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            <journal-title>Psicologia em Pesquisa</journal-title>
            <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. pesq.</abbrev-journal-title>
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         <issn pub-type="epub">1982-1247</issn>
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            <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFJF</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.34019/1982-1247.2022.v16.32829</article-id>
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               <subject>Artigo</subject>
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            <article-title>Notas sobre a noção de desamparo em Freud</article-title>
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               <trans-title>Notes on the notion of helplessness in Freud</trans-title>
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               <trans-title>Notas sobre la noción de desamparo en Freud</trans-title>
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            <contrib contrib-type="author">
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                  <surname>Carvalho</surname>
                  <given-names>Jéssica Baêta de Azevêdo</given-names>
               </name>
               <xref ref-type="aff" rid="aff1">
                  <sup>1</sup>
               </xref>
            </contrib>
            <contrib contrib-type="author">
               <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-3274-7032</contrib-id>
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                  <surname>Gewehr</surname>
                  <given-names>Rodrigo Barros</given-names>
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               <xref ref-type="aff" rid="aff2">
                  <sup>2</sup>
               </xref>
            </contrib>
         </contrib-group>
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            <label>1</label>
            <institution content-type="original">Mestra em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas - UFAL. Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. E-mail: jessica_baeta2@hotmail.com</institution>
            <institution content-type="normalized">Universidade Federal de Alagoas</institution>
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            <email>jessica_baeta2@hotmail.com</email>
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            <label>2</label>
            <institution content-type="original">Doutor em Psicopatologia e Psicanálise pela Université Denis Diderot - Paris VII. Professor no Instituto de Psicologia e na Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Alagoas - UFAL. E-mail: rodrigo.gewehr@ip.ufal.br</institution>
            <institution content-type="normalized">Universidade Federal de Alagoas</institution>
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            <country country="BR">Brazil</country>
            <email>rodrigo.gewehr@ip.ufal.br</email>
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         <author-notes>
            <corresp id="c1">Informações do Artigo:
rodrigo.gewehr@ip.ufal.br</corresp>
         </author-notes>
         <pub-date pub-type="epub">
            <year>2022</year>
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         <volume>16</volume>
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         </permissions>
         <abstract>
            <title>Resumo</title>
            <bold> </bold>
            <p>Propomos neste ensaio uma abordagem histórica e teórica da noção de desamparo na obra de Freud entre 1895 e 1927. Neste estudo, sobressaem-se dois eixos de análise principais. Inicialmente, a noção de desamparo se encontra vinculada ao fato da prematuração orgânica, e, posteriormente, estende-se como condição de base para as significações das experiências mais iniciais do eu. Ambos os eixos denotam que a noção de desamparo remete a um estado de desproteção irremediável, que se determina no limite entre as esferas do orgânico e do simbólico, as quais assumem, no curso do desenvolvimento psíquico, um estatuto de complementaridade.</p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>Abstract</title>
            <bold> </bold>
            <p>This essay aims at a historical and theoretical approach to the notion of helplessness in Freud’s works between 1895 and 1927. In this study, two main axes of analysis can be highlighted. Firstly, the notion of helplessness is associated to the fact of organic prematuration, and later extends itself as a basic condition for signifying the earliest experiences of the ego. Both axes denote that the notion of helplessness refers to a state of hopeless lack of protection determined by the limits between the organic and the symbolic, which assume in the course of psychic development a status of complementarity.</p>
         </trans-abstract>
         <trans-abstract xml:lang="es">
            <title>Resumen</title>
