profa. Dra. Maria Leonor Botelho (FLUP-CITCEM, Portugal)

Prazo para submissão de artigos: até 30 de junho de 2020.

 

Em função do caráter de “novidade temática”, ainda há poucos estudos sistematizados no campo de intersecção entre o patrimônio e as relações internacionais, e atualmente não há consenso geral a respeito de sua definição. Diante de um cenário interconectado pela veiculação de informação, essa temática se apresenta como um dos domínios a ser debatido, pois tem atuado na compreensão de elementos variados, funcionando como embaixadores de novas demandas mundiais. O tema é não só atual, como de discussão urgente. O imediatismo do “direto” dos media e das redes sociais tem trazido à colação um novo olhar sobre o patrimônio à escala internacional. O registro e a notícia de catástrofes, recentemente reportadas como a dos incêndios do Museu Nacional do Rio de Janeiro ou da Catedral de Notre-Dame de Paris, ou das enchentes de Veneza, bem como as ações iconoclastas desenvolvidas em Bamiyan ou Mossul, só para referir alguns exemplos, têm dado um novo lugar ao Patrimônio à escala das relações internacionais.

Dois fatores se somam às assertivas elencadas acima. O primeiro diz respeito à incorporação crescente do patrimônio cultural em outras áreas do discurso internacional. Recentemente, organismos internacionais passaram a enxergar o patrimônio de forma mais ampla, tomando-o como parte dos discursos e das agendas que compõem a governança global contemporânea, quer no imediato, quer a curto e médio prazo, tratando de relacioná-lo à ideia de sustentabilidade, à luta contra o extremismo, ou às políticas em torno do acesso à cidadania e à tradição. O patrimônio cultural passou a ter maior visibilidade e participação relevante, muito por força da ação das redes sociais e dos media, havendo como consequência um avanço na presença de organismos de valorização nas mesas de negociação das políticas internacionais como jamais visto antes. O segundo se refere ao crescente poder econômico e político que países detentores de agendas preservacionistas desfrutam no cenário internacional. Nesse sentido, a proteção de bens culturais em nível global pode ser considerada uma contribuição intrínseca ao bem-estar humano, e além de seu valor inerente para as gerações presentes e futuras, o patrimônio pode significar também uma contribuição instrumental importante para o desenvolvimento sustentável em todas as suas várias dimensões.

Com a apropriação do patrimônio cultural para fins comerciais e políticos dentro das economias de todas as partes do globo, a conservação e valorização do patrimônio agora desempenha um papel importante na diplomacia cultural, elevando seu status de mera estratégia diplomática de relações de boa vizinhança a uma elaborada tática de soft power em diferentes países ao redor do globo. À medida que o novo século se desnuda, a radiografia dessas relações de poder revela novos atores, espaços e representações.  O patrimônio cultural passou a ser um ator cada vez mais importante dos diálogos multilaterais e, como tal, faz parte do alargamento das ações no âmbito das relações internacionais. Daí derivam outros objetos de estudo, ainda pouco incorporados pela temática: manifestações esportivas de grande vulto, como a Copa do Mundo, os Jogos de Verão e Inverno e as Olimpíadas; o futebol como marca de um soft power cada vez mais globalizado; os grandes festivais artísticos e musicais ao redor do planeta e os de menor expressão, dado que regionais, pois muitas vezes explicitam a identidade de povos praticamente desconhecidos do mainstream; os idiomas e suas fronteiras; as dinâmicas de hierarquização dos temas e critérios consagrados pelos órgãos de assessoria da UNESCO; a presença cada vez maior de temas que abordem as “africanidades”, “asianidades”, “latinidades” e os “orientalismos” (tão pouco explorados por nossos pesquisadores, dada a hegemonia da visão europeísta/estadunidense);  dentre outros.  Em consonância, sítios arqueológicos, museus, espaços culturais, organismos internacionais de preservação, Estados nacionais, atores da paradiplomacia, expressões de tradição, vivência e modos de se fazer, a dicotomia entre inflação e destruição de patrimônios, dentre outros elementos tornaram-se protagonistas dessas representações mentais sobre o patrimônio que tem se transformado constantemente. Apreender os mecanismos de compreensão dessa expansão temática favorecerá a montagem de novas valorações do patrimônio, nacional e internacionalmente.