Dossiê 2027.1: Movimentos e Coletivos de Cinema na América latina: desafios estéticos, políticos e historiográficos

2026-04-22

Este dossiê temático pretende agregar reflexões sobre movimentos e coletivos de cinema na América Latina, tanto na análise de seus modos de organização e criação quanto no que diz respeito a singularidades estéticas, sociais e políticas que emergem de trabalhos não individuais. Notadamente, no escopo serão considerados artigos, ensaios e análises sobre essa forma de fazer cinema, seu conteúdo e historiografia.

Nota-se que a América Latina possui tradição de movimentos e coletivos cinematográficos desde que o cinema, como linguagem abrangente e popular, assumiu compromissos sociopolíticos “tricontinentais”, como no caso do Nuevo Cine Latinoamericano, no qual se incluem “movimentos” de caráter militante tais como o Cine Liberación, o Cinema Novo, o Tercer Cine – e seus respectivos manifestos. Tais grupos e/ou coletivos foram seguidos por inúmeros outros e “novos”, como o Cine Mujer, no México. Dentre tais mudanças, uma das mais relevantes é a interação com debates identitários e movimentos sociais contemporâneos. A inserção dessas temáticas em festivais, mostras e em realizações audiovisuais ocorrem paralelamente à importante ascensão de ações e coletivos negros, de mulheres, étnicos, relativos a sexualidades ou a grupos minoritários, que se relacionam de diferentes formas com o campo cinematográfico. Nesse sentido, ressaltamos que a profícua criação de grupos e movimentos expõe mudanças no campo cinematográfico em geral, e reflete modificações na produção audiovisual latino-americana, em particular.

Graças à democratização de ferramentas digitais (pensamos na Alumbramento, no Brasil, no MAFI chileno ou misturando matérias fílmicas como Los Ingrávidos, no México), o início desse século tem testemunhado renascimentos significativos daquele modelo cinematográfico independente e, muitas vezes, de “guerrilha”. Portanto, verificamos que tal modo de criação foi e continua sendo determinante para a realização de filmografias e experimentações audiovisuais marcantes realizadas em condições materiais precárias, e em contextos de ascensão de extremas direitas não apenas no subcontinente, mas em termos globais.

Se levarmos em conta que, lato sensu, certa historiografia do cinema é escrita por períodos, nações, instituições ou, ainda, cineastas (autores), parece haver uma lacuna sobre investigações e reflexões conjuntas de movimentos e coletivos latino-americanos de cinema em perspectiva transnacional. Tais narrativas, estudos e investigações, também escritos coletivamente, tornam-se fundamentais na contemporaneidade capitalista que tende a atomizar e a polarizar indivíduos, enfraquecendo a esfera pública.

Dito isso, para o presente dossiê serão admitidas: 1) contribuições de textos inéditos em português; 2) artigos e ensaios sobre movimentos, coletivos e grupos latino-americanos com perspectivas novas, bem como historiográficas que discutam problemas e questões, tais como: Quais seriam as lacunas na história do cinema latino-americano vista sob a ótica de coletividades? Que filmografias de movimentos e coletivos pouco conhecidos, ou mesmo desconhecidos, devemos resgatar para preencher essas lacunas? Com bases e em quais metodologias podemos revisar – hoje – escritos sobre essa forma de fazer cinema e seus conteúdos estéticos, sociais e políticos? Que genealogias de coletivos, em escala regional, nacional ou continental, estabelecer a partir de nossa época?

A partir de estudos de caso específicos, cruzados ou comparativos, o dossiê pretende compreender como se manifestam trabalhos coletivos de organização e criação fílmica/audiovisual na América Latina. Para tanto, ainda serão consideradas as seguintes questões: Quais modelos se repetem e quais variam? A quais aspectos do cinema produzido de forma (neo)industrial tais produções se opõem? Como conciliar projetos coletivos no contexto de restrições econômicas e de conservadorismos ideológicos? A quais outros tipos de organizações coletivas na América Latina eles se aproximam em seu modo de funcionamento?

Em diálogo com aquelas (e demais) perguntas, tanto sob uma perspectiva histórica quanto em sua mais viva atualidade, entrevistas ou relatos de experiências de membros de coletivos de cinema também serão bem-vindos.

Objetivos do Dossiê
Preencher espaços historiográficos relativos a movimentos e coletivos cinematográficos na América Latina;
Facilitar a circulação e a difusão de dados e publicações no subcontinente e alhures;
Diversificar reflexões teóricas sobre produções audiovisuais coletivas na região;
Destacar ferramentas estéticas, sociais, políticas e metodológicas adequadas à criação coletiva.

Público-Alvo
Este dossiê é destinado a pesquisadores/as, professores/as, cineastas e produtores/as-realizadores/as que têm interesse e se dedicam a estudar ou criar movimentos e coletivos de cinema na América latina. Portanto, serão admitidos trabalhos submetidos por doutores/as e por doutorandos/as em coautoria com ao menos um/a doutor/a.

Cronograma e Prazos
Submissão de artigos: de 15 de dezembro de 2026 até 15 de fevereiro de 2027;
Publicação: prevista para o primeiro semestre de 2027.
Informações sobre Submissão: Os artigos devem ser submetidos através do sistema de submissão online do periódico, seguindo as diretrizes de formatação e estilo disponíveis no site do mesmo (https://periodicos.ufjf.br/index.php/nava/about).

Palavras-chave
Movimentos e coletivos de cinema
América Latina
Estética, política e historiografia
Análises de práticas e metodologias
Análises fílmicas
Séculos XX e XXI


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