Dossiê Religião e Morte: finitude, sentido e transcendência
Coordenadores:
Prof. Dr. Luciano Caldas Camerino
Dorotéia Expedita Schiller
Maria Júlia Franco Botto
Philippe Augusto Carvalho Campos
A Morte é a única e inexorável certeza da existência humana. Diante desse possível limite, que é absoluto ou não, e para enfrentar sua finitude, o ser humano projeta o anseio por transcendência, o que parece ser uma constante que move culturas e religiosidades ao longo da história.
Historicamente, as primeiras manifestações da cultura humana, desde os Neanderthais, envolvem rituais funerários; na Mesopotâmia antiga, já encontramos discussões a respeito do sentido da vida e da morte, na Epopéia de Gilgamesh. As concepções gregas a respeito da alma sofreram grande influência das crenças egípcias e do orfismo, e são discutidas racionalmente pela Filosofia Clássica. O Cristianismo assimila muitas dessas influências. Em outros contextos religiosos, de formas variadas, essas questões são centrais. No mundo contemporâneo, no espaço acadêmico a morte é um fenômeno multidimensional que dialoga com a ética, a política, a estética e a saúde.
Logo, há muito mais além do fenômeno biológico (a concepção de que a morte é um processo biológico é recente) e isso faz com que a morte se configure como um campo de estudo fundamental para a Ciência da Religião: a morte não é apenas o fim de um organismo, ou de uma existência individual, mas um evento que gera símbolos, ritos, angústias existenciais e sistemas de sentido (Geertz, 1989). Diante de uma vida que lhe escapa pelas mãos e da ação do tempo, a humanidade se questiona acerca do fim da existência, o que lhe confere universalidade e centralidade como objeto de estudos filosóficos e da Ciência da Religião.
Parafraseando a ironia de Gil Vicente (1519 In Ramos, 2019), em suas Barcas, pode-se dizer que “Todo Mundo quer ir para o Paraíso, mas Ninguém quer pagar por isso!” Isso porque a passagem para o paraíso - ou qualquer outro nome que se dê ao estado de plenitude post-mortem -, exige um duplo pagamento: uma vida pautada na retidão ética, e, inevitavelmente, o desapego final da própria existência biológica. Mas a grande ironia, muito bem descrita pela sabedoria popular é que, apesar da fé, o indivíduo prefira a miséria de sua vida do que a travessia, revelando que, na nossa cultura, o apego à matéria parece ser mais forte do que a ânsia por infinito.
Por isso, pretende-se, nesta edição, compor um quadro multidisciplinar que vá da filosofia e teologia à antropologia e crítica da cultura, inventariando as representações e os modelos de enfrentamento que as diversas vertentes religiosas oferecem diante do fim e buscando compreender este fenômeno humano nas diversas possibilidades de diálogo da Ciência da Religião.
Convidamos pesquisadores e discentes da UFJF e de outras instituições a submeterem artigos originais que explorem das mais variadas vertentes do tema, organizadas, mas não limitadas, nos seguintes eixos temáticos:
1) Filosofia, Teologia e Ciência da Religião: A morte como objeto fundamental do pensamento; angústia existencial, finitude e infinitude em Kierkegaard e Tillich; escatologias e representações do pós-morte (Paraíso, Purgatório, Inferno); e concepções de continuidade (Ressurreição, Reencarnação, outros); culto aos mortos; morte nas diversas religiões e nas novas expressões religiosas; esoterismo e ocultismo; a morte na carta de Tarô e outras simbologias da morte.
2) Psicologia, Antropologia e Sociologia da Religião: Sistemas de símbolos e sentidos; ritos de passagem, práticas funerárias e a gestão cultural dos mortos; mecanismos rituais; saudade; ancestralidade.
3) Ética e Bioética e Religião: O debate religioso contemporâneo sobre o processo de morrer; definição de morte e do momento da morte; suicídio assistido, eutanásia, distanásia e cuidados paliativos.
4) Cultura e Política: A morte nas artes e na estética; a dimensão política do morrer (Necropolítica e "mundos de morte" em Mbembe); religião como resistência e os imaginários da "não-morte" (entidades, fantasmas e liminaridades).
5) A morte na Literatura: A representação da morte na prosa literária, uma vez que a literatura dita "clássica" detém um status de universalidade e, por este motivo, abre-se o espaço para análises literárias que tratem de tão aclamado assunto, desde os primórdios da humanidade até os dias atuais.
Além dos artigos submetidos a este dossiê, a revista permanece aberta à recepção de textos de temática livre que contribuam para o debate acadêmico sobre o fenômeno religioso.
Que a morte seja boa, mas não se apresente tão cedo!
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Prazo para submissão: de 03 de março a 03 de maio de 2026.
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REFERÊNCIAS:
ALVES, Rubem. O que é religião? São Paulo: Abril Cultural, 1984.
CALIXTO, P.; MARIZ, D.; CAMERINO, L. (org.). Questão da morte na tradição filosófica. [S.l.: s.n.], 2024.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Tradução de Rogério Fernandes. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018.
FRAZER, James George. O ramo de ouro. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
KIERKEGAARD, Søren Aabye. A doença para a morte: ou a cristã exposição psicológica para edificação e despertamento. Tradução de Jonas Roos. Petrópolis: Vozes, 2022.
MALINOWSKI, Bronisław. Magia, ciência e religião. Tradução de Klaus-Peter Gastal. Lisboa: Edições 70, 1984.
TILLICH, Paul. Dinâmica da fé. Tradução de André Yuri Abijaudi. São Paulo: Recriar, 2025.
VICENTE, Gil. Auto da Barca do Purgatório. Edição eletrônica. Brasília: Domínio Público, 2019. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ ua00111a.pdf. Acesso em: 03 fev. 2026.






