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            <journal-title>Psicologia em Pesquisa</journal-title>
            <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. pesq.</abbrev-journal-title>
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         <issn pub-type="epub">1982-1247</issn>
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            <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.34019/1982-1247.2024.v18. 37351</article-id>
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            <article-title>A produção conceitual como construtivismo esquizoanalítico: máquinas desejantes</article-title>
            <article-title>Área de Pesquisa: História e Filosofia da Psicologia</article-title>
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               <trans-title>The conceptual production as schizoanalytic constructivism: desiring machines</trans-title>
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               <trans-title>La producción conceptual como constructivismo esquizoanalítico: máquinas deseantes</trans-title>
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            <contrib contrib-type="author">
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                  <given-names>Wagner Honorato</given-names>
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                  <sup>1</sup>
               </xref>
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            <contrib contrib-type="author">
               <contrib-id contrib-id-type="orcid"> https://orcid.org/0000-0002-4862-2912</contrib-id>
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                  <surname>Silva</surname>
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                  <sup>2</sup>
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            <corresp id="c1">Informações do Artigo: <label>Wagner Honorato Dutra </label>
               <email>wagnerhonoratodutra@hotmail.com</email>
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         <abstract>
            <title>RESUMO</title>
            <bold> </bold>
            <p>Propomos analisar dois usos conexos que Deleuze e Guattari fazem da noção de construtivismo em O Anti-Édipo. O primeiro é relativo à designação do conceito de máquina desejante e o segundo é vinculado aos procedimentos de sua criação. Avaliamos essas referências com base no texto antiedipiano e, concomitantemente, em interlocução com os campos da psicologia (construcionismo social) e da filosofia bakhtiniana. Concluímos que o construtivismo é a base da construção escrita deleuzo-guattariana de invenção conceitual, sendo o próprio texto um plano de imanência.</p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>ABSTRACT</title>
            <bold> </bold>
            <p>We propose to analyze two related uses that Deleuze and Guattari make of the notion of constructivism in The Anti-Oedipus. The first is related to the designation of the concept of the desiring machine and the second is linked to the procedures of its creation. We evaluate these references based on the Anti-Oedipus text and, concomitantly, in interlocution with the fields of psychology (social constructionism) and Bakhtinian philosophy. We conclude that constructivism is the basis of the Deleuzo-Guattarian written construction of conceptual invention, the text itself being a plane of immanence.</p>
         </trans-abstract>
         <trans-abstract xml:lang="es">
            <title>RESUMEN</title>
            <bold> </bold>
            <p>Nos proponemos analizar dos usos relacionados que Deleuze y Guattari hacen de la noción de constructivismo en El Anti Edipo. El primero  está relacionado con la designación del concepto de máquina deseante y el  segundo con los procedimientos de su creación. Evaluamos  estas referencias a partir del texto del Anti Edipo y, concomitantemente, en interlocución con los campos de la psicología (construccionismo social) y la filosofía bajtiniana.  Concluimos que el constructivismo es la base de la construcción escrita deleuzo-guattariana de la invención conceptual, siendo el propio texto un plano de inmanencia.</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>PALAVRAS-CHAVE:</title>
            <kwd>Construtivismo</kwd>
            <kwd>Esquizoanálise</kwd>
            <kwd>Conceitos</kwd>
            <kwd>Criação</kwd>
            <kwd>Produção</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>KEYWORDS:</title>
            <kwd>Constructivism</kwd>
            <kwd>Schizoanalysis</kwd>
            <kwd>Concepts</kwd>
            <kwd>Creation</kwd>
            <kwd>Production</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="es">
            <title>PALABRAS CLAVE:</title>
            <kwd>Constructivismo</kwd>
            <kwd>Esquizoanálisis</kwd>
            <kwd>Conceptos</kwd>
            <kwd>Creación</kwd>
            <kwd>Producción</kwd>
         </kwd-group>
