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            <journal-title>Psicologia em Pesquisa</journal-title>
            <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. pesq.</abbrev-journal-title>
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         <issn pub-type="epub">1982-1247</issn>
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            <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.34019/1982-1247.2023.v17.35847</article-id>
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               <subject>Articles</subject>
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            <article-title>A inspiração fenomenológica para a pesquisa em Psicologia<xref ref-type="fn" rid="fn1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>
            </article-title>
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               <trans-title>Phenomenological approach for research in Psychology</trans-title>
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               <trans-title>La inspiración fenomenológica para la investigación en Psicología</trans-title>
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            <contrib contrib-type="author">
               <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-5539-0304</contrib-id>
               <name>
                  <surname>Rocha</surname>
                  <given-names>Rita Martins Godoy</given-names>
               </name>
               <xref ref-type="aff" rid="aff1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>
            </contrib>
            <contrib contrib-type="author">
               <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-8422-8453</contrib-id>
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                  <surname>Cardoso</surname>
                  <given-names>Cármen Lúcia</given-names>
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               <xref ref-type="aff" rid="aff2">
                  <sup>2</sup>
               </xref>
            </contrib>
         </contrib-group>
         <aff id="aff1">
            <label>1 </label>
            <institution content-type="original">Universidade de Araraquara. E-mail: rmgrocha@uniara.com.br</institution>
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         <aff id="aff2">
            <label>2 </label>
            <institution content-type="original">Universidade de São Paulo. E-mail: carmen@ffclrp.usp.br</institution>
            <institution content-type="normalized">Universidade de São Paulo</institution>
            <institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo</institution>
            <country country="BR">Brazil</country>
            <email>carmen@ffclrp.usp.br</email>
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         <author-notes>
            <corresp id="c1">Informações do Artigo:
Rita Martins Godoy Richa
<email>rmgrocha@uniara.com.br</email>
            </corresp>
         </author-notes>
         <pub-date pub-type="epub">
            <year>2023</year>
         </pub-date>
         <volume>17</volume>
         <issue>3</issue>
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         <lpage>18</lpage>
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         <abstract>
            <title>RESUMO</title>
            <bold> </bold>
            <p>A Fenomenologia aparece como fonte inspiradora para a pesquisa em Psicologia, especificamente no campo da Saúde Mental. O objetivo do texto é expor conceitos fenomenológicos centrais e identificar a implicação desses conceitos à construção do conhecimento na Psicologia. As contribuições de Edmund Husserl foram resgatadas de modo a problematizar a herança em torno do Psicologismo e da pesquisa em ciências humanas com o rigor epistemológico nas dimensões intencional e intersubjetiva.</p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>ABSTRACT</title>
            <bold> </bold>
            <p>Phenomenology appears as an inspiring source for research in Psychology, specifically in the field of Mental Health. The purpose of the text is to expose the central phenomenological concepts and identify the implications of these concepts for the construction of knowledge in Psychology. Edmund Husserl's contributions were rescued in order to problematize the heritage around Psychologism and research in the human sciences with epistemological rigor in the intentional and intersubjective dimensions.</p>
         </trans-abstract>
         <trans-abstract xml:lang="es">
            <title>RESUMEN</title>
            <bold> </bold>
            <p>La fenomenología aparece como una fuente inspiradora para la investigación en Psicología, específicamente en el campo de la Salud Mental. El propósito del texto es exponer los conceptos fenomenológicos centrales e identificar las implicaciones de estos conceptos para la construcción del conocimiento en Psicología. Se rescataron los aportes de Edmund Husserl con el fin de problematizar el acervo en torno al Psicologismo y la investigación en las ciencias humanas con rigor epistemológico en las dimensiones intencional e intersubjetiva.</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>PALAVRAS-CHAVE:</title>
            <kwd>Pesquisa</kwd>
            <kwd>Psicologia</kwd>
            <kwd>Fenomenologia.</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>KEYWORDS:</title>
            <kwd>Research</kwd>
            <kwd>Psychology</kwd>
            <kwd>Phenomenology.</kwd>
         </kwd-group>
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            <title>PALABRAS CLAVE:</title>
            <kwd>Investigación</kwd>
            <kwd>Psicología</kwd>
            <kwd>Fenomenología.</kwd>
         </kwd-group>
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   <body>
