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            <journal-title>Psicologia em Pesquisa</journal-title>
            <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. pesq.</abbrev-journal-title>
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         <issn pub-type="epub">1982-1247</issn>
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            <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF</publisher-name>
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               <subject>Articles</subject>
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            <article-title>Novas bruxas, novas conferências introdutórias à psicanálise</article-title>
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               <trans-title>New witches, new introductory lectures on psychoanalysis</trans-title>
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               <trans-title>Nuevas brujas, nuevas conferencias introductorias al psicoanálisis</trans-title>
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                  <surname>Hardt</surname>
                  <given-names>Orlando</given-names>
                  <suffix>Júnior</suffix>
               </name>
               <xref ref-type="aff" rid="aff1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>
            </contrib>
            <aff id="aff1">
               <institution content-type="original"> Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: orlandohardt@yahoo.com </institution>
               <institution content-type="orgname">Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo</institution>
               <email>orlandohardt@yahoo.com</email>
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         <author-notes>
            <corresp id="c1">Informações do Artigo:
tandaa@terra.com.br</corresp>
         </author-notes>
         <pub-date pub-type="epub">
            <year>2022</year>
         </pub-date>
         <volume>16</volume>
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         <fpage>1</fpage>
         <lpage>16</lpage>
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               <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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         <abstract>
            <title>Resumo</title>
            <bold> </bold>
            <p>Neste artigo são usadas, como base para conjecturas, duas obras de Freud: “Conferências introdutórias à psicanálise” (1916-1917) e “Novas conferências introdutórias à psicanálise” (1933). Escritas com um intervalo de quinze anos, na segunda publicação Freud apresentou fatos inteiramente novos sobre a teoria dos sonhos, a teoria da mente, a angústia, as pulsões e o feminino. Apesar de o nome sugerir continuações e suplementos, pois existe a palavra “novas” antecedendo as conferências, seu conteúdo não caracteriza reconstituições, revisões ou apenas adendos aos artigos de 1916-1917, mas aponta para outros fatores que concorreram nessa notável elaboração teórica, com destaque especial para a metapsicologia.</p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>Abstract</title>
            <bold> </bold>
            <p>In this article two of Freud's works are used as a starting point for conjectures: "Introductory lectures on psychoanalysis" (1916-1917) and "New introductory lectures on psychoanalysis" (1933). Written fifteen years apart, in the second publication Freud presented entirely new facts about dream theory, theory of mind, anxiety, drives, and femininity. Although the title suggests continuity and supplementation, since there is the term "new" preceding the conferences, their content is not restricted to reconstitutions, revisions, or mere additions to the 1916-1917 papers, but points to other factors that contributed to this remarkable theoretical elaboration, with especial emphasis on metapsychology.</p>
         </trans-abstract>
         <trans-abstract xml:lang="es">
            <title>Resumen</title>
            <bold> </bold>
            <p>En este trabajo se utilizan dos obras de Freud como base para conjeturas: "Conferencias de introducción al psicoanálisis" (1916-1917) y "Nuevas conferencias de introducción al psicoanálisis" (1933). Redactadas con un intervalo de quince años, en la segunda publicación Freud presentó datos totalmente nuevos sobre la teoría de los sueños, la teoría de la mente, la angustia, las pulsiones y lo femenino. Aunque el nombre sugiere continuaciones y suplementos, puesto que la palabra "nuevo" precede a las conferencias, su contenido no constituye reconstituciones, revisiones o simplemente adiciones a los artículos de 1916-1917, sino que apunta a otros factores que concurrieron en esta notable elaboración teórica, con especial énfasis en la metapsicología.</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>Palavras-chave:</title>
            <kwd>psicanálise</kwd>
            <kwd>Freud</kwd>
