CHAMADA DE ARTIGOS
Em setembro de 2011, a Netflix desembarcou na América Latina, uma região cuja identidade audiovisual foi forjada pela televisão e por grandes conglomerados midiáticos, que consolidaram linguagens, formatos e gêneros próprios, notadamente as telenovelas (Hamburger, 2005; La Pastina, et al., 2003; Lopez, 2002; Lopes, 2009). Apesar de adversidades iniciais, a empresa estadunidense, seguida por uma leva de players globais, identificou um terreno fértil: um ecossistema que não carecia necessariamente de conteúdo, mas de novos modelos de acesso e consumo. Quinze anos depois, países como Brasil e México consolidaram-se como peças estratégicas no tabuleiro global do streaming (Castellano; Meimaridis, 2026; Gómez; Larroa, 2022).
A ascensão do streaming de vídeo na região provou ser um fenômeno transformador, que reconfigurou não apenas as práticas de consumo, mas também os modelos de produção, distribuição e os próprios critérios de valoração da cultura televisiva (Albornoz; Krakowiak, 2023; Cornelio-Marí, 2020; García-Leyva, et al., 2021; Mastrini; Krakowiak, 2021; Mungioli, Lemos, Penner, 2024). Na América Latina, essas transformações desafiam estruturas regulatórias, dinâmicas de produção e formatos culturais historicamente consolidados, promovendo a dissolução das fronteiras midiáticas e fazendo emergir questões prementes sobre o futuro dos conglomerados nacionais e os circuitos de circulação, consumo e regulação do audiovisual (Baladron; Rivero, 2018; Fernandes; Albornoz, 2023; Gómez, 2022; Orozco; Miller, 2016).
Essa mudança reconfigurou profundamente o equilíbrio de poder no cenário comunicacional, impactando desde os conglomerados midiáticos tradicionais até criadores independentes, artistas e demais profissionais do setor (Alvaray, 2023; Rios, 2024; Rocha et al., 2025). Mais do que uma disrupção tecnológica, trata-se de um fenômeno que ameaça colonizar identidades culturais, desestabilizar as já frágeis economias criativas locais e questionar nossa autonomia para narrar nossas próprias histórias, impondo uma padronização cultural mascarada de progresso (Mazur, 2023; Osman, 2024; Rodríguez-Camacho et al., 2021). Contudo, essa transformação não ocorre em um vácuo: ela se dá em constante tensão e diálogo com tradições consolidadas, estruturas midiáticas preexistentes e especificidades locais que resistem ativamente à homogeneização global. Configura-se, assim, um cenário paradoxal no qual os conglomerados nacionais, ao mesmo tempo em que defendem seus territórios simbólicos e mercadológicos, se reorganizam para participar dos processos de digitalização, lançando seus próprios serviços de streaming e buscando novas alianças transnacionais (Artz, 2023; Diez; Bertoni, 2024).
Esse dossiê nasce da necessidade de deslocar o debate sobre o streaming – historicamente centrado no inglês e em mercados anglófonos – para uma perspectiva intrinsecamente latino-americana. Nosso objetivo é enriquecer o debate internacional a partir das especificidades, contradições e potencialidades de nossos contextos regionais. Convidamos pesquisadoras e pesquisadores a tomarem os 15 anos da Netflix na América Latina como um marco para a reflexão sobre as mudanças do ecossistema audiovisual regional. Embora a Netflix seja emblemática desse processo, o dossiê acolhe análises que contemplem todo o espectro de transformações provocadas pela ascensão e popularização do streaming de vídeo, incluindo plataformas e serviços globais, regionais e nacionais.
Ao se expandirem pela região, esses players globais deparam-se com contextos já estabelecidos e dotados de características distintivas (Ladeira, 2017; Piñón, 2020), o que resultou em estratégias e configurações particulares para cada país. Nos últimos 15 anos, pesquisadores e pesquisadoras de toda a América Latina têm mapeado essas transformações em diferentes territórios nacionais. Seja na Argentina, na Bolívia, no Brasil, no México e em tantos outros territórios, observamos processos que não sinalizam uma ruptura radical com o passado televisivo, mas sim complexas dinâmicas de continuidade e reconfiguração (Obitel, 2020). Os novos agentes do mercado mobilizam estratégias, modelos de negócio, narrativas e mecanismos de engajamento afetivo herdados e reatualizados da televisão tradicional (Echauri, 2025; Meimaridis; Campanella, 2025). Desse modo, buscamos reunir investigações que, superando a ênfase na ruptura, explorem as persistências, adaptações, ressignificações e resistências que caracterizam a cultura televisiva e seriada latino-americana na era do streaming.
Assim, a pergunta central que orienta este dossiê não é apenas “o que há de novo?”, mas, sobretudo: “o que persiste, se adapta e é ressignificado na cultura de vídeo latino-americana sob novas roupagens, e por quê?”. Ao desnaturalizar o entusiasmo tecnológico que frequentemente acompanha o discurso sobre o streaming, ambicionamos compreender como a televisão – meio central na formação da identidade cultural e do imaginário coletivo latino-americano – enquanto forma cultural, prática social e instituição midiática, vem sendo incessantemente reinventada na região.