      <p>Realizar uma aproximação com a Fenomenologia implica reconhecê-la como uma tendência de pensamentos complexa que traspassou os domínios da Filosofia e influenciou diversos campos do saber, entre os quais estão a Psicologia e a área da saúde mental (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Rocha, 2015</xref>). O presente ensaio pretendeu, por meio de uma aproximação com os escritos de Edmund Husserl, expor conceitos fenomenológicos centrais e identificar a implicação desses conceitos para a construção do conhecimento no campo da Psicologia. Partiu-se de uma análise teórica em uma dimensão longitudinal das obras desse autor em diálogo com outros pesquisadores, de modo a associar seus conceitos e suas ressonâncias com o fazer científico. A bibliografia estudada refere-se às obras centrais, com atenção à evolução do pensamento de Husserl.</p>
      <p>Edmund Husserl (1959-1938), como precursor da Fenomenologia, promoveu contribuições sobre a construção e a validade do conhecimento produzido. O autor, em seu contexto histórico, problematizou o processo de inversão do apreço público sobre a ciência à época centrada na Filosofia Positivista, com destaque para o pensamento de Auguste Comte (1798-1857). A produção de uma ciência de fatos, neutra e objetiva, segundo Husserl (1926-38/2012), excluiu justamente as questões que para os homens seriam as mais prementes: “questões acerca do sentido ou ausência de sentido de toda esta existência humana” (Husserl, 1926-38/2012, p. 3). As ciências humanas ou as ciências do espírito voltavam a atenção ao humano, mas a busca por uma cientificidade rigorosa fez com que seu investigador realizasse uma exclusão cuidadosa de posições valorativas acerca das razões e sentidos da humanidade. Como consequência, ocorreu um contínuo esvaziamento do conhecimento que, pautado em fatos e verdades tidas como óbvias, deixa de ser retomado e revisto em sua fonte. </p>
      <p>Husserl (1926-38/2012) esclareceu que nem sempre houve esse ímpeto e exigência para uma verdade rigorosamente fundamentada na objetividade e universalidade das ciências positivas. Retoma a origem dessa busca e encontra resposta em um processo de valorização da razão dos fatos que decapitou os pressupostos de uma Filosofia una, a qual englobaria “ciências no plural”, com uma metodologia de inteleção apodítica<xref ref-type="fn" rid="fn2">
            <sup>2</sup>
         </xref> mantendo um progresso contínuo e racionalmente ordenado em pesquisas. Segundo o autor, o que ocorreu, entretanto, foi o desenvolvimento das especializações que não mais se reuniam, mas se desalojavam entre si, e tomavam como verdades pensamentos baseados em uma transposição, muitas vezes infundada, da matemática para o mundo da vida e dos homens, em especial, pelos exemplos da geometria aplicada e dos desdobramentos da Física desde Galileu. Nesse processo, questões metafísicas relacionadas à imortalidade, ao problema teleológico, à questão da liberdade deixavam de ser o foco por ultrapassarem o universo dos fatos, ao mesmo tempo em que crescia a apresentação de resultados práticos e teoréticos da ciência positivista que ganharam status de valor e verdade. </p>
      <p>Esse processo representou para a Filosofia um problema, dada à crise frente à impossibilidade de construir um pensamento universal sobre o mundo, segundo seu ideal originário. Ao mesmo tempo, apesar de não atingidas diretamente em seus resultados práticos, as ciências especializadas também sofreram um abalo em seu sentido de produção de “verdades”, uma vez que foram fundadas, indiscutivelmente, em uma compreensão racionalista e filosófica (Husserl, 1926-38/2012). Conforme ressaltou: “O ceticismo em relação à possibilidade de uma metafísica, o desmoronamento da crença numa filosofia universal como condutora, significa precisamente o desmoronamento da crença <italic>na razão</italic>” (Husserl, 1926-38/2012, p. 9).</p>
      <p>As chamadas ciências dos fatos foram alvo de uma reflexão crítica para Husserl (<xref ref-type="bibr" rid="B9">1913/2006</xref>). Esse modelo de ciência, de identificação empirista,<xref ref-type="fn" rid="fn3">
            <sup>3</sup>
         </xref> tinha como suposto mérito ter libertado os homens das assombrações filosóficas, pautando-se apenas na efetividade real e experimental. Aquilo que não cabia ao fato efetivo e demonstrável passou a ser considerado como mera imaginação ou construção especulativa. A questão que preocupava Husserl (1926-38/2012) foi a fundamentação desse pensamento, que passou a identificar as “coisas” como “coisas naturais” em uma efetividade natural, destituindo os juízos e as intuições doadoras de sentido. A pergunta de Husserl (1900/2012) para o empirismo envolvia a identificação sobre a fonte de validez das suas teses gerais naturalistas que, por sua vez, encontrava resposta em um contrassenso, pois o experimentalismo empirista, segundo Husserl (1900/2012), recorreu à indução e à inferência para a obtenção de proposições gerais. A inferência e a indução, por outro lado, partem de uma transposição de pressupostos ideais para o mundo, a qual não demonstrou clareza de fundamentos. Husserl (1926-38/2012) exemplifica com a atividade dos físicos modernos que, apesar de trabalharem com fórmulas numéricas, destituíram progressivamente seu valor fundamentalmente pensante, pautado em uma idealidade e matematização que dependem, necessariamente, do trabalho reflexivo humano com crítica às obviedades e aos pressupostos dados como certos.</p>
      <p>O oposto para Husserl também foi motivo de questionamento, no sentido daqueles que defendem a existência de um pensar puro inquestionável que rejeita a intuição de coisas dadas como objetos.<xref ref-type="fn" rid="fn4">
            <sup>4</sup>
         </xref> Nesse caso, o diálogo de Husserl (1900/2012) deu-se com os idealistas, partindo de um questionamento sobre o significado de evidência. Para os idealistas, a evidência de um conhecimento não chega a estar ligada à relação de intuição para algo que é visto, mas como um <italic>sentimento </italic>de evidência. Essa noção de sentimento arrisca-se a encerrar as análises na interioridade, na mente singular, implicando um <italic>Psicologismo</italic>, em que a ocorrência válida é a expressão do mundo e do conhecimento mediado, exclusivamente, por nosso aparato reflexivo, único e ideal. </p>