            <kwd>metapsicologia</kwd>
            <kwd>Thomas Mann</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>Keywords:</title>
            <kwd>Psychonalysis</kwd>
            <kwd>Freud</kwd>
            <kwd>Metapsychology</kwd>
            <kwd>Thomas Mann</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="es">
            <title>Palabras clave:</title>
            <kwd>Psicoanálisis</kwd>
            <kwd>Freud</kwd>
            <kwd>metapsícologia</kwd>
            <kwd>Thomas Mann</kwd>
         </kwd-group>
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      </article-meta>
   </front>
   <body>
      <p>As <italic>Conferências introdutórias à psicanálise</italic> tiveram lugar na Clínica Psiquiátrica de Viena em duas ocasiões, em 1916 e 1917. Quanto às <italic>Novas conferências introdutórias à psicanálise</italic>, foram redigidas e publicadas em 1933, mas nunca proferidas, embora dêem essa impressão ao leitor.</p>
      <p>Alguns biógrafos afirmam que a segunda série de conferências seria a forma de socorrer financeiramente a editora Verlag<italic>, </italic>cujas dificuldades preocupavam Freud desde o outono de 1931 (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gay, 1991</xref>, p. 509). O primeiro pensamento que nos sobreveio relendo ambos os conjuntos de artigos foi, na realidade, uma pergunta: essas duas reuniões de conferências seriam algo análogo a um Velho e Novo Testamento freudiano? Ou seriam algo como as versões sobre Moisés, estudos redigidos por Freud em duas ocasiões distintas? A oposição entre um Moisés obscurantista, primitivo, destruidor e um Moisés legislador e racional, presentes respectivamente em <italic>O Moisés de Michelangelo</italic> (1914) e <italic>Moisés e o monoteísmo: três ensaios</italic> (1939)? Ou poderemos ler concebendo um outro artigo?</p>
      <p>No prefácio de <italic>Novas conferências</italic>, Freud alertou que não se tratava de excluir a validade das conferências proferidas anteriormente, mas sim de ampliá-las em outra abordagem, diferente daquela de quinze anos atrás, talvez porque em 1932 Freud, além de seu câncer, zombava abertamente da filosofia, vendo-a como espécie de pequena religião de uso restrito:</p>
      <disp-quote>
         <p>“A filosofia não é contrária à ciência, ela própria se comporta como uma ciência, trabalha em parte com os mesmos métodos, dela se afastando na medida em que se agarra à ilusão de poder fornecer uma imagem do mundo coerente e sem nenhuma lacuna, que deve, no entanto, desmoronar a cada novo progresso do saber...” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1933/2010, p. 325</xref>). </p>
      </disp-quote>
      <p>Na verdade, Freud estava sendo obrigado a entender que sua teoria estaria caminhando como a filosofia da qual zombara; ela portava uma ideologia antropológica e era, também, emancipatória, mas resistente à ideia de a psicanálise não ser uma ciência, apesar dos problemas que isso envolvia. Pretendia colocar sua teoria em ordem, pois não queria crer que a psicanálise tivesse uma <italic>Weltanschauung,</italic> uma determinada <italic>visão de mundo.</italic> Após ter criticado o positivismo, desafiar a racionalidade científica e investigar o oculto, concebendo uma nova história para o homem, temeu que sua teoria se convertesse em uma doutrina. </p>
      <p>Freud, na década de 1930, era um homem crepuscular. Afirmava que a psicanálise não seria uma <italic>Weltanschauung</italic>, uma visão de mundo<italic>, </italic>uma global concepção do papel humano. Nessa época, seu maior cuidado era fazer da psicanálise uma ciência da natureza; logo, a expressão acima não lhe convinha. Em vez disso, procurava distanciar a psicanálise da filosofia, pretendia deixá-la politicamente neutra em face de tudo que percebia ao seu redor, como a vitória eleitoral dos nazistas nas eleições de 1930 e os quatro milhões de desempregados, embora esses fenômenos contemporâneos - ao lado dos quais está, também, a revolução soviética - tenham constituído o pano de fundo sobre o qual se deu essa revisão. É significativo o fato de Freud ter deixado por último esse tema, tornando-o objeto da sétima e última das <italic>Novas conferências.</italic> Freud se colocou na posição de defensor do empirismo na ciência, relativizou a importância do marxismo em sua manifestação na história, ao afirmar que o bolchevismo russo “ainda que banindo todos os sistemas idealistas e todas as ilusões, o marxismo, posto em prática, criou outras quimeras” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Dadoun, 1986</xref>, p. 216)<bold>.</bold>
      </p>
      <bold> </bold>
      <p>Seriam essas formulações uma conclusão para uma visão de mundo mais apropriada à psicanálise? Esse capítulo resumiria a relação que caberia à psicanálise entre as ciências? Freud deixa claro que a psicanálise é apenas mais uma das ciências, e que, portanto, “nem precisa ou nem geraria uma visão de mundo” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Gay, 1992</xref>, p. 735).</p>