            <bold> </bold>
            <p>En este ensayo proponemos un abordaje histórico y teórico de la noción de desamparo en la obra de Freud entre 1895 y 1927. En este estudio se destacan dos ejes principales de análisis. Inicialmente, la noción de desamparo se vincula al hecho de la prematuridad orgánica y, posteriormente, se extiende como condición fundamental para los significados de las experiencias más iniciales del yo. Ambos ejes denotan que la noción de desamparo se refiere a un estado de desprotección irremediable, que se determina en el límite entre las esferas de lo orgánico y lo simbólico, que asumen, en el curso del desarrollo psíquico, un estatuto de complementariedad.</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>Palavras-chave:</title>
            <kwd>Metapsicologia</kwd>
            <kwd>Desamparo</kwd>
            <kwd>Eu</kwd>
            <kwd>Freud</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>Keywords:</title>
            <kwd>Metapsychology</kwd>
            <kwd>Helplessness</kwd>
            <kwd>Ego</kwd>
            <kwd>Freud</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="es">
            <title>Palabras clave:</title>
            <kwd>Metapsicología</kwd>
            <kwd>Desamparo</kwd>
            <kwd>Yo</kwd>
            <kwd>Freud</kwd>
         </kwd-group>
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   <body>
      <p>Propomos neste artigo um ensaio teórico a respeito da noção de desamparo [<italic>Hilflosigkeit</italic>] na obra de Freud entre os anos de 1895 e 1927. Nosso argumento caminha em quatro direções: A primeira reconhece nos trabalhos iniciais de Freud da década de 1890 que o fato biológico da prematuração orgânica constitui a expressão de uma condição originária de desamparo. Já a segunda volta-se para as discussões inaugurais sobre a sexualidade infantil, formuladas em 1905, e entende a experiência da perda do objeto de satisfação que dá origem ao autoerotismo como referência e, ao mesmo tempo, repetição daquela condição originária de desamparo. A terceira direção, por vez, aponta para as consequências psíquicas dos estados de carência orgânica vivenciados ainda na primeira infância. A análise dessas consequências nos leva a considerar que na origem da angústia, tal como concebida em 1926, haveria uma vivência de desamparo que medeia entre orgânico e o simbólico. Os fundamentos desse argumento sofrem uma ampliação bastante significativa em 1927, e constituem a nossa quarta e última direção. É aqui que o naturalismo de Freud, subentendido ao longo de todo esse percurso dá seu último golpe: a força da religião e das ilusões que a acompanha denunciam que no fato da prematuração orgânica se precipitam os determinantes simbólicos da nossa indigência existencial. Da referência ao fato do desprovimento biológico como síntese das primeiras vivências infantis, à condição de dimensão simbólica sobre a qual se sustenta a realidade psíquica, o desamparo se nos impõe ao final desse percurso como uma condição de desproteção irremediável.</p>
      <sec>
         <title>Imaturidade Orgânica e Desamparo</title>
         <bold> </bold>
         <p>O tema do desamparo [<italic>Hilflosigkeit</italic>] e as questões que emergem a partir dele se apresentam na obra de Freud desde as ditas publicações pré-psicanalíticas. Uma primeira abordagem mais sistemática já se encontra em 1895, em<italic> Projeto para uma psicologia científica </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn1">
               <sup>1</sup>
            </xref>. No conjunto das teses alinhavadas pelo <italic>Projeto</italic>, o problema inicialmente se coloca a partir do pressuposto da vivência de satisfação, que dispõe sobre as repercussões psíquicas das repetições dos estados de carência orgânica, aos quais o bebê se encontra subjugado desde o nascimento. A expressão de maior magnitude deste problema se apresenta na ausência de recursos que caracteriza a condição inicial do aparelho psíquico. De face com a própria imaturidade, o psiquismo encontrar-se-ia impossibilitado para anular quaisquer fontes de excitabilidade endógena sem que, com isso, incorresse no engodo da alucinação (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). Essa condição de insuficiência coloca em relevo o fato de que as experiências de carência orgânica, e, sobretudo, suas repetições são estruturantes do funcionamento dos processos psíquicos. No limite, é com o impasse colocado pela gênese do psiquismo que tal condição se defronta. Esse impasse, que se caracterizaria pela passagem do registro biológico, marcado por uma condição de imaturidade orgânica, para o da representação psíquica, mediada pela função reguladora da organização do eu, introduz a problemática da <italic>Hilflosigkeit</italic> na obra de Freud. Nas entrelinhas desta problemática, a condição de imaturidade orgânica assume o estatuto de uma experiência de desamparo, através da qual o psiquismo estrutura as bases do seu funcionamento na dinâmica da própria insuficiência. </p>