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   <body> 
      <p> 	Numa primeira aproximação de <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>), a começar pela leitura do título, temos a impressão de se tratar de um manifesto de contestação à psicanálise. Afinal, não faltam exemplos nos quais os autores, Gilles Deleuze e Félix Guattari, dizem coisas que apontam para essa direção. Na obra que inicia a produção colaborativa da dupla encontramos, sem muito esforço, provocações como essas:</p>
      <disp-quote>
         <p>Será possível que, assim, a psicanálise retome a velha tentativa de nos rebaixar, de nos aviltar e de nos tornar culpados? . . . A psicanálise envolve a loucura num ‘complexo parental’ e reencontra a confissão de culpabilidade nas figuras de autopunição que resultam do Édipo . . . A psicanálise se inclui na obra mais geral da repressão burguesa, aquela que consistiu em manter a humanidade europeia sob o jugo do papai-mamãe, e a não dar um fim a esse problema. . . . Com a psicanálise passa-se o mesmo que com a Revolução Russa - nunca sabemos quando as coisas começaram a ir mal . . . Nunca a psicanálise mostrou tão bem seu gosto em apoiar o movimento da repressão social e dele participar com todas as suas forças (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>, pp. 70-112).</p>
      </disp-quote>
      <p>Esses trechos reforçam a impressão de que <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>), é uma espécie de manifesto antipsicanalítico organizado em torno de certo número de suas elaborações teóricas, a começar pelas de Freud. Neles identificamos um viés contestatório-argumentativo que problematiza a validade e as consequências clínico-políticas de alguns dos construtos teóricos freudianos. Essa formulação é atraente, mas demasiadamente simplificadora.</p>
      <p>
         <xref ref-type="bibr" rid="B27">Sibertin-Blanc (2010</xref>) explica que o escopo crítico do livro é mais abrangente, já que trata não somente de temáticas vinculadas a formações discursivas e dos saberes da psicanálise, mas também dos conjuntos ou agenciamentos complexos dos quais fazem parte. Esse autor identifica três linhas de questionamentos em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>). A primeira consiste em uma crítica social da codificação familista das condutas dos indivíduos. O segundo conjunto de problematizações dirigem-se ao processo de edipianização inconsciente empreendido pela psicanálise. O último diz respeito à crítica endereçada às estruturas de exploração e dominação da sociedade capitalista e aos seus modos de subjetivação. Esses questionamentos são alinhavados por uma estratégia argumentativa que atravessa todo o plano da obra. Ela consiste em conectar o desejo inconsciente com o campo social e a atividade analítica.</p>
      <p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B27">Sibertin-Blanc (2010</xref>), Deleuze e Guattari criam um novo campo problemático para o desejo e para os seus processos inconscientes, por meio da junção entre teoria e prática. Eles não querem, com isso, promover uma reforma interna da psicanálise, das suas escolas, dos seus saberes ou das suas práticas. A esquizoanálise busca operar uma transformação radical na analítica dos processos inconscientes do desejo, com vistas a conectá-los à dimensão histórica das lutas sociais. Não se trata, portanto, de substituir um domínio por outro, mas de extrair as consequências teóricas e práticas decorrentes de tal conexão.</p>
      <p>
         <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>) é, nesse sentido, muito mais do que um manifesto político-contestatório endereçado à psicanálise e ao estruturalismo. Aliás, inúmeros comentadores (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Holland, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Sauvagnargues, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Sibertin-Blanc, 2010</xref>) ressaltam a complexidade da obra explorando suas múltiplas facetas. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bouaniche (2008</xref>), inspirado na análise que <xref ref-type="bibr" rid="B7">Deleuze (1973/2010</xref>), faz do pensamento nietzschiano, define <italic>O Anti-Édipo </italic>como um processo de descodificação generalizada dos fluxos que desfaz e desestabiliza as estruturas constituídas. O texto antiedipiano exerce uma função político-crítica que tenciona os limites impostos pelos sistemas representacionais normalizantes. </p>
      <p>Por esse prisma, a obra é vista como um livro-corpo-sem-órgãos, isto é, uma superfície a-centrada, na qual os elementos compõem arranjos provisórios e cambiantes. Isso se deve ao fato de o texto antiedipiano ser construído numa lógica de funcionamento baseada no uso intensivo da linguagem (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>). Tal como ocorre na literatura menor kafkiana - para empregarmos uma terminologia deleuze-guattariana -, <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>). É o exemplo prático de uma máquina de expressão revolucionária capaz de “quebrar as formas, marcar as rupturas e as ligações novas . . . reconstruir o conteúdo que estará necessariamente em ruptura com a ordem das coisas” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Deleuze &amp; Guattari, 1975/2014</xref>, p. 58).</p>