      <sec sec-type="intro">
         <title>Conferências Introdutórias à Psicanálise (1916-1917)</title>
         <bold> </bold>
         <p>Quando publicados, esses artigos alcançaram grande aceitação, circulando de maneira ampla e tornando-se marcantes de determinado período da psicanálise. Entre os fatores que motivaram esse grande interesse está a apresentação, para o leitor, de aspectos inéditos das concepções de Freud, inicialmente quando trata das pulsões desempenhando importante papel, ainda desconsiderado, nas doenças mentais; depois, ao abordar os atos falhos, os lapsos de linguagem e o objetivo ao qual serviriam, “passou a falar de sonhos e concluiu com a série mais longa sobre a teoria das neuroses... nada foi mais abrangente e próspero quanto as palestras introdutórias” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gay, 1991</xref>, p. 339-340). A ideia de que a psicanálise dera certeiro golpe histórico na megalomania do homem foi proferida na conferência 18 (“A fixação no trauma, o inconsciente”), colocando-se Freud ao lado de Copérnico e Darwin; ele, Freud, “ensinava ao mundo que o ego é servo de forças inconscientes e incontroláveis” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1916-17/2014, p. 380</xref>).</p>
         <p>No final da conferência 28 (“A terapia analítica”), o autor nos permite pensar que ainda retomará o tema metapsicologia.</p>
         <disp-quote>
            <p>Lamento, acima de tudo, haver muitas vezes prometido retomar um assunto apenas esboçado, e, depois, o contexto não haver permitido que eu cumprisse a promessa. Propus-me informar os senhores sobre uma matéria inacabada, ainda em desenvolvimento, e o meu próprio resumo se mostrou incompleto. Em várias passagens tinha pronto o material para tirar uma conclusão, e acabei não o fazendo. (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1916-17/2014, p. 613</xref>).</p>
         </disp-quote>
         <p>Essa ressalva no trecho final do artigo nos permite pensar que suas intenções em relação ao assunto ainda não haviam sido de todo concretizadas, pois a metapsicologia seria um germe que se tornara multiplicador de possibilidades teóricas.</p>
         <p>	Os embaraços teóricos salientados, causados pelo sistema da consciência, que não se encaixavam facilmente na sua concepção de aparelho psíquico, além de outros impasses, o fizeram enfrentar e produzir hipóteses acessórias cada vez que surgia uma dificuldade, como a necessária mudança acerca da dualidade das pulsões, as modificações na concepção do aparelho psíquico e uma drástica revisão da teoria sobre angústia.</p>
         <sec>
            <title>O Retorno Ao Caldeirão das Bruxas</title>
            <bold> </bold>
            <p>Recorrendo ao talento de decifrador de enigmas de Freud, este artigo proporia algumas hipóteses estranhas, na qual a ficção teve abrigo: seriam as<italic> Novas conferências introdutórias </italic>uma possível forma de recuperação de parte de doze trabalhos sobre metapsicologia, dos quais foram perdidos sete, nunca publicados - a síntese cujo título seria <italic>Preliminares de uma metapsicologia</italic>? Freud reconstitui essa perda ao escrever <italic>Novas conferências</italic>, como se usasse parte desse material extraviado?</p>
            <p>Interessante a coincidência de que os artigos perdidos perfazem o mesmo número de capítulos que compõem o corpo de <italic>Novas conferências</italic>, pois, partindo do capítulo 29, intitulado “Revisão da teoria do sonho”, temos, respectivamente: capítulo 30, “Sonhos e ocultismo”; 31, “A dissecção da personalidade psíquica”; 32, “Angústia e instintos”; 33, “A feminilidade”; 34, “Esclarecimentos, explicações, orientações”; 35, “Acerca de uma visão de mundo”<italic>.</italic>
            </p>
            <p>A conjectura acima possibilitaria citarmos Freud em uma tentativa de compreensão, pois suas ideias são interligadas de um modo sistemático; há uma hierarquia em pertinências à observação, inclusive histórica, pois Freud reformulou afirmações ao longo da vida, desenvolvendo teorias e modificando-as.</p>
            <p>As conjecturas também são bruxas, são interveniências pelo caminho da imaginação, que removem o formalismo teórico para pensarmos como psicanalistas ou policiais - isto é, operando com suspeita. Curiosamente, um capítulo do psicanalista Garcia-Roza, intitulado “O enigma” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Garcia-Roza, 2002, p. 9-15</xref>) traz várias analogias interessantes entre o trabalho de analista e de policial, seja por ambos enfrentarem enigmas de fatos desconcertantes, seja por o primeiro procurar entender indícios que compõem um conjunto de signos que remetem o leitor a um enigma que não está voltado para os grandes acontecimentos, mas para fatos que funcionaram como veículos que motivaram a continuação de uma argumentação teórica freudiana.</p>
         </sec>