         <p>À organização dessa dinâmica subjaz quatro premissas fundamentais: I. a organização primária dos processos psíquicos se encontra marcada pela ausência de um objeto de satisfação a priori, evidenciando o estado de dependência originária do bebê para com as pessoas que lhe conferem os cuidados primevos; II. os contornos deste objeto determinar-se-iam através de uma complexa rede simbólica, que atribui à irrupção das descargas motoras significações que materializam expressões de desamparo; III. o encontro do bebê com as figuras cuidadoras delineia uma experiência primária de comunicação (<italic>Verständigung</italic>), que sentencia o psiquismo a constituir-se na relação com o outro; e IV. a síntese desses processos circunscreve o conjunto das vivências mais elementares da organização do eu, que demarca tanto a origem das representações psíquicas correlatas aos estados de carência orgânica, quanto a significação de desamparo decorrentes deles. Não obstante essas considerações introduzirem o cenário no qual a <italic>Hilflosigkeit</italic> conhece sua primeira expressão na obra de Freud, elas não esclarecem o que está em relevo na sua utilização. Pois, muito embora o fato do desprovimento biológico determine as fontes de excitabilidade endógena que acometem o aparelho psíquico, a explicação dos processos através dos quais um estímulo originariamente somático adquire uma representação permanece ainda em aberto, já que essa implica uma operação em nível psíquico. Essa limitação teórica sugere que, no que diz respeito à regulação dos processos que circunscrevem a relação entre o somático e o psíquico, é o estatuto da organização do eu que está em pauta. </p>
         <p>O argumento freudiano parece admitir algumas imprecisões, sobretudo no que se refere à vinculação entre imaturidade orgânica e a ideia de um desamparo primordial como seu correlato. Por um lado, se partirmos do pressuposto de que entre imaturidade orgânica e desamparo há uma relação de equivalência, somos levados a considerar o desprovimento biológico como elemento disparador da estruturação do eu. Por outro, se assumirmos a premissa de que entre imaturidade orgânica e desamparo se estabelece uma relação de distinção, somos conduzidos à ideia de que o eu funciona como um vetor que impulsiona a passagem de uma condição para a outra. As imprecisões das quais ambos os argumentos padecem ressaltam o fato de que, anterior ao estatuto do eu sobre a regulação dos processos psíquicos, encontra-se o problema colocado pela indeterminação da noção de desamparo na obra de Freud. Em última instância, esta indeterminação incide diretamente sobre a própria compreensão dos fundamentos da dinâmica psíquica, cuja tentativa de elucidação exige uma análise mais aprofundada dos usos da <italic>Hilflosigkeit</italic> na obra freudiana.</p>
         <sec>
            <title>Autoerotismo e Desamparo</title>
            <bold> </bold>
            <p>Se em 1895 as repercussões psíquicas das repetições dos estados de carência orgânica já interrogavam os fundamentos da gênese da vida anímica, dez anos depois, essa questão parece retornar nas teses desenvolvidas pelo segundo dos <italic>Três ensaios sobre a teoria da sexualidade </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn2">
                  <sup>2</sup>
               </xref>. À época do <italic>Projeto</italic>, o problema se apresentava nos termos da debilidade originária do “aparelho neuronal”. Já em relação aos <italic>Três ensaios</italic>, são as vicissitudes da sexualidade infantil que conduzem nossa análise, mais especificamente no que se refere aos impasses colocados pelo entendimento do autoerotismo.</p>
            <p>Para Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B5">1905/1992</xref>), o ato de “sugar” realizado pela criança, que pode ser preservado até a maturidade ou persistir ao longo de toda vida, constitui o modelo prototípico das manifestações da sexualidade infantil e se caracteriza pelo fato de que “a pulsão não está dirigida para outra pessoa; se satisfaz no próprio corpo” (p. 164, tradução nossa<xref ref-type="fn" rid="fn3">
                  <sup>3</sup>
               </xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn4">
                  <sup>4</sup>
               </xref>. Desse ato derivam-se as três características mais primordiais do desenvolvimento da sexualidade infantil: I. emerge no apoio sobre uma das funções de autoconservação; II. não possui objeto sexual definido, caracterizando-se por isso como autoerótico; e III. sua meta sexual se encontra sob o domínio de uma zona erógena específica (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>). À soma destes atributos subjaz a explicitação do elemento sexual intrínseco ao ato de sucção expresso pela criança, que consistiria na repetição de uma experiência de prazer já vivenciada.  “Assim, no caso mais simples, a satisfação é obtida mamando ritmicamente em uma parte da pele ou da mucosa”, evocando aquela que, aos olhos de Freud, seria  a primeira e mais importante atividade da criança: mamar no seio materno - ou naquele que o substitui (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>, p. 164)<xref ref-type="fn" rid="fn5">
