v. 31 n. 2 (2025): Dossiê: O Brasil, a América Latina e a Segunda Guerra Mundial
Dossiê

Direito e Criminalidade na Segunda Guerra Mundial : a Justiça Militar e os soldados da FEB

Fernando da Silva Rodrigues
Universidade Salgado de Oliveira
Adriana Gomes
Universidade Salgado de Oliveira
Biografia

Publicado 2026-01-10

Palavras-chave

  • Força Expedicionária Brasileira,
  • Justiça Militar,
  • Militares do exército,
  • Processos Criminais,
  • Segunda Guerra Mundial

Como Citar

da Silva Rodrigues, Fernando, e Adriana Gomes. 2026. “Direito E Criminalidade Na Segunda Guerra Mundial : A Justiça Militar E Os Soldados Da FEB”. Locus: Revista De História 31 (2):32_55. https://doi.org/10.34019/2594-8296.2025.v31.48965.

Resumo

Este artigo pretende analisar a atuação da Justiça Militar brasileira durante a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial, com ênfase nos delitos cometidos por militares brasileiros em território italiano entre 1944 e 1945. A investigação busca compreender os desdobramentos jurídicos, institucionais e simbólicos desses processos judiciais, considerando a interação entre os sistemas legais brasileiros, a rotina diária da tropa na Itália, o enquadramento operacional ao Exército dos Estados Unidos da América, e os desafios da aplicação do direito militar em contexto internacional de guerra. A metodologia adotada baseia-se na análise qualitativa de fontes primárias, com destaque para o dossiê Reclamações de civis italianos por intermédio do Exército Americano, composto por 103 páginas preservadas no Arquivo Histórico do Exército. Também foram examinadas séries documentais da FEB e da Justiça Militar, referentes ao período de 1942 a 1945. A abordagem interpretativa segue os pressupostos da Nova História Militar, articulando análise técnico-jurídica e leitura hermenêutica das fontes, tratando os processos judiciais como construções discursivas e polifônicas que revelam tensões de poder, disputas de sentido e estratégias institucionais de silenciamento ou contenção. Na discussão, o artigo examina a Justiça Militar não apenas como um instrumento de punição, mas como mecanismo de preservação simbólica da imagem da FEB no exterior. São identificados casos emblemáticos de estupro, homicídio, lesões corporais e saques cometidos por soldados brasileiros, sobretudo fora do campo de batalha, destacando-se o episódio de Madognana (janeiro de 1945), em que dois soldados condenados à morte tiveram suas penas comutadas em sucessivas decisões institucionais. Tais práticas evidenciam a fragilidade da responsabilização efetiva e o uso político dos instrumentos de clemência, como os indultos e comutações pós-guerra. Os resultados indicam que a atuação da Justiça Militar foi marcada por seletividade punitiva, tensões diplomáticas com o Exército dos Estados Unidos, dificuldades logísticas e limites operacionais no cenário europeu. A pesquisa revela ainda que a mobilização e estruturação da FEB foram impactadas por problemas de recrutamento, treinamento e disciplina, agravando os índices de indisciplina e criminalidade entre os praças. Ao lançar luz sobre o funcionamento da Justiça Militar no contexto da FEB, o artigo contribui para preencher uma lacuna historiográfica ao abordar dimensões jurídicas, morais e simbólicas da experiência militar brasileira na Segunda Guerra Mundial. A análise crítica dos processos penais revela como as narrativas jurídicas se constituem como fontes históricas complexas e fundamentais para a compreensão das relações entre guerra, justiça, poder e memória. Assim, a pesquisa se insere nos debates contemporâneos sobre o papel das Forças Armadas e reafirma o compromisso da historiografia com a reconstrução crítica e plural do passado militar brasileiro.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

