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            <journal-title>Psicologia em Pesquisa</journal-title>
            <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. pesq.</abbrev-journal-title>
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         <issn pub-type="epub">1982-1247</issn>
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            <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.34019/1982-1247.2025.v19.44344</article-id>
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               <subject>Articles</subject>
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            <article-title>Sexualidade: A espiada e a expiação na erótica freudiana</article-title>
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               <trans-title>Sexuality: the gaze and atonement in Freudian eroticism</trans-title>
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               <trans-title>Sexualidad: la mirada y la expiación en la erótica freudiana</trans-title>
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                  <surname>Hardt</surname>
                  <given-names>Orlando</given-names>
                  <suffix>Júnior</suffix>
               </name>
               <xref ref-type="aff" rid="aff1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>
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            <contrib contrib-type="author">
               <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0001-7344-0742</contrib-id>
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                  <surname>Oliveira</surname>
                  <given-names>Christiana Paiva de</given-names>
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                  <sup>2</sup>
               </xref>
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            <label>1</label>
            <institution content-type="original">Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: orlandohardt@yahoo.com </institution>
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            <label>2</label>
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            <institution content-type="normalized">Universidade de São Paulo</institution>
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            <country country="BR">Brazil</country>
            <email>chhriiss@hotmail.com</email>
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         <author-notes>
            <corresp id="c1">Informações do Artigo: 
Orlando Hardt Júnior
<email>orlandohardt@yahoo.com</email>
            </corresp>
         </author-notes>
         <pub-date pub-type="epub">
            <year>2025</year>
         </pub-date>
         <volume>19</volume>
         <issue>3</issue>
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               <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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         </permissions>
         <abstract>
            <title>RESUMO</title>
            <bold> </bold>
            <p>Neste artigo os autores abordam a questão da sexualidade em Freud. O autor se interessou em desvendar o conceito equivocado de sexualidade, buscando estabelecer um significado livre de conceitos morais. Ele revelou que a sexualidade é principalmente pulsional, desmascarando a hipocrisia e a repressão. Seus ensaios revolucionários sobre o tema abalaram o mundo, confrontando autoridades e defendendo a homossexualidade. Freud explicou de forma concisa e dinâmica certas atividades impulsionadas por desejos que não têm um alvo sexual específico, como na criação de obras de arte. Assim ressalta-se uma visão pioneira de Freud quanto a sexualidade e arte. </p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>ABSTRACT</title>
            <bold> </bold>
            <p>In this article the authors address the question of sexuality in Freud. The author was interested in unravelling the misconceived concept of sexuality, seeking to establish a meaning free from moral concepts. He showed that sexuality is primarily driven by instinct, exposing hypocrisy and repression. His revolutionary essays on the subject shook the world, confronting the authorities and defending homosexuality. Freud explained, in a concise and dynamic way, certain activities driven by desire that do not have a specific sexual goal, such as the creation of works of art. The paper presents Freud´s pioneering visiono of sexuality and art.</p>
         </trans-abstract>
         <trans-abstract xml:lang="es">
            <title>RESUMEN</title>
            <bold> </bold>
            <p>En este artículo, los autores abordan la cuestión de la sexualidad en Freud. El autor se interesó en desentrañar el concepto equivocado de sexualidad, buscando establecer un significado libre de conceptos morales. Reveló que la sexualidad es principalmente pulsional, desenmascarando la hipocresía y la represión. Sus ensayos revolucionarios sobre el tema sacudieron al mundo, desafiando a las autoridades y defendiendo la homosexualidad. Freud explicó de forma concisa y dinámica ciertas actividades impulsadas por deseos que no tienen un objetivo sexual específico, como en la creación de obras de arte. Esto pone de relieve la visión pioneira de Freud sobre la sexualidade y el arte.</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>PALAVRAS-CHAVE:</title>