      <p>Animados pela potência criativa, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>) não param de criar bricolagens conceituais capazes de conectar o pensamento a modalidades de expressão heterogêneas, tais como a arte, a literatura, a filosofia, a antropologia, e assim por diante. <xref ref-type="bibr" rid="B19">Holland (1999</xref>) chama a atenção para a tendência dessa profusão de temas e de articulações teóricas improváveis provocar no leitor um efeito desconcertante. Ele observa, com razão, que o texto não oferece pontos explícitos de ancoragem disciplinar, nem organiza suas teses e argumentos em uma estrutura linear. Leitores não familiarizados com este tipo de discurso podem, por isso, considerar <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>). um texto delirante que celebra o naufrágio do sujeito na desordem do caos (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Martin, 2005</xref>).</p>
      <p>Há muitos fatores que justificam afetações desse tipo. O estilo aforístico é um deles, mas não o único a provocar o efeito de estranhamento do leitor com a obra. Outro dificultador se relaciona, como foi dito, à profusão das teorias e de campos dos conhecimentos abordados. Os autores fazem menção à matemática, à mitologia, aos diferentes modelos linguísticos, às abordagens psicanalíticas, à psicoterapia institucional, às teorias freudo-marxistas, ao cinema, à literatura. A lista dos domínios abarcados é mais extensa que isso, o que inviabiliza, em certa medida, o enquadramento da obra em um único gênero (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>).</p>
      <p>
         <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>) é uma atividade cartográfica que não se deixa capturar por quaisquer fórmulas axiológicas. Isso, entretanto, não significa dizer que o texto seja um exercício de associação livre ou o fruto de confabulações teóricas aleatórias. Nesse artigo mostraremos que o texto antiedipiano funciona numa lógica construtivista que faz da criação conceitual o substrato que lhe dá sustentação. O texto é, desse modo, um plano de imanência, cuja lógica de funcionamento e de composição se confunde com a atividade ligada à criação de conceitos (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Deleuze, 1992</xref>).</p>
      <p>Partindo dessa tese, propomos analisar dois usos conexos que <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>) fazem da noção de construtivismo. O primeiro é relativo à designação do conceito de máquina desejante e o segundo é vinculado aos procedimentos de sua criação. Iniciamos nossas análises explorando as duas acepções que, a nosso ver, o termo construtivista contraí em três referências feitas por Deleuze e Guattari em diferentes contextos. Avaliaremos essas referências com base no texto antiedipiano e, concomitantemente, em interlocução com os campos da psicologia (construcionismo social) e da filosofia bakhtiniana. Feito isso, analisaremos certos componentes teóricos pertinentes ao conceito de máquina desejante, tratando-os como analisadores que nos ajudam a compreender o próprio empreendimento deleuze-guattariano de escrita. Faremos isso a partir de alguns acoplamentos que os autores estabelecem com Karl Marx e Immanuel Kant no processo de criação desse conceito. </p>
      <sec>
         <title>Usos e Sentidos do Construtivismo</title>
         <p>Deleuze e Guattari, em inúmeras ocasiões, atribuem às obras produzidas em parceria uma lógica processual que eles qualificam de construtivista. Deleuze em diálogo com Claire Parnet atribui a Guattari um papel determinante em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>), em especial, na elaboração de “uma concepção construtiva, construtivista do desejo” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Deleuze &amp; Parnet, 1988</xref>, p. 18). No prefácio à edição italiana de Mil Platôs, cujo conteúdo, aliás, é reproduzido na edição brasileira, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze e Guattari (1980/1996</xref>) qualificam a obra de 1980 como o resultado de um projeto “construtivista” (p. 10). Nota-se que nos referidos prefácios, o termo construtivista é escrito entre “aspas”, o que nos leva a considerar que a utilização desse recurso visa sinalizar ao leitor que a palavra construtivista está sendo usada fora do contexto habitual. </p>
