Apuro(s) nas Artes - Dossiê 2022

2021-09-10

Dossiê Revista Nava

Apuro(s) das Artes

Gilton Monteiro Jr.

 

“A cultura é a regra, a arte é a exceção (...). Faz parte da regra desejar a morte da exceção”. Esta perspicaz formulação de Jean Luc Godard exprime por si só a situação constrangedora que a forma de vida do ocidente moderno impõe aos fatos estéticos. Ela toca, entre outras coisas, na função e lugar que a arte vem ocupando em uma sociedade movida pela razão instrumental e uma agressiva mercantilização cultural. As diferenças e os contrastes entre as atividades artísticas e culturais tornam-se substanciais ao expor uma parte significativa desta dinâmica estrutural totalitária, sujeita à esfera do econômico, que arrasta consigo os campos das linguagens e da axiologia.

Os apuros que afligem o fenômeno estético há pelo menos 200 anos é condição intrínseca de um processo no qual o jogo entre obsolescência e novidade dita as formas de vida moderna, segundo a lógica da mercadoria. A aquisição de uma consciência cada vez mais avançada dessa situação permitiu aos artistas lançarem mão de posturas, recursos e ideias tão autênticas quanto ousadas e inovadoras, mas também perigosas.

Desde a década de 1820, pelo menos, pintores como Gustav Courbet contribuía para abalar os alicerces da estética clássica e dos ideais românticos, pondo para escanteio os valores a elas associados. Estava em curso uma sensibilidade que alteraria radicalmente os lugares e as funções da arte no quadro histórico da sociedade ocidental. Procurando escapar ao cerco ideológico da tradição, essa situação forçava o surgimento de novos aparatos epistêmicos (crítica, teoria) para o entendimento e legitimidade do que vinha sendo concebido pelos artistas.

Deixando de sublimar em si as dualidades, aspirações, ideologias e o conteúdo histórico-cultural herdados do passado, para traçar seu próprio destino em meio à dinâmica da vida burguesa moderna, a atividade artística assume em sua forma o embate direto com o público, instituições e os novos interesses em circulação. Além do quê, sem os subsídios do aparato eclesiástico e monárquico, os artistas confrontavam mais e mais as leis do livre mercado.  Do ponto de vista estético, o que havia de mais volátil e corriqueiro no ambiente social motivado pelo tecnicismo e pela nova lógica de produção em série converte-se em matéria geral para o artista. As novas temáticas convocavam um novo olhar, uma nova audiência, um novo modo de atenção. As artes se mostravam prementes em seus assuntos e formas: queriam-se em contato direto com o ambiente que surgia e com o Real que nele se produzia, distantes do tradicional aparato metafísico que até então lhe serviu de esteio.

A ideia do novo, tão decisiva para a empresa artística moderna é, portanto, uma marca dessa crise e da postura crítica que mantém a arte à beira do abismo. A ruptura que ela operava atingia em cheio a tradição, mas também a assertividade do senso-comum burguês. O(s) apuro(s) do novo para a arte consistia(m) exatamente naquilo que ele prometia como sua redenção. Isto porque o não-lugar que a novidade estética ensejava fazia da forma artística um acontecimento atual, mas teleologicamente comprometido com o futuro. As teorias estéticas da modernidade procuravam acompanhar esse processo, garantindo à arte sua eficácia e, portanto, legitimidade histórica.

Assim, com seu sinal inverso ao pragmatismo vulgar do campo cultural, da platitude do cotidiano com sua forma de vida reificada, a arte passava a lidar com as ameaças típicas de quem ocupa uma situação lateral na vida simbólica. Vê-se, então, usufruindo de uma existência frágil e ainda assombrada por todos os riscos que lhe impunham a forma-mercadoria, à qual estava invariavelmente atrelada. Além disso, a propalada necromania, os ostensivos diagnósticos de morte que marcam os debates artísticos desde a estética hegeliana, é o trauma que atravessa toda a modernidade, expondo por si só o nível e tipos de apuros que estavam em jogo na estrutura dos anseios modernos.

Fazer da margem seu centro e atuar a contrapelo de todo sistema contribuiu fortemente para que as linguagens condensassem uma boa quantidade de energia, perspicácia, inteligência que não se deixavam dispersar tão facilmente. Elas apuravam e radicalizavam cada vez mais sua performance estética.

Mas saturadas as estratégias e esgotadas as aspirações modernas, o que pensar quando nos situamos em um momento onde a força ubíqua do mercado parece agir por todas as partes, absorvendo e alimentando, quando não produzindo as demandas que antes eram engendradas em uma conflituosa tensão estético-ideológico-cultural?

Não que os conflitos ideológicos tenham se diluído: ao contrário, eles estão sempre presentes. Não que a força bruta e entorpecente que se impõe pela cultura de consumo tenha deixado de ser uma ameaça: ela é sim uma ameaça à estética e, sobretudo, à política. Enfim, não que o jogo deixe de estar sendo jogado. Acontece que suas regras já não são as mesmas. Por vários motivos suas condições parecem ter sido alteradas. Ora, ao menos no que diz respeito às arte visuais, a porosidade do mercado, assimilando em sua lógica interna os avanços que antes eram estritos às audácias das proposições artísticas, não afrouxam, mas acirram os apuros (em ambos os sentidos do termo) que sempre lhes espreitaram. Além do mais, o que esperar do típico hedonismo dos visitantes de museus, com seu “olhar turístico”, passivo e consumista abordando as artes como meros atrativos (leia-se, objetos de fetiche)? Mas, de todo modo, talvez esses pareçam hoje apuros menores. Talvez!

A proposta deste dossiê é animar reflexões e questões sobre o(s) apuro(s), isto é, os riscos e refinamentos promovidos pelas revoluções estéticas ocorridas em distintos espectros das produções artísticas (arte, música, cinema). Em face dos conflitos sócio-culturais e da crise moral que avança por toda a modernidade, os perigos e apuramentos moveram e marcaram, externa e internamente, os experimentos de linguagens. As transformações que os artistas em geral empreendem ao mobilizar novos recursos técnicos e cognitivos para a implementação de sua arte não é simplesmente o outro lado da moeda, mas a mesma face que vislumbra a fria ameaça que se impõe sobre ela.

O filósofo Walter Benjamin já alertava que o romance consistia em um fato cultural eminentemente histórico, isto é, teve sua origem em um determinado momento e exatamente por isso, em algum instante, pudesse deixar de existir. Parece que estamos longe daquela atmosfera que autorizava a arte ser portadora de uma redenção qualquer para a vida. Mas seria uma agrura não reconhecer que, em boa parte, é ela que vem redimindo nossa sensibilidade, olhar, ouvidos, falas, ideias, pensamentos – até onde me parece, domínios fundamentais para seguirmos existindo.