            <kwd>Sexualidade</kwd>
            <kwd>Expiação</kwd>
            <kwd>Sublimação</kwd>
            <kwd>Erotismo</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>KEYWORDS:</title>
            <kwd>Sexuality</kwd>
            <kwd>Atonement</kwd>
            <kwd>Sublimation</kwd>
            <kwd>Eroticism.</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="es">
            <title>PALABRAS CLAVE:</title>
            <kwd>Sexualidade</kwd>
            <kwd>Expiación</kwd>
            <kwd>Sublimación</kwd>
            <kwd>Erotismo.</kwd>
         </kwd-group>
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      </article-meta>
   </front>
   <body>
      <p>
         <italic>Pessoas de sexo diferente acham que é mais fácil resolver suas diferenças anatômicas e fisiológicas do que suas diferenças de perspectivas. Afinal das contas aquilo que é fisicamente concreto pode ser objeto de investigação e resolução táctil, olfatória e visual. </italic>
      </p> 
      <p>(Bion, citado por <xref ref-type="bibr" rid="B10">Sandler, 2021</xref>, p. 1018)</p>
      <bold> </bold>
      <sec>
         <title>A espiada</title>
         <bold> </bold>
         <p>A palavra sexo advém da palavra excesso. Seria possível darmos uma espiada naquilo que nos excede para nos espiarmos? Freud se interessou pelo conceito equivocado da sexualidade, quis desenterrar a verdade sob o assunto e estabelecer um significado moderno para a matéria sobre a qual havia ambiguidades que seus artigos desfizeram, ao retirar conceitos morais e capturar sua real dimensão mensageira da pulsão.</p>
         <p>Quando a sexualidade é evocada em vez de ser abafada, surge uma estrutura que extrai a sexualidade do engano no qual estava imersa. Freud fez isso do modo menos ruidoso possível, ao revelar que o mistério do erotismo era principalmente pulsional. </p>
         <p>Freud edificou uma teoria revolucionária, em vez de <italic>Três Ensaios sobre a Sexualidade </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) poderíamos dizer “Três ensaios que abalaram o mundo”. A sexualidade foi abordada por ele com audácia e curiosa paixão, desmascarou pudores hipócritas e a repressão, causou furor ou indignação nas autoridades oficiais. Para uma mãe norte-americana que tinha lhe pedido conselhos sobre a homossexualidade de seu filho, respondeu que era uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como um crime, além de ser uma crueldade. Ele foi um criador de novas formas inéditas que permitiram a compreensão da realidade sexual, produzindo novas formas da apreensão da sexualidade.</p>
         <p>		Se pudéssemos voltar ao início do século 20, perceberíamos o abalo que atingiu as pessoas daquela época quando um pensamento estranho os transportou ao núcleo irradiante de uma nova realidade e apresentou paradoxos que violentavam toda uma imaginação idealizada da infância, ao abordar, nos <italic>Três Ensaios</italic>, as aberrações sexuais em que o normal e o perverso foram aproximados, produzindo uma verdadeira assimilação. Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) afirmou o que era condenado pela medicina e pela moral: a pulsão sexual é fundamental, estrutural e essencialmente “perversa”.</p>
         <p>À medida que Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) descrevia as perversões como sadismo, masoquismo, escoptofilia, exibicionismo e, sobretudo, homossexualidade, ele confirmava que esses fatos tinham um mesmo mecanismo de funcionamento. Eles envolviam uma formação que contesta e recusa o primado da genitalidade, mas que encontra seu princípio organizador em uma zona erógena - seja ela bucal ou anal - que assume o primeiro plano como se fosse um aparelho genital secundário que usurpa as funções do aparelho genital. Freud conferiu grande importância à sexualidade no desenvolvimento na vida psíquica do indivíduo humano, mas isso todos sabemos. </p>
         <p>	 	Hoje avaliamos a transformação pela qual passou a noção de sexualidade após Freud. A priori veremos que, para ele, a sexualidade é um <italic>instinto</italic>, um comportamento pré-formado característico da espécie com um parceiro e um <italic>alvo</italic> que é a cópula. Aí entrará um fator de extensão que foi melhor contemplado por Freud ao longo de sua obra, e em especial nos Três ensaios (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>), estudando as psicopatologias na grande variedade das escolhas do objeto sexual e quanto ao modo de utilizar a atividade para a obtenção do prazer. </p>
         <p>Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) organizou as numerosas transições entre a sexualidade normal e a sexualidade perversa: perversões provisórias quando a satisfação sexual se torna impossível. Ele também mostrou, ao estudar as neuroses, que os sintomas constituem realizações sexuais sob formas deslocadas ou modificadas pela defesa, mas que, frequentemente, são desejos sexuais perversos que são encontrados por detrás dos sintomas. O autor esclarece que há a presença de uma sexualidade infantil que alarga o campo do sexual, que põe em jogo zonas corporais - zonas erógenas que não são necessariamente os genitais, por exemplo, a sucção de um polegar. Os psicanalistas tratam isso de sexualidade oral, anal etc. </p>
