Caminhos que se bifurcam: os ismos e punks na ficção especulativa brasileira

2021-08-07

O conceito de ondas utilizado para entender as transformações da ficção científica, fantasia e horror brasileiros é algo que vem habitando textos acadêmicos e debates desde a década de 1970, pelo menos no que se refere aos estudos ligados à literatura fantástica. O escritor, editor e pesquisador Roberto de Sousa Causo, em seu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (2003), é um dos autores que mais detalha e desenvolve o panorama de cada “onda” da ficção especulativa ou narrativa fantástica brasileira, no âmbito de uma história da literatura nacional do gênero. A historiografia clássica do cinema brasileiro – mais recentemente criticada e revista por autores como Jean-Claude Bernardet, José Inacio de Melo Souza e Arthur Autran, entre outros – também já fez uso sistemático, por muito tempo, de uma metáfora análoga à das “ondas”: os “ciclos”. Estes, todavia, não têm a mesma carga semântica das “ondas”, mais provocativas e inspiradoras enquanto metáfora para estudos da literatura ou do cinema.

 

Esse esforço de periodização em ondas, ao pretender organizar as produções de maneira mais didática, acaba apontando para a própria complexidade da ficção científica, fantasia e horror que, dentro dos estudos acerca dos gêneros audiovisuais, revelam-se como notoriamente dinâmicos, movediços e constantemente mutáveis no processo histórico, como bem aponta Rick Altman em Film/Genre (1999).

 

Assim, ainda que a ideia de ondas pretenda organizar as produções, é preciso lembrar que elas também estão em constante movimento em um mar repleto de temas, inspirações e linhas de força, por vezes localizadas, aglutinadas, tendendo a englobar outras asserções sobre o(s) mundo(s) – e os diferentes modos de enxergá-lo. E aqui entram os ismos e punks, sufixos à termos com amplo e profundo impacto em nossas sociedades contemporâneas. Como o cyberpunk, movimento literário com origens no cinema e que se expandiu para outras formas de arte a partir de meados dos anos 1980, sobretudo na esteira da publicação do romance Neuromancer (1984), de William Gibson. Mas ismos e punks não são coisa exclusiva de europeus ou estadunidenses. São “chaves de leitura” cobiçadas e aplicadas por muitos povos e culturas ao redor do mundo, e muito aqui ao sul do Equador.

 

Nesse sentido, ao tomarmos emprestado o pensamento de Donna Haraway  em Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial (1995), que promove o lançamento de perspectivas potentes para a construção de mundos cada vez menos organizados por eixos de dominação, a possibilidade de uma “novíssima onda” formada por novos ismos e punks surge como um lugar estratégico para a representatividade de maiorias e/ou minorias marginalizadas, culturas contra-hegemônicas e modos de vida alternativos. Falamos do Afrofuturismo, do Tupinipunk, do Sertãopunk, do Cyberagreste e do Amazofuturismo, entre outros prováveis e eventuais ismos e punks no cinema e audiovisual, nos quadrinhos, na literatura, na poesia, no teatro e nos videogames de ficção científica, fantasia e/ou horror.

 

A propósito, vale lembrar que foi o próprio Roberto Causo, autor já citado, o proponente do Tupinipunk, esse suposto movimento perceptível na literatura brasileira de ficção científica dos anos 1980 e 1990, em obras como Silicone XXI (1985), de Alfredo Sirkis, Santa Clara Poltergeist (1990), de Fausto Fawcett, e Piritas Siderais: Romance Cyberbarroco (1994), de Guilherme Kujawski – uma estética que abduz o Cyberpunk anglófono trazendo-o, ressignificado, ao contexto brasileiro.

 

Os ismos e punks não se restringem à literatura: suas origens ou derivas podem ser buscadas em outras artes ou artemídias, como o cinema, os quadrinhos, as artes gráficas. Os ismos e punks são “elétrons” que circulam ao redor do gênero, pulam e pululam de uma forma de arte para a outra, de uma mídia a outra, daqui a alhures – e vice-versa. Da mesma forma, diferentes artistas também visitam ismos e punks a seu bel prazer, num vai-e-vem constante e criativamente muito bem-vindo. Assim teremos, além do Tupinipunk de Roberto Causo e outros escritores, o Cyberagreste das ilustrações de Vitor Wiedergrün, o Amazofuturismo ou Cyberamazonismo de João Queiroz, e o Sertãopunk de Alan de Sá e Alec Silva, entre outros.

 

A partir desses inúmeros olhares e possibilidades de celebração das diversidades regionais e culturais do Brasil, a Revista Zanzalá convida autores a contribuírem com o dossiê Caminhos que se bifurcam: os ismos e punks na ficção especulativa brasileira, trabalho que pretende reunir reflexões em torno dos movimentos ou vertentes da nossa ficção especulativa (ficção científica, fantasia e/ou horror) em diversas mídias, lançando luz sobre a flora, a fauna ou qualquer outra forma de vida que apenas o imenso mar da arte fantástica é capaz de nutrir.

 

A seguir, algumas palavras-chave que são potencialmente temas de interesse deste dossiê, no contexto de objetos tão variados quanto a literatura, a poesia, o teatro, os quadrinhos, os videojogos, cinema e audiovisual, entre outras formas de arte ou artemídias:

 

Futurismo. Retrofuturismo. Surrealismo. Expressionismo. Neo-expressionismo. Construtivismo. Tupinipunk. Cyberagreste. Sertãopunk. Dieselpunk. Solarpunk. Afrofuturismo. Scrapperpunk. New Weird. Absurdismo. Ambientalismo. Ecocriticismo. Animal Studies. Cyberpunk da periferia. Basurapunk. Natifuturismo. História alternativa. História contra-factual. Antifascismo. Comunismo. Marxismo. Anarquismo. Realismo. Hiperrealismo. Etc., etc., etc...

 

Pretendemos publicar o dossiê Caminhos que se bifurcam: os ismos e punks na ficção especulativa brasileira no segundo semestre do ano de 2021. Serão aceitas submissões em português, espanhol, francês, italiano ou inglês.

 

As demais diretrizes para autores estão descritas em https://periodicos.ufjf.br/index.php/zanzala/about/submissions#authorGuidelines.  Os textos devem ser submetidos até a data de 03 de novembro de 2021, através da página da revista.

 

Em caso de dúvidas, por favor não hesite em nos contatar por e-mail (revistazanzala@gmail.com ou asuppia@unicamp.br).