“Otimizar o desempenho muscular e estético”: interseções de diagnósticos, sintomas e desejos no uso da testosterona como aprimoramento

  • Lucas Tramontano Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ)

Resumo

Esse artigo visa refletir sobre o uso masculino de testosterona na interface entre terapêutico e estético. O objetivo é pensar como um vocabulário médico é acionado para justificar a escolha pelo uso de um hormônio sexual para aprimoramento do corpo e da sexualidade, através da comparação entre dois casos paradigmáticos na seleção de interlocutores para minha pesquisa de doutorado. Trata-se de homens em torno de 40 anos, homossexuais, soropositivos, de diferentes classes sociais, moradores do Rio de Janeiro, que relatam queixas parecidas, optando pelo uso de testosterona (associada à musculação) como forma de reverter sintomas de envelhecimento e assegurar a modificação corporal desejada. A descrição de uma mesma sintomatologia característica é usada para garantir a anuência do médico ao desejo de anabolismo muscular buscando um maior valor no mercado sexual. A idade permite aos médicos uma associação com o diagnóstico de Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM), prescrevendo a terapia de reposição hormonal, mesmo antes dos resultados laboratoriais. Tais casos lançam luz sobre a busca contemporânea pela maximização da performance corporal via medicamentos, e destaca uma associação utilitarista com diagnósticos dúbios como forma de driblar o estigma decorrente do uso recreativo/estético de certos medicamentos, no caso, a testosterona. Por fim, novas concepções de masculinidade e envelhecimento emergem a partir das potencialidades advindas do recurso ao aprimoramento farmacológico, trazendo outras perspectivas para o debate acerca do natural versus artificial, e da consequente (i)legitimidade das modificações corporais estéticas.
Publicado
2018-07-23