         <p>Então, fazendo um sumário, foi o alargamento da concepção do campo da sexualidade que fez Freud determinar novos critérios do que seria especificamente sexual nessas atividades ou de que a sexualidade não é reduzida ao genital.</p>
         <p>Em <italic>Conferências Introdutórias à Psicanálise</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B2">1916-1917/2014a</xref>), Freud pergunta: por que os médicos teimam em não denominar de sexual as manifestações da infância? Por que se contentam apenas com a descrição fisiológica? Já na infância as atividades de sugar um polegar ou a retenção dos esfíncteres mostram que a criança já apresenta a vivência do prazer. Freud respondeu isso ao apresentar argumentos clínicos indicando que foram os sintomas, em adultos, que os levaram a atividades infantis geradoras de prazer, aquilo que está no fim de um desenvolvimento já estava presente, como um germe, desde o início. Em suma, o autor postulou que a sexualidade existe logo no início, embora virtualmente. </p>
         <p>Nesse sentido, a sexualidade perverso-polimorfa pôde ser apalpada por Didier <xref ref-type="bibr" rid="B1">Anzieu em <italic>Eu-pele </italic>(1989</xref>), no qual disserta sobre o maior órgão sexual que nos cobre: o tecido epidérmico e seus “buracos de fazer contato” que edificam o Eu por meio de suas marcas mnêmicas impressas. Para o autor, o <italic>Eu-pele</italic> se configura em uma metáfora unificadora entre a biologia e a cultura que organiza o psiquismo. Em outras palavras, o Eu-psíquico funda-se no Eu-pele a partir das experiências de elaboração imaginativa do corpo. Isso se dá em conjunto com o investimento recebido e pela sustentação simbólica implicada nessa trajetória íntima. É pelo <italic>holding</italic> que o bebê tem seu corpo descoberto e no mundo se descobre pela libido. Ou seja, a passagem do virtual para o real só pode ocorrer se existir uma dupla interativa que propicia trocas exploratórias de um Eu vir-a-ser<italic>. </italic>Nessa coreografia regida pelo princípio do prazer e o de realidade, o olhar espia aquilo que a boca incorpora: desde os primórdios olhamos fora (e dentro) o que desperta nossa dimensão pulsional, fomentando o enlace do real com o virtual no papel das fantasias.</p>
         <p>A boca que se enche de leite delineia o caminho da pulsão pelo corpo, servindo de alimento psíquico para o bebê. Assim, boca e olhos, como buracos de fazer contato, passam a mirar as bases especulares que fundam o Eu. Ou seja, a sexualidade vem como base de referência do Eu (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Anzieu, 1989</xref>).</p>
         <p>No desenrolar da sexualidade que libidiniza a partir do ego corporal freudiano, acompanhamos as crianças que, fundadas nos enlaces eróticos de seus orifícios, podem começar a espiar o que as fizeram vivas, por exemplo, ao espiar o buraco da fechadura dos pais. Seguimos espiando a sexualidade na vida adulta através das telas de celular que nos convidam a uma infinidade de possibilidades satisfatórias ao nosso imaginário. Seria esse o nosso novo buraco de fechadura que nos abre a novas excitações? Freud em <italic>Três Ensaios </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) propõe uma espiada na sexualidade sem uma expiação do que nos excede, afinal somos ensinados a espiar nossos próprios buracos com certa dosagem superegoica.</p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Expiação</title>
         <bold> </bold>
         <p>Expiação, segundo o dicionário, significa purificação de faltas cometidas, meio usado para penitências. No <italic>Antigo Testamento, em </italic>Gênesis (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1966</xref>), é pensada como uma forma de contrição que significava sacrifícios expiatórios cuja finalidade era de reparar pecados. “Expiar é se tornar puro de faltas, remir-se, purificar e lavar” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Houaiss, 1986</xref>, p. 1288).</p>
         <p>“A Moral Sexual ‘Cultural’ e o Nervosismo Moderno” foi o primeiro artigo freudiano sobre o antagonismo entre civilização e instinto. Nele, o autor supôs que, sob o limite de uma moral sexual civilizada, o psiquismo estará sujeito a prejuízos impostos pela influência civilizatória expressa pela repressão, prejudicial ao indivíduo civilizado, por meio de uma moralidade sexual vigente (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1908/2014b</xref>, p. 360). Se, por um lado, a pulsão busca incessantemente a satisfação, por outro, temos a repressão de seus destinos mais diversos que passam a ser aviltados pelas normas impostas. A moralidade supracitada e suas consequências podem ser exemplificadas pela discrepância entre a proibição do sexo ao longo da vida de uma mulher <italic>versus</italic> o que se espera dela na noite de núpcias, visando em especial à reprodução da espécie. Freud afirma: </p>
         <disp-quote>
            <p>A educação das mulheres impede que se ocupem intelectualmente dos problemas sexuais, embora o assunto lhes desperte uma extrema curiosidade, e as intimida condenando tal curiosidade como pouco feminina e como indício de disposição pecaminosa. Assim a educação as afasta de qualquer forma de pensar. (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1908/2014b, p. 382</xref>).</p>