         <p>Em certa medida, o sentido e os pressupostos que esse termo parece abarcar relacionam-se com o movimento que, em psicologia, conhecemos como construcionismo social. Trata-se de um movimento dentro da Psicologia Social contemporânea ou pós-moderna, cujos precursores foram os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann com a obra <italic>The Social Construction of Reality: A Treatise in the Sociology of Knowledge </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B2">Berger &amp; Luckmann, 1966/2004</xref>), originalmente publicada em 1966 e conhecida como a obra básica do construtivismo social. O argumento principal dos autores no livro é a compreensão da realidade como construção social, entendimento ao qual estão implicadas as noções de realidade, como algo ontologicamente tomado em sua independência da nossa vontade, e de conhecimento, como certezas construídas sobre coisas específicas tomadas como reais (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Berger &amp; Luckmann, 1966/2004</xref>).</p>
         <p>Inspirado por Berger e Luckaman, emerge o construcionismo social, com os psicólogos sociais Kenneth Gergen e John Shotter. Estes buscavam, no âmbito da Psicologia Social, lançar mão de outra leitura sobre o que convencionamos ser a realidade, que não a constituída na ciência moderna positivista e empirista - realidade como objeto - de modo a compreender os termos que utilizamos para dar realidade ao mundo de forma contingente, ou histórico-social-cultural, e pragmática, ou relacionada a seu uso (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Gergen, 2009</xref>). Como pressupostos, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B5">Castañon (2005</xref>), o construcionismo social defende ser o conhecimento uma construção linguística da realidade, não representacional, partilhada por determinada comunidade linguística-cultural (aproximando-se de Wittgenstein), que possui consequências práticas para o funcionamento cotidiano. Para a Psicologia Social, esse movimento representou, ao estar assentado na chamada tradição pós-moderna de conhecimento, a transformação dos fenômenos tradicionalmente psicológicos, como a mente e o comportamento, para relações com base em convenções linguístico-culturais em determinado contexto sócio-histórico (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Castañon, 2004</xref>).</p>
         <p>O termo construtivismo, diferentemente, é geralmente usado em Psicologia em associação à Epistemologia Genética piagetiana. O construtivismo em Piaget é o modo pelo qual o sujeito constrói esquemas e estruturas que o permitem conhecer e aprender, através dos processos de assimilação e acomodação. Nesse sentido, o sujeito é ativo no processo de conhecimento das coisas, tanto quando precisa assimilar novas experiências e informações em seus esquemas, quanto quando precisa transformar seus esquemas de modo a acomodar novas experiências e informações (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Castañon, 2005</xref>).</p>
         <p>Diante do exposto, de forma bem simplificada, podemos afirmar que a diferença principal entre o construtivismo piagetiano e o construcionismo social se dá, principalmente, pelo lugar da agência do sujeito no processo de construção de conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Piaget, 1971</xref>). Para <xref ref-type="bibr" rid="B25">Piaget (1971</xref>), o sujeito serve de categoria de análise privilegiada, uma vez que ele descreve e compreende a produção de esquemas e estruturas na experiência de contato com o mundo, seus objetos e informações.</p>
         <p>As referências que <xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze e Guattari (1988 /1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">1972/2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B12">1975/2014</xref>) fazem ao construtivismo, por sua vez, remetem a diferentes aspectos, dentre os quais destacam-se tanto os conteúdos trabalhados conceitualmente quanto a lógica de escrita processual pela qual os conceitos são maquinados. A interdependência entre as funções de designação conceitual e procedimental decorre de uma filosofia notadamente pragmática que sustenta a atividade do pensamento na experiência vivida. Em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>) essa correspondência também se faz presente.</p>
         <p>Tomemos o conceito de máquina desejante como analisador da função de designação conceitual. Ele responde, dentre outras coisas, ao esforço empreendido por Deleuze e Guattari (<xref ref-type="bibr" rid="B11">1972/2010</xref>) de situar o desejo e os processos sócio-históricos num mesmo plano de imanência. Com efeito, a máquina desejante é concebida à margem das ontologias que dão sustentação às concepções teóricas que derivam em processos psicológicos de esquemas desenvolvimentistas e teleológicos centrados em dicotomias. Ela é “uma multiplicidade de elementos distintos ou de formas simples, e que estão ligados sobre o corpo pleno de uma sociedade” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>, p. 532).</p>