         <sec>
            <title>Thomas Mann</title>
            <bold> </bold>
            <p>Uma outra hipótese para a criação de <italic>Novas conferências introdutórias</italic> supõe influências decorrentes da relação entre Sigmund Freud e Thomas Mann. Em 1929, ambos iniciaram uma calorosa amizade, “pois o escritor redigiu um dos mais belos textos sobre a pessoa e a obra de Freud”, intitulado ‘O lugar de Freud na história do pensamento moderno’” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Roudinesco, 2016</xref>, p. 386). Freud não retrucou<xref ref-type="fn" rid="fn1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>, mas o fato é que “esse fulgurante retrato fazia dele um destruidor de ilusões, herdeiro de Nietzsche e Schopenhauer, capaz de explorar todas as formas do irracional e transformar o romantismo em uma ciência” (idem). As biografias de Freud e de Thomas Mann descrevem a rica relação entre eles, cultivada mediante encontros pessoais ou trocas epistolares; ambos tinham interesses em comum, eram doutos em arqueologia, egiptologia, religiões e ocultismo, além de ferrenhos inimigos do nazismo.</p>
            <p>Sob o título “<italic>Okkult Erlebnisse</italic>” [Experiências ocultas], texto incluso em <italic>A montanha mágica</italic> (1980)<italic>,</italic> Mann relata a Freud, em cartas, suas impressões detalhadas sobre espiritismo. Em outra oportunidade, revelou, na revista <italic>Rundschau</italic>, ter convivido com Scherenck-Notzing, colhendo suas impressões em duas sessões espíritas, nas quais testemunhou “fenômenos telecinéticos cuja autenticidade eu acho difícil contestar” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Prater, 2000</xref>, p. 187 e 636).</p>
            <p>Essa relação Freud-Mann seguirá como ocorrido entre Freud e Schnitzler, o duplo de Freud - quando e onde o feminino convocara o <italic>estranho </italic>numa polaridade obcecada entre amor e morte.</p>
            <p>Mann tornou-se um demônio para Freud, pois suscitou nele arroubos intelectuais ao longo de toda a década de 1930, surgindo em Freud, a partir de então, outras visões interessantes acerca do ocultismo e do feminino, assuntos sobre os quais nos deteremos. O senso íntimo freudiano, involuntariamente fiel ao “romantismo negro” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Roudinesco, 2016</xref>, p. 100), a crença de que o homem é o ator inconsciente de sua existência, fê-lo buscar o feminino na parte obscura fornecida por Mann?</p>
            <p>O caso do pintor alemão Christoph Haitzmann<xref ref-type="fn" rid="fn2">
                  <sup>2</sup>
               </xref> nos permite pensar como Freud tentara avançar sobre o enigma feminino, entender as fantasias incluindo os seios no Diabo, uma projeção da própria feminilidade, algo entrevisto - mas só mais tarde elaborado - quando na presença de Thomas Mann: um Diabo sedutor, tentador, detentor de poderes que teria algo a ver com o feminino.</p>
            <p>Em 1929, Mann fez uma conferência sobre Freud, na qual classificou a psicanálise “como o único fenômeno do antirracionalismo moderno que não se deixou deformar por um uso reacionário” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Prater, 2000</xref>, p. 231).</p>
            <p>Quando da celebração pelos oitenta anos de Freud, Mann leu para este a palestra que proferira em Viena, intitulada “Freud e o futuro”, na qual dizia render-se “a este encontro épico entre a psicologia e o mito, que também representa um encontro festivo entre composição literária e a psicanálise” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Prater, 2000</xref>, p. 319). Em outro ponto de sua exposição, assevera:</p>
            <disp-quote>
               <p>a doutrina psicanalítica é capaz de transformar o mundo. Com ela foi nele semeado um espírito de serena desconfiança, uma suspeita que se exerce sobre os mistérios e as maquinações da alma que os desmascara. Este espírito, uma vez despertado, jamais poderá desparecer. Ele penetra a vida, mina a sua grosseira ingenuidade, despoja-a desse <italic>pathos</italic>... que é inerente à ignorância (Jaccard, 1976, como citado em <xref ref-type="bibr" rid="B1">Dadoun, 1986</xref>, p. 469). </p>
            </disp-quote>
            <p>Em novo discurso homenageando Freud, Thomas Mann sustentava “que as esferas da ciência psicanalítica e da arte literária já de há muito gozavam entre si de uma ‘profunda simpatia’”, embora “por muito tempo imperceptível [...] A ligação entre elas, dizia, era de natureza dupla: o amor da verdade... algum dia reconheceremos no conjunto integral dos trabalhos de Freud a pedra fundamental para a construção de uma nova antropologia...” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Gay, 1992</xref>, p. 23).</p>
         </sec>
      </sec>
      <sec sec-type="intro">
         <title>Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise (1933)</title>
         <bold> </bold>