                  <sup>5</sup>
               </xref>. O aspecto sexual propriamente dito dessa atividade, portanto, se expressa na ideia de que “os lábios da criança se comportam como uma <italic>zona erógena </italic>[grifo do autor] e a estimulação pelo influxo do leite quente foi a causa da sensação prazerosa” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>, p. 164-165)<xref ref-type="fn" rid="fn6">
                  <sup>6</sup>
               </xref>.</p>
            <p>No conjunto dessas considerações, evidencia-se o panorama geral dos movimentos instintuais que caracterizariam a dinâmica da sexualidade infantil. Inicialmente, a satisfação sexual se encontra apoiada em uma das funções que servem à conservação da vida, mais especificamente sobre a função de nutrição. O princípio desta satisfação determina-se em um objeto externo ao corpo da criança, personificado no seio materno. Neste momento primário, estaria implícita uma perda irremediável, que se concretizaria “quando aparecem os dentes e a alimentação já não se realiza mais exclusivamente pela amamentação, mas também pela mastigação” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>, p. 165)<xref ref-type="fn" rid="fn7">
                  <sup>7</sup>
               </xref>. É a perda do objeto de satisfação originário que se coloca em relevo, que ocorre numa “época em que a criança era capaz de formar a representação global da pessoa a quem pertencia o órgão que lhe conferia satisfação” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992 </xref>, p. 202)<xref ref-type="fn" rid="fn8">
                  <sup>8</sup>
               </xref>. Ao que parece, é sobre o curso da maturação orgânica que Freud situa o impulso que confere origem ao segundo momento da satisfação sexual, e que agora se destina ao próprio corpo da criança. </p>
            <p>No curso do desenvolvimento da sexualidade infantil, a atividade sexual tornar-se-á, por via de regra, autoerótica. Daí em diante, a criança não mais se utilizará de um objeto externo para sugar, e sim de “uma parte de sua própria pele, porque lhe é mais cômodo, porque assim se torna independente do mundo exterior ao qual ainda não pode dominar” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>, p. 165)<xref ref-type="fn" rid="fn9">
                  <sup>9</sup>
               </xref>. Mais que enfatizar o caráter propriamente autoerótico inerente ao ato de sucção, a substituição do seio materno por uma parte do corpo da criança realça o princípio dinâmico subjacente a este deslocamento: é a separação do impulso que busca repetir a satisfação sexual daquele que se volta para a autoconservação que se encontra em evidência (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>). </p>
            <p>O argumento freudiano sugere que, em tese, é o próprio desenvolvimento orgânico quem impõe a perda do objeto de satisfação original. As consequências desta perda, que se fazem sentir de modo particular em nível psíquico, introduzem um problema de difícil resolução e que interroga o estatuto do autoerotismo no curso do desenvolvimento do psiquismo. A compreensão de que a atividade autoerótica, em essência, consiste na repetição de uma experiência de satisfação que alude ao prazer obtido na relação com a nutriz, leva-nos a considerar que o autoerotismo ilustra uma síntese da ruptura que se efetiva entre as dimensões sexual e autoconservativa (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amaral, 1995</xref>). Partindo do pressuposto de que a consequência de maior magnitude desta ruptura se expressa na perda do objeto de satisfação original, em última instância o autoerotismo performaria uma tentativa de elaboração desta perda. Ainda que a atividade e a orientação da satisfação do instinto sexual recaiam sobre o corpo da criança, não se pode negligenciar que tanto o parâmetro da atividade, quanto o da satisfação, permanecem sendo a experiência primária de prazer consumada na relação com a nutriz. A aceitação desse pressuposto implicaria em considerar que os contornos da dinâmica autoerótica constituir-se-iam em referência a uma outra pessoa, que não é a criança propriamente dita (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amaral, 1995</xref>).</p>
            <p>No terceiro ensaio, mais especificamente na sessão 5, que versa sobre a <italic>descoberta do objeto</italic>, Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B5">1905/1992</xref>) argumenta que, mesmo após a ruptura da relação entre a atividade sexual e a da alimentação, os vestígios deixados por esse primeiro vínculo permanecem exercendo seus efeitos sobre os processos da vida anímica, notadamente no que se refere a preparação da escolha do objeto. Tais efeitos se particularizam na tese de que durante o período de latência “a criança aprende a <italic>amar </italic>[grifo do autor] outras pessoas que remediam o seu desamparo e satisfazem as suas necessidades. O faz seguindo por inteiro o modelo dos vínculos entre o lactante e a nutriz, dando continuidade a eles” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>, p. 203)<xref ref-type="fn" rid="fn10">