         <p>O desejo antiedipiano é movido por uma potência conectiva e construtiva que difere radicalmente de tudo aquilo que via Freud, Piaget - e tantos outros - foi codificado em termos de fases, evolução e assim por diante (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>). Visto pelo prisma de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>), o desejo - em contraste com a tradição de pensamento majoritária no ocidente -, consiste num processo não representacional, cujo funcionamento se dá por meio de conexões e acoplamentos de componentes que não são necessariamente sociais e/ou psicológicos. Na verdade, os autores tentam criar uma visão de mundo na qual as estratificações, as hierarquias e as oposições nocionais - tais como ocorrem entre as categorias de indivíduo, sociedade, natureza, cultura, consciência, inconsciente -, deixam de ter relevância.</p>
         <p>Por conseguinte, as diferenças entre os processos sociais, econômicos e subjetivos se dão, não em razão da natureza que os constitui, mas em razão do tipo e do nível de análise pelos quais são avaliados, isto é, “há certamente uma distinção, mas apenas uma distinção de regime, segundo relações de grandeza” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>, p. 48). Essa tese é de suma importância para compreendermos como o construtivismo Deleuze-guattariano se expressa conceitualmente e, por extensão, no processo de escrita-pensamento elaborado por eles a quatro mãos. Vale ressaltar que ambas as funções construtivistas estão interligadas, mas, aqui, elas serão analisadas separadamente para oferecermos ao leitor uma visão mais clara do problema. Detemo-nos, entretanto, um pouco mais na análise do construtivismo aplicada à designação do conceito de máquina desejante. Há mais coisas que queremos dizer a respeito.</p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Conceitos e Polifonia</title>
         <p>Como foi dito, o termo construtivista, tal como aparece nos prefácios às edições italiana e brasileira de <italic>Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze &amp; Guattari,1982 /1996</xref>), dialoga com o construcionismo social, mas não se identifica com ele. Nota-se que o tipo de produção de conhecimento preconizado pelo construtivismo de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze e Guattari (1982 /1996</xref>) e pelo construcionismo social é de cunho pragmático, sócio-histórico e não representacional. Todavia, se analisarmos mais a fundo o conceito antiedipiano de máquina desejante e a noção de subjetividade associada a ele, constatamos algumas nuances que nos convidam a percorrer outros territórios. O diálogo, desta vez, se dá com a literatura dostoievskiana interpretada pela filosofia bakhtiniana. Não somos nós que sugerimos essa curiosa articulação, mas o próprio <xref ref-type="bibr" rid="B12">Félix Guattari (1987/2016</xref>) quem o faz em <italic>Caosmose</italic>. Ele evoca o nome Mikhail Bakhtin ao caracterizar a subjetividade como plural e polifônica. A noção bakhtiniana de polifonia é utilizada por ele nesse contexto para qualificar a subjetividade como um processo destituído de quaisquer elementos que atuem como instância dominante e como princípio causal. Na referida obra de <xref ref-type="bibr" rid="B16">Guattari (1992/2012</xref>, p. 11), ele argumenta: “A subjetividade, de fato, é plural, polifônica, para retomar uma expressão de Mikhail Bakhtin. E ela não conhece nenhuma instância dominante de determinação que guie as outras instâncias segundo uma causalidade unívoca”.</p>
         <p>É importante dizer que o conceito de polifonia é usado por <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bakhtin (2015</xref>) para explicar a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoievski, a saber, a existência de múltiplos personagens, cada um deles dotado de consciência imiscível. Para esse autor, os personagens dostoievskianos compõem uma autêntica polifonia ou multiplicidade de vozes que gozam de independência entre si e em relação à estrutura da obra.</p>
         <p>Aparentemente, as ideias de a-centramento e de composição orgânica de elementos heterogêneos são capturadas por <xref ref-type="bibr" rid="B16">Guattari (1987/2012</xref>) e acopladas à sua concepção de processo de subjetivação. Em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>) essa polifonia também se faz presente. No item anterior, sugerimos que o conceito de máquina desejante agencia num mesmo plano diferentes aspectos da realidade. Além disso, destacamos que nenhum desses componentes tem primazia ontológica, ou de qualquer natureza, sobre os outros. Isso significa que nenhum componente goza o status, a priori, de princípio ou de fundamento em relação aos demais. Tal prerrogativa, quando ocorre, se dá em razão de agenciamentos contingentes, configurações pragmáticas, e não em decorrência de supostas estruturas e esquemas permanentes. Isso não quer dizer que a subjetividade seja plenamente volátil e plástica, mas que ela pode ser pensada e vivida em “função de um processo de produção que é 17).</p>
         <p>A essa altura da nossa argumentação, a maneira como caracterizamos o o do desejo” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>, p. 
