Daniel Antoine Abou Jaoude
se caracteriza pela decrescente valorização do capital ao longo do tempo, intensificada pela
crescente concorrência entre os capitalistas, o que leva a uma maior racionalização do processo
produtivo, ou seja, ao maior emprego de tecnologia na produção. O uso intensivo de tecnologia,
especialmente a partir da terceira revolução tecnológica, tornou-se massificado a partir dos anos
1970, resultando em um emprego cada vez menor de mão de obra humana, fator que, por si só,
traz enormes implicações sociais2, juntamente com um intenso processo de superprodução de
mercadorias3.
Desta forma, poderíamos sintetizar assim o processo acima delineado: o crescente
emprego de tecnologia surge da necessidade de redução dos custos de produção para disputar
a concorrência no mercado. Como resultado, ocorre um barateamento dos produtos e,
consequentemente, uma redução no valor. Para compensar essa perda de valor, aumenta-se a
produção, o que exige uma maior exploração da natureza4. Neste ponto, é importante destacar
graças ao emprego crescente de maquinaria e de capital fixo em geral, o mesmo número de trabalhadores
transforma em produtos uma quantidade maior de matérias-primas e materiais auxiliares no mesmo tempo, ou
seja, com menos trabalho A esse crescente volume de valor do capital constante – embora ele só represente de
forma longínqua o crescimento da massa real dos valores de uso, das quais o capital constante é materialmente
constituído – corresponde um crescente barateamento do produto (...) A tendência progressiva da taxa geral de
lucro à queda é, portanto, apenas uma expressão, peculiar ao modo de produção capitalista, do desenvolvimento
progressivo da força produtiva social do trabalho. (...) Assim como a massa do trabalho vivo empregado sempre
decresce em relação à massa do trabalho objetivado que o trabalho vivo mobiliza, isto é, em relação aos meios de
produção produtivamente consumidos, também a parte desse trabalho vivo que não é paga e que se objetiva em
mais-valor tem de encontrar-se numa proporção sempre decrescente em relação ao volume de valor do capital total
empregado. E essa proporção entre a massa de mais-valor e o valor do capital total empregado constitui a taxa de
lucro, que tem, portanto, de diminuir constantemente” (Marx, 2017, p. 263-264).
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2 Aqui é importante citar um trecho do trabalho de Jaoude (2023, p. 48) a respeito das consequências sociais da
crise do valor: “Isso trará consequência sociais gravíssimas no longo prazo, que num amplo efeito cascata, vão
gerar desde desigualdade, à pobreza e violência extremas, configurando o atual estado de barbárie (Stengers, 2015),
além de criar a insatisfação popular e alimentar as condições sociopolíticas que vão tornar possível a volta da
extrema-direita ao poder em diversos países do mundo em anos recentes (Eatwell; Goodwin, 2018). É importante
notar que esta crise será mais forte nos países da periferia do sistema, visto que seu lugar de dependência torna
suas economias menos diversificadas, com o a maior parte dos empregos concentrados apenas em poucos setores,
e portanto, muito mais suscetíveis ao processo de desindustrialização e migração de mão-de-obra que a
globalização trouxe. (Wallerstein, 2001, p. 33; Hobsbawn, 2003, p. 403)”.
3
Em um ponto de surpreendente congruência com os teóricos da Crítica do Valor, Netto (2005, p. 22) assim
resumiu este momento em sua obra “Capitalismo Monopolista e Serviço Social”:
"No período 'clássico' do capitalismo monopolista, dois outros elementos típicos da monopolização fazem seu
ingresso aberto no cenário social. O primeiro deles diz respeito ao fenômeno da supercapitalização (Mandel, 1969,
3: 229 e ss.): o montante de capital acumulado encontra crescentes dificuldades de valorização; num primeiro
momento, ele é utilizado como forma de autofinanciamento dos grupos monopolistas; em seguida, porém, a sua
magnitude excede largamente as condições imediatas de valorização, posto que o monopólio restringe, pela sua
natureza mesma, o espaço capitalista de inversões. É próprio do capitalismo monopolista o crescimento
exponencial desses capitais excedentes, que se tornam tanto mais extraordinários quanto mais se afirma a tendência
descendente da taxa média de lucro. As dificuldades progressivas para a valorização são contornadas por inúmeros
mecanismos, nenhum dos quais apto a dar uma solução à supercapitalização: de um lado, a emergência da indústria
bélica, que se converte em ingrediente central da dinâmica imperialista; de outro, a contínua migração dos capitais
excedentes por cima dos marcos estatais e nacionais; e, enfim, a 'queima' do excedente em atividades que não
criam valor — como veremos, todos esses mecanismos renovam a relação entre a dinâmica da economia e o Estado
burguês."
4
“Por isso, o mercado precisa ser constantemente expandido, de modo que seus nexos e as condições que os
regulam assumam cada vez mais a forma de uma lei natural independente dos produtores, tornem-se cada vez mais