      <p>Nesse movimento contestador, Husserl, influenciado por reflexões como de Franz Brentano (1838-1917), seu professor em Viena, passou a nutrir grande interesse pelo novo campo científico da Psicologia e dos atos psíquicos. Brentano abriu caminho para a investigação das características específicas do psíquico, em contraste com a visão física que cindia aparatos internos e externos (Husserl, 1926-38/2012). Naquela época, a Psicologia firmava-se como uma ciência pelos moldes psicofísicos e factuais (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bello, 2006</xref>). </p>
      <p>Frente a esse contexto, Husserl (1913/2006) propõe o pensar fenomenológico, o qual resgata, em alguma medida, a busca pela construção de um conhecimento que reconheça as suas dimensões fundantes e essenciais. Em termos gerais, a dificuldade filosófica que afetou todos os campos do saber, imbuídos de centrar a origem do conhecimento em polaridades ideais ou factuais, promoveu um enfraquecimento analítico, cindindo forças e os ideais de universalidade. Husserl, na busca por uma nova maneira de construir o saber filosófico, afirmou ser necessário o retorno às “coisas” mesmas, ao fundamento, aos princípios, ao que é tido como óbvio, no processo de construção do conhecimento sobre o mundo, valorizando a nossa capacidade de intuir algo que está no mundo (Husserl, 1900/2012).</p>
      <p> Para tanto, a partir de um processo de construção lógica e na busca por ressaltar a intuição doadora de sentido, aponta que a consciência somente é possível quando em relação a algo. Husserl (1913/2006) consolida em meio às questões originais, a consciência intuitiva ou intencional<italic>, </italic>em que toda consciência só é, por ser consciência de algo. Tal pressuposto ampara a busca por uma ciência de essências, de fundamentos claros, cuja apreensão envolve um ato multiforme, um ato doador. O objeto deixa de ser compreendido como um objeto do fato, para existir como um objeto intencional, tal qual se manifesta a uma pessoa, segundo seus distintos modos de doação. </p>
      <sec>
         <title>O Método Inspirado nas Contribuições de Husserl</title>
         <bold> </bold>
         <p>Na concepção de conhecer um objeto intencional, Husserl (1913/2006) indica a necessidade de colocar os modelos preconcebidos fora do circuito; em outras palavras, Husserl, constitui um <italic>método de parentetização</italic>: </p>
         <disp-quote>
            <p>Colocamos fora de ação a tese geral inerente à essência da orientação natural, colocamos entre parênteses tudo o que é por ela abrangido no aspecto ôntico: isto é, todo este mundo natural que está constantemente “para nós aí”, “a nosso dispor” [...]. Se assim processo, como é de minha plena liberdade, então não <italic>nego</italic> este “mundo”, como se fosse sofista, <italic>não duvido de sua existência</italic>, como se fosse cético, mas efetuo a <italic>epoché</italic>
               <xref ref-type="fn" rid="fn5">
                  <sup>5</sup>
               </xref> fenomenológica [...]. Não se deve confundir a <italic>epoché</italic> em questão com aquela exigida pelo positivismo. Não se trata agora de tirar todos os preconceitos que turvam a pura objetividade da investigação, não se trata da constituição de uma ciência “livre de teoria”, “livre da metafísica”. [...] Aquilo que exigimos está em outro plano (Husserl, 1913/2006, p. 81). </p>
         </disp-quote>
         <p>O plano disposto por Husserl (1913/2006) propõe que todas as ciências e teorias produzidas sobre o mundo devam ser colocadas em suspensão, sem nenhum exame, mas também sem contestação, para que algo apareça. Implica restituir o mundo do <italic>eidos</italic>, o mundo em uma esfera essencial: ao suspendermos todo o fato, o que permanece? Em termos gerais, o intuito é adotar uma postura indicada como redução fenomenológica, onde a <italic>epoché</italic> é parte, abstendo-nos de realizar considerações sobre a existência ou não existência das coisas, para prestar atenção ao como as coisas são intuídas. A redução fenomenológica propõe, segundo Husserl (<xref ref-type="bibr" rid="B8">1907/1958</xref>), o entendimento da ciência como fenômeno e não como verdades vigentes que possam ser empregadas como hipóteses iniciais ou premissas, em sentido oposto à ideia de uma funcionalidade científica. Não se trata também de uma neutralidade, uma vez que a realidade das coisas que experienciamos não é negada, mas da busca de uma apreensão processual do que se propõe olhar para surpreender-se com o que dali emerge, elencando o que permanece à essência última do fenômeno. </p>
         <p>Conforme ressalta <xref ref-type="bibr" rid="B15">Merleau-Ponty, inspirado nas contribuições husserlianas (1973</xref>):</p>
         <disp-quote>
            <p>Suspendê-las, porém, não é negá-las e, menos ainda, negar o vínculo que nos liga ao mundo físico, social e cultural; ao contrário é vê-lo e ser dele consciente. É a redução fenomenológica e somente ela quem revela esta incessante e implícita afirmação, esta “tese do mundo” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Merleau-Ponty, 1973</xref>, p. 22).</p>
         </disp-quote>
         <p>Colocar a natureza, a matemática, a lógica em suspensão, promoveu um segundo movimento de reconhecimento transcendental<xref ref-type="fn" rid="fn6">
               <sup>6</sup>
            </xref> dos puros eventos de consciência intencional em que Husserl (1913/2006) estabeleceu uma longa reflexão sobre o eu essencial e seus atos transcendentais. Nesse aspecto, Husserl (<xref ref-type="bibr" rid="B10">1900/2012</xref>) aborda os atos/vivências intencionais e não intencionais (como a náusea, dor, angústia) que não necessariamente encontram referência tão distinguível na vivência. Dessa forma, conceituou atos hiléticos (noema), relativos aos objetos das intencionalidades, que podem ser um objeto material, uma imagem, uma pessoa; e os atos noéticos (noesis), referenciando a forma como intencionamos o mundo, a saber: as percepções, recordações, movimentos de compreensão e imaginação desses objetos (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bello, 2006</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20">Sokolowski, 2012</xref>). Cria-se, a partir da dimensão transcendental, uma atitude crítica ao Psicologismo que compreendia os atos noéticos como atividades empíricas da nossa psique, reduzindo a análise do eu a experimentações psicofísicas. Em oposição, o eu transcendental compõe as muitas dimensões do humano que vão além do empírico com respaldo no domínio da razão, o que para Husserl indicava a possibilidade de significação, o juízo e a capacidade que os humanos possuem de serem agentes de verificação (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Goto, 2008</xref>).</p>
