Psiquiatria e espiritualidade: em busca da formulação bio-psico-socio-espiritual do caso

Aplicações práticas

  • Fabrício Henrique Alves de Oliveira e Oliveira NUPES – Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
  • Alexandre de Rezende Pinto NUPES – Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Palavras-chave: Religião, Espiritualidade, Tratamento, Psiquiatria, Diagnóstico

Resumo

Introdução: Nas últimas décadas, diversas e rigorosas pesquisas têm sido realizadas e publicadas apontando uma associação, em geral, positiva entre envolvimento religioso e melhor saúde física e mental. Além disso, a grande maioria das pessoas ao redor do mundo têm alguma crença ou filiação religiosa e apresentam uma expectativa de que aspectos religiosos e espirituais sejam abordados em seus tratamentos médicos. Objetivo: Atualizar os profissionais de saúde no contexto da abordagem da R/E na prática clínica, principalmente da psiquiatria. Material e métodos: Foi realizada uma revisão buscando as evidências das diretrizes práticas da abordagem da R/E no atendimento clínico. Resultados: Os profissionais de saúde devem ter conhecimento do impacto positivo do envolvimento religioso na saúde física e mental e compreender suas implicações clínicas, até mesmo porque associações mundiais de diversos países na área da psiquiatria têm incentivado tal abordagem. No entanto, muitos profissionais, dentre os quais psiquiatras e psicólogos, são menos religiosos do que a população em geral. Além disso, dentre outras causas alegadas para que essa abordagem da R/E não se efetive na prática estão a falta de treinamento adequado, falta de tempo e medo de infringir barreiras éticas. Uma forma de se incluir abordagens religiosas no tratamento é a recomendação de se coletar uma história espiritual dos pacientes. Dessa maneira, será possível identificar possíveis conflitos espirituais existentes, realizando-se os devidos aconselhamentos e encaminhamentos dos pacientes para seus grupos religiosos. Existem, ainda estudos avaliando a aplicação de intervenções terapêuticas com base religiosa, tal como a adaptação à terapia cognitivo-comportamental. Conclusão: a formulação bio-psico-socio-espiritual do caso pode ser considerada uma proposta mais integrativa do ponto de vista diagnóstico e terapêutico do que o modelo apenas bio-psico-social para a formulação do caso clínico em psiquiatria.

Referências

ALMINHANA, L. O.; MENEZES JR., A. Experiências religiosas/espirituais: dissociação saudável ou patológica? Horizonte, Belo Horizonte, v. 14, n. 41, p. 122-143, 2016.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Guidelines regarding possible conflict between psychiatrists’ religious commitments and psychiatric practice. American Journal of Psychiatry, Arlington, v. 147, n. 4, p. 542-542, 1990.

ANDERSON, G. C. Conflicts between psychiatry and religion. Journal of the American Medical Association, Chicago, v. 155, n. 4, p. 335-339, 1954.

BALBONI, M. J. et al. Why Is spiritual care infrequent at the end of life? Spiritual care perceptions among patients, nurses, and physicians and the role of training. Journal of Clinical Oncology, Alexandria, v. 31, n. 4, p. 461-467, 2013.

BARNARD, D.; DAYRINGER, R.; CASSEL, C. K. Toward a person-centered medicine: religious studies in the medical curriculum. Academic Medicine, Philadelphia, v. 70, n. 9, p. 806-813, 1995.

BONELLI, R. M.; KOENIG, H. G. Mental disorders, religion and spirituality 1990 to 2010: a systematic evidence-based review. Journal of Religion and Health, v. 52, n. 2, p. 657-673, 2013.

BONELLI, R. M. et al. Religious and spiritual factors in depression: review and integration of the research. Depression Research and Treatment, v. 2012, p. 1-8, 2012.

BOWMAN, E. S. Teaching religious and spiritual issues. In: HUGUELET, P.; KOENIG, H. G. (Org.). Religion and Spirituality in Psychiatry. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 332-353.

BRASIL. Ministério da Educação. Programa mínimo para residência médica em psiquiatria. Brasília, 2010. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=6534-psiquiatria-sesu-rm&category_slug=agosto-2010-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 13 maio 2018.

CALIZAYA-GALLEGOS, C. et al. Religious affiliation and the intention to choose psychiatry as a specialty among physicians in training from 11 Latin American countries. Transcultural Psychiatry, Thousand Oaks, p. 1-18, 2018.

CAPTARI, L. E. et al. Integrating clients’ religion and spirituality within psychotherapy: a comprehensive meta-analysis. Journal of Clinical Psychology, Hoboken, v. 74, n. 11, p. 1938-1951, 2018.

