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            <journal-title>Psicologia em Pesquisa</journal-title>
            <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. pesq.</abbrev-journal-title>
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         <issn pub-type="epub">1982-1247</issn>
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            <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.34019/1982-1247.2023.v17.35524</article-id>
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            <article-title>“A Peste” (Albert Camus): a solidariedade entre a vida e a morte</article-title>
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               <trans-title>“The Plague” (Albert Camus): solidarity between life and death </trans-title>
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               <trans-title>“La peste” (Albert Camus): la solidaridad entre la vida y la muerte </trans-title>
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               <xref ref-type="aff" rid="aff1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>
            </contrib>
            <contrib contrib-type="author">
               <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0003-2117-3886</contrib-id>
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                  <sup>2</sup>
               </xref>
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            <institution content-type="original"> Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP - FFCLRP). E-mail: gabriel.leva.fm@gmail.com </institution>
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            <label>2</label>
            <institution content-type="original">Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP - FFCLRP). E-mail: reinaldof@ffclrp.usp.br </institution>
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         <author-notes>
            <corresp id="c1">Informações do Artigo:

Gabriel Leva 
<email>gabriel.leva.fm@gmail.com</email>
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            <year>2023</year>
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         <volume>17</volume>
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         <abstract>
            <title>Resumo</title>
            <bold> </bold>
            <p>Propomos uma leitura da obra A Peste, de Albert Camus, sob a perspectiva de uma ética na luta contra a morte, baseada na compaixão e solidariedade. Na obra, vemos a transição do pensamento de Camus do absurdo à fase da revolta, a passagem do ponto de vista do “Eu” à perspectiva do “Nós”, da ausência à necessidade de vínculos na luta do homem contra a morte. Essa luta é formada por pessoas comuns, sem heróis, sem metafísica, combatida com armas modestas e baseada na manutenção da lucidez diante da peste, bem como na obstinação de não cair no desespero.</p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>Abstract</title>
            <bold> </bold>
            <p>We propose a reading of the work The Plague, by Albert Camus, from the perspective of an ethics of the fight against death, based on compassion and solidarity. In the work, we see the transition of Camus' thinking from the absurd to the phase of the revolt, the passage from the point of view of “I” to the perspective of “Us”, from the absence to the need for bonds in man's struggle against death. This fight is formed by common people, without heroes, without metaphysics, fought with modest weapons and based on the maintenance of lucidity in the face of the plague, as well as the obstinacy of not falling into despair</p>
         </trans-abstract>
         <trans-abstract xml:lang="es">
            <title>Resumen</title>
            <bold> </bold>
            <p>Proponemos una lectura de la obra La Peste, de Albert Camus, desde la perspectiva de una ética en la lucha contra la muerte, basada en la compasión y la solidaridad. En la obra, vemos la transición del pensamiento de Camus del absurdo a la fase de revuelta, el paso del punto de vista del "Yo" a la perspectiva del "Nosotros", desde la ausencia hasta la necesidad de vínculos en la lucha del hombre contra la muerte. Esta lucha es dada por gente común, sin héroes, sin metafísica, peleada con armas modestas y está basada en el mantenimiento de la lucidez ante la peste, así como en la obstinación de no caer en la desesperación</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>Palavras-chave:</title>
            <kwd>A Peste</kwd>
            <kwd>Existencialismo</kwd>
            <kwd>Revolta</kwd>
            <kwd>Compaixão</kwd>
            <kwd>Albert Camus</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>Keywords:</title>
            <kwd>The Plague</kwd>
            <kwd>Existentialism</kwd>
            <kwd>Revolt</kwd>
            <kwd>Compassion, Albert Camus</kwd>
         </kwd-group>
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            <title>Palabras clave:</title>
            <kwd>La Peste</kwd>
            <kwd>Existencialismo</kwd>
            <kwd>Revuelta</kwd>
            <kwd>Compasión</kwd>
            <kwd>Albert Camus</kwd>
         </kwd-group>
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      <p>
         <italic>A Peste</italic>, comumente interpretada como uma alegoria da ocupação dos nazistas em território francês, durante a Segunda Guerra, bem como uma crítica do autor aos regimes fascistas, mais do que isso é uma obra sobre o paradoxo da existência humana, que desemboca na questão da morte. <italic>A Peste</italic> é a obra literária da fase positiva (ou da revolta) do pensamento camusiano. Através da vida das personagens, isoladas do mundo devido à epidemia de uma peste misteriosa, veremos como Camus elabora sua ética de luta contra a morte. Em Oran, uma cidade que pode ser qualquer uma, em um tempo que pode ser qualquer um, inclusive o nosso, Camus faz avançar a peste, o flagelo, um mal sem razão ou causa aparente, que modifica completamente a vida dos cidadãos e os coloca sob um regime de separação e “exílio do amor” ("<xref ref-type="bibr" rid="B1">A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>). Ora, diante do exílio desabrocha uma compaixão e solidariedade tão gratuitas quanto o próprio flagelo, que <xref ref-type="bibr" rid="B4">Bosi (1998</xref>, p. 61) retrata como uma busca geral do trabalho de Camus em várias de suas histórias. A compaixão sem razão fundamenta a ética da revolta camusiana, pregando a luta coletiva e consciente em prol do bem comum; a revolta é baseada na permanência da contradição entre a vida e a morte e na compreensão de que há no mundo carrascos e vítimas, em que, por vezes, também as vítimas podem cumprir o papel de carrascos. Por isso, num mundo onde todos os que não lutam contra a morte, de uma forma ou de outra, acabam como carrascos, justificando que se mate ou que se deixe morrer, a única postura coerente é a dos verdadeiros “médicos”, aqueles que se mantêm na luta obstinada contra a morte e em busca da cura para o flagelo. A ética de Camus, então, prega sobre obstinação e a busca da cura para os flagelos da humanidade, respeitando a coletividade do sofrimento de todos os que vivem sob uma mesma história de morte, exílio e amor. Essa luta é formada por pessoas comuns, sem heróis, sem metafísica, combatida com armas modestas e jamais mortíferas e baseada na manutenção da lucidez diante da peste, bem como na obstinação de não cair no desespero, para que nunca se deixe de lutar e para que jamais se legitime o flagelo.</p>