         <p>A redução fenomenológica colocou como tarefa uma análise da consciência que deve ser exercida, especialmente, por meio de uma “análise descritiva que investiga todo o campo da consciência transcendental pura na intuição pura” (Husserl, 1913/2006, p. 135). Em outras palavras, o objeto é inconcebível sem ser pensado como um<italic> cogitatum</italic> que demanda, pois, uma doação de sentido o qual só pode ocorrer por meio dos atos intencionais da consciência, isto é, as unidades de sentido, pressupõem uma consciência doadora de sentido (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Tourinho, 2013</xref>). </p>
         <p>
            <xref ref-type="bibr" rid="B15">Merleau-Ponty (1973</xref>, p. 25) discorre em torno dessa dimensão:</p>
         <disp-quote>
            <p>Trata-se de descobrir um método que permita pensar, tanto a exterioridade que é o princípio mesmo das ciências do homem, quanto a interioridade que é a condição da filosofia; tanto as contingências sem as quais não há situação, quanto à certeza racional sem a qual não há saber. </p>
         </disp-quote>
         <p>As ideias acerca da intencionalidade ganharam aprimoramentos em Husserl ao longo de toda sua obra. <xref ref-type="bibr" rid="B6">Gomes e Castro (2010</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B7">Goto (2008</xref>) realizaram o esforço de sistematizar alguns dos marcos no processo de desenvolvimento desse tema e apontam alguns destaques. O primeiro envolve a consolidação da crítica fenomenológica às ciências dos fatos, demarcando a importância da análise descritiva que conduziria a uma ciência com ênfase nos aspectos fundantes da consciência intencional, por meio da redução às essências (Husserl, 1900/2012; 1913/2006). O segundo momento inverteu a ordem e a Fenomenologia ficou referenciada como um estudo da base ou uma filosofia rigorosa que, como consequência de sua aplicação, tornaria possível uma reforma metodológica em outras ciências por meio da radicalização da <italic>epoché</italic>; tal mobilização aproxima a Fenomenologia do termo transcendental (Husserl, 1913/2006). Nesse momento, Husserl desenvolve seu projeto transcendental, enfatizando as categorias transcendentais puras e a maneira como o eu transcendental adquire a capacidade de constituir-se nas significações. Um terceiro aspecto fundamental desenvolvido demarcou, por sua vez, a relação intencional do eu transcendental com o mundo da vida (<italic>Lebenswelt</italic>) (Husserl, 1926-38/2012).</p>
         <p>A intencionalidade, como conceito central e inspirador, ganha desdobramentos importantes em A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental (Husserl, 1926-38/2012), acentuando a importância do <italic>Lebenswelt </italic>como correlato da consciência. </p>
         <p>
            <xref ref-type="bibr" rid="B18">Peres (2015</xref>), por sua vez, destaca que no início do século XX existiu uma relação estreita entre a Fenomenologia e a Psicologia Empírica à época, embora os aprimoramentos dos pensamentos subsequentes de Husserl esclareçam as singularidades do pensamento fenomenológico. O conceito de intencionalidade em Husserl (1913/2006), e a influência de Brentano, serviu paradoxalmente como uma justificativa para alguns laboratórios de Psicologia à época fortalecerem a ideia de consciência como um objeto de análise. De acordo com Peres (2015, p. 1002), “a ideia de Husserl de que a Psicologia depende de uma descrição da consciência realizada em primeira pessoa permanece viva, assim como esteve viva na primeira década do século XX”. </p>
         <p>As primeiras considerações de Husserl, especialmente em <italic>Investigações Lógicas</italic>, é tida como obra representativa da Psicologia descritiva. Essa dimensão ganha novo vigor com a retomada dos estudos sobre a consciência pela Neuropsicologia e Psicologia cognitiva mais atuais (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Peres, 2015</xref>). As diferentes fases do pensamento husserliano em sua totalidade, trazem a complexidade de seus pressupostos e, por sua vez, um esforço contínuo de compreensão fenomenológica. </p>
      </sec>
      <sec>
         <title>A Ênfase na Intencionalidade e o Questionamento Objetivista</title>
         <bold> </bold>
         <p>Husserl (1926-38/2012), por considerar que não havia sido compreendido em profundidade ao destacar a noção de intencionalidade, trata nos últimos escritos acerca da importância em resgatar o mundo da vida (<italic>Lebenswelt</italic>). Na busca por evidenciar as estruturas eidéticas nas considerações em torno da consciência pura transcendental, foi criticado por incorrer em Idealismo, apesar de defender o contrário, em uma tentativa de diferenciar sua proposta da perspectiva Idealista (Husserl, 1913/2006). Esclarece, pois, em que aspecto compreende as unidades de sentido propostas pela Fenomenologia:</p>
         <disp-quote>
            <p>Unidades de sentido pressupõem (volta a frisar: <italic>não porque o deduzimos de postulados metafísicos</italic>, mas porque podemos atestá-lo em procedimentos intuitivos) consciência doadora de sentido [...] não se faz uma “reviravolta” na interpretação da efetividade real, nem se chegou a negá-la, mas se afastou de uma interpretação absurda, que contradiz o sentido, que lhe é próprio (Husserl, 1913/2006, p. 129).</p>
         </disp-quote>