                  <sup>10</sup>
               </xref>. À primeira vista, esse argumento parece esboçar a hipótese de que a delimitação do objeto de amor, que se concretiza na vida adulta, faz-se seguindo os vestígios deixados pela relação primordial entre a mãe e o bebê (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amaral, 1995</xref>). No entanto, se olharmos mais de perto, os fundamentos desse argumento remontam a um pressuposto muito mais antigo, que alude à noção de já indicada pelas teses do <italic>Projeto</italic>. Para Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B2">1950/2007</xref>), o organismo humano é, a princípio, incapaz de empreender a <italic>ação específica</italic> que lhe permite satisfazer as exigências das necessidades vitais que o acometem, a exemplo da experiência originada pela fome. A ação que permitiria a <italic>vivência de satisfação </italic>encontrar-se-ia subordinada à existência de um <italic>indivíduo experiente</italic>, capaz de se aperceber do estado de carência orgânica da criança, e prover um objeto de satisfação possível (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). O desfecho desse encontro entre o adulto e o bebê inauguraria uma experiência primária de comunicação [<italic>Verständigung</italic>], na qual o desamparo da criança representa “a <italic>fonte primordial</italic> de todos os <italic>motivos morais</italic>” [grifo do autor] (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>, p. 363)<xref ref-type="fn" rid="fn11">
                  <sup>11</sup>
               </xref>. Se, em 1895, os contornos dessa experiência de comunicação giravam em torno da condição de insuficiência originária do aparelho neuronal, em 1905 o argumento freudiano agrega uma nova dificuldade ao assumir que essa comunicação circunscreve em si mesma uma natureza sexual. Ainda que não possamos desconsiderar o significativo distanciamento teórico que se observa entre um texto e o outro, o princípio fundador dessa comunicação parece não haver sofrido grandes alterações. Seja em 1895 ou 1905, persiste a ideia de que a condição de desamparo, que se supõe sobre o bebê na mais tenra infância, é quem impulsiona a sua emergência. Apesar da conotação sexual, há que se considerar que ainda é sobre os estados de carência orgânica, agora expressos no conjunto das funções de autoconservação, que o amparo se realiza.</p>
            <p>O argumento sobre as repercussões do período no qual a atividade sexual estava subordinada à ingestão de alimento nos permite pensar que a representação constituída na relação com a nutriz é quem personifica o elemento remanescente, cujas repercussões se sobrepõem aos demais vínculos estabelecidos pela criança (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amaral, 1995</xref>). Mas não somente! Implícita aos efeitos desta representação, encontra-se a grandeza das dimensões de afeto e amparo que a criança também parece buscar nas relações que dela prosseguem, sobretudo no que diz respeito ao autoerotismo. Na condição de que as relações subsequentes se realizam segundo o modelo daquela mais primordial (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>), teríamos que considerar que a natureza do vínculo autoerótico também compreende as dimensões da satisfação sexual e do desamparo, que se constitui como significação primordial das primeiras expressões de carência orgânica da criança. Desta forma, a conformação do vínculo com o próprio corpo apresentar-se-ia igualmente atravessada pela dupla representação da experiência que se constitui a partir da díade lactente-nutriz. Paralela à possibilidade de repetir a satisfação sexual, o autocentramento no corpo também implicaria em recriar essa experiência inicial de amparo, que busca remediar a condição de desamparo que se supõe imanente à origem do psiquismo (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>).</p>
            <p>Mais uma vez, encontramo-nos diante do pressuposto de que a condição de imaturidade orgânica assume o estatuto de uma experiência de desamparo. As dificuldades teóricas que acompanham este pressuposto, no entanto, agregam um novo problema. Tratando-se da sexualidade infantil, a organização do eu passa a se defrontar tanto com a representação que se constitui a partir da ruptura do primeiro e mais relevante de todos os vínculos sexuais, quanto com o estado afetivo correlato a esta representação; que parece personificar uma repetição da experiência de separação originária, aquela que remonta ao momento próprio do nascimento (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>), e que no cenário teórico onde a sexualidade se desenvolve retorna como a ruptura da primeira relação de amor.</p>