         <p>Ainda cabem perguntas sobre os fatores motivadores que levaram Freud a escrever <italic>Novas Conferências.</italic>
         </p>
         <disp-quote>
            <p>Onde está a minha [obra sobre] metapsicologia?”, perguntava [Freud] retoricamente a Lou Andreas-Salomé. “Em primeiro lugar”, disse-lhe mais enfaticamente do que nunca, “continua não escrita”. A “natureza fragmentária de minhas experiências e o caráter esporádico de minhas ideias” não me permitiam apresentar uma exposição sistemática (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gay, 1991</xref>, p. 362). </p>
         </disp-quote>
         <p>
            <italic>Conferências introdutórias à psicanálise</italic> teve um alto grau de aceitação entre os leitores de Freud, sendo considerado um inventário da psicanálise até o período da Primeira Guerra Mundial. O sucesso dessa publicação teria estimulado seu autor a escrever mais artigos que, além de manter o interesse do leitor, salvariam a editora <italic>Verlag</italic>, repetindo um êxito editorial? Isso daria nova força para a difusão da psicanálise.</p>
         <p>Outra motivação para a redação desse texto não seria o interesse em retomar o importante tema do <italic>feminino</italic>? Pessoalmente, Freud também precisava ressignificar o conceito de <italic>enigma feminino</italic>, com o qual estaria insatisfeito; para tanto, procurava novo denominador comum, outra abstração ao emprego polissêmico da palavra <italic>weib</italic>, “feminino”. Até então, para Freud os aspectos criativos e sublimatórios em uma mulher seriam expressões de sua parte masculina, o que constituía uma teoria muito conservadora sobre a feminilidade, reduzida a visões normativas muito incompletas até para 1933. Escrevendo sobre a feminilidade, afirmou que “a psicanálise não tenta demonstrar o que é a mulher [...] mas se propõe a investigar como ela chega a ser, como uma mulher se desenvolve a partir de uma criança com uma disposição bissexual” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1933/2010</xref>). Freud, nessa altura de suas pesquisas, via a mulher como versão outra do masculino. Ele ainda concebia as mulheres como castradas, mas essa categorização, com certeza, mereceria outra escrita de sua parte. As <italic>Novas conferências</italic> buscariam esse elo, a necessária transição para também melhor elaborar o feminino?</p>
         <p>Em 1930, Freud recebe carta de Mann em que este se diz <italic>lento</italic> com seus escritos (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Prater, 2000</xref>, p. 635); comparando-se a Freud, diz que “cada coisa precisa estar bem amadurecida para que eu possa comunicá-la”. De modo análogo, encontraremos Freud debruçando-se sobre <italic>Novas conferências introdutórias</italic>. Teria Mann, no transcorrer dessa relação, também fornecido bruxas novas, bruxas com repertórios inéditos, levando Freud a compartilhar de um universo faustiano para descrever a feminilidade?</p>
         <p>Pensamos que foi justamente a partir da relação Freud/Mann, e da influência do literato sobre o primeiro, que ocorreu a mudança na concepção da feminilidade e na abordagem dos fenômenos ocultos. Embora Freud tenha lidado com feiticeiras desde seus estudos sobre casos de histeria, será no capítulo 30 - “Sonhos e ocultismo” -, em <italic>Novas conferências</italic>, que ele enunciará, formalmente, que estaria de volta à cozinha, com o caldeirão das bruxas, como já tinha descrito numa carta para Fliess<xref ref-type="fn" rid="fn3">
               <sup>3</sup>
            </xref>. Nessa missiva, diz ele, “a ideia de trazer à cena as bruxas está ganhando força. Penso que também é apropriada. Começam a surgir detalhes em profusão. O voo delas será explicado...” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Masson, 1986, p. 227</xref>). </p>
         <p>Tomando por base essa carta, proponho pensar que Freud invocou essas novas bruxas, para escrever as <italic>Novas conferências. </italic>Afinal, comenta Freud, “o sonho já foi tido, frequentemente, como a porta para o mundo do misticismo, e ainda é, para muita gente, um fenômeno oculto. Também nós, que dele fizemos um objeto de investigação científica, não contestamos que haja um ou vários fios que o ligam às coisas ocultas” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1933/2010, p. 158</xref>).</p>
         <p>Então, podemos pensar que novas bruxas, reunidas por Freud, ajudaram-no a escrever “Sonhos e ocultismo” (capítulo 30) e “<italic>Feminilidade</italic>” (capítulo 33), que integram as <italic>Novas conferências introdutórias</italic>. Aliás, outros capítulos também, embora sempre apresentando ideias novas, são exposição sucinta das hipóteses anteriores. O capítulo 33 das <italic>Novas conferências</italic> tem conteúdo tão rico que se torna difícil escolher por onde começar, ao falar dele, pois tratar da relação de Freud com o universo feminino é um assunto dos mais enigmáticos.</p>
