Chamada para submissões: Dossiê _Como escrever uma história popular do Brasil? Perspectivas historiográficas, atores subalternizados e/ou racializados (do período pré-colonial à República)_ Data limite para submissões: 31 de JULHO de 2026

2026-05-06

Organizadores: Hebe Mattos (UFJF), Sebastien Rozeaux (Université Toulouse Jean Jaurès), Sílvia Capanema (Sorbonne Paris Nord)

O dossier propõe uma reflexão historiográfica sobre os procedimentos teóricos e metodológicos para escrever uma “história popular” do Brasil da época colonial à contemporânea. As propostas de artigo deverão oferecer elementos de reflexão de teor metodológico, em diálogo com o objeto e o campo de investigação, valorizando os atores sociais subalternizados, bem como as dimensões de raça, gênero, classe, etc.

DATA LIMITE PARA ENVIO DOS TEXTOS: 31 DE JULHO DE 2026

JUSTIFICATIVA:

O presente dossiê se insere no âmbito do projeto de pesquisa « Por uma história popular da América Latina » (financiado pelo Institut des Amériques, pelo Labex SMS e pelo laboratório de pesquisa Framespa/Université Toulouse Jean Jaurès, bem como pelo laboratório Pléiade da Universidade Sorbonne Paris Nord). Através da organização de encontros e jornadas de estudos, o objetivo final do projeto, coordenado por Franck Gaudichaud, Sébastien Rozeaux e Sílvia Capanema, é produzir uma obra coletiva que proponha a escrita de uma história popular da América Latina desde a época colonial até o tempo presente.
Nesse sentido, buscamos suscitar com este dossiê um debate sobre como seria pensar a escrita de uma história popular do Brasil, enfocando as relações sociais e raciais no tempo longo, desde a formação de uma sociedade colonial na América portuguesa, incluindo suas reconfigurações e evoluções na contemporaneidade. Nossa intenção é repensar a história do Brasil assumindo a perspectiva dos atores subalternizados, trabalhadores, classes populares, indígenas, migrantes, escravizados, negros, camponeses, sujeitos e sujeitas racializados e periféricos.
A escrita de « histórias populares » tem se tornado um novo fenômeno historiográfico na Europa, dando sequência à ampla recepção da obra The People’s History of the United States de Howard Zinn (livro publicado em 1980 mas traduzido para outras línguas, como o francês, somente a partir dos anos 2000). Na França, dois livros recentes marcaram o debate historiográfico e deram origem a novas publicações : Les Luttes et des rêves : une histoire populaire de la France (2016), de Michelle Zancarini Fournel, e Une histoire populaire de la France, de Gérard Noiriel (2019).
Na América Latina, a proposta claramente assumida como « uma história popular » ou “uma história do povo” não teve o mesmo impacto. No Brasil, em particular, o livro de Zinn não foi sequer traduzido. No entanto, como sabemos, a perspectiva da « história vista de baixo » (from below) foi e segue sendo bastante desenvolvida no país, de diferentes maneiras, em grande medida a partir dos trabalhos de Edward P. Thompson ou Eric Hobsbawn. Mais recentemente, as abordagens decoloniais ou levando em conta o conceito de sujeitos subalternizados têm orientado diversos estudos.
Mas como pensar na produção de uma história popular - ou história do povo - do Brasil numa perspectiva das produções brasileiras? Quais são as contribuições e abordagens recentes? Quais desafios? Quais seriam as questões próprias ao país? Como tratar da extensão territorial e da diversidade cultural num dossiê de revista ou outras publicações que busquem colocar em evidência o povo? Como estar atento tanto ao mundo do trabalho, quanto ao mundo das festas, dos rituais, das religiosidades, do cotidiano, da politização ordinária, mas também das lutas sociais e das inúmeras formas de resistência, bem como dos conservadorismos e contradições? Como pensar a raça, a classe e o gênero, como não dissociados das formas de poder, do racismo, do autoritarismo e da dominação? Como pensar nas diferenças entre mundo rural e urbano, bem como entre centros e periferiais? Em que medida a mudança de perspectiva pode também possibilitar se repensarem conceitos, ideias e temporalidades consagradas?
Assim, buscaremos discutir, do ponto de vista historiográfico e metodológico, quais seriam as principais contribuições e referências « para a escrita de uma história popular do Brasil ». Mas também, temos interesse em trabalhos que apresentem análises e estudos originais, dentro da perspectiva de uma história do “povo”.
Assim, a o dossiê se articulará em torno de duas temáticas principais:
1. Historiografia, metodologias, teorias na escrita de uma história popular do Brasil
2. Atores sociais subalternizados, diversidade de gênero, raça e classe no Brasil contemporâneo.
Os artigos apresentados podem analisar diferentes territórios e domínios culturais, bem como diversos períodos históricos.
Bibliografia (seleção):

Silvia Capanema, João Cândido e os navegantes negros: a revolta da chibata e a segunda abolição, Rio de Janeiro, Malê, 2022.

Sidney Chalhoub, Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Epoque, Campinas, Editora da Unicamp, 2012.

Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1992.

João Paulo Peixoto Costa et al., Povos indígenas, independência e muitas histórias, Curitiba, CRV, 2022.

Mariana A. Dantas, Dimensões da participação política indígena. Estado nacional e revoltas em Pernambuco e Alagoas, 1817-1848, Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2018.

Monica Dantas (org.). Revoltas, motins, revoluções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo, Alameda, 2018.

Monica Dantas, Fronteiras movediças. A comarca de Itapicuru e a formação do arraial de Canudos (relações sociais na Bahia do século XIX), São Paulo, Intermeios, 2020.

« Faire une « histoire populaire », Revue d’histoire moderne & contemporaine, 2020, n° 67.

Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, São Paulo, Biblioteca Azul, 2008.

Eric Hobsbawm, Uncommon People: Resistance, Rebellion and Jazz, London, Weidenfeld and Nicolson, 1998.

Hebe Mattos, Das Cores do Silêncio. Os significados da liberdade no sudeste escravista (Brasil, séc. XIX), São Paulo, ed. Unicamp, 1995.

Yuko Miki, Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil, New York & Cambridge, Cambridge University Press, 2018.

Alvaro Pereira do Nascimento, “Trabalhadores negros e o paradigma da ausência: uma contribuição à história social do trabalho no Brasil”, Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol. 29, no 59, p. 607-626, 2016.

Beatriz Nascimento, Uma história feita por mãos negras, Rio de Janeiro, Zahar, 2021.

Gérard Noiriel, Une Histoire populaire de la France, Marseille, Agone, 2018.

Sébastien Rozeaux, « Habiter Belo Monte, éphémère communauté chrétienne dans le sertão de Canudos (Brésil, 1893‑1897) », L’ordinaire des Amériques, n° 231, 2023, en ligne.

E.P. Thompson, La formation de la classe ouvrière anglaise, Paris, Le Seuil, 1988 [1963].

Michelle Zancarini-Fournel, Les Luttes et les Rêves. Une histoire populaire de la France de 1685 à nos jours, Paris, La Découverte, 2016.

Hodward Zinn, A People’s History of the United States. 1492-Present, New York, Harper Collins, 2003 [1980].