CHAMADA DE ARTIGOS
Nos últimos anos, surgiu uma série de pesquisas sobre a recepção e a constituição de públicos de cinema, além de densas investigações sobre experiências de exibição cinematográfica na América Latina e em demais regiões do Sul Global. Nesse sentido, os estudos se concentram na circulação, no consumo e nas formas de apresentação de filmes em ambientes coletivos, examinando esses âmbitos como um local de intercâmbio social e cultural.
Voltada, portanto, para os estudos da cultura cinematográfica, essa linha de trabalho opera ao lado de perspectivas similares muito ativas na Europa e nos EUA, como, por exemplo, a New Cinema History (Biltereyst; Maltby; Meers, 2019; Ferraz, 2017). Na América Latina, ela é hoje comumente chamada, em espanhol, de “estudios de públicos” e “cultura de las pantallas” (Kriger, 2018a; Kriger, 2018b; Kriger; Poppe, 2023; Meers; Biltereyst; Lozano, 2018; Nieto Malpica; Tello; Rosas; Biltereyst, 2016; Rosas Mantecón, 2017; Rosas Mantecón; González, 2020; Rosas Mantecón; Peirano; Pires, 2025) e, em português, de “histórias de cinemas” (Ferraz, 2024; Ferraz; Ebert, 2026, no prelo; Freire; Ferraz, 2018; Freire; Gama; Quintes, 2026; Gama, 2024; Gama; Coelho, 2024; Vieira, 2021), tendo também se constituído ao longo do tempo como uma novidade historiográfica em relação a estudos tradicionais da História do Cinema, cujo objeto central girava principalmente em torno da produção de filmes, da análise de seus significados e sentidos, bem como do desempenho das estrelas e dos diretores. Porém, apesar de toda a virada investigativa no campo, boa parte dos estudos conduzidos sob tal orientação ainda tem um recorte centrado em contextos e casos localizados em grandes centros urbanos e capitais.
Diante desse horizonte, o objetivo do dossiê “Práticas de exibição e públicos cinematográficos em contextos não-metropolitanos: América Latina e Sul Global” é reunir um conjunto de pesquisas sobre a cultura cinematográfica que se desenvolveu em pequenas cidades e lugarejos (de maior ou menor porte), nos países que compõem o chamado Sul Global, com foco em contextos históricos e contemporâneos das práticas de recepção, exibição e distribuição cinematográficas.
Como se caracterizam os públicos das salas localizadas em zonas urbanas distantes das grandes cidades e metrópoles? Quais foram e são as vias de comercialização de filmes nesses lugares e sua influência na programação de salas de cinema locais? Quais foram e são os diversos modelos de negócio e características do mercado exibidor de cidades não-metropolitanas? Quais eram as práticas habituais dos públicos em zonas rurais? Como eram os programas cinematográficos em espaços religiosos, associações culturais ou espaços que competiam com as salas de cinema nessas localidades? Quais foram os impactos do fechamento sistemático de cinemas de rua na estrutura sociocultural de pequenas cidades?
Em suma, convidamos os pesquisadores a apresentarem trabalhos baseados tanto em memórias da cultura cinematográfica desenvolvida em contextos locais quanto em pesquisas em arquivos sobre as experiências relacionadas ao cinema fora das grandes cidades por parte dos públicos, aqui concebidos no plural, como agrupamentos sociais e históricos que se reconhecem em relação a um discurso e a práticas de sociabilidade e fruição cinematográficas.
Também sugerimos a apresentação de estudos que aprofundem o tema do negócio da exibição e da distribuição cinematográfica, especialmente as investigações históricas sobre a existência, a permanência ou o desaparecimento de espaços voltados para o acesso coletivo a filmes, tendo em vista modelos que dependiam/dependem de empresários radicados nos principais centros urbanos ou iniciativas de exibidores locais independentes.
Eixos temáticos
Convidamos a submeterem trabalhos em português, inglês e espanhol que dialoguem com os seguintes eixos temáticos (e outros correlatos):
- Memórias cinematográficas, histórias orais e outras fontes ligadas às culturas cinematográficas em pequenas cidades, cidades de interior, zonas rurais e povoados.
- Cartazes cinematográficos e demais ferramentas de negócios, promoção e consumo em cinemas não-metropolitanos.
- Modelos, usos e circulação de diferentes tecnologias de exibição (dos cenários seminais da exibição aos contextos contemporâneos), em pequenas cidades.
- Relações entre os circuitos de exibição/distribuição e a infraestrutura de transportes e circulação urbana em pequenas cidades e regiões interioranas.
- Estudos comparativos entre diferentes circuitos cinematográficos de pequenas cidades.
- Mapeamentos históricos e sócio geográficos de salas de cinema localizadas em pequenas cidades.
- Cinemas locais e relações com aspectos políticos em pequenas cidades.
- Atuação de empresários, trabalhadores e entusiastas da exibição e da distribuição cinematográficas em contextos não-metropolitanos.
- Proposições e tensionamentos de terminologias ligadas às culturas cinematográficas de cidades não-metropolitanas, observando as especificidades socioculturais, territoriais e geográficas de suas localidades, a exemplo de “cinemas rurais”, “cinemas de interior” e cinemas em regiões com baixo desenvolvimento social e econômico.
- Estudo de casos ligados ao recorte do dossiê:
- Salas comerciais, seu desenvolvimento histórico e práticas;
- Cinemas paroquiais e relações da exibição com as igrejas;
- Cinemas comunitários;
- Cineclubismo;
- Experiências e projetos de exibição em ambientes rurais, em contraste com pequenas cidades urbanizadas;
- Exibidores itinerantes e a circulação por cidades do interior;
- Rotas de circulação e comercialização de filmes e suas relações com meios de transporte.
Referências
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