      <p>Na obra, considerada mais próxima de uma crônica ou uma série de crônicas (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo, 2020</xref>; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">"A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Silva, 2008</xref>, p. 58) do que propriamente um romance, vemos a transição do pensamento de Camus da fase do absurdo à fase da revolta, a passagem do ponto de vista do “eu”, explorada em <italic>O Estrangeiro</italic>, à perspectiva do “nós”<xref ref-type="fn" rid="fn1">
            <sup>1</sup>
         </xref>, em <italic>A Peste</italic>; a passagem da ausência de vínculos (em <italic>O Estrangeiro</italic>) à sua necessidade na luta da vida do homem contra a morte (<italic>A Peste</italic>). Conforme destaca Brée, “Camus planeja dar uma perspectiva e um tipo de conclusão ao que ele considera o segundo estágio de desenvolvimento de seu trabalho” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Brée, 1951, p. 93</xref>), enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B15">Maurois (1963</xref>, p. 325-326) destaca a precocidade das ideias de Camus desde o princípio de sua obra, inclusive apontando para os primeiros esboços desta obra no ano anterior à ocupação da França pelos nazistas.</p>
      <p>Nosso objetivo no artigo é investigar n’<italic>A Peste </italic>o sentido coletivo na luta contra a morte, um estilo entre o absurdo e a revolta que possa iluminar o caminho daqueles que são exilados pelos flagelos, que, por fim, acentua o sentido da condição humana em geral. Através das histórias das personagens ao vivenciar uma epidemia, isoladas do resto mundo, investigaremos o sentido da solidariedade humana que possibilita a luta comum contra o mal, em geral. Afastados de heróis ou deuses, os cidadãos de Oran enfrentam uma peste sem explicações, concreta e absurda, com a qual podem lidar apenas contendo seus estragos e acudindo os infectados. Em tempos de pandemia, <italic>A Peste</italic> faz morrer incontáveis vezes; o micróbio é natural, dirá <xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus através das palavras de Tarrou (Camus, 1947</xref>/sem data, p. 220), portanto, devemos nos debruçar sobre a contingência e uma ética para seu enfrentamento. Deste modo, buscaremos estabelecer, através da narrativa, fundamentos para uma ética onde a consciência do absurdo se mantenha lúcida e possa se revoltar diante de quaisquer regimes que legitimem a morte. Não bastasse A leitura do texto nos transporta aos dias atuais, fornecendo-nos as ferramentas líricas necessárias para encararmos nossa própria condição e o nosso próprio exílio.</p>
      <p>Para a realização deste trabalho, faremos uma análise de <italic>A Peste</italic> buscando, através das relações estabelecidas entre as personagens, um modo de reencontrarmos uma posição de revolta coletiva diante do abatimento de um flagelo, lembrando que a peste é uma alegoria para qualquer regime onde a morte e o assassinato sejam legitimados. Com o apoio de comentadores da obra, guiaremos nossas análises na fundamentação de um sentido comum expresso na obra, como forma de assumir o lado das vítimas, elaborar conjuntamente uma conduta que preserve a vida e enfrente os flagelos. Os principais materiais utilizados em nossa análise, além da obra em si, são as seguintes obras de Camus: <italic>Primeiros Cadernos</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1935-1951</xref>/sem data)<italic>, O Homem Revoltado </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B8">1951/2018</xref>),<italic> O Mito de Sísifo </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B10">1942/2019b</xref>)<italic> e O Estrangeiro </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B9">1942/2019a</xref>). Passando aos comentadores, utilizados como forma de contextualizar o trabalho de Camus, bem como ampliar as possibilidades de discussão sobre o mesmo, destacaremos o debate entre Camus e Barthes (<xref ref-type="bibr" rid="B1">2010</xref>) sobre a obra, a tese de <xref ref-type="bibr" rid="B19">Silva (2008</xref>), além de artigos publicados em revistas encontrados nas principais plataformas de pesquisa acadêmica. </p>
      <sec>
         <title>A Peste</title>
         <p>A revolta de Camus direciona o autor no sentido de abandonar sua premissa de individualidade em <italic>A Peste</italic>
            <xref ref-type="fn" rid="fn2">
               <sup>2</sup>
            </xref>. Nessa obra, o autor começa a estabelecer um ideal de revolta fundamentado no sentimento de comunidade. </p>
         <bold> </bold>
         <p>Em <italic>O Estrangeiro</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">1942/2019a</xref>) o autor expressa revolta ou indiferença diante das relações e valores humanos, inclusive na forma das instituições sociais, como a Igreja e o Judiciário. Indiferença à mãe, presença silenciosa e distante em sua vida; conflito frontal com a religião, por meio da figura do capelão; amizades e um amor sem expressão de sentimentos; e perplexidade diante do julgamento de homens nos tribunais de justiça da sociedade. Mais precisamente, como diz <xref ref-type="bibr" rid="B18">Pinto (2019</xref>), Camus constrói Mersault sob o imperativo “(d)a recusa de sua personagem em aceitar a lógica dos tribunais e da sociedade” (p. 8). Assim como <xref ref-type="bibr" rid="B17">Pingaud (1992</xref>) destaca, do próprio autor, que “Camus deseja contar a história do homem que ‘não quer se justificar’” (p. 63). Em síntese, Mersault, ao renegar a lógica da sociedade, causa ao leitor a sensação de distanciamento, de profundo estrangeirismo, que no fundo é a verdadeira condição da existência humana no mundo<xref ref-type="fn" rid="fn3">
               <sup>3</sup>
            </xref>. Tudo isso será assumido de forma mais positiva ou reconciliadora em <italic>A Peste</italic>. A figura da mãe se destaca, mais uma vez como uma presença silenciosa, marcada mais pelo olhar do que pelas palavras, mas agora com ternura. A religião reaparece, desta vez na figura do padre jesuíta, culto e, se no início aparece mais distante e ameaçador, por fim se mostra mais humano e ao lado dos homens na luta contra a doença. Não por acaso, será suspeito de heresia. Se a relação com a religião se mantém crítica, ela é incorporada ou também vista na sua face mais próxima dos homens. E as amizades e o amor ganham destaque, desta vez como a única realidade capaz de dar um sentido, ainda que provisório, a essa empreitada humana contra a fatalidade da morte que, mais uma vez, aparece como a figura da negação do que almejam os homens. A única instituição humana que mais uma vez é condenada, é a justiça, mas assim mesmo com a presença bonachona de um juiz, sem perder a gravidade<xref ref-type="fn" rid="fn4">
               <sup>4</sup>