         <p>A intenção em discutir o mundo da vida apareceu também pela via da redução. Da mesma forma que a subjetividade foi reconhecida em suas estruturas originárias, o mundo intencionado pela consciência poderia igualmente ser alcançado pelo retorno ao seu caráter antepredicativo. O resgate ao mundo da vida como correlato à subjetividade transcendental revitaliza a <italic>intencionalidade </italic>como fundante da Fenomenologia. Porém, o falecimento de Husserl impediu um desenvolvimento mais coeso dessas conjecturas finais sobre o tema (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Goto, 2008</xref>). </p>
         <p>Ainda assim, foi possível compreender alguns aspectos relevantes do mundo da vida (<italic>Lebenswelt</italic>) que traz a experiência intencional em relação ao mundo como fundamento analítico imprescindível à análise fenomenológica. As construções husserlianas acerca do mundo da vida colaboraram, decisivamente, na integração espaço-temporal da humanidade como uma unidade intencional (Husserl, 1926-38/2012). O mundo vivido destacou o reconhecimento de uma intersubjetividade e de uma historicidade ligadas às diferentes gerações, aquilo que Husserl chamou de uma análise da generatividade:</p>
         <disp-quote>
            <p>Sou faticamente, numa presença co-humana e num horizonte humano aberto de humanidade; sei a mim mesmo faticamente num contexto generativo, numa corrente de unidade, de uma historicidade, na qual este presente é, da humanidade e do mundo que lhe é consciente, o presente histórico de um passado histórico de um futuro histórico. Posso, sem dúvida, ficcionar e livremente transfigurar a “consciência do mundo”, mas esta forma da generatividade e da historicidade é inabalável, bem como a forma, que me pertence como eu-singular, do meu presente original da percepção, como de um presente recordado e de um futuro previsível (Husserl <xref ref-type="bibr" rid="B11">1926-38/ 2012</xref>, p. 204). </p>
         </disp-quote>
         <p>De outra maneira, o transcendente não está desligado do mundo e nem o mundo do transcendente, não sendo necessariamente, pois, o foco analítico traçar as instâncias essenciais entre o que há no interior e no exterior. Por meio desse destaque, sugere a união primordial, pré-reflexiva, entre sujeito e mundo, de modo que a tessitura do sujeito é também tessitura do mundo (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gomes &amp; Castro, 2010</xref>).</p>
         <p>A presença co-humana destacada em relação ao mundo da vida, indica que “cada um de nós tem um mundo da vida, visado como o mundo de todos” (Husserl, 1926-38/2012, p. 206). Essa constatação aponta para o conceito de intropatia, também compreendido como empatia,<xref ref-type="fn" rid="fn7">
               <sup>7</sup>
            </xref> no sentido que compartilhamos um horizonte de uma cossubjetividade, aberto por meio do trato direto ou indireto com o outro, onde o outro já está de antemão intencionalmente implicado (Husserl, 1926-38/2012). Dessa maneira, a vivência da intropatia, como referia Husserl (1926-38/2012), é a forma originária de abertura ao outro e também ao mundo em sua historicidade abrindo um entendimento constitutivo sobre a intersubjetividade transcendental. </p>
         <p>Desse modo, o reconhecimento de um dado “objeto” de estudo requer a compreensão generativa e temporal de seus interlocutores; em outras palavras, partimos da premissa intersubjetiva transcendental de cada partícipe para elencar significados que integram um dado contexto compartilhado. Há o interesse em analisar um corpus constituído pela dimensão intencional entre consciência e mundo que perpassa também as estruturas históricas e interpessoais por carregarem sentido para uma compreensão eidética (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Goto, 2008</xref>).</p>
         <p>Conforme aponta <xref ref-type="bibr" rid="B20">Sokolowski (2012</xref>), temos a percepção de dois mundos, um explicado pela ciência dita real e verdadeiramente objetiva, e outro no qual vivemos; este último geralmente é pensado como um mero fenômeno subjetivo, utilizado como ponto de partida do mundo científico. Revisitando essa lógica, a Fenomenologia passa a destacar que as ciências estão “aninhadas” ao mundo da vida e não entram em competição com ele. As ciências constituem um modo de olhar e, portanto, não podem substituir o mundo vivido por uma visão de mundo projetada e reificada. Conforme interpreta Sokolowski (2012), a Fenomenologia colabora com o exame da limitação das verdades, por também se deter aos outros lados que tendem a manter as coisas distantes de serem compreendidas. Ela auxilia a identificar os erros e a vaguidade que acompanha a suposta evidência e a sedimentação do saber, o que “torna necessário para nós recordamos sempre de novo as coisas que já sabemos” (Sokolowski, 2012, p. 197).</p>
         <p>Husserl (1926-38/2012) discorre com profundidade o problema que observa na cisão historicamente realizada entre os campos do saber e aponta, de antemão, o impasse paradoxal entre mundo de verdades objetivas e o mundo vivido, propondo a necessidade de enfrentamento dessa questão como um tema que obscurece os propósitos e fundamentos com os quais partimos para definirmos a nós mesmos, nossos comportamentos e conceitos mundanos:</p>
         <disp-quote>
            <p>O contraste e unicidade incindível envolvem-nos numa reflexão que nos embaraça em dificuldades sempre mais penosas. A paradoxal referência mútua entre o “mundo objetivamente verdadeiro” e o “mundo da vida” torna enigmático o modo de ser de ambos. O mundo verdadeiro em qualquer sentido, inclusive também nosso próprio ser, no seu sentido, se torna assim um enigma. Nas tentativas de chegar à claridade e perante os paradoxos que emergem, apercebemo-nos subitamente da falta de fundamento de todo nosso filosofar até aqui (Husserl, 1926-38/2012, p. 107).</p>
         </disp-quote>
         <p>As últimas conjecturas de Husserl redimensionam o lugar do mundo de verdades lógico-objetivas e resgatam a reciprocidade intrínseca entre o homem e o mundo da vida e a importância em estabelecer uma <italic>epoché</italic> dessa relação em movimento. Por consequência dessa dimensão, aparece uma outra possibilidade dialógica e inspiradora da Fenomenologia com estudos empíricos, uma inspiração analítica que ainda encontra ressonância no fundamento intencional e descritivo proposto em Husserl (1900/2012, 1913/2006) mas aprimorado via <italic>Lebenswelt</italic> em “A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental”, ao destacar as dimensões via correlato consciência e mundo. </p>