  1. Albuquerque, Bento Costa Lima Leite de. A justiça militar na campanha da Itália: constituição, legislação, decisões, Brasília: Superior Tribunal Militar, 1958.
  2. Albuquerque Júnior, Durval Muniz. A dimensão retórica da historiografia. In. Pinsky, Carla Bassanezi (Org.). O historiador e suas fontes, São Paulo: Contexto, 2009.
  3. Barros, José D’Assunção. O Campo Histórico: as especialidades e a abordagem da História, 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Cela, 2002.
  4. Blajberg, Israel. 1942 – Um ano singular: os 75 anos dos torpedeamentos e da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. In: Rodrigues, Fernando; Silva, Francisco Carlos Teixeira da; Pitillo, João Cláudio Platernik (org.). Guerra, cultura e política: novos estudos sobre o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro: Conexão 7, 2021.
  5. Bloch, Marc. Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Edição anotada por Étienne Bloch. Tradução André Telles, Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 68.
  6. Bueno, Almir de Carvalho. Processos-Crime e micro-história. Perspectivas e limitações em um estudo de caso. Mneme – Revista de humanidades, Caicó, v. 14, n. 32, p. 1-12, 2003.
  7. Campiani, Cesar. Barbudos, sujos e fatigados, São Paulo: GRUA, 2010.
  8. Carneiro, Mario Tiburcio Gomes. As leis da guerra - Convenções Internacionais. Rio de Janeiro: Gabinete Fotocartografico do Ministério da Guerra, 1943.
  9. Chalhoub, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores do Rio de Janeiro na Belle Epoque. São Paulo: Brasiliense, 2001.
  10. DEYRA, Michel. Direito Internacional Humanitário, Brasília: Procuradoria Geral da República, 1998.
  11. Castro, Celso; Izecksohn, Vitor; e Kraay, Hendrik (Org.). Nova História Militar Brasileira, Rio de Janeiro: FGV/ Bom Texto, 2004.
  12. Clausewitz, Carl Von. Da Guerra, Tradução para o inglês por Michael Howard e Peter Paret; trad. do inglês para o português por CMG (RRm) Luiz Carlos Nascimento e Silva do Valle; ensaios introdutórios. de Peter Paret, Michael Howard e Bernard Brodie, com um comentário de Bernard Brodie. S./d.
  13. Fausto, Boris. Crime e Cotidiano. A criminalidade em São Paulo (1880-1924). São Paulo: Brasiliense, 1984.
  14. Ferrajoli, Luigi. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002.
  15. Ferraz, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000), Londrina: EdUEL, 2012.
  16. Ferreira Junior, Alcemar. Uma visceral rebeldia: clientelismo e isenções no recrutamento da Força Expedicionária Brasileira (1943-1944). In: SANTOS, Cláudia R. Andrade dos (et al.), Estudos – vol. II - Série Grupo de Pesquisa LEPH/Programa de Mestrado em História Social/Universidade Severino Sombra, Curitiba, 2007.
  17. Latfalla, Giovani. Relações Militares: Brasil-EUA 1939/1943, Rio de Janeiro: Gramma Editora, 2019.
  18. Laport, William. Justiça Expedicionária Brasileira: atuação no Teatro de Guerra da Itália (1944-1945), Brasília: UnB, 2017, http://www.realp.unb.br/jspui/handle/10482/22624. Acesso em 30 mai. 2024.
  19. Ginzburg, Carlo. O inquisidor como antropólogo: uma analogia e as suas implicações. In: Ginzburg, Carlo; Castelnuovo, Enrico; Pono, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 1991.
  20. Ginzburg, Carlo. Relações de Força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  21. Gomes Neto, Paulo; Silva, Francisco Carlos Teixeira da; Pitillo, João Cláudio Platernik (org.). A Segunda Guerra Mundial 70 anos depois... (Coletânea de Artigos), Rio de Janeiro: Multifoco, 2016.
  22. Pedrosa, Fernando Velôzo Gomes. Por Uma História Militar Global: da História Militar tradicional à Nova História Militar, Revista Brasileira de História Militar, Ano X, n.º 25, mai. 2019, p. 8. Disponível em: https://www.historiamilitar.com.br/edicao/edicao-25-ano-x-maio-de-2019/ Acesso em 02 jun. 2024.
  23. Oliveira, Dennison. Aliança Brasil-Estados Unidos: nova história do Brasil na Segunda Guerra Mundial, Curitiba: Juruá, 2015.
  24. Reis, José. Carlos. A história entre a filosofia e a ciência, São Paulo: Editora Ática, 1996.
  25. Rodrigues, Fernando; Silva, Francisco Carlos Teixeira da; Pitillo, João Cláudio Platernik (org.). Guerra, cultura e política: novos estudos sobre o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro: Conexão 7, 2021.
  26. Rodrigues, Fernando. Os indesejáveis: Instituição, Pensamento Político e Formação Profissional dos Oficiais do Exército Brasileiro (1905 a 1946), Jundiaí: Paco Editorial, 2013.
  27. Rodrigues, Fernando da Silva. Desafios históricos para organização, preparação e emprego da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, Revista Artigos Estratégicos. Vol. 5 n. 2 Jul/Dez 2018. Disponível em: http://ebrevistas.eb.mil.br/index.php/CEEExArE/article/view/2098. Acesso em 30 mai. 2024.
  28. Rosemberg, André; Souza, Luís Antônio Francisco de. Notas sobre o uso de documentos judiciais e policiais como fonte de pesquisa histórica. Revista Patrimônio e Memória, Assis, v. 5, n. 2, p. 159-173, 2009.
  29. Sanches, Marcos Guimarães. A guerra: problemas e desafios do campo da história militar brasileira, Revista Brasileira de História Militar, Rio de Janeiro, Ano I, n. 1, p. 6-16, abril 2010, p. 6. Disponível em: http://www.historiamilitar.com.br/wp-content/uploads/2017/08/RBHM-I-01.pdf Acesso em 21 jun. 2024.
  30. Soares, Luiz Carlos. História Militar: a “velha” e a “nova”. In: Cardoso, Ciro Flamarion Santana; Vainfas, Ronaldo. Novos domínios da história, Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
  31. Teixeira, Nuno Severiano. A história militar e a historiografia contemporânea, A Defesa Nacional, 81 (768), 2021, pp. 194-196. Disponível em https://ebrevistas.eb.mil.br/ADN/article/view/7057. Acesso em 21 jun. 2024.