            </xref>. Todos esses temas são tratados, agora, de forma mais filosófica ou conceitual do que na obra anterior (<italic>O Estrangeiro</italic>). Trata-se, pois, de um Camus mais ligado à vida e ao mundo humano, apesar de todas as mazelas neles presentes e que, por fim, continuam insuperáveis, diante da fatalidade da morte.</p>
         <p>
            <italic>A Peste</italic> é considerada a obra de maturidade de Camus (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Silva, 2008</xref>, p. 46) e concretiza o início de uma transformação no pensamento camusiano, que, depois de diversas críticas, tentava solucionar a solidão na qual havia lançado o homem absurdo. O “Eu”, como veremos, será substituído pelo “Nós”, num movimento a favor da solidariedade e da ideia do herói comum. “Já não havia então destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos” (Camus, 1947/sem data, p. 149).</p>
         <p>A obra é carregada de simbologia, principalmente grega, cultura pela qual Camus tinha grande apreço (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Camus, 1935-1951</xref>/sem data; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Silva, 2008</xref>, p. 48), e alegorias históricas à guerra e aos regimes totalitários (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Camus, 1935-1951</xref>/sem data). </p>
         <p>O livro conta a história de uma cidade fictícia chamada Oran que, nos anos 40, é atingida pela peste. A doença começa a se espalhar com os ratos e rapidamente infecta os seres humanos; na cidade colocada em quarentena, é decretado o “estado de sítio”, deixando seus habitantes isolados do mundo. Cabe aos personagens da obra lidarem com o flagelo do isolamento e da separação.</p>
         <p>Buscando nos homens e na solidariedade humana a superação das dificuldades, como uma filosofia fraterna, vemos que não há um único herói absurdo na obra, mas sim uma força tarefa de homens comuns que participam ativamente na luta contra o flagelo, enfrentando corajosa e voluntariamente o mal.</p>
         <p>
            <italic>A Peste </italic>nos mostra como a morte, sendo o verdadeiro exílio, se sobrepõe às outras formas de isolamento, como a solidão e a separação (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Lameirinha, 2006</xref>, p.14). Interessa-nos saber como, diante do absurdo da condição humana e através da revolta possível, os indivíduos, como um coletivo, podem enfrentar a morte sem se esquecer de sua facticidade. A revolta lúcida que constata seus limites, se engaja em compromisso com a vida, um compromisso para além da moral, das instituições, da culpa e do desespero.</p>
         <p>Vemos, assim, exposta a verdadeira luta que Camus travou durante toda a sua vida contra o maior inimigo da humanidade: a morte. “Extraio então do absurdo três consequências que são minha revolta, minha liberdade e minha paixão. Como o puro jogo da consciência, transformo em regra de vida o que era convite à morte” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Camus, 1942/2019b</xref>, p. 77).</p>
         <p>Há muitas leituras possíveis para uma obra com o porte d’<italic>A Peste</italic>. Aqui, vamos privilegiar a questão do amor, justamente como uma ética de luta contra a morte. Amor que pode ser, lado a lado com a morte, um dos grandes temas do qual tratou a obra de Camus. Vale lembrar, a esse respeito, que em seus cadernos o autor comentava sobre a fase negativa (do absurdo), seguida da fase positiva (da revolta) e completada, por fim, com a fase do amor, para enfrentar uma existência gratuita e sem sentido, lutar contra os flagelos e negar a posição de subjugados, afinal<bold>, </bold>“do seu sofrimento (...) haviam conservado o gosto e a necessidade do amor” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Camus, 1935-1951</xref>/sem data, p. 248). O amor seria o horizonte para o qual Camus se dirigiria, pois “o fim do movimento do absurdo, da revolta, etc., o fim do mundo contemporâneo, por consequência, é a compaixão no sentido fundamental, digamos em suma o amor e a poesia” (Camus, 1945-1948/sem data, p. 352).</p>
      </sec>
      <sec>
         <title>O Amor em Tempos de Peste</title>
         <p>
            <italic>A Peste</italic> trata do amor em sua amplitude, muito mais do que as obras de Camus que constituem sua fase negativa. A obra tem sua ética fundamentada justamente no amor fraterno entre os homens, na solidariedade e compaixão espontâneas, cuja potência desabrocha diante dos grandes males<xref ref-type="fn" rid="fn5">
               <sup>5</sup>
            </xref>. Também aqui encontraremos personagens simbólicos como os que encontramos em <italic>O Estrangeiro</italic>. Há o arquétipo da mãe e seu amor e ternura silenciosos, agora viva e presente na vida do protagonista; há o amor romântico, representado por Rieux e Rambert, separados de suas amadas e que enfrentam a separação de modos diferentes, mas intrinsecamente conectados pelo flagelo; há o amor divino, constantemente colocado em xeque pela epidemia e a postura do padre Paneloux; há a amizade, personificada por Tarrou e Rieux, selada num banho de mar, mostrando como a presença do sol e da água, em relação direta com os sentidos, ainda é utilizada por Camus em sua narrativa. </p>
         <p>Para Barthes (<xref ref-type="bibr" rid="B1">2010</xref>), é esse amor que se transforma em uma solidariedade livre e compaixão genuína, que constrói a moral pela qual prega o romance. É no momento em que os homens, engolidos pela peste e reconhecendo essa realidade tão dura que torna impossível qualquer álibi, percebem que é apenas através da solidariedade humana que a peste pode ser enfrentada com lucidez. Conforme a sugestiva analogia de <xref ref-type="bibr" rid="B15">Maurois (1963</xref>), “Não é mais apenas um Sísifo, mas um povo de Sísifos que se vê esmagado pela calamidade” (p. 334). Contudo, essa “solidariedade é feita de metal tão duro quanto o da peste na ordem dos males” <xref ref-type="bibr" rid="B1">("A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>); e se a peste é um mal infundado, sem rosto ou causalidade, a “simpatia” é também um bem sem necessidade de “justificativas - política ou religiosa - para reunir os homens e fazê-los viver” <xref ref-type="bibr" rid="B1">("A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>). É dessa solidariedade que pode surgir a felicidade, desse amor tão bruto quanto a peste, “uma felicidade que não nasce da sublimação do sofrimento, mas da obstinação dos homens a mitigá-la lado-a-lado, sem ilusão e sem desespero”, lutando continuamente com suas vidas para afastar o flagelo “injusto” e “incompreensível” com suas “armas modestas” e “jamais mortíferas” <xref ref-type="bibr" rid="B1">("A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>).</p>
         <p>É nessa realidade bruta entre o amor e a peste que se dá a vida dos cidadãos de Oran. É o doutor Bernard Rieux nos ilustra essa tensão ao narrar os acontecimentos da peste. Sua narrativa é considerada um depoimento, em prol das vítimas do flagelo, ao contar essa história “seguindo as leis de um coração honesto”, tomando “partido dos homens, seus concidadãos, nas únicas certezas que eles têm em comum e que são o amor, o sofrimento e o exílio” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data., p.263). </p>