Eixos Temáticos
Convidamos a submeterem trabalhos em português, espanhol ou inglês que dialoguem com os seguintes eixos temáticos (não excludentes):
- Produções originais e coproduções na América Latina
- Disrupção e reconfiguração das mídias tradicionais
- Ficção seriada televisiva e seus modelos consagrados
- Novos formatos e gêneros no streaming
- Estudos comparativos entre mercados latino-americanos
- Fandoms, práticas culturais e relações com plataformas e serviços de streaming
- Representação, diversidade e identidade no streaming de vídeo
- Análises industriais de mercados latino-americanos
- Convergências entre televisão e streaming
- Ficção seriada, poéticas narrativas e o streaming de vídeo
- Telenovelas e suas reconfigurações no ambiente digital
- Novos fluxos e circuitos de circulação audiovisual na América Latina
- Trabalho, precarização e a plataformização das indústrias audiovisuais nacionais
- Streaming de vídeo e soberania
- Regulação e políticas públicas
- Memória televisiva e arquivos na era do streaming
Referências
Albornoz, L. A., & Krakowiak, F. (2023). Netflix’s first decade of presence in Latin America. In P. Bouquillion, C. Ithurbide, & T. Mattelart (Eds.), Digital platforms and Global South (pp. 128-146). Routledge.
Alvaray, L. (2023). Of how streaming platforms are changing the audiovisual space in Latin America. Transnational Screens, 14(1), 1–19.
Artz, L. (2023). Little giants in Latin America. In L. Artz (Ed.), Global media dialogues: Industry, politics, and culture (pp. 111–167). Routledge.
Baladrón, M., & Rivero, E. (2019). Video-on-demand services in Latin America: Trends and challenges towards access, concentration and regulation. Journal of Digital Media & Policy, 10(1), 109–126.
Castellano, M., & Meimaridis, M. (in press). A nova (velha) TV: Netflix e a reconfiguração do streaming de vídeo no Brasil. EdUFBA.
Cornelio-Marí, E. M. (2020). Mexican melodrama in the age of Netflix: Algorithms for cultural proximity. Comunicación y Sociedad, 17.
Diez, E. P., & Bertoni, C. (2024). Latin America media panorama. In U. Rohn, M. B. Rimscha, & T. Raats (Eds.), De Gruyter handbook of media economics (pp. 291–300). Walter de Gruyter GmbH & Co. KG.
Fernandes, M. R., & Albornoz, L. A. (2023). Netflix as a policy actor: Shaping policy debate in Latin America. Journal of Digital Media & Policy, 14(2), 249–268.
Echauri, G. (2025). Non-disruptive streaming: Aesthetic and industrial continuation of legacy television in Prime Video Mexico. Critical Studies in Television.
García-Leyva, T., Albornoz, L. & Gómez, R (2021). Netflix y la transnacionalización de la industria audiovisual en el espacio iberoamericano. Comunicación y sociedad.
Gómez, R., & Muñoz-Larroa, A. (2023). Netflix in Mexico: An example of the tech giant’s transnational business strategies. Television & New Media, 24(1), 88–105.
Gómez, R. (2022). Challenges of media governance and media policy in Latin America: In the context of media reform battles. In Media Governance: A Cosmopolitan Critique (pp. 59-80). Springer.
Hamburger, E. (2005). O Brasil antenado: A sociedade da novela. Zahar.
Ladeira, J. M. (2017). A organização do streaming no Brasil: Telmex, Globo e a associação entre telecomunicações e audiovisual. E-Compós, 20(1), 1–17.
La Pastina, A. C., Rego, M., & Straubhaar, J. (2003). The centrality of telenovelas in Latin America’s everyday life: Past tendencies, current knowledge, and future research. Global Media Journal, 2(2).
Lopes, M. I. V. (2009). Telenovela como recurso comunicativo. MATRIZes, 3(1), 21–47.
Lopez, A. M. (2002). Our welcomed guests: Telenovelas in Latin America. In R. Allen (Ed.), To be continued...: Soap operas around the world (pp. 256–275). Routledge.
Mastrini, G., & Krakowiak, F. (2021). Netflix in Argentina: Accelerated expansion and little local production. Comunicación y Sociedad, 18.
Mazur, D. (2023). A Coreia do Sul e a Hallyu: Uma globalização alternativa no mundo multipolar [Doctoral dissertation, Universidade Federal Fluminense]. Universidade Federal Fluminense Repository.
Meimaridis, M., & Campanella, B. (2025). A TV voltando a ser TV: A convergência do streaming de vídeo com práticas televisivas. Revista FAMECOS, 32(1), e46764.
Mungioli, M. C. P., Lemos, L. P., & P., T. A. (2024). A primeira década de produção original Netflix: Formatos de ficção televisiva seriada em contextos transnacionais e transculturais. Revista GEMInIS, 15(2), 30–56.
Obitel. (2020). El melodrama en tempos de Streaming. Globo-Sulina.
Osman, J. P. (2024). El Robo del Siglo/The Great Heist: Perpetuating false territorial dichotomies in Colombia? In T. Dunleavy & E. Weissmann (Eds.), TV drama in the multiplatform era: Transnational coproduction and cultural specificity (pp. 273–289). Springer International Publishing.
Orozco, G., & Miller, T. (2016). Television in Latin America is “everywhere”: Not dead, not dying, but converging and thriving. Media and Communication, 4(3), 99–108.
Piñón, J. (2020). Un reconocimiento de la infraestructura de la red de internet para servicios de VoD en Latinoamérica. In G. Orozco (Ed.), Televisión en tiempos de Netflix: Una nueva oferta mediática (pp. 17–46). Universidad de Guadalajara.
Rios, D. (2024). Diversidade e dependência: Netflix e o campo de produção de séries no Brasil [Doctoral dissertation, Universidade Federal Fluminense].
Rocha, S. M., et al. (2025). Mercado e produção de ficção seriada para streaming no Brasil: Desafios para a regulação, a diversidade e a construção de políticas públicas. Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura, 27(1), 85–107.
Rodríguez-Camacho, J. A., et al. (2021). Content characterization of Latin American film productions on Netflix: A Bolivian perspective. Comunicación y Sociedad, 18.



