História, Cultura e Natureza: Disputas no Tempo Presente

2026-08-26

História, Cultura e Natureza: Disputas no Tempo Presente

Organizadores: Gabriel Benedito Machado e Giovana Martins Brito

Guerras, epidemias, exploração de recursos naturais, destruição de territórios, ataque a povos tradicionais, crise climática: essas são algumas das principais problemáticas impostas no tempo presente. A percepção de um cenário global em colapso ganha contornos multifacetados em meio a desastres socioambientais, instabilidades geopolíticas, manipulação de narrativas e o questionamento das democracias. Dessa forma, a proposta deste dossiê é tensionar as categorias História, Cultura e Natureza, no âmbito das disputas que atravessam o cenário contemporâneo e causam profundas repercussões na sociedade. 

Tendo em vista os debates em torno das perspectivas do Antropoceno (Moore, 2022; Haraway, 2016; Latour, 2020) nota-se como os processos de aceleração das mudanças climáticas, degradação dos ecossistemas e proliferação de desastres socioambientais se entrecruzam diretamente com a ofensiva neoliberal sobre os territórios e bens comuns. Os efeitos das devastações são sentidos em diversas frentes como, por exemplo, na preservação do patrimônio cultural e natural, na proteção dos ecossistemas e nos modos de vida das comunidades tradicionais. Em contraponto ao processo de destruição, emergem assim outras abordagens pautadas na valorização dos saberes ancestrais e na noção de Bem-Viver (Acosta, 2016; Krenak, 2022). 

Além disso, a ascensão de movimentos e políticos de ultradireita tem atuado na articulação para a desregulamentação de legislações, o desmonte de políticas públicas e o enfraquecimento de instituições como estratégia de alcance de seus interesses. Nessa escalada, os campos da memória, do patrimônio e da história se transformam em intensos espaços de disputas e manipulação de narrativas (Pollak, 1989). Entre ataques deliberados e apagamentos epistêmicos promovidos por discursos negacionistas e revisionistas, são notáveis as tentativas orquestradas de distorção ideológica e neutralização das lutas sociais (Vidal-Naquet, 1987). 

As problemáticas apresentadas ganham novos desdobramentos ao entrar em contato com o universo digital (Van Dijck; De Waal, 2018; Poell; Nieborg; Van Dijck, 2020), carregando consigo uma complexidade própria para a historiografia no tempo presente. Aspectos como a plataformização, dinâmicas algorítmicas, instrumentalização das redes e impactos causados pela implantação dos data centers, tornam-se cada vez mais preocupantes. No âmbito destas questões, observamos ainda os desafios na constituição de acervos digitais no quesito das suas formas de salvaguarda, organização e sistematização. 

Portanto, este dossiê temático propõe uma reflexão interdisciplinar e crítica sobre as crises que incidem no tempo presente, seus impactos nas dinâmicas de poder, na sociedade e nos territórios, além de suas repercussões no ambiente digital. Nesse sentido, podem ser abordadas as múltiplas ameaças que incidem sobre as dimensões históricas, culturais e ambientais. Serão recebidos artigos inéditos que apresentem rigor científico e sensibilidade frente aos desafios da atualidade. 

Eixos Temáticos:

  • História, natureza e crises socioambientais - Antropoceno, crise climática, desastres, extrativismo, exploração de recursos naturais e História Ambiental.
  • Territórios, patrimônio, memória e resistências -  Povos tradicionais, conflitos territoriais, patrimônio cultural e natural, memória, saberes ancestrais, Bem-Viver e movimentos de resistência.
  • Ultradireita, negacionismos e disputas de narrativa -  Negacionismo climático e científico, revisionismos, guerra-cultural, políticas ambientais, autoritarismos e disputas pela memória e pela história.
  • Guerras, geopolítica e destruição socioambiental - Conflitos armados, recursos naturais, destruição de territórios e patrimônios, deslocamentos populacionais, colonialismo e disputas geopolíticas.
  • Crises contemporâneas e mundo digital -  Plataformização, algoritmos, desinformação, digitalização de acervos, arquivos digitais, data centers, inteligência artificial e impactos socioambientais das infraestruturas digitais.

 

Prazo para submissões: 30/09/2026

Os artigos devem ser submetidos pela plataforma, através da aba SUMBISSÕES. 

 

Referências Bibliográficas: 

ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma forma de imaginar outros mundos. Rio de Janeiro: Editora Elefante, 2016.

BACHETTINI, Andrea Lacerda; CALDAS, Karen Velleda (Orgs.). Restauração: democracia, preservação e memória. Pelotas: Satolep Press : Publicações Oficiais UFPel : LACORPI: IPHAN, 2024. 

BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2010. 

HARAWAY, Donna J. Staying with the trouble: making kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press, 2016. 

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

LATOUR, Bruno. Onde aterrar? – Como se orientar politicamente no Antropoceno. Tradução de Marcela Vieira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020. 

MARINO, Ian Kisil; NICODEMO, Thiago Lima; ROTA, Alesson Ramon (Orgs.). Caminhos da história digital no Brasil. Vitória: Editora Milfontes, 2022.

MARINO, Ian Kisil. História digital informal? Sobre pesquisa histórica, plataformas e redes sociais. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 45, n. 99, 2025.

MOORE, Jason W. (org.). Antropoceno ou Capitaloceno?: natureza, história e a crise do capitalismo. Tradução de Antônio Xerxenesky, Fernando Silva e Silva. São Paulo: Editora Elefante, 2022. 

POELL, Thomas; NIEBORG, David; VAN DIJCK, José. Plataformização. Tradução de Rafael Grohmann. Revista Fronteiras – Estudos Midiáticos, São Leopoldo, v. 22, n. 1, p. 2-10, jan./abr. 2020. 

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989. 

POVINELLI, Elizabeth A. Catástrofe ancestral: existências no liberalismo tardio. Editora: Ubu, 2024.

RIBEIRO, Wagner Costa. A ordem ambiental internacional. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2005.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora; Piseagrama, 2023. 

VAN DIJCK, José; POELL, Thomas; DE WAAL, Martijn. The platform society: public values in a connective world. New York: Oxford University Press, 2018. 

VIDAL-NAQUET, Pierre. Os assassinos da memória: “Um Eichmann de papel” e outros ensaios sobre o revisionismo. Paris: La Découverte, 1987.