CLONINGER, C. R.; ZOHAR, A. H. Personality and the perception of health and happiness. Journal of Affective Disorders, Amsterdam, v. 128, n. 1-2, p. 24-32, 2011.

COOK, C. C. H. Recommendations for psychiatrists on spirituality and religion. London: Royal College of Psychiatrists, 2011.

CURLIN, F. A. et al. The relationship between psychiatry and religion among U.S. physicians. Psychiatric services, Washington, v. 58, n. 9, p. 1193-1198, 2007.

DELMONTE, R. et al. Can the DSM-5 differentiate between nonpathological possession and dissociative identity disorder? A case study from an Afro-Brazilian Religion. Journal of Trauma & Dissociation, Philadelphia, v. 17, n. 3, p. 322-337, 2016.

EPSTEIN, R. M. Defining and assessing professional competence. JAMA, Chicago, v. 287, n. 2, p. 226-235, 2002.

EXLINE, J. J.; ROSE, E. D. Religious and spiritual struggles. In: PALOUTZIAN, R. F.; PARK, C. L. (Org.). Handbook of the psychology of religion and spirituality. 2. ed. New York: Guilford Press, 2013. p. 380-398.

FREUD, S. Civilization and its discontents. New York: WW Norton, 1961.

GONÇALVES, J. P. B. et al. Religious and spiritual interventions in mental health care: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled clinical trials. Psychological Medicine, London, v. 45, n. 14, p. 2937-2949, 2015.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.

JESTE, D. V. et al. Positive psychiatry: its time has come. The Journal of Clinical Psychiatry, Memphis, v. 76, n. 06, p. 675-683, 2015.

JOSEPHSON, A. M. Formulation and treatment: integrating religion and spirituality in clinical practice. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America, Philadelphia, v. 13, n. 1, p. 71-84, 2004.

KOENIG, H. G. Religion, spirituality, and medicine: research findings and implications for clinical practice. Southern Medical Journal, Birmingham, v. 97, n. 12, p. 1194-1200, 2004.

KOENIG, H. G. Spirituality in patient care. Why, how, when, and what. 2. ed. Philadelphia: Templeton Foundation Press, 2007.

KOENIG, H. G. Research on religion, spirituality, and mental health: a review. Canadian Journal of Psychiatry. Revue Canadienne De Psychiatrie, Ottawa, v. 54, n. 5, p. 283-291, 2009.

KOENIG, H. G.; KING, D.; LARSON, D. B. Handbook of religion and health. 2. ed. New York: Oxford University Press, 2012.

KOENIG, H. G.; MCCULLOUGH, M. E.; LARSON, D. B. Handbook of religion and health. New York: Oxford University Press, 2001.

KOZAK, L. et al. Introducing spirituality, religion and culture curricula in the psychiatry residency programme. Medical Humanities, Kennebunkport, v. 36, n. 1, p. 48-51, 2010.

KRAUSE, N. et al. Spiritual struggles and problem drinking: are younger adults at greater risk than older adults? Substance Use & Misuse, London, v. 53, n. 5, p. 808-815, 2018.

LARSON, D. B.; LU, F. G.; SWYERS, J. P. A model curriculum for psychiatry residency training programs: religion and spirituality in clinical practice. Rockville: National Institute for Healthcare Research, 1997.

LIM, C. et al. Adapted cognitive-behavioral therapy for religious individuals with mental disorder: a systematic review. Asian Journal of Psychiatry, Amsterdam, v. 9, p. 3-12, 2014.

LO, B. et al. Discussing religious and spiritual issues at the end of life: a practical guide for physicians. JAMA, Chicago, v. 287, n. 6, p. 749-754, 2002.

LUCCHETTI, G.; LUCCHETTI, A. L. G.; VALLADA, H. Measuring spirituality and religiosity in clinical research: a systematic review of instruments available in the Portuguese language. São Paulo Medical Journal, São Paulo, v. 131, n. 2, p. 112-122, 2013.

LUKOFF, D.; LU, F.; TURNER, R. Toward a more culturally sensitive DSM-IV. psychoreligious and psychospiritual problems. The Journal of Nervous and Mental Disease, Baltimore, v. 180, n. 11, p. 673-682, 1992.

MENEGATTI-CHEQUINI, M. C. et al. A Preliminary survey on the religious profile of Brazilian Psychiatrists and their approach to patients’ religiosity in clinical practice. BJPsych Open, London, v. 2, n. 6, p. 346-352, 2016.