construtivismo deleuze-guattariano pode parecer ao leitor demasiadamente abstrata. No entanto, fomos categóricos ao dizer que o pensamento deleuze-guattariano é imanente à experiência vivida. Desse modo, o construtivismo de Deleuze e Guattari não subsiste apenas no campo das ideias. Chamamos a atenção, então, para o segundo aspecto que o uso das aspas na palavra “construtivista” convida-nos a problematizar. Trata-se da forma criativa e dialógica que os autores estabelecem com seus interlocutores e com eles constroem seus próprios conceitos (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze &amp; Guattari, 1982/1996</xref>). O construtivismo concebido nesses termos diz respeito à dimensão procedimental atualizada no processo de escrita. Em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>) existem inúmeros exemplos de aplicação do construtivismo procedimental de escrita, mas, para mostrarmos como ele funciona, julgamos que a análise de alguns acoplamentos que <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>) fazem com Marx e com Kant são suficientes.</p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Acoplamentos Conceituais com Marx e Kant</title>
         <p>Observamos, assim como ocorre com ensino lacaniano (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Dutra &amp; Couto, 2017</xref>), que os usos que Deleuze e Guattari fazem de Marx em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>) são complexos e atendem a múltiplas finalidades. O modo como <xref ref-type="bibr" rid="B17">Guéron (2020</xref>) identifica e analisa os diferentes componentes marxianos maquinados por Deleuze e Guattari reforça essa impressão. O autor nos ajuda a compreender, dentre muitas outras coisas, como noções e problematizações marxianas são usadas, por exemplo, para a sustentação da identidade entre a natureza e a cultura e na descrição do funcionamento do inconsciente maquínico. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B17">Guerón (2020</xref>), as articulações com Marx são decisivas para a elaboração de um conceito original que designa o desejo como pura força afirmativa e como positividade vital.</p>
         <p>Uma das articulações que <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>) fazem com Marx, diz respeito à incorporação de categorias trabalhadas pelo filósofo alemão, especialmente, em <italic>Introdução à contribuição à crítica da economia política </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B24">Marx, 1859/2008</xref>). Eles se baseiam nesse ensino, aparentemente, para demonstrar a tese de que o desejo e as organizações sociais são expressões de um só e mesmo ciclo produtivo.</p>
         <p>No referido texto, <xref ref-type="bibr" rid="B24">Marx (1859/2008</xref>) argumenta que a produção dos indivíduos é socialmente determinada. Ele parte do pressuposto de que o indivíduo produtor faz parte de um todo político-econômico, cujo funcionamento ocorre em momentos distintos, mas interdependentes e integrados a uma unidade orgânica. Em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>), por sua vez, os momentos do ciclo produtivo marxiano (a produção, a distribuição, a troca e o consumo) são incorporados à descrição operacional das máquinas desejantes. Como foi dito, eles são empregados no contexto argumentativo que estabelece a relação de identidade entre o desejo e a produção social. A estratégia argumentativa parece ser a seguinte: se o desejo e os grupos sociais possuem a mesma natureza, eles devem, então, ser regidos por uma lógica operacional semelhante. Logo, se no ciclo produtivo da economia política identificamos a produção, o registo, a circulação, a distribuição e o consumo, no desejo, esses mesmos elementos devem, também, se fazer presentes.</p>
         <p>De fato, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>) imputam ao desejo três tipos de processamentos que, em certa medida, contemplam as noções desenvolvidas por <xref ref-type="bibr" rid="B27">Marx (1859/2008</xref>). Todavia, o modo como essas operações são empregadas - produção, registro e consumo - não somente condensa as noções utilizadas por Marx (<xref ref-type="bibr" rid="B27">1859/2008</xref>), como complexifica, ainda mais, o seu uso. No texto antiedipiano, elas são caracterizadas como sínteses passivas do inconsciente em conexão com a filosofia kantiana (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>).</p>