         <p>Contudo, poderemos, aqui, abordar o feminino segundo Freud como continuação dada por ele ao capítulo “Sonhos e ocultismo”, perguntando-nos como são as feiticeiras que invocou para ajudá-lo nessa tarefa. Como se apresentam?</p>
         <p>Seriam bruxas que encarnam um poder ora perigoso, ora benéfico, poderes conferidos pelo Diabo para o incontrolável, polimorfo e desconhecido - algo próprio da feiticeira que Freud porá em paralelo com certos elementos da sua concepção sobre o psiquismo feminino? Essas bruxas, aliadas do demo, seriam mulheres fortes que escapam ao homem, pois, em algum momento, fizeram um trato, ou foram possuídas de “corpo e alma”, e “essa possessão” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Schneider, 1980, p. 83</xref>) teria alguma proximidade, nesse capítulo, com a afirmação de Freud de que as meninas descobrem por si a sua atividade fálica, num tipo específico de masturbação que, no início, não é acompanhada por fantasias?</p>
         <p>Será ao longo das <italic>Novas conferências</italic> que Freud vai elaborar problemas ligados ao complexo da castração, assim como insistirá que a homossexualidade feminina não decorre em linha direta da masculinidade infantil, embora envolvendo uma etapa anterior ao desenvolvimento; também será ao longo das <italic>Novas conferências</italic> que o constante dualismo do pensamento de Freud se manifestará de forma clara: a metapsicologia, a parte da teoria que descreve o funcionamento do psiquismo, a cláusula pétrea de todo edifício da psicanálise, está na oposição entre as suas pulsões, chamadas <italic>Eros </italic>e <italic>Thanatos</italic>. </p>
         <p>Talvez outro ponto de partida da concepção freudiana do feminino poderia situar-se no estudo sobre a “neurose demoníaca” do pintor <italic>Haitzmann</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1923/2011</xref>). Retomado por influência de Mann, é um artigo sobre a melancolia, um pacto com o Diabo que tem seios e uma gravidez, a submissão de nove anos. Na verdade, uma luta contra uma atitude feminina e a defesa contra ela, transferida para o pai. Os seios no Diabo o tornam mulher, uma defesa contra a castração. Foi esse começo que permitiu a Freud avançar numa associação do demônio com a feminilidade, o que constitui um fio de associação que fará nascer o feminino sob a luz de um imaginário que poderemos estudar de forma mais completa por seu esforço de conceptualização. Esse artigo freudiano de 1923 contém uma teoria demonológica bem ao gosto de Thomas Mann, até coincidente, em certos pontos, com a obra desse autor; algo de faustiano, porém mais rica por não distinguir claramente entre as intervenções dos poderes malignos e divinos, tendo uma só designação para ambas: o feminino.</p>
         <p>Em 1933, Freud concluiria que o “ideal feminino” era um enigma para os homens, mas não para as mulheres, o que nos obriga a confrontar o ponto de vista do produtor da teoria. Acabou, finalmente, “por reconhecer seus próprios limites e reservou para os poetas um saber sobre a condição feminina, que reconhecia estar fora de seu alcance”. (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Fiorini, 2019</xref>). Talvez tivesse entrado em desacordo com as novas bruxas, sendo abandonado por elas...</p>
         <p>Nessas <italic>Novas conferências</italic>, Freud também continuará a tratar sobre os fenômenos ditos ocultos, até então considerados como o limiar do mundo do misticismo. Queria lançar uma luz sobre esses fenômenos; transmite a impressão de que os ocultistas expressam pensamentos secretos, que as profecias seriam desejos secretos das pessoas em questão. Nessa conferência deixa claro que, se existir algo como o fenômeno telepático, é algo bastante comum, embora difícil de demonstrar.</p>
         <p>“Psicanálise e telepatia” foi escrito em 1921. Esse artigo, só publicado após sua morte, é o primeiro a revelar o quanto o interesse de Freud pelo ocultismo era intenso e crescente. Nele, Freud defendia os ocultistas e seu universo; supunha que, se o fenômeno da telepatia for apenas uma atividade da mente inconsciente, as leis da vida mental inconsciente poderiam ser-lhe aplicadas. Relata que tinha obtido dos pacientes que preveem o futuro uma impressão: a de que estariam expressando pensamentos de desejos secretos dos consulentes. Freud concluirá que analisar tais elementos proféticos tem razão de ser, pois seriam produtos subjetivos da pessoa em questão.</p>
         <p>Freud menciona a telepatia como algo real, mas de difícil demonstração, como comentado mais acima. Contudo, se os fenômenos ocultos contrariam o racionalismo, existiu em Freud, não obstante, um interesse crescente por esse lado da mente. No mesmo ano, escrevera um apontamento restrito à discussão entre seus seguidores mais próximos, os membros do “Comitê” - “Freud observou que a psicanálise não tinha por que seguir opinião pré-estabelecida, condenando com desdém os fenômenos ocultos (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gay, 1991</xref>, p. 405).</p>