         <p>Nos cadernos, onde Camus fala sobre <italic>A Peste</italic>, vemos como desde o princípio o tema da obra seria a separação. Inicialmente, o próprio autor recusava a presença do termo “peste” no título do romance, pensando em intitulá-lo de “Os Prisioneiros” e, adiante, “Os Separados” (Camus, 1942-1945/sem data, p. 221). Tais títulos, posteriormente abandonados, não estão, naturalmente, desconectados do que veio a ser <italic>A Peste</italic>, justamente porque é uma obra que trata profundamente da separação e necessidade dos laços humanos. Nas palavras do autor, “o que ilumina o mundo e o torna suportável é o habitual sentimento que temos dos nossos laços com ele - e mais particularmente do que nos liga aos seres” (Camus, 1942-1945/sem data, p. 252). </p>
         <p>Durante a peste, o amor é colocado sob um regime de separação, como “um grande tema, pudico e forte (que) atravessa a obra: o tormento dos amantes separados, o exílio do amor” <xref ref-type="bibr" rid="B1">("A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>). Por vezes, os cidadãos de Oran sofrem a separação do outro, como a de Rieux ou de Rambert, separados das mulheres que amavam, bem como as famílias e os amigos que perderam seus entes queridos para a peste. Outras vezes, a separação se dá justamente na ligação com o mundo, onde os cidadãos se veem separados da rotina, da vida cotidiana e do futuro, perdendo pouco-a-pouco as esperanças. Eles sabem, no fundo, que “a peste é um destino, mas, sob seus golpes, os homens de Oran retêm o grito: são todos gente silenciosa” ("<xref ref-type="bibr" rid="B1">A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010</xref>, para. 7). E nas profundezas desse silêncio, vemos que “o que a peste destrói é de um preço incalculável, e eles (os cidadãos de Oran) o sabem” <xref ref-type="bibr" rid="B1">("A peste": debate entre Roland Barthes e Camus, 2010, </xref>para. 7).</p>
         <p>Em outros termos, o amor em Oran se revela justamente pela recusa de Camus em defini-lo. Oran é uma cidade moderna como todas as outras cidades modernas, onde nada é peculiar, as pessoas não suspeitam que haja nada mais do que trabalhar o dia todo e, à noite, “ir perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viverem” (Camus, 1947/sem data, p. 10). Ao mesmo tempo, o autor nos descreve um amor que é suprimido pelo próprio cotidiano, sem as características de um romance fantasioso, mas comum e esmagado pela rotina dos homens que não têm tempo para refletir sobre os sentimentos:</p>
         <disp-quote>
            <p>Oran (...) é uma cidade aparentemente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Também isso não é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 10).</p>
         </disp-quote>
         <p>		É pelas palavras de Grand, um servidor público, completamente entregue ao trabalho e aos hábitos, mas com o sonho de encontrar as palavras perfeitas, que vemos como o hábito corrói o amor; “é o mesmo para todos: a gente casa-se, ama ainda um pouco, trabalha. Trabalha tanto que se esquece de amar”, afinal, também Grand se encaixava nessa definição, pois é “um homem que trabalha” na “pobreza”, com “o futuro lentamente fechado”, refém do “silencio das tardes ao redor da mesa”. Grand sabe que “não há lugar para paixão em tal universo” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 76).</p>
         <p>Camus pensava, assim, principalmente na vida dos trabalhadores, dos pertencentes à classe operária, aqueles que precisavam vender o tempo para continuar vivendo, ou sobrevivendo. As pessoas que, desprovidas dos grandes luxos, aparentam estar constantemente absorvidas pelo cotidiano e pelas suas obrigações, nesse microuniverso onde não havia tempo para pensar sobre o amor... até o momento em que o amor foi exilado.</p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Oran sob a Peste: Uma Cidade sem Futuro e, portanto, sem Amor</title>
         <bold> </bold>
         <p>“A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 161).</p>
         <p>Para Camus, o amor havia assumido um aspecto egoísta na modernidade, onde os indivíduos só defendem os próprios privilégios, sem compaixão ou solidariedade. <italic>A Peste</italic> tem a função de colocar esse amor em xeque, transformando-o e fazendo-o retomar seu aspecto de solidariedade geral. Assim, os amantes que antes se habituavam a um amor medíocre, agora eram perturbados pela recordação, muito mais cruel e exigente, da supressão do amor (Camus, 1947/sem data, p. 69).</p>
         <p>Os desdobramentos do “exílio do amor” pelo qual passam todos os cidadãos de Oran, demonstram que <italic>A Peste</italic> é uma obra sobre a vida, ainda que através da morte, desenhando, de forma “pitoresca e descritiva” (Camus, 1942-1945/sem data, p. 244), o modo como estamos engolidos pelos nossos próprios interesses e, continuando a “amar sem saber”, permanecemos indolentes com um “amor medíocre”. Essa vida esvaziada de laços e, sobretudo, mecânica não carrega nem a lucidez da qual fala o absurdo, nem a negação positiva da qual trata a revolta. Afastados de nossa própria condição, ficamos entregues a uma morte em vida, uma sonolência impotente, seja contra os flagelos, seja para amar os seres. </p>
         <p>A peste atinge seu ápice durante o fim do verão, quando passavam por Oran os bondes vazios, oscilando acima do mar, carregados com os mortos do dia. Apesar dos esforços da prefeitura para que os cadáveres não fossem vistos, o que escancararia ao povo o domínio da peste, os habitantes acabaram descobrindo do que se tratava, preenchendo a atmosfera de um desespero geral. Além dos bondes funerários, pela manhã, havia ainda o cheiro “espesso e nauseabundo” dos corpos queimados que preenchia certos bairros da cidade; os oraneses, então, sequer podiam enterrar seus mortos. “Foram estas as consequências extremas da epidemia” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 158), apesar do receio de que o aumento de mortos chegasse a ponto de fazer o doutor Bernard Rieux temer pelo momento em que começariam a atirar os corpos no mar, imaginando-os com sua espuma “monstruosa sobre a água azul” (Camus, 1947/sem data, p. 158). Para os que acompanhavam os avanços da doença, pairava o medo de que, continuando o avanço da peste, os homens viessem a morrer amontoados e a apodrecer nas ruas (Camus, 1947/sem data, p. 158). </p>
         <p>Camus parece reforçar, através de Rieux, a moral da consciência sem desespero, decorrente da peste; mesmo para o médico, era lamentável não “poder relatar algo de verdadeiramente espetacular”, como “algum herói altruísta ou alguma ação brilhante, semelhante aos que se encontram em velhas histórias”. Rieux reforça “que nada é menos espetacular que um flagelo e, pela sua própria duração, as grandes desgraças são monótonas” (Camus, 1947/sem data, pp. 158-159). A situação na qual os cidadãos de Oran estavam jogados era a de desgraça duradoura, onde o terror se assenta em seus corações como a poeira no chão das estradas.</p>