         <p>Conforme contribui <xref ref-type="bibr" rid="B16">Missaggia (2018</xref>), o mundo da vida recebeu diferentes interpretações. A autora defende a relevância dessa referência na obra de Husserl, especialmente ao destacar o mundo anterior às análises científicas, que traduz, por sua vez, a relação com a vida concreta, contribuindo, epistemologicamente, para um fazer ciência que questiona sobre qual conhecimento é produzido quando se parte do mundo das análises científicas e teóricas. </p>
         <p>Husserl (1926-38/2012) contribui com a problematização do método científico objetivo que tendeu a separar experiência “interna” da experiência “externa”, em que a ciência da natureza deve sustentar seu “objeto” na experimentação exterior e a Psicologia na experimentação interior pelo mesmo método científico. </p>
         <p>Conforme aponta <xref ref-type="bibr" rid="B15">Merleau-Ponty (1973</xref>), enquanto não ocorrer uma elaboração em torno da noção de totalidade e mesmo na maneira que é pensada a ideia de consciência, por exemplo, estaremos sempre no naturalismo e no psicologismo. Quando um psicólogo fala de consciência, por vezes a compreende como uma maneira de ser que se aproxima ao modo de ser de uma coisa, objeto ou fato. Pretende-se, a partir da contribuição fenomenológica, por outro lado, uma originalidade no modo de pensar a consciência, por exemplo, em que seja possível por meio da inclusão da experiência humana em sua realidade concreta. “Só saberemos finalmente o que é a consciência sob a condição de apreendermos em nós o seu sentido [...] A consciência só é suscetível a uma análise intencional e não de simples constatação e observação” (Merleau-Ponty, 1973, p. 33).</p>
         <p>A compreensão de uma intencionalidade implica considerar outro olhar sobre a experiência; como experiência originária do mundo, a simples experiência em que o mundo da vida é dado, um mundo que pré-cientificamente existe em nós como mundo, puramente a partir do que “aparece”. Tendo essa clareza, Husserl (1926-38/2012) ressignifica o sentido de <italic>empiria</italic>, por meio da ressignificação do sentido de “experiência”, no retorno às coisas mesmas; experiência como uma vivência não ultrapassável, portanto, sem partir do pressuposto de “experiência” com o sentido de experimentação dualista, mas restituindo seu caráter de uma abstração última. </p>
         <p>	Em alguma medida, o que se pretendia com suas contribuições foi evidenciar o equívoco da ciência em não perceber que nos pressupostos do método científico deixou-se de reconhecer a base primordial para qualquer conhecimento. Não se trata de ressaltar a inviabilidade da ciência, afinal há cumprimento de resultados e contribuições segundo seus propósitos. Trata-se, por outro lado, de ressaltar a consequência de segregar o mundo considerado científico da realidade cotidiana e pré-científica. Essa análise implicou em uma questão fundamental para a construção do conhecimento: qual cientificidade seria possível? (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Missaggia, 2018</xref>). </p>
         <p>Essa pergunta encontra caminhos complexos, que visa uma resposta não apenas pela via da ciência de um mundo objetivo, mas também por meio de uma ressignificação de empiria e da correlação entre consciência pura e mundo da vida, a ser empreendida em uma influência fenomenológica. O fazer científico objetivista envolve encontrar um conhecimento que supostamente apareceria por trás do mundo cotidiano, sendo que é esse próprio mundo comum e cotidiano que é a base do mundo idealizado pelo fazer científico. </p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Inspiração Fenomenológica e a Pesquisa em Psicologia</title>
         <bold> </bold>
         <p>A partir dessas contribuições, desde a década de 1950, o método fenomenológico, inserido historicamente no campo filosófico, começa a inspirar a análise de pesquisas empíricas. A inserção na Psicologia, especificamente, vem sendo observada nas últimas décadas, ante o movimento que visou estabelecer uma ciência humana pautada na compreensão da experiência vivida, demandando, para isso, reformas metodológicas, dentre as quais se destacaram a influência da <italic>epoché</italic> e da Fenomenologia à pesquisa (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Giorgi, 1978</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B5">2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Gomes &amp; Castro, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Peres, 2015</xref>). </p>
         <p>O próprio Husserl dedica-se a uma revisão profunda da então ciência Psicologia que, para ele, concebia um potencial da Psicologia transcendental de significativa relevância para revisão de todo conhecimento subjetivo, mas que para tal deveria passar por uma <italic>epoché </italic>universal que garantiria seu rigor (Husserl, 1926-38/2012), constituindo-se como Psicologia Fenomenológica. A suspensão do juízo sobre os objetos do mundo é parte da <italic>epoché</italic>, e permite não a negação do objeto, mas a parentetização do juízo sobre o objeto, uma análise em que se atenta novamente para seus pressupostos, permitindo um enraizamento no mundo anterior às teorias, ou seja, ao modo como experienciamos o conhecimento no mundo. Segundo Ales <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bello (2016</xref>, p. 42), “a suspensão, a meu ver, tem um significado preciso: cumpre afinar o instrumento e sondar o terreno, antes de construir um edifício que corre o risco de ser apenas uma construção conceitual de tipo especulativo”.</p>
         <p>Encontra-se, nessas dimensões, a unicidade singular entre consciência e mundo da vida, traduzindo um horizonte comum onde se mantém uma estrutura para todos os entes (Husserl, 1926-38/2012). Desse modo, a relação intencional entre consciência e mundo vivido reverbera na pesquisa e permite arranjos analíticos diversos, mas que contemplam o eixo descritivo desvelado nas primeiras obras de Husserl, e também compreensivo e mundano, referenciando a redução eidética e transcendental proposta por Husserl até seu último esforço compreensivo em A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental (Husserl, 1913/2006, 1926-38/2012).</p>