MENEZES JR., A.; MOREIRA-ALMEIDA, A. O diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos mentais de conteúdo religioso. Archives of Clinical Psychiatry, São Paulo, v. 36, n. 2, p. 75-82, 2009.

MOREIRA-ALMEIDA, A.; CARDEÑA, E. Diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e psicóticas não patológicas e transtornos mentais: uma contribuição de estudos latino-americanos para o CID-11. Brazilian Journal of Psychiatry, São Paulo, v. 33, p. s21-s28, 2011. Suplemento 1.

MOREIRA-ALMEIDA, A.; KOENIG, H. G.; LUCCHETTI, G. Clinical implications of spirituality to mental health: review of evidence and practical guidelines. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 36, n. 2, p. 176-182, 2014.

MOREIRA-ALMEIDA, A.; LOTUFO NETO, F.; KOENIG, H. G. Religiosidade e saúde mental: uma revisão. Brazilian Journal of Psychiatry, São Paulo, v. 28, n. 3, p. 242-250, 2006.

MOREIRA-ALMEIDA, A. et al. WPA Position statement on spirituality and religion in psychiatry. World Psychiatry, Milan, v. 15, n. 1, p. 87-88, 2016.

OLIVEIRA E OLIVEIRA, F. H. A.; PETEET, J. R.; MOREIRA-ALMEIDA, A. Religiosity and spirituality in psychiatric residency: why, what and how to teach? Academic Psychiatry, New York, p. Forthcoming, 2018.

PANZINI, R. G. et al. Qualidade de vida e espiritualidade. Archives of Clinical Psychiatry, São Paulo, v. 34, p. 105-115, 2007.

PARGAMENT, K. I. et al. Religious struggle as a predictor of mortality among medically ill elderly patients: a 2-year longitudinal study. Archives of Internal Medicine, Chicago, v. 161, n. 15, p. 1881-1885, 2001.

PEW RESEARCH CENTER. The Global Religious Landscape. Washington, 2012. Disponível em: https://www.pewforum.org/2012/12/18/global-religious-landscape-exec/. Acesso em: 15 nov. 2018.

PHELPS, A. C. et al. Addressing Spirituality within the care of patients at the end of life: perspectives of patients with advanced cancer, oncologists, and oncology nurses. Journal of Clinical Oncology, Alexandria, v. 30, n. 20, p. 2538-2544, 2012.

PUCHALSKI, C. M. et al. Spirituality and health: the development of a field. Academic Medicine, Philadelphia, v. 89, n. 1, p. 10-16, 2014.

SOCIETAL NEEDS WORKING GROUP. CanMEDS 2000: extract from the CanMEDS 2000 Project Societal Needs Working Group Report. Medical Teacher, v. 22, n. 6, p. 549-554, 2000.

STEINHAUSER, K. E. et al. Factors Considered important at the end of life by patients, family, physicians, and other care providers. JAMA, Chicago, v. 284, n. 19, p. 2476-2482, 2000.

SULMASY, Daniel P. A Biopsychosocial-spiritual model for the care of patients at the end of life. The Gerontologist, St. Louis, v. 42, p. 24-33, 2002. n. Supplement 3.

THOMAS, C. R.; KEEPERS, G. The Milestones for general psychiatry residency training. Academic Psychiatry, New York, v. 38, n. 3, p. 255-260, 2014.

TOSTES, J. S. M.; PINTO, A. R.; MOREIRA-ALMEIDA, A. Religiosidade/espiritualidade na prática clínica: o que o psiquiatra pode fazer? Debates em Psiquiatria, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, p. 20-25, 2013.

VANDERWEELE, T. J. Religion and health: a synthesis. In: PETEET, J. R.; BALBONI, M. J. (Org.). Spirituality and religion within the culture of medicine: from evidence to practice. New York: Oxford University Press, 2017. p. 357-401.

WEBER, S. R.; PARGAMENT, K. L. The Role of religion and spirituality in mental health. Current Opinion in Psychiatry, Philadelphia, v. 27, n. 5, p. 358-363, 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Mental Health ATLAS 2017. Geneva: WHO, 2017. Disponível em: http://www.who.int/mental_health/evidence/atlas/mental_health_atlas_2017/en/. Acesso em: 26 jan. 2018.

Publicado
2020-02-18
Como Citar
Alves de Oliveira e Oliveira, F. H., & de Rezende Pinto, A. (2020). Psiquiatria e espiritualidade: em busca da formulação bio-psico-socio-espiritual do caso. HU Revista, 44(4), 447-454. https://doi.org/10.34019/1982-8047.2018.v44.28020
Seção
Artigos de Revisão da Literatura