         <p>No momento em que a peste atinge seu ápice, cabe a nós nos perguntarmos se há algum tipo de habituação, como pregada em <italic>O Estrangeiro</italic> e n’<italic>O Mito</italic>. É quando Rieux descreve a peste presente no coração dos oraneses. Desdobrando as consequências da fase absurda, vemos que, quanto à peste, não seria acurado falar de habituação, “seria mais exato dizer que, tanto moral quanto fisicamente”, seus concidadãos “sofriam de descarnação” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 159) e é essa “descarnação” que se desdobra, lentamente, na supressão do amor. A saudade que sentiam, com o tempo foi se tornando habitual, mas lembranças ainda permaneciam; os cidadãos podiam lembrar de um rosto, do riso e dos dias que foram felizes com seus amados; contudo, tinham dificuldade de imaginar outra vida, de escapar, após tanto tempo, dos domínios da peste. “Em suma, nesse momento, tinham memória, mas uma imaginação insuficiente. Não que tivessem esquecido esse rosto, mas o que vem a dar no mesmo, ele perdera a carne. Já não o sentiam no interior de si próprios” (Camus, 1947/sem data, pp. 159-160). Quando perderam, por fim, a capacidade de imaginar a intimidade que um dia cultivaram com seus ausentes, a possibilidade, dentro de seus corações, de encontrá-los um dia, pode-se dizer que finalmente “tinham entrado na própria ordem da peste, tanto mais eficaz quanto mais medíocre era” (Camus, 1947/sem data, p. 160), e ninguém mais, entre os habitantes de Oran, “tinha grandes sentimentos” (Camus, 1947/sem data, p. 160). </p>
         <p>A “descarnação” que se coloca é de uma ordem mais profunda do que o desespero, porque se trata da habituação ao desespero, sua permanência contínua que desenha um outro modo de vida, onde o amor foi exilado. A essa altura da peste, os números de mortos não comovem como antes e dizer o nome dos ausentes não desperta mais repugnância. “Sem memória e sem esperança” os cidadãos se instalaram no presente, numa sonolência de mortos-vivos; acontece que para o amor e para a amizade, se exige sempre um pouco de futuro (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 161).</p>
         <p>No entanto, se o exílio do amor aconteceu, não foi de modo súbito, visto que nem todos os cidadãos chegaram a esse torpor ao mesmo tempo e, mesmo quando a peste havia colocado todos os homens de Oran sob sua ordem, não desapareceram completamente os momentos em que se sentiam mordidos por “um ciúme sem objeto” ou “encontravam renascimentos súbitos”, nos dias “consagrados a certos ritos, do tempo ausente” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 161). Por vezes, de tão entregues à peste, chegavam a pensar: “que venham logo os tumores e se acabe com isto!” (Camus, 1947/sem data, p. 161). Pequenas resistências cotidianas erodiam da rotina, instantes onde a memória se fazia mais viva, onde o torpor desaparecia, ainda que fosse em um único dia na semana. </p>
         <p>Mas o amor não desaparecera por completo, apenas havia assumido uma “forma mais abstrata” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 161). Esses renascimentos súbitos, em meio ao torpor geral, reapareciam como uma ferida, reaberta durante a noite, cujo apalpar de suas bordas fazia com que os oraneses redescobrissem seu sofrimento “num lampejo” e, “com ele, a imagem perturbada do seu amor” (Camus, 1947/sem data, p. 161). </p>
         <p>A peste permite apenas o amor noturno, silenciado e clandestino, condenado a sobreviver nos poucos momentos onde a presença do flagelo se enfraquecia, nos poucos momentos de intimidade (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Caponi, 1999</xref>) que restava àquele povo, pois, pela manhã retornariam ao flagelo, ou o que podemos chamar de rotina.</p>
         <p>Os separados, sob a ordem da peste, sofriam de uma perda de individualidade. Junto dessa “descarnação”, a supressão do poder imaginativo e a entrega total à ordem da peste, todos os cidadãos assumiram, pouco a pouco, um aspecto único e generalizado. Os oraneses, com o tempo, perderam o senso crítico, os juízos de valor e tinham o sangue cada vez mais frio (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 162). “Em outras palavras: já não escolhiam nada” e aceitavam “tudo em bloco” (Camus, 1947/sem data, p. 162), as especificidades se perderam completamente, ofuscadas pelo domínio da peste. </p>
         <p>Ora, através dessa generalização, desse aspecto totalizante que suprimia os egoísmos e a busca por privilégios, o amor assumia outra forma. Camus nos diz sobre um engajamento geral na situação, onde “o flagelo era problema de todos” (Camus, 1947/sem data, p. 162). Porque, antes que o amor pudesse desabrochar, era preciso que todos se engajassem a curar as feridas, a enfrentar o flagelo coletivamente. A perda da individualidade dos cidadãos de Oran se relaciona diretamente com a ideia de uma comunidade que possa enfrentar o mal que a assola, sem nomes, egoísmos e privilégios, pois não havia mais espaço para isso. Os homens ainda poderiam amar, visto que é isso o que dá sentido a uma existência absurda, mas apenas quando o flagelo fosse vencido, quando não houvesse mais o terror da peste. Pelas descrições do relato de Rieux, vemos o que o amor se tornou para aqueles que viveram sob a ordem da peste: “o nosso amor, sem dúvida, estava presente ainda, mas simplesmente era inutilizável, pesado, inerte, estéril, como o crime ou a condenação. Não era mais que uma paciência sem futuro e uma espera obstinada” (Camus, 1947/sem data, p. 163). Oran havia perdido suas “eternas tardes douradas e poeirentas” (Camus, 1947/sem data, p. 163) e, no ápice da epidemia, o movimento da cidade era ritmado pelo “silvo do flagelo, no céu pesado”, dando a Oran uma nova voz, “mais fiel e mais melancólica”, tingida de uma “obstinação cega” que, nos corações daqueles homens, “substituía então o amor” (Camus, 1947/sem data, p. 163).  </p>
      </sec>
      <sec>
         <title>Amar ou Morrer Juntos, não há Outro Recurso</title>
         <bold> </bold>
         <p>O sentido da obra vai além das descrições precisas sobre o exílio do amor e o sofrimento dos separados, porque também atinge a maturidade com a transformação do amor egoísta em um engajamento coletivo, constituído por aqueles que preencheram seu coração de compaixão e, livremente, optaram por lutar contra a morte com todos os recursos que dispunham. </p>
         <p>Rieux, nosso narrador, sofre uma separação ainda antes do começo da epidemia, com a partida de sua esposa que, doente havia um ano, vai se tratar em outra cidade e fica impedida de retornar a Oran, graças à quarentena. A partida da esposa de Rieux é melancólica e, apesar dos votos de recomeço, carregada de um tom de última despedida, com a peste, sorrateira, a espreitar a conversa do casal. Como vemos no diálogo entre os dois, há a estranheza inicial do começo da peste e o arrependimento daqueles que amam sem saber: </p>
         <disp-quote>
            <p>- Que história de ratos é essa?
- Não sei. É estranho, mas vai passar.
Depois, disse-lhe muito rapidamente que lhe pedia perdão, que devia ter olhado por ela e que se descuidara muito. Ela sacudia a cabeça, como para lhe dizer que se calasse. Mas Rieux acrescentou:
- Tudo correrá melhor quando voltar. Vamos recomeçar.
- Sim - concordou ela, com os olhos brilhantes -, vamos recomeçar.
