Infância e Capitalismo
a colonização do cuidado e a produção precoce da subjetividade trabalhadora
DOI:
https://doi.org/10.34019/1981-2140.2025.51418Palavras-chave:
Infância, Capitalismo, Trabalho, Tempo social, SubjetividadeResumo
O presente artigo examina a infância como uma categoria social historicamente constituída no interior do modo de produção capitalista, tomando como eixo analítico a organização social do trabalho e a expropriação do tempo como dimensões estruturantes das condições de vida das crianças. Parte-se do entendimento de que as formas concretas de viver a infância são profundamente condicionadas pelas relações sociais de produção, especialmente no que se refere às extensas jornadas de trabalho adulto, à precarização das relações laborais, à insuficiência das licenças maternidade e paternidade, à institucionalização precoce do cuidado e à inserção de crianças em atividades de trabalho. O estudo busca compreender de que maneira esses processos incidem sobre o convívio familiar, o cuidado cotidiano, o lazer e o desenvolvimento humano. Trata-se de uma pesquisa de natureza bibliográfica, fundamentada na tradição marxista e desenvolvida em diálogo com autores da sociologia da infância, da psicologia histórico-cultural e do campo das políticas sociais, a partir da análise de obras clássicas e estudos empíricos. A discussão evidencia que, no capitalismo, o trabalho organiza o tempo social e subordina a reprodução da vida às exigências da produção, produzindo a expropriação material e simbólica do tempo familiar e infantil. Observa-se que a intensificação do trabalho adulto fragiliza o cuidado direto, reduz o convívio cotidiano entre pais e filhos e impulsiona a institucionalização do cuidado como resposta funcional à restrição do tempo familiar. Nas frações mais precarizadas da classe trabalhadora, a insuficiência simultânea de tempo e renda cria, ainda, as bases materiais para a inserção precoce das crianças no trabalho, seja como complemento de renda, seja por meio do trabalho doméstico e do cuidado de outros membros da família. Conclui-se que a infância, especialmente a infância pobre, encontra-se submetida a um processo estrutural de colonização do tempo e de produção precoce de subjetividades orientadas pela lógica do trabalho, revelando os limites concretos da efetivação dos direitos da infância em uma sociedade organizada pela racionalidade da acumulação capitalista.
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