            <p>Essas considerações sobre a emergência do autoerotismo nos colocam quatro enunciados principais: I. a vivência da perda do objeto de satisfação primordial atribui ao autoerotismo uma significação que não se encerra na sua condição de determinante da sexualidade infantil; II. análoga à cisão entre os planos da satisfação sexual e o da autoconservação, há uma experiência cuja natureza sintetiza a inscrição de uma falta irremediável; III. na base desta experiência subjaz o conteúdo de uma vivência prototípica que precede o autoerotismo, e que alude ao momento de separação e desproteção vivido pelo bebê quando do nascimento; e, por fim, IV. a ruptura do primeiro e mais relevante de todos os vínculos sexuais, responsável pela origem do autoerotismo, constitui um ponto de repetição da referência ao desvalimento no qual se dá a gênese e estruturação dos processos psíquicos. Em síntese, esses enunciados delineiam o caminho através do qual as vicissitudes da sexualidade infantil se defrontam com a problemática da <italic>Hilflosigkeit</italic>.</p>
            <p>Por certo, os argumentos propostos em 1895 e 1905 compartilham de uma mesma premissa: a ausência de recursos que caracteriza o estado de debilidade orgânica e psíquica inerente aos primeiros anos de vida da criança. Apesar das semelhanças, uma análise mais criteriosa acerca dessa premissa - compreendida como paradigma da noção de desamparo em Freud - evidencia o fato de que ela não é a única e, tampouco, a principal linha de elaboração desta noção (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Pereira, 2008</xref>). Tratar-se-ia, mais especificamente, de um vetor de análise que integra um arcabouço teórico muito mais complexo, cuja dimensão metapsicológica não se limita a uma condição de objetividade biológica. Ainda que a referência ao estado de insuficiência psicomotora não tenha sido abandonada ou refutada por Freud, seu o estatuto teórico sofreu alterações bastante significativas, expressas sobretudo em <italic>Inibições, sintomas e angústia </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>).</p>
            <p>O fato de a condição de debilidade orgânica ser constituinte do núcleo da experiência primária de perigo que se encontra na gênese da angústia, nos conduz a uma ampliação sobre o argumento epistemológico implícito ao desamparo primordial: se em 1895 e 1905 o argumento em questão enfatizava a dimensão performativa do bebê no âmbito da autoconservação, em 1926 a experiência que se origina através do desamparo personifica o protótipo sobre o qual se constituem os processos de simbolização (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Pereira, 2008</xref>). Na conformação deste cenário, somos levados à hipótese de que o argumento freudiano sobre a <italic>Hilflosigkeit</italic> não circunscreve em si mesmo uma ruptura, mas um deslocamento metapsicológico sobre o estatuto desta noção: da referência ao fato do desprovimento biológico como síntese concreta das primeiras vivências da criança, à condição de dimensão simbólica sobre a qual se sustenta a realidade psíquica, ou melhor, a própria existência humana (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Pereira, 2008</xref>). Com base nesta hipótese, a continuidade da investigação proposta exige que nos debrucemos sobre os fundamentos da angústia, tal como apresentados em 1926.</p>
         </sec>
         <sec>
            <title>Angústia e Desamparo</title>
            <bold> </bold>
            <p>“A angústia é, portanto, antes de tudo, algo que se sente” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 125)<xref ref-type="fn" rid="fn12">
                  <sup>12</sup>
               </xref>. Sua natureza caracteriza um estado afetivo de caráter desprazeroso cujos atributos se destacam em comparação aos outros estados que denotam este mesmo caráter, tais como a dor e a tristeza. Para Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1926/1992</xref>), o elemento que particulariza a condição da angústia é a presença de sensações físicas que remetem a determinados processos fisiológicos, sobretudo aqueles que ocorrem nos órgãos respiratórios e do coração. “Na base da angústia há um aumento da excitação, aumento que, por um lado, dá origem ao caráter desprazeroso, e por outro, é amenizado pelas descargas mencionadas” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 126)<xref ref-type="fn" rid="fn13">
                  <sup>13</sup>
               </xref>. </p>
            <p>Paralelo a esse pressuposto fisiológico, haveria um elemento histórico que alinhava as sensações do estado de angústia e as reações sofridas pela fisiologia do corpo, e que esclarece o cenário no qual o desprazer atribuído a esse estado afetivo adquire seu caráter particular: “o estado de angústia é a reprodução de uma experiência que reuniu as condições para um aumento do estímulo como o indicado e para descarga por determinadas vias” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 126)<xref ref-type="fn" rid="fn14">
                  <sup>14</sup>