(...) O médico chamou a mulher pelo nome e, quando ela se voltou, ele notou-lhe o rosto coberto de lágrimas. (...) Sob as lágrimas, voltou o sorriso, um pouco crispado. Ela respirou profundamente. (...) Rieux abraçou-a e, na plataforma, nada via agora senão seu sorriso. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 15).</p>
         </disp-quote>
         <p>A mulher de Rieux não tem nome, nem sua mãe, assim como a mãe de Mersault em <italic>O Estrangeiro</italic>. São histórias preenchidas pela presença forte de “silhuetas de mulheres anônimas” (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Silva, 2008</xref>, p. 70). Camus tem apenas um conto, “A mulher adúltera”, cuja personagem central é uma mulher (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dranka, 2010</xref>), de nome, Janine. Camus descreve a figura da mãe, em seu silêncio e indiferença, como a musa intercessora (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Geske, 2015</xref>, p. 59), o que se repete com a mãe de Rieux e o modo como sua presença é descrita, além das semelhanças entre ambas, declaradas pelo próprio autor: “ela lembra minha mãe. O que eu mais amei nela foi seu retraimento, sua obscuridade, como dizem” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bernard, 2010, p. 170</xref>). No caso de Rambert, Camus retrata a saudade de sua pátria em forma de mulher (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bernard, 2010, p. 170</xref>). Destacado o caráter autobiográfico dessas personagens<xref ref-type="fn" rid="fn6">
               <sup>6</sup>
            </xref>, vemos que essa “não nomeação”, falta de especificidade e obscurantismo faz com que essas personagens pareçam reflexos das mulheres que Camus amou. A paixão do autor é destilada então aos leitores, transformando as figuras femininas em sombras de amores exilados; entre a obscuridade e a saudade, as mulheres escritas por Camus assumem certa universalidade, aproximando-as dos leitores através da própria distância.  </p>
         <p>A história de Rieux é um relato experiencial do enfrentamento da separação de modo obstinado, construída sobre a longa história que o médico tem com a morte e a separação. A mulher lhe é praticamente ausente durante toda a epidemia, sendo o pouco contato mantido por telegramas, cada vez mais difíceis de serem enviados e recebidos, devido à quarentena. É apenas no final da obra que o médico recebe a notícia do falecimento de sua esposa: “o doutor Rieux recebeu com calma, de manhã, a notícia da morte de sua mulher”, oito dias depois de seu falecimento; e então, pelos olhos da sua mãe, a Srª. Rieux, vemos que o médico “tinha na mão o telegrama aberto” e, “no entanto, contemplava obstinadamente, pela janela, uma manhã magnífica que se erguia sobre o porto” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, pp. 254-255). Camus faz viver em Rieux o amor obstinado, repleto de absurdidade, como também o mundo de sol, mar e calor que preenche o coração do homem quando o absurdo esmaga suas expectativas. </p>
         <p>Falemos, então, de Rambert, pois, se por um lado, Rieux sofreu em silêncio, por outro, Rambert fez de tudo para fugir da epidemia e correr para os braços de sua amada. Desde o primeiro projeto de Camus para Rambert, sua função narrativa era justamente a de expor a separação; ele era um “personagem suplementar: um separado, um exilado que tudo faz para sair da cidade e não consegue” (Camus, 1942-1945/sem data, p. 244). Rambert é apresentado como um jornalista que se dirige a Rieux para escrever uma reportagem sobre o estado sanitário dos árabes em Oran, bem no momento em que os ratos mortos começam a aparecer na cidade. As personagens logo se desentendem e só irão se encontrar novamente quando Rambert se dirige ao doutor Rieux para buscar meios de se evadir da cidade em quarentena.</p>
         <p>Ao longo do romance, é a transformação de Rambert que nos mostra o surgimento de uma nova moral, afinal, Rambert não era um cidadão de Oran, mas um jornalista preso na cidade por um infortúnio. Por muito tempo, Rambert não acreditava ser aquela a sua luta, via-se injustiçado e procurava nos meios de contrabando uma oportunidade para sair da cidade e voltar à companhia de sua amada. Estagnado entre a possibilidade de fuga e a prisão na qual se encontrava, Rambert passava longos momentos na estação abandonada de Oran, olhando cartazes e desejando uma vida diferente daquela na qual estava enclausurado; foi o período “simultaneamente, mais fácil e mais difícil” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 98) para o jornalista. Nessa época, Rambert acordava às quatro da manhã e ficava se imaginando em uma vida diferente; era seu modo de possuir a imagem de sua amada, “já que o grande desejo de um coração inquieto é possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar nesse ser, quando chega o tempo da ausência, num sono sem sonhos que só possa acabar no dia do reencontro” (Camus, 1947/sem data, pp. 99-100).</p>
         <p>Apesar de jamais ajudar Rambert a fugir, Rieux também não o condena; “com todas as suas forças, desejava que Rambert voltasse e reencontrasse a mulher e que todos os que se amavam se reunissem, mas havia decretos e leis, havia a peste e o seu papel era fazer o que era necessário” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 79). O médico, atrelado às leis da quarentena, não desencoraja o jornalista a tentar outros meios para se reunir com sua amada, como quando o diz “que não era vergonha preferir a felicidade” (Camus, 1947/sem data, p. 183). Rambert, consternado pela separação e, pela postura de Rieux diante da peste, acusa o doutor de viver na abstração, de não reconhecer o peso de uma separação daquelas, mas Rieux sabe o que é viver em separação e por isso luta para superar todas as suas manifestações. </p>
         <disp-quote>
            <p>O jornalista tinha razão na sua impaciência de felicidade. Mas teria razão quando o acusava? ‘O senhor fica na abstração’. Eram realmente abstração estes dias passados no hospital, onde a peste se saciava em dobro, elevando a quinhentas a média de vítimas por semana? (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 80).</p>
         </disp-quote>
         <p>Rieux alegava, por fim, que Rambert acreditava ser abstração “tudo aquilo que se opunha à sua felicidade”; o médico, por sua vez, “sabia também que chega o momento em que a abstração se mostra mais forte que a felicidade e que é preciso, então, e só então, levá-la em consideração” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 83). Em síntese, é preciso assentir a “vida em suas antinomias mais profundas” para “operar um alargamento da condição de homem” e, somente a partir disso, “uma felicidade humana - e não sobre humana - deve, pois, ser vislumbrada (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Paiva, 2013</xref>, p. 120).  </p>
         <p>Enquanto sua fuga não se concretizava, Rambert decide se voluntariar no combate à peste. É nos hospitais de campanha, inclusive, onde começa a mudar sua conduta diante da impossibilidade de abandonar aquela gente que sofria nas garras da peste; vemos com o passar dos dias de trabalho a transformação de Rambert. O movimento do jornalista de encontrar sua parte naquela luta, reconhecer-se como um deles, ainda que não um oranese, precisamente, mas um humano sob o flagelo. Lutando contra a peste, Rambert conhece a dor comum na qual Oran estava lançada e começa a fazer parte dela. Enquanto não chegou o dia de sua fuga, “Rambert trabalhou sem se poupar, de maneira ininterrupta, com os olhos de certo modo fechados, desde a aurora até a noite” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 178); entregue à luta contra a morte, desiste de sua fuga numa mescla de culpa e tomada de consciência. É justamente quando estava mais próximo de fugir que Rambert compreende que ainda que não houvesse vergonha em preferir a felicidade, poderia “haver vergonha em ser feliz sozinho” (Camus, 1947/sem data, p. 183). A transformação de Rambert nessa história está completa, bem como sua função na narrativa, quando, juntamente com Rieux e Tarrou, diz: “Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver com vocês. Mas agora que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira, quer não. A história diz respeito a todos nós” (Camus, 1947/sem data, p. 183). </p>