         <p>As obras tardias de Husserl (1926-38/2012) reiteram a importância de situar a dimensão do correlato homem e mundo e faz referência à dimensão experiencial (<italic>Lebenswelt)</italic>. Desse modo, ressalta-se que o objetivo da pesquisa fenomenológica em sua origem é a procura da essência de um fenômeno, mas conforme esclarece <xref ref-type="bibr" rid="B14">Mortari (2018</xref>), tal essência aparece como fruto de um refletir que se constrói lentamente a partir de “uma contínua, mas não evidente, referência à experiência” (Mortari, 2018, p. 85). Desse modo, continua a autora, a divisão entre planos de investigação teorética e investigação empírica não encontra legitimidade quando se propõe chegar a uma teoria descritiva da essência das coisas, de modo que não seria possível a separação entre planos cognoscitivos. </p>
         <p>
            <xref ref-type="bibr" rid="B14">Mortari (2018</xref>) exemplifica tal implicação na pesquisa ao se propor investigar o cuidado em sua dimensão fenomenológica: “a fenomenalidade do cuidado não pode ser levada em consideração para a construção de um saber experiencial se a mente não possuir ao menos em gérmen, um conhecimento eidético geral sobre o cuidado” (Mortari, 2008, p. 84). </p>
         <p>Ou seja, há uma implicação intencional no gesto de conhecer em que não há um pensamento teorético que não se refira à experiência, assim como qualquer procedimento heurístico sobre um objeto concreto tem como base de investigação uma ideia geral. Viabiliza-se, pois, nessa inspiração de pesquisa, análises teoréticas, críticas e empíricas em uma dimensão essencial geral/formal, unida às análises das experiências singulares em sua dimensão essencial-situada.</p>
         <p>Porém, conforme ressaltam <xref ref-type="bibr" rid="B7">Goto (2008</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B18">Peres (2015</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B17">Orengo, et al. (2020</xref>), o problema da inspiração fenomenológica na Psicologia foi de que ocorreu um movimento de uso do método sem a devida compreensão epistemológica mais ampla, no contexto brasileiro. A crítica sobre a relação científica e dicotômica empreendida por Husserl (1900/2012) permaneceu no campo filosófico e pouco influenciou a aplicabilidade do empirismo factual. Nesse contexto, os métodos de pretensa universalidade e produtividade quanto à objetividade se multiplicaram, em contrapartida à compreensão da correlata subjetividade. </p>
         <p>	O esforço em aprofundar o olhar sobre as várias dimensões dos planos cognoscíveis na pesquisa ganhou status de urgência pela Fenomenologia. A noção de um rigor envolve o reconhecimento de que Husserl (1926-38/2012) não esboçou suas ideias no nível de uma pesquisa empírica e que os pesquisadores pautados nesse campo do conhecimento realizam uma inspiração de preceitos para a construção de um caminho metodológico. Esse caminho envolve situar a busca por uma <italic>epoché</italic> “de partida”, ou seja, apesar da constituição de um contexto teórico e mundano, a pesquisa em si procura a parentetização (e não negação) de teorias prévias, assim como no processo de construção de um corpus dada à noção compreensiva, e busca também o entendimento de que qualquer instrumento de pesquisa a ser utilizado perpassa pela compreensão intencional. </p>
         <p>A base analítica fenomenológica destaca, pois, o encontro com a experiência dos participantes, seja por meio de entrevistas, de análises grupais ou mesmo pela observação participante, compondo uma coexperiência que envolve a teia integrada participante-pesquisador-mundo. </p>
         <p>A entrevista, por exemplo, como um momento de dimensão vivencial de escuta suspensiva reverbera no conceito de intropatia (Husserl, 1926-38/2012). Parte-se de um tema, mas o aprofundamento é a premissa para que se dê a dimensão vivencial a qual concebe um vazio compreensivo a ser preenchido ao longo da formação de um vínculo intersubjetivo. A compreensão da experiência vivida do outro ocorre com a ligação correlata eu-mundo-outro especificada na entrevista pela condição inter-humana (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Barreira &amp; Raniere, 2013</xref>). Assim como a observação participante, inevitavelmente, permite que pesquisador-participante partilhem momentos vividos numa generatividade, em uma perspectiva que se desvincula do naturalismo dos fatos. A etnográfica e a entrevista em uma inspiração fenomenológica ressaltam a dimensão compartilhada da condição humana intencional, correlata entre pessoa-mundo-sociedade-história (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Katz &amp; Csordas, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Kusenbach, 2003</xref>). </p>
         <p>Não se trata de realizar uma objetivação da subjetividade, e nem de finalizar os estudos com a singularidade dos informes em cada sujeito, mas de realizar a busca pelos traços determinantes e passar da singularidade a um exercício de generalidade da experiência em tema (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Barreira &amp; Raniere, 2013</xref>). Desse modo, a contribuição central à Psicologia seria a de inspirar no processo de pesquisa a indissociabilidade dessas dimensões cognoscitivas, de modo que o pesquisador, ao buscar uma essência geral, mediada pela inspiração na intencionalidade fenomenológica, reitera a consideração dos atos cognoscíveis sobre a experiência, mantendo ao mesmo tempo “os pés” no concreto e nas dimensões teoréticas, numa análise bicentrada entre quem pesquisa e o que é pesquisado.</p>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Considerações Finais</title>
         <bold> </bold>