         </disp-quote>
         <p>Aquela proibição que gestava insatisfação no seio da família vienense é ainda tão comum em nossos tempos. Ademais, o autor pontua que o interesse sexual da mulher a conduz às vias do pecado enquanto barreira alienadora do que a compõe. </p>
         <p>De modo geral, para Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1908/2014b</xref>), nossa civilização é construída sobre a repressão das pulsões. No sujeito, a pulsão sexual não serve apenas para a reprodução da espécie, mas para a obtenção de um tipo especial de prazer. Assim, podemos observar que a assepsia do que concerne ao sexual se desdobra para a excitação sintomática. No final desse artigo, o autor faz uma pergunta: a nossa moralidade sexual civilizada vale o sacrifício de uma neurose imposta?</p>
         <p>Antes de Freud não haviam recursos para descrever as aberrações, não tinham uma terapêutica ou estudo sobre formas e identidades sexuais como homossexualidade, travestismo, pedofilia, zoofilia etc. Eles interessavam-se por perversões.  Roudinesco comenta:</p>
         <disp-quote>
            <p>Freud deslocou a questão da causalidade sexual das neuroses para um terreno que não era mais o da sexologia, nem da psiquiatria ou psicologia, trocava o domínio das descrições dos comportamentos pelo da interpretação do discurso, considerando que as famosas cenas sexuais descritas pelos pacientes podiam derivar de fantasias, isto é, de uma subjetividade ou representação imaginária. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Roudinesco, 2014</xref>, p. 92).</p>
         </disp-quote>
         <p>
            <italic>Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) e<italic> A Interpretação dos Sonhos</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B5">1900/2019</xref>) figuram como os mais originais trabalhos freudianos que contribuíram para o conhecimento psicanalítico, foi a observação clínica dos fatores sexuais nas neuroses de angústia que o levaram a uma ampla investigação sobre o tema da sexualidade.</p>
         <p>		Quando Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) afirmou que as excitações excessivamente fortes, provenientes de determinadas fontes de sexualidade, encontram um caminho e emprego em outras áreas, ele propõe o conceito de sublimação, que conduz a um aumento na eficácia do psiquismo. O autor descreveu um processo que explica atividades humanas sem qualquer relação aparente com o sexual, mas que tinha seu elemento propulsor na pulsão sexual. </p>
         <p>Será que Freud descrevia uma expiação? Seria semelhante a uma expiação quando a pulsão é sublimada à medida que é conduzida para um novo alvo nada sexual? E socialmente aceito? </p>
         <p>Sublime é algo elevado, grande. Em química, a “sublimação é utilizada para designar o processo que faz um corpo passar diretamente do estado sólido para o gasoso” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Laplanche &amp; Pontalis, 1994</xref>, p. 638). Assim estão explicadas, de forma dinâmica e econômica, determinadas atividades alimentadas por um desejo que não aponta o alvo sexual, por exemplo, na elaboração de uma obra de arte. Foi nessa transformação da pulsão sexual que Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1905/2016</xref>) investigou esse tipo de atividade. Quando a pulsão sexual está à disposição da cultura, temos um grande montante de força com o poder de deslocar o seu alvo, sem a perda de sua intensidade. Essa capacidade de troca de alvo sexual originário por outro distinto, mas psiquicamente semelhante, é a capacidade de sublimar como descrito no bojo de seu artigo. </p>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Considerações finais</title>
         <bold> </bold>
         <p>		Concluímos que a direção dessa “expiação” incide nas pulsões que não estão ainda totalmente integradas à genitalidade. Ela decorreria, em parte, da repressão daquilo que seriam elementos perversos da excitação.</p>
         <p>
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               <label>
                  <italic>Nota. </italic>Hieronymus</label>
               <caption>
                  <title>Bosch, 1450-1516.</title>
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            </fig>
         </p>
         <p>Frente ao exposto, levantamos o seguinte questionamento: uma obra de arte que trabalhe diretamente com a ilustração do sexo como exemplificado em <italic>O Jardim das Delícias Terrenas</italic> (Hieronymus Bosch, 1450-1516), <xref ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref>, seria um exemplo da expiação freudiana? Será que espiar esse gênero de tela gera um impacto semelhante ao ocasionado - e que ainda ocasiona - pelo texto <italic>Três Ensaios</italic>? Se faz necessário fecundar um pensar erótico que seduza para a vida pulsional para que não seja edificado um saber entrelaçado às marcas tirânicas repressoras, que resultam em uma educação asséptica do que pulsa dentro de nós, como algo semelhante ao que foi descrito por Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1908/2014b</xref>) sobre o trabalho intelectual das mulheres vienenses. A tela mencionada seria o exemplo de uma erótica espiada em vez de uma expiação do erótico?</p>
      </sec>
   </body>
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