         <p>Decidido a permanecer em Oran, o jornalista pergunta a Rieux e a Tarrou se é preciso renunciar à felicidade para adentrar nessa história coletiva, para ter coragem de enfrentar o flagelo, mas nenhum dos dois sabe a resposta. Destaquemos a fala de Rieux: “Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber por quê. (...) É um fato, é só. Registremo-lo e aceitemos as suas consequências” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 184). A solidariedade cega, sem justificativa aparente, a não ser, talvez, a defesa da vida, é o que afasta o médico de sua felicidade; no fundo, só havia uma coisa a ser feita, combater o flagelo. Afinal, não se pode saber todas as consequências de abandonar essa felicidade imediata e cuidar dos empestados ao mesmo tempo, cabendo às vítimas e aos médicos buscar a cura dos seus o mais rápido possível.</p>
         <p>Rambert se torna mais um combatente, mais um voltado à luta contra o flagelo; luta que deve vir ainda antes da felicidade; o jornalista percebe em tempo que é preciso, como pensava Rieux, “amar ou morrer juntos” e que “não há outro recurso” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 124) para a humanidade sob o flagelo. A mudança de Rambert revela a compaixão livre e a solidariedade que Camus destaca na existência humana.</p>
         <p>Tarrou é outro personagem cujas análises poderiam ser extensas, tanto que é, mesmo indiretamente, um dos narradores da obra, visto que Rieux se apropria de suas anotações para complementar o seu relato. A relação dele com Rieux é de uma profunda amizade. No início, as intenções de Tarrou não ficam completamente claras, mas depois ele se apresenta como a verdadeira manifestação da luta com a morte, como um homem que não pode suportar que outros sejam condenados, independentemente do crime, à execução; como ele mesmo diz: “foi por isso que decidi recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justifica que se faça morrer” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 220). </p>
         <p>A vida de Tarrou é um eixo bastante interessante para pensarmos o apego à vida e a luta obstinada contra o flagelo. É ele quem compreende a peste como anterior à própria epidemia: </p>
         <disp-quote>
            <p>Sei, de ciência certa (...), que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém no mundo está isento dela. Sei ainda que é preciso vigiar-se sem descanso para não ser levado, num minuto de distração, a respirar na cara do outro e transmitir-lhe a infecção. O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, a pureza, se quiser - é um efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais se deter. O homem direito, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem o menor número de distrações possível. E como é preciso ter vontade e tensão para nunca se ficar distraído! Sim, Rieux, é bem cansativo ser um empestado. Mas ainda mais cansativo não querer sê-lo. É por isso que todos parecem cansados, já que todos, hoje em dia, se acham um pouco empestados. Mas é por isso que alguns que querem deixar de sê-lo conhecem um extremo de cansaço que já nada os libertará, senão a morte. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 220).</p>
         </disp-quote>
         <p>Tarrou firma seu ponto como uma contradição ambulante, como um revoltado que não esquece jamais suas raízes, como veremos, que ilustra justamente a contradição que Camus acredita ser a revolta justa, que não se corrompe e jamais permite matar, nem justifica que se mate (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Camus, 1951/2018</xref>). O que interessa a Tarrou “é saber como alguém pode tornar-se um santo”, “poder ser um santo sem Deus” é o único problema concreto que o aflige (Camus, 1947/sem data, p. 222).</p>
         <p>É mantendo sua contradição, sem nunca a resolver, que Tarrou alega procurar “ser um assassino inocente” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 221) e também selar duas das três categorias daqueles que vivem sob a peste (a moral que justifica a morte): as vítimas e os flagelos (Camus, 1947/sem data, p. 221); sendo que a terceira categoria, a dos “verdadeiros médicos”, é inserida posteriormente na obra, por Rieux. </p>
         <p>Por fim, quando Tarrou pergunta a Rieux se o mesmo sente amizade por ele (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 215), o médico diz que sim, que sente amizade por Tarrou, mas que faltou tempo para conhecê-lo melhor. Então as personagens concordam que seja aquela a hora da amizade, e Tarrou conta sua história para Rieux como forma de se conhecerem melhor. Para selar o pacto com o médico ainda sugere:</p>
         <disp-quote>
            <p>- Sabe o que devíamos fazer em prol da amizade?
- O que quiser - respondeu Rieux.
- Tomar um banho de mar. Mesmo para um futuro santo é um prazer digno.
Rieux sorria.
-  Com os nossos salvo-condutos, podemos ir até o cais. Afinal, é bobagem viver só na peste. Na realidade, um homem deve lutar pelas vítimas. Mas, se deixa de gostar de todo o resto, de que serve lutar?
- Tem razão - disse Rieux - Vamos. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 223). </p>
         </disp-quote>
         <p>Como se a amizade supusesse a presença de cada um sem necessidade, pelo simples prazer de estarem e fazerem juntos algo agradável. Dessa forma, ambos selam a amizade num dos ambientes que mais permeia as narrativas camusianas, o mar; ali, silenciosos sob as águas, os amigos souberam, por um momento, “que a doença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 224). </p>
         <p>Tarrou acaba morrendo de peste. Rieux, então, assume que </p>
         <disp-quote>
            <p>Tarrou tinha encontrado a paz, mas, pelo menos nesse momento, julgava saber que não há possibilidade de paz para si mesmo, assim como não há armistício para a mãe amputada do filho ou para o homem que enterra o amigo (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 253). </p>
         </disp-quote>
         <p>Não sabemos dizer, por fim, se Tarrou ganhara ou perdera a partida (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus 1947</xref>/sem data, p. 254); se sua luta constante e impossível era válida. Sabemos apenas que Tarrou estava morto e o conhecimento de Rieux sobre ele eram as imagens “de um homem que pegava no volante do seu automóvel com as mãos firmes” e a daquele “corpo espesso estendido” e “sem movimento. Um calor de vida e uma imagem de morte” (Camus 1947/sem data, p. 254).</p>
         <p>Cottard é o único que não se abala com a peste e, na verdade, prefere viver durante o estado de peste. É uma personagem que faz o caminho contrário dos outros “heróis comuns”. Isso acontece porque Cottard era um contrabandista e havia sido condenado à prisão antes da epidemia. Sabendo que seria preso, tenta se matar, pois não suportava se imaginar isolado dos outros. Vive melhor na quarentena, pois, com a peste, estava condenado como todos os oraneses e não separado deles. </p>
         <p>Tarrou, com quem Cottard mantivera um contato próximo, observa a vida do contrabandista com curiosidade: </p>
         <disp-quote>
            <p>A única coisa que ele não quer é ficar separado dos outros. Prefere estar sitiado com todos a estar preso sozinho. Com a peste, já não há que inquietar-se com inquéritos secretos, com processos, com fichas, com instruções misteriosas ou prisão iminente. Para dizer a verdade, já não há a polícia, não há mais crimes, novos ou antigos, já não há culpados, há apenas condenados, e, dentre eles, os próprios policiais. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 172).</p>
         </disp-quote>
