A autoridade sobre o morrer
medicina, religião e a divisão entre condução e sentido na morte infantil
DOI:
https://doi.org/10.34019/2237-6151.2026.v23.52795Palavras-chave:
morte, morte infantil, religião, medicina, cuidados paliativosResumo
O presente artigo analisa a reconfiguração da autoridade sobre o morrer no Ocidente a partir das relações entre religião e medicina, com especial atenção à morte infantil. Parte-se da compreensão de que a morte não se reduz a um evento biológico, mas constitui uma experiência que exige simultaneamente condução prática e inteligibilidade simbólica. Nas sociedades pré-modernas, essas dimensões encontravam-se articuladas no interior de um mesmo regime religioso, que integrava rituais, interpretações e formas de organização do morrer. Com a modernidade, observa-se a medicalização e institucionalização da morte, com a medicina assumindo a condução técnica do processo no ambiente hospitalar. Esse deslocamento, contudo, não implica a absorção da dimensão simbólica pelo saber médico, mas produz uma separação entre o controle do corpo e a atribuição de sentido. A morte infantil emerge, nesse contexto, como ponto crítico dessa configuração, ao evidenciar os limites da racionalidade médica diante de uma perda que desafia sua inteligibilidade. O artigo argumenta que a autoridade contemporânea sobre o morrer é distribuída e estruturalmente incompleta, envolvendo a articulação entre decisões técnicas, mediações morais e interpretações simbólicas, particularmente visíveis no campo dos cuidados paliativos
Downloads
Referências
ARIÈS, Philippe. A criança e a vida familiar no Antigo Regime. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
BARBOSA, Patrícia da Costa. Cuidados paliativos em pediatria: a construção da “boa morte” da criança (dissertação). Rio de Janeiro (RJ): Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2013.
BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.
DEBERT, Guita. A antropologia e o estudo dos grupos e das categorias de idade. In: BARROS, Miriam Moraes Lins de. (org.). Velhice ou terceira idade: estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. Rio de Janeiro: FGV, 1988. p. 49-67.
DUARTE, Luiz Fernando Dias. Ethos privado e modernidade: o desafio das religiões entre indivíduo, família e congregação. In: DUARTE, Luiz Fernando Dias; HEILBORN, Maria Luiza; LINS DE BARROS, Myriam; PEIXOTO, Clarice (orgs.). Família e religião. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006. p. 51-88.
JOÃO PAULO II. Evangelium Vitae: sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1995.
FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1994.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
LIMA, Carlos Vital Tavares Corrêa. O direito de viver e de morrer. Portal do Conselho Federal de Medicina, 29 dez. 2009. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/artigos/o-direito-de-viver-e-de-morrer. Acesso em: 30 abril 2026.
MENEZES, Rachel. Em busca da boa morte. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.
MENEZES, Rachel. Assistência em saúde a situações terminais: entre práticas médicas e crenças religiosas. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde (RECIIS), v. 4, n. 3, set. 2010. DOI: https://doi.org/10.3395/reciis.v4i3.661
MENEZES, Rachel. A construção da “boa morte” em diferentes etapas da vida: reflexões em torno do ideário paliativista para adultos e crianças. Ciênc. saúde coletiva, v. 18, n. 9, set. 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S1413-81232013000900020
SAUNDERS, Cicely. Cuidados paliativos. São Paulo: Loyola, 2001.
THOMAS, Louis-Vincent. Antropologia da morte. São Paulo: Perspectiva, 1983.
VAN GENNEP, Arnold. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Sabrina de Miguel Augusto

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
A Revista Sacrilegens é um periódico de acesso aberto, licenciada sob a licença Creative Commons Attribution 4.0 International