         <p>Caberia novamente perguntar se não teria sido seu convívio com o autor de <italic>Doutor Faustus</italic> que o fez interessar-se ainda mais pelo lado oculto da mente, para horror de Ernest Jones. De todo modo, não fosse esse interesse, Freud não teria se voltado novamente ao estudo dos sonhos. Em <italic>A montanha mágica</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Mann, 1980</xref>) o personagem chamado doutor Edhin Krokovski, médico-chefe do Berghof, é apresentado como hipnotizador, e suas roupas indicam que seu domínio específico é a noite, “ele que conhece todos os segredos de nossas damas e dedica-se a experimentos de telepatia” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Mann, 1980, p. 245</xref>). </p>
         <p>Nessa conferência, mais luz é lançada ao ocultismo, lembrando que as crianças temem que os pais conheçam seus pensamentos, uma réplica que talvez seja a origem do temor, dos adultos, da onisciência divina.</p>
         <p>
            <italic>Novas conferências</italic> foi exemplo de uma abordagem metapsicológica de fenômenos mentais, esforço para esclarecer e aprofundar pressupostos apontados, cuja discussão estava ausente nas <italic>Conferências introdutórias</italic>, ou seja, os assuntos nos quais a necessidade de entender a interação de forças em conflito, que mutuamente se inibem, surgem.</p>
         <p>É nisso que consiste a originalidade dessas <italic>Novas conferências introdutórias</italic>: há um trajeto, ou <italic>Bahnungen,</italic> distinto, não mais preso à linguagem neurológica do <italic>Projeto para uma psicologia científica</italic>, mais fantástico, uma fórmula que passa de uma modelagem neuronal para um abstrato modelo psíquico. Nas <italic>Novas conferências</italic> há um aprofundamento e alargamento do modelo psíquico apresentado em <italic>A interpretação dos sonhos</italic> (1900) - uma ruptura com o <italic>Projeto </italic>começará aí.</p> 
         <p>Freud também acreditava em bruxas, e as <italic>Novas conferências</italic> seriam mais que um conjunto de elaboração teórica; podemos concebê-las como textos balizadores, que serviram para revisar a metapsicologia e complementar aquilo que, como mencionamos anteriormente, referia para Lou Salomé estar faltando. Quando Freud volta ao tema da metapsicologia nas <italic>Novas conferências</italic>, podemos conjecturar sobre o conceito de repetição, nesse artigo: “um caos, um caldeirão de excitações em ebulição [...] suas pulsões são repletas de energia, porém ele não possui uma organização ou vontade unificada, apenas está dotado de uma compulsão a obter satisfação para as necessidades pulsionais de acordo com o princípio do prazer” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1933/2010</xref>).</p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Outro Escritor, Garcia-Roza</title>
         <bold> </bold>
         <p>Garcia-Roza, depois de ter escrito oito livros sobre metapsicologia e filosofia, deixando a vida acadêmica dedicou-se à ficção policial, com as investigações do inspetor Espinosa, personagem central de seu primeiro romance, <italic>O silêncio da chuva </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B6">Garcia-Roza, 1996</xref>). O método de investigação do inspetor Espinosa guarda uma possível associação com o <italic>Projeto</italic> (1895) freudiano, pois trata de uma investigação que se utiliza principalmente das <italic>trilhas</italic> ou <italic>Bahnung,</italic> termo derivado de <italic>Bahn</italic>, caminho, via, trilha, “coisas facilitadoras na condução de algo [...], pista que vamos abrindo ao próprio caminhar...” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Garcia-Roza, 2001, p. 99</xref>), por meio de uma recusa do óbvio, por meio de falhas, fendas e interstícios.</p>
         <p>Em um interessante recorte clínico, artigo publicado no <italic>Jornal de Psicanálise</italic> por <xref ref-type="bibr" rid="B14">Orsini (1995</xref>, p. 102), relata procedimento como o do personagem descrito por Garcia-Roza ao se cuidar de um menino na maioria das vezes mudo e que, um belo dia, faz um desenho “igualzinho àqueles jogos de revistinhas infantis, em que depois de ligados os pontos aparece inopinadamente uma figura” (<xref ref-type="bibr" rid="B14"> Orsini, 1995</xref>). Nesse caso, a analista responsável pelo tratamento segue as pistas fornecidas por um paciente, como o personagem Espinosa; enquanto via o desenho feito pelo garoto, delineava-se em sua mente a ideia da trama das <italic>facilitações</italic> (Freud, 1895, <italic>Projeto</italic>), caminhos facilitadores de trilhas associativas ligando tramas dispersas - em alemão, <italic>Bahnungen. </italic>A analista, aliás, ressaltou o fato de essa ideia ter-lhe servido para estabelecer uma interpretação para organizar o material para si.</p>