         <p>Cottard já havia vivido a separação em seu coração, não poderia suportar a ideia de estar completamente isolado e defendia que “a única maneira de juntar as pessoas ainda é mandar-lhes a peste” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 172). Tarrou o compreendia, de certa forma, descrevendo a vida das pessoas que recuam diante de um encontro verdadeiro, perdidas em seu próprio individualismo. “Em resumo”, para Cottard, “a peste lhe convém. De um homem solitário que não queria sê-lo, ela fez um cúmplice” (Camus, 1947/sem data, p. 173).</p>
         <p>Ainda que fosse um cúmplice da peste, pelos olhos de Tarrou, havia pouca maldade em Cottard; seu conhecimento prévio dessa separação e desespero habituais, “revelava mais infelicidade do que triunfo” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 174). </p>
         <p>Enfim, é Cottard quem vive a vida com certa lucidez, pois, “em suma (...) ele sente efetivamente que a sua vida e a sua liberdade estão todos os dias na véspera de serem destruídas” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Camus, 1947</xref>/sem data, p. 174). Sua personagem nos permite uma série de análises sobre a punição, sobre a verdadeira separação na qual vivem os homens e a cumplicidade daqueles que se entregam à peste, como uma forma de se estar junto em meio ao mal. Por fim, Cottard enlouquece com o fim da epidemia, acaba espancado e preso por policiais. Compactuando com o flagelo, impossibilitado de suportar a separação, sua liberdade morre, juntamente com a peste.</p>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Conclusão</title>
         <bold> </bold>
         <p>No momento em que concluímos este artigo, ainda estamos às voltas com a pandemia de COVID-19, que teve seu começo em 2020 e, ainda hoje, em 2021, assola o mundo contemporâneo. A experiência da leitura da obra de Camus, além de sua atemporalidade como expressão da condição humana, em seu enfrentamento do mal natural e histórico, é intensificada ao nos encontrarmos exilados com um flagelo mortífero - ainda que de menor grau ao vivenciado por Camus, em plena Segunda Guerra Mundial. Seja como for, é recolocada, por meio de sua obra, a importância de retornarmos à arte e à história para reinventarmos nossa consciência e lucidez dos acontecimentos que nos assolam, apropriando-nos do espírito da revolta camusiana. Não estamos sitiados com o exército nazista, como esteve Camus, mas com um vírus, infeccioso como o bacilo da peste e espalhado por todo o globo, e por uma crise política que lembra, ainda que em outra dimensão, aquela também vivenciada por Camus e sua geração. Impressiona, nesse sentido, seu discurso por ocasião do recebimento do prêmio Nobel, que é de uma atualidade que lembra os repetidos percalços da humanidade e seus desafios. Citemo-lo, na transcrição de Kjell <xref ref-type="bibr" rid="B20">Strömberg (1973</xref>), antigo Conselheiro Cultural da Embaixada da Suécia em Paris: </p>
         <disp-quote>
            <p>Cada geração, sem dúvida, julga-se destinada a refazer o mundo. A minha, entretanto, sabe que não o reformará. Mas o seu papel talvez seja maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrompida onde se misturam as revoluções decaídas, as técnicas que enlouqueceram, os deuses mortos e as ideologias extenuadas, onde poderes medíocres podem, hoje, destruir tudo, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se abaixou ao ponto de se tornar a escrava do ódio e da opressão, esta geração foi obrigada a nela própria e em torno dela restaurar, a partir unicamente de suas negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e morrer. (p. 18).</p>
         </disp-quote>
         <p>À parte a afirmação de que toda geração se sente destinada a refazer o mundo, sem dúvida datada como moderna, é a humanidade como um todo, em seu estado de “sítio” e crise política generalizada, que faz emergir, não coincidentemente, as mesmas necessidades e preocupações presentes no romance. A força com que Camus faz um diagnóstico de seu tempo é tamanha, que podemos vê-la ressoar também nos dias de hoje. Podemos ver com nossos próprios olhos aqueles que fazem pactos mortíferos com o flagelo em prol da manutenção de uma vida medíocre, e a doença ceifar a vida de milhares de pessoas por dia, nos habituando com os números e as pilhas de mortos. A essa altura, também parecemos “descarnados” e, como os oraneses, habituados a ameaças mortais disfarçadas de rotina. </p>
         <p>A peste que carregamos em nossos corações, também está no ar e nos corpos. Agora, como outrora, a solidariedade humana é necessária para alianças de uns com os outros, para além das abstrações ou busca por heróis. Na condição de homens comuns, de empestados, ou assumimos nosso posto na luta contra o flagelo e a razão assassina que legitima a morte, ou não poderemos ser livres, tampouco felizes. É preciso querer não ser empestado, é preciso querer não infectar e é preciso lutar contra a infecção. E querer se “desempestar” requer um esforço muito maior do que conviver com a peste em si. Esse nos parece o desafio deixado pela leitura d<italic>’A Peste</italic>, de Camus, a necessidade de uma postura contra a doença, seja de um vírus com toda sua objetividade, seja do embrutecimento de nossos corações e subjetividades, habituados a ver morrer e deixar que se morra.</p>
      </sec>
   </body>
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         <title>Referências</title>
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               <comment>Recuperado em 18 de maio de 2020</comment>
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      <fn id="fn1" fn-type="other">
         <label>1</label>
         <p>“<italic>A Peste</italic> é para a vida coletiva o que <italic>O Estrangeiro</italic> era para a vida individual” (Maurois, 1963, p. 334; 338. Todas as traduções dos originais em francês são nossas).</p>
      </fn>
      <fn id="fn2" fn-type="other">
         <label>2</label>
         <p> “<italic>O Estrangeiro</italic> é o ponto zero. Idem o <italic>Mito</italic>. <italic>A Peste</italic> é um progresso, não do zero até o infinito, mas na direção de uma complexidade mais profunda que falta definir” (Camus, 1964, p. 31, como citado por Bosi, 1998, p.63).</p>
      </fn>
      <fn id="fn3" fn-type="other">
         <label>3</label>
         <p>“Tomar consciência do caráter insensato dessa agitação, da inutilidade de tantos sofrimentos, é descobrir o absurdo da condição humana” (Maurois, 1963, p. 327, a respeito de <italic>O Mito de Sísifo</italic>, que expressa as ideias que inspiram <italic>O Estrangeiro)</italic>.</p>
      </fn>
      <fn id="fn4" fn-type="other">
         <label>4</label>
         <p>Camus questiona a autoridade moral que um homem ou, no caso, uma instituição pode ter para julgar o outro, considerando que, no fundo, somos todos culpados ou comprometidos com o estado de coisas na sociedade. Como destaca Maurois da obra que sintetiza esse ponto entre os romances de Camus, <italic>A Queda </italic>(1956/2015), Clamence, um reconhecido advogado de Paris, acaba convencido “da hipocrisia de uma profissão na qual ele julga aqueles que ele defende como se ele mesmo não fosse culpado (…). Esta franqueza incita seus interlocutores a confessar que eles não valem mais do que ele” (Maurois, 1963, p. 336).</p>
      </fn>
      <fn id="fn5" fn-type="other">
         <label>5</label>
         <p>Em particular, segundo Maurois (1963), “A pobreza ensinou-lhe o respeito pelo sofrimento, a solidariedade com os pobres” (p. 323).</p>
      </fn>
      <fn id="fn6" fn-type="other">
         <label>6</label>
         <p>Bernard (2010, pp. 169-170) aponta que as separações vividas pelas personagens de Rieux e Rambert remetem às separações do próprio Camus; a de Rieux, é a situação inversa à vivida pelo autor ao tratar de uma tuberculose, afastado da mulher e impedido de reencontrá-la; a separação de Rambert, diz da impossibilidade de Camus retornar à Argélia. Assim, podemos encarar a criação desses personagens como uma sublimação de Camus diante de sua própria condição de separado.</p>
      </fn>
   </back>
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