         <p>De modo geral, a inspiração no método fenomenológico reside em buscar o sentido essencial da vivência no campo aberto das experiências mundanas e encontra na descrição e no correlato consciência-mundo um fundamento intencional. Como exposto por Husserl (1926-38/2012), não podemos encontrar uma dissociação transcendental ou mundana na medida em que, ao dar foco na experiência vivida, estamos intencionalmente ligados à consciência. Conforme aponta <xref ref-type="bibr" rid="B14">Mortari (2018</xref>), o pesquisador considerando isso, não pode aviltar um procedimento heurístico que possibilite o acesso mais rigoroso e íntegro sobre o que se pretende conhecer, mas ao mesmo tempo, deve reconhecer que o conhecimento também está situado em seu contexto/concreto. Em outras palavras, a pesquisa fenomenológica contribui com uma postura e um raciocínio sobre uma analítica a respeito do geral que não poderia ser refletida distanciada da pesquisa do particular, de modo que a busca de um sentido eidético, também envolve a constatação das tendências comuns de análises particulares. </p>
         <p>Ainda que essa temática envolva interpretações complexas, em que se reiteram distinções e críticas solipsistas dadas as diferentes fases do pensamento husserliano, é inegável os convites que a fenomenológica fez para reestruturar a questão do modo como conhecemos o mundo. O pesquisador que se destina a essa enseada, encontra na suspensão um abandono sobre as objetividades naturalizadas transpondo-se a um horizonte comum para empreender possibilidades analíticas, em que o sentido advém do encontro com o tema/objeto intencional vívido e inédito. Tal via singulariza-se pela escolha do caminho mundano no fazer pesquisa, desde a escolha do instrumento (entrevista, observação participante, análise grupal, entre outros), do objeto, do público e da proposta de pesquisa. </p>
         <p>	É, portanto, pelo caminho da intencionalidade e compreensão descritiva, heurística e compreensiva do fenômeno tal como se apresenta, nas diversas formas de presentações, que se abre um campo de inspiração à pesquisa em Psicologia. Esse eixo epistemológico, no entanto, não encerra qualquer estudo em uma prescrição dogmática, mas ressalta o esforço em demarcar o pressuposto epistemológico e metodológico atento à relação aos diferentes planos cognoscíveis. </p>
      </sec>
   </body>
   <back>
      <ref-list>
         <title>Referências</title>
         <ref id="B1">
            <mixed-citation>Barreira, C. R. A., &amp; Ranieri, L. P. (2013). Aplicação de contribuições de Edith Stein à sistematização de pesquisa fenomenológica em Psicologia: A entrevista como fonte de acesso às vivências. In M. Mahfoud, &amp; M. Massami (Org.), <italic>Edith Stein e a Psicologia</italic>: <italic>Teoria e pesquisa</italic> (pp. 449-466). Artesã. </mixed-citation>
            <element-citation publication-type="book">
               <person-group person-group-type="author">
                  <name>
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               <chapter-title>Aplicação de contribuições de Edith Stein à sistematização de pesquisa fenomenológica em Psicologia: A entrevista como fonte de acesso às vivências</chapter-title>
               <person-group person-group-type="compiler">
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               <article-title>A fenomenologia de Husserl no contexto da Psicologia na virada para o século XX</article-title>
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            </mixed-citation>
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               <comment content-type="degree">Tese de Doutorado em Psicologia</comment>
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               <comment>Original publicado em 1917</comment>
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               <source>Estudos e Pesquisas em Psicologia</source>
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            </element-citation>
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      </ref-list>
      <fn id="fn1" fn-type="other">
         <label>1</label>
         <p> O presente artigo é fruto da tese de doutorado da primeira autora.  </p>
      </fn>
      <fn id="fn2" fn-type="other">
         <label>2</label>
         <p>Aquilo que é demonstrado e não se pode contestar, que é evidente.</p>
      </fn>
      <fn id="fn3" fn-type="other">
         <label>3</label>
         <p>Identificação empirista mediada pela figura central de David Hume (1711-1776) que destacou como fonte segura da construção do conhecimento o que é percebido factualmente, atribuindo ao mundo natural a fonte segura do conhecimento.</p>
      </fn>
      <fn id="fn4" fn-type="other">
         <label>4</label>
         <p>O pensamento idealista filosófico dialogou com essa pressuposição, inicialmente fomentada por René Descartes (1596-1650).</p>
      </fn>
      <fn id="fn5" fn-type="other">
         <label>5</label>
         <p>O termo <italic>epoché, suspensão do juízo, </italic>foi usado como um princípio ético a ser praticado como "hábito virtuoso", conforme propunha o ceticismo pirrônico no período helênico na Grécia Antiga (Tourinho, 2013), ganhando uma ressignificação em Husserl.</p>
      </fn>
      <fn id="fn6" fn-type="other">
         <label>6</label>
         <p>A palavra transcendental significa “ir além”, “elevar-se sobre”. Segundo Tourinho (2013) em uma reflexão sobre o conceito de consciência em Husserl, o ser transcendental significa ter o entendimento de um mundo exterior que transcende a consciência, mundo para o qual nos encontramos naturalmente orientados e sobre o qual a <italic>epoché</italic> será exercida.</p>
      </fn>
      <fn id="fn7" fn-type="other">
         <label>7</label>
         <p>Nesse amplo projeto compreensivo sobre o tema, Edith Stein desenvolve uma antropologia filosófica que toca, a partir das perguntas intencionadas sobre o homem em Husserl, a vivência empática. Antes mesmo de Husserl explorar o tema, Stein em sua tese de doutoramento já indicava a questão da empatia como fundamento da pessoa humana (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Stein, 1917/1998</xref>).</p>
      </fn>
   </back>
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