PRORROGADA - CHAMADA PARA DOSSIÊ - Edição 2021/2 - “Os Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia e a esfera pública contemporânea”

2021-05-10

O prazo para submissão de artigos é até o dia 1º de novembro de 2021. As/os interessadas/os devem estar atentas/os às normas de publicação na revista.

Proponentes:

Bruno Lucas Saliba de Paula

Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB).

 

Carolina Faraoni Bertanha

Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB).

 

Resumo

Qual é o lugar das ciências e das tecnologias na arena pública hoje? Este dossiê busca refletir sobre essa questão num momento em que, sobretudo em razão da pandemia de Covid-19, ficam evidentes as incertezas que perpassam os modos de vida nas sociedades industriais, marcadas por avanços tecnocientíficos e pelo imbricamento entre ciência, Estado e capital. É sabido que, em boa medida, a Modernidade fundamenta-se na narrativa triunfalista do controle racional sobre a natureza e os processos socioeconômicos, algo a ser alcançado por meio dos artifícios proporcionados pela tecnociência. Por outro lado, são patentes os efeitos impremeditados associados à proliferação de riscos produzidos pela ciência e pela tecnologia, o que inclusive motivou proposições de que sobretudo as sociedades do centro do capitalismo mundial estariam a experimentar um novo tipo de Modernidade, “reflexiva”, atrelada a uma sociedade “de riscos”, profundamente marcada por incertezas e controvérsias científicas (BECK, 2010). Diante disso, reduziram-se as expectativas em torno das respostas tecnocráticas propostas por especialistas que, imbuídos de uma autoridade epistêmica inconteste, seriam capazes de resolver as “externalidades” produzidas pela própria tecnociência. A partir daí, novos arranjos entre ciência e sociedade foram propostos, de modo a fomentar uma postura mais aberta, dialógica e transparente entre experts e os públicos ditos “leigos” (JASANOFF, 2003). Nesse sentido, a área interdisciplinar dos Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia, em suas múltiplas abordagens, surge como uma possibilidade analítica fecunda para o entendimento das origens, dinâmicas, práticas, instituições, significados e efeitos que as ciências e as tecnologias ocasionam no arranjo e rearranjo das sociedades contemporâneas. Nesse contexto emerge toda uma agenda de pesquisas, que vai desde os estudos de controvérsias científicas, passando pelos modos de participação pública frente à ciência e tecnologia, até as análises entre os conhecimentos científicos frente a outras formas de conhecimento. Grosso modo, esses esforços interpretativos apresentam em comum o interesse pela democratização da tecnociência. Trata-se, portanto, de temática premente, e que pode ser problematizada a partir de décadas de contribuições das Ciências Sociais ao campo interdisciplinar dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, e vice-versa. Buscamos, portanto, reunir trabalhos que auxiliem na compreensão dos desafios contemporâneos envolvidos na produção, legitimação e difusão das ciências e das tecnologias na esfera pública. Nessa perspectiva, propomos neste dossiê discutir tais questões, com ênfase, entre outros, nos temas seguintes:

  • Os riscos e incertezas associados ao desenvolvimento tecnocientífico;
  • A democratização e a divulgação da ciência e da tecnologia;
  • As relações entre corpo, saúde, gênero e tecnociência;
  • O papel das expertises diante de conflitos socioambientais;
  • A co-constituição entre naturezas e culturas, bem como os múltiplos agenciamentos entre humanos e não-humanos;
  • A percepção pública da ciência em contexto de “pós-verdade”;
  • As hierarquias epistêmicas entre centros e periferias;
  • A insurgência de epistemologias outras (feministas, indígenas, decoloniais, entre outras);
  • A criação e circulação de tecnologias sociais;
  • A relação entre conhecimentos científicos e conhecimentos tradicionais;
  • Os desafios da política científica e tecnológica;
  • A emergência de modelos de quantificação para os mais diversos fins;
  • A centralidade da digitalização e dos algoritmos na experiência contemporânea;
  • A comunicação e entendimento público de ciência e tecnologia, etc.

São bem-vindas, portanto, contribuições de variadas áreas das Ciências Sociais e Ciências Humanas, como Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Filosofia, História e Educação. Em suma, interessam-nos contribuições teóricas, metodológicas e/ou empíricas que abordem de forma multidimensional e interdisciplinar a ciência e tecnologia, desde suas convergências ou dissidências com as subjetividades contemporâneas, passando pelas políticas públicas adotadas por governos de distintos matizes ideológicos, até suas relações com o capitalismo de contornos neoliberais. Por fim, como instâncias abertas a disputas, são relevantes esforços que analisem como as ciências e tecnologias são construídas socialmente e perpassadas pelas mais distintas agências – como movimentos da sociedade civil, interesses de mercado, valores morais, entre outros fatores – que revelam os limites e potencialidades do conhecimento científico, bem como suas fronteiras com formas diversas de conhecimento.

Referências bibliográficas relevantes

BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

CALLON, M.; LASCOUMES, P.; BARTHE, Y. Acting in an uncertain world: an essay on technical democracy. Cambridge, MA: The MIT Press, 2009.

COLLINS, H.; EVANS, R. Repensando a expertise. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010.

FISCHER, F. Citizens, experts and the environment: the politics of local knowledge. Durham and London: Duke University Press, 2000.

FUNTOWICZ, S.; RAVETZ, J. Ciência pós-normal e comunidades ampliadas de pares face aos desafios ambientais. História, ciência e saúde - Manguinhos [online], vol. 4, n. 2, pp. 219-230, 1997.

GUIVANT, J.; MACNAGHTEN, P. O mito do consenso: uma perspectiva comparativa sobre governança tecnológica. Revista Ambiente e Sociedade, v. XIV, n. 2, jul.-dez. 2011.

IRWIN, A. Ciência Cidadã: Um estudo das pessoas, especialização e desenvolvimento sustentável. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.

JASANOFF, S. Tecnologias da humildade: participação cidadã na governança da ciência. Soc. estado., Brasília, v. 34, n. 2, p. 565-589, 2019.

LEACH, M.; SCOONES, I.; WYNNE, B. (eds). Science and citizens: globalization and the challenge of engagement. London/New York: Zed Books, 2005.

WYNNE, B., IRWIN, A. Misunderstanding science? The public reconstruction of science and technology. Cambridge: University Press, 1996.

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