A subjetividade como desafio ao neurocentrismo
perspectivas existenciais, narrativas e fenomenológicas
DOI:
https://doi.org/10.34019/2236-6296.2026.v29.51076Palavras-chave:
Subjetividade; Neurocentrismo; Paul Ricoeur; Søren Kierkegaard; Thomas FuchsResumo
Por meio de uma abordagem qualitativa e hermenêutica, este estudo opera uma reconstrução histórico-conceitual voltada ao exame crítico do avanço das leituras neurocientíficas de cunho determinista, reducionista, mecanicista e fisicalista, as quais buscam identificar a subjetividade, a liberdade e a responsabilidade como produtos epifenomênicos do cérebro. Partindo de uma reconstrução histórica do problema mente-cérebro, o texto mostra como determinadas interpretações neurocientíficas confundem método científico com pressupostos metafísicos, produzindo um modelo empobrecido de humano. Em contraponto, a filosofia existencial de Kierkegaard recupera a subjetividade como tarefa e decisão; Paul Ricoeur introduz a mediação narrativa, a ipseidade e a responsabilidade como categorias irredutíveis; e Thomas Fuchs reconstrói a subjetividade enquanto experiência encarnada, relacional e situada. A articulação desses autores oferece uma alternativa robusta ao neurocentrismo, reinscrevendo a pessoa humana em seu horizonte ético, narrativo e fenomenológico. Além disso, o trabalho discute as implicações desse embate para as ciências da religião, defendendo a irredutibilidade da experiência da transcendência contra o reducionismo biológico. Concluímos que nenhuma descrição cerebral esgota a densidade ontológica da subjetividade, e que a compreensão do humano exige um paradigma plural, interdisciplinar e sensível à interioridade, à narrativa e à corporeidade.
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