         <p>Além da filosofia marxiana, Deleuze e Guattari (<xref ref-type="bibr" rid="B11">1972/2010</xref>) evocam Kant, ou melhor, aspectos pinçados da <italic>Crítica da Razão Pura</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Kant, 1781/2008</xref>), para explicitar a natureza produtiva do inconsciente. Esse acoplamento se apresenta como um artifício crítico-analítico, por meio do qual os autores descrevem o funcionamento do inconsciente e denunciam os equívocos que a psicanálise comete ao fazer um “mau uso” - antinomias - das sínteses que o constituem. <xref ref-type="bibr" rid="B8">Deleuze (1987/2016</xref>, p. 329) evidencia isso ao afirmar que <italic>O Anti-Édipo</italic>: </p>
         <disp-quote>
            <p>tinha uma ambição kantiana, era preciso tentar uma espécie de <italic>Crítica da razão pura</italic> no nível do inconsciente. Daí a determinação de sínteses próprias ao inconsciente; o desenrolamento da história como efetuação dessas sínteses; a denúncia do Édipo como “ilusão inevitável”, falsificando toda produção histórica.</p>
         </disp-quote>
         <p>Na avaliação de <xref ref-type="bibr" rid="B8">Deleuze (1987/2016</xref>), ele e seu companheiro de escrita operam no nível do inconsciente o que Kant realiza no âmbito epistemológico na <italic>Crítica da Razão Pura. </italic>Para entendermos essa analogia deleuziana, precisamos fazer uma digressão por algumas ideias do filósofo alemão.</p>
         <p>
            <xref ref-type="bibr" rid="B18">Hoffe (2005</xref>) explica que o projeto kantiano da primeira crítica pretende fundar uma nova posição do sujeito em relação à objetividade. Ele se volta contra as correntes de pensamento de sua época - o racionalismo, o empirismo e o ceticismo - para fundar uma filosofia transcendental que se preocupa menos com os objetos do que com o modo de conhecê-los. Kant pretende, portanto, desvendar as condições prévias da experiência consciente, isto é, a estrutura pré-empiricamente válida de toda experiência atribuível ao sujeito.  </p>
         <p>Trata-se, portanto, de uma teoria que demonstra, dentre outras coisas, a existência de uma tríplice síntese necessária a todo conhecimento, a saber: a síntese da apreensão das representações como modificação do espírito na intuição, a síntese da reprodução dessas representações na imaginação e a síntese da sua recognição no conceito. Essas três sínteses são para <xref ref-type="bibr" rid="B20">Kant (1781/2008</xref>) “as três fontes subjetivas do conhecimento que tornam possível o entendimento e, mediante este, toda a experiência considerada como um produto empírico do entendimento” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Kant, 1781/2008</xref>, p. 134). </p>
         <p>Os usos que <xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze e Guattari (1972/2010</xref>) fazem dos conceitos de síntese e de transcendental se distinguem da forma como Kant os emprega em seu sistema filosófico. Aliás, esse procedimento apropriativo do pensamento kantiano não é novidade, pelo menos para Deleuze. Em <italic>Diferença e Repetição</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Deleuze, 1968/2018</xref>), por exemplo, ele distingue três modos de temporalização (sínteses), a saber: as repetições do hábito, as repetições da memória e as repetições do eterno retorno. Nesse desenho teórico, a primeira síntese constitui a territorialidade das outras duas que, por sua vez, concernem ao tempo circularmente (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Lapoujade, 2015</xref>). </p>
         <p>
            <xref ref-type="bibr" rid="B9">Deleuze (1968/2018</xref>) realiza em seu livro uma paródia da <italic>Crítica da Razão Pura</italic>, pela qual ele pinça as suas três grandes partes - a Estética (teoria da sensibilidade), a Analítica (teoria do objeto) e a Dialética (teoria da ideia) -, transformando-as em operações constitutivas do inconsciente. Sob essa ótica, a tópica freudiana é posta em correspondência com a tripartição kantiana, de modo a permitir a construção de “uma Estética para o Id, uma Analítica para o Ego e para o Ideal do ego e uma Dialética para o Superego” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Lapoujade, 2015</xref>, p. 99). </p>
         <p>As bricolagens<xref ref-type="fn" rid="fn1">
               <sup>1</sup>
            </xref> deleuzianas não param por aí. Enquanto Kant define o transcendental como campo decalcado do empírico - condição a priori de possibilidade - Deleuze baseia-se em situações concretas para demonstrar que não há sobredeterminação entre esses termos. Ele torce o transcendental abrindo-o sobre o empírico em uma montagem conceitual engenhosa - empirismo transcendental - que conecta dois segmentos teóricos aparentemente antagônicos (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Sauvagnargues, 2009</xref>).</p>