         <p>Da mesma forma, neste artigo, algo semelhante ocorreu; uso de uma metáfora policial para pensar a ligação entre as séries de conferências, um campo a explorar, uma investigação que não foi baseada só em neurologia, mas em bruxas, romances policiais e em um parágrafo da carta 52 de Freud a Fliess, que descreve uma metamorfose quando o “traço começa a tornar-se escritura” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Garcia-Roza, 2002</xref>, p. 203). Supus que entre esses textos tenha havido um <italic>reordenamento ou retranscrição</italic> aos quais Freud se refere na missiva a Fliess - o material metapsicológico que estava ordenado segundo determinados nexos, passou a ser ordenado de outra forma. Algo muito simples, dirá o leitor, um relacionamento íntimo, familiar... mas <italic>estranho</italic>.</p>
         <p>Se lermos ambas as séries de conferências consecutivamente, observaremos que essa ideia prossegue, que existe a sobrevivência de organizações anteriores. Pode-se dizer que há na memória um papel central: a leitura de ambos os artigos nos coloca em contato com a teoria original de Freud, segundo a qual a memória não surge posteriormente, mas é o germe do aparelho psíquico, trilha - não há psíquico sem memória.</p>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Conclusão</title>
         <bold> </bold>
         <p>No Resumo deste artigo estabeleci que usaria duas obras de Freud, <italic>Conferências introdutórias à psicanálise</italic> (1916-1917) e <italic>Novas conferências introdutórias à psicanálise </italic>(1933) para conjecturas. A relação dialética entre elas criou um propósito intelectual: o estudo desses textos em conjunto mostra a importância das fases históricas da teoria da psicanálise, proporcionando maior compreensão de seu pensamento; mostra a oportunidade para caminhos novos de leitura, de forma a promover pensamentos independentes, como a ideia de <italic>repetição do mesmo</italic> e de <italic>repetição diferencial</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcia-Roza, 1999</xref>, p. 44).</p>
         <p>Nessas duas séries de conferências, algo interessante surpreende: a repetição não tem relação com generalidades, nem gera semelhança, mas gera o oposto, teria mais a ver com algo singular e único - “não é acrescentar uma segunda e uma terceira vez à primeira, mas conduzir a primeira à enésima potência” (Deleuze, 1968, como citado em <xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcia-Roza, 1999</xref>, p. 44).</p>
         <p>Escrito com um intervalo de quinze anos, o segundo conjunto de conferências freudiano apresentou fatos inteiramente novos, em relação aos quais utilizamos a ficção para pensar questões de inspiração psicanalítica. O mecanismo originalmente observado no <italic>Projeto para uma psicologia científica</italic>, descrito na carta 52, de 6 de dezembro de 1896, remetida para Fliess, mostrou que a estratificação sucessiva e o reordenamento dos traços mnêmicos segundo novos nexos também ilustra o reordenamento que Freud teria feito com a metapsicologia, resultando nas <italic>Novas conferências introdutórias.</italic> Essa conjectura também percorreu esse possível reordenamento da metapsicologia em suas inscrições e retranscrições, considerando que uma parte decorre ou está mais ligada ao texto de 1895 e parte dela aponta para além de 1900. </p>
         <p>Este artigo foi atravessado pela metapsicologia contida nessas duas publicações, ou bruxas, que encantam como equivalentes do feminino, e foi literalmente perpassado por esse tema que tanto instigou Freud; tangenciou a “estranheza” que se apoderou dele ao relacionar-se com Thomas Mann e entendeu que as <italic>Novas conferências</italic> foram mais uma tentativa de responder às perguntas sem respostas, como as suscitadas pelo fenômeno da telepatia e a feminilidade.</p>
         <p>A questão do feminino só será repensada nas descobertas da psicanálise infantil, por autores e artigos kleinianos, com o advento das observações do psiquismo precoce da menina. Mas Freud teria pressentido esse fato; daí sua advertência “para aqueles que insistem em não acreditar em bruxas”: saibam “que elas existem. Pelo menos a bruxa da metapsicologia” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Garcia-Roza, 2002</xref>, p. 13).</p>
         <p>
            <italic>Was will das Weib</italic>? O que deseja uma mulher? Foi essa a pergunta que fez Freud tornar a invocar as bruxas? Talvez, porque elas voltaram e o ajudaram a escrever, em 1931 e 1933, os artigos que constarão em <italic>Novas conferências introdutórias</italic>; deram uma mão, também, na redação de <italic>Sonhos e ocultismo,</italic> mas, em seguida, decerto o abandonaram, não tendo aceito o julgamento freudiano segundo o qual a mulher virtualmente seria um homem que fracassou.</p>
      </sec>
   </body>
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         <title>Referências</title>
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