         <p>Vale ressaltar que, no desenvolvimento ulterior do pensamento deleuziano, o conceito de campo transcendental é substituído pelo de plano de imanência. Este último é elaborado a partir das leituras da filosofia de Espinosa e possui um sentido solidário ao de acontecimento. Podemos defini-lo como o momento no qual o transcendental “se mostra dependente da tomada de consistência de uma experiência ‘real’ - dependente . . . da alteração das condições sob as quais algo é reconhecido como possível” (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Zourabichvili, 2016</xref>, p. 32).</p>
         <p>A crítica antiedipiana, por sua vez, atualiza os traços do acoplamento Deleuze-Kant para explorar um inconsciente material, esquizofrênico, não figurativo, real, maquínico e, por conseguinte, contrapor às noções de interioridade subjetiva, inconsciente metafísico, ideológico, edipiano, figurativo, simbólico. O conceito de máquina desejante é forjado, então, a partir do acoplamento que agencia ideias marxianas - ciclo produtivo (produção, registro e consumo) - e kantianas - transcendental e sínteses. Apesar disso, não podemos dizer que o procedimento de elaboração desse conceito seja mera captura e aplicação de noções setoriais de Kant e de Marx. O processo é mais complexo do que isso e envolve o diálogo com outros autores e teorias (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>).</p>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Considerações Finais</title>
         <p>		O processo construtivista de criação conceitual em Deleuze e Guattari pode ser demonstrado aqui a partir do conceito de máquinas desejantes, em <italic>O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Deleuze &amp; Guattari, 1972/2010</xref>). Como vimos, os autores trataram de conceber o construtivismo não apenas como projeto da própria Filosofia, mas como o procedimento de produção de sua escrita-a-dois. O construtivismo, então, aparece como um agenciamento próprio aos conceitos e também ao seu modo de invenção escrita.</p>
         <p>		As conexões que realizamos neste artigo entre o construtivismo social e o construcionismo social, embora sintéticas, nos permitiram ver que os sentidos se aproximam quando pensamos no projeto da Esquizoanálise. É cabível, ainda, a análise de outros conceitos que possam demonstrar como se desenvolve na escrita deleuzo-guattariana a invenção, a criação, enfim, a maquinação conceitual. Destacamos as contribuições centrais de Marx e Kant para a elaboração da compreensão de máquinas desejantes e, com uma leitura mais acurada, vamos identificando outros territórios de sentidos possíveis através das conexões que realizam com os vários campos de saberes, tais quais a antropologia, as artes visuais, a literatura.</p>
         <p>		Deleuze e Guattari, portanto, não apenas utilizam o sentido do construtivismo, mas o demonstram através de sua vasta produção conceitual. Suas contribuições extrapolam a empreitada filosófica na medida em que fazem outros, <italic>n-1</italic>
            <xref ref-type="fn" rid="fn2">
               <sup>2</sup>
            </xref>, sentidos possíveis de uma elaboração conceitual, permitindo a expansão dos modos de subjetivação em direção à polivocidade.</p>
      </sec>
   </body>
   <back>
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         <title>Referências</title>
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      <fn id="fn1" fn-type="other">
         <label>1</label>
         <p> O termo francês bricolage aparece na obra de Levi-Strauss ([xref ref-type="bibr" rid="r22"]1962/2008[/xref]) para designar o produto de uma atividade técnica artesanal, que é composto por elementos de origens distintas e cuja disposição é contingente, não planejada. Tal atividade se fazia presente dentre povos primeiros. Ao diferenciar na ciência dois modos ou níveis de sua expressão, a saber: o vinculado à sensibilidade, à intuição e à imaginação; e o outro vinculado à racionalidade[xref ref-type="bibr" rid="r22"]; Levi-Strauss (1962/2008[/xref]) identifica na atividade do bricoleur elementos do primeiro modo de ciência, ou o que também nomeia como “reflexão mítica” (p. 33).</p>
      </fn>
      <fn id="fn2" fn-type="other">
         <label>2</label>
         <p>Ao discutirem o livro como raiz, remetendo à sua característica unívoca ou total, propõem um outro sistema, o rizoma, sendo <italic>n-1</italic> um modo de expressão em que o uno está sempre subtraído do múltiplo (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Deleuze &amp; Guattari, 1980/1996</xref>).</p>
      </fn>
   </back>
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