               </xref>. Na condição humana, diz Freud, “o nascimento nos oferece uma experiência arquetípica, e por isso estamos inclinados a ver no estado de angústia uma reprodução do trauma do nascimento” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 126)<xref ref-type="fn" rid="fn15">
                  <sup>15</sup>
               </xref>. Embora esta tese seja passível de objeções, as quais são reconhecidas pelo próprio Freud, nela consiste o argumento que dispõe sobre a estrutura e a procedência da angústia, assim como sobre sua função e as circunstâncias nas quais é produzida. </p>
            <p>“A angústia se produziu como reação a um estado de perigo; daí em diante, será reproduzida regularmente quando um estado semelhante voltar a se apresentar” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 127)<xref ref-type="fn" rid="fn16">
                  <sup>16</sup>
               </xref>. Mas a qual perigo Freud estaria fazendo referência? Muito embora o ato do nascimento circunscreva em si mesmo um risco objetivo, que diz respeito à conservação da vida, em termos psicológicos isso não nos oferece grandes esclarecimentos. Afinal, “o perigo do nascimento ainda carece de qualquer conteúdo psíquico”, e, certamente, “não podemos pressupor no feto nada que se aproxime de um conhecimento sobre a possibilidade de que tal processo leve a uma aniquilação vital” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 128)<xref ref-type="fn" rid="fn17">
                  <sup>17</sup>
               </xref>. No contexto da prematuração, as impressões que chegam ao feto limitar-se-iam a uma grande perturbação na economia da libido narcísica, caracterizada por grandes quantidades de excitação que dão origem a novas sensações de desprazer, correlatas aos investimentos bastante elevados que são alcançados por diversos órgãos (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Ainda que esta tese evidencie o fator econômico implícito à situação de perigo, permanece obscuro o aspecto que, em tudo isso, será utilizado como sinal distintivo para esta situação. Pois ao passo que Freud assevera o pressuposto de que o recém-nascido repetirá esse estado econômico e afetivo em todas as situações que recordarem o evento do nascimento, a ausência de explicação acerca da razão pela qual a criança se recorda deste evento, e, sobretudo, o que exatamente ela se recorda, coloca-se como um problema sem resolução aparente (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>).</p>
            <p>Na tentativa de responder a esse impasse, Freud recorre à análise das situações em que o lactente, ou a criança já um pouco mais madura, se dispõe para o desenvolvimento da angústia. Dentre estas situações, três se destacam: I. quando a criança está sozinha; II. quando se encontra na escuridão; e III. quando se depara com uma pessoa desconhecida no lugar daquela que lhe é familiar, a exemplo da mãe (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Subjacente a essas três situações, há uma condição comum: a falta da pessoa amada (ansiada). Por meio da análise dessa condição evidenciar-se-ia um caminho possível para o entendimento da angústia, bem como para a resolução das contradições que parecem se relacionar a ela. De acordo com Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1926/1992</xref>), o processo psíquico que se realiza através da experiência análoga à falta da pessoa amada expressa um intenso investimento dirigido para a imagem mnemônica que lhe é correlata, ainda que inicialmente isto ocorra pela via da alucinação. As repercussões deste investimento psíquico, todavia, não são capazes de produzir um resultado efetivo, uma vez que o objeto desejado consiste em uma rememoração, em vez da percepção do objeto na realidade (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950[1895]/2007</xref>). O anseio pela pessoa amada converter-se-ia, assim, em angústia, cuja emergência determina uma reação à falta do objeto (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>).  Em última instância, o argumento freudiano coloca em relevo o fato de que a natureza da angústia determina a referência econômica e afetiva da experiência de separação que está na base da perda do objeto de satisfação, posteriormente significado a partir de uma relação descrita como de amor (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">1926/1992</xref>). A conformação dessa experiência, que comunica a existência de uma falta que emerge no plano da representação e se concretiza na ausência da percepção do objeto sobre o mundo externo, coloca em relevo a íntima relação que se estabelece entre desamparo e angústia em Freud.</p>
            <p>Nos termos da organização dos processos psíquicos relativa aos primeiros anos de vida da criança, a alucinação do objeto de satisfação evidencia o fato de que tal objeto não é inerente ao psiquismo e, tampouco, ao próprio corpo da criança. O fracasso desse investimento econômico e afetivo coloca para o aparelho psíquico a necessidade de estabelecer um critério distintivo entre os processos de rememoração e percepção, que se determina na ação do eu sobre o direcionamento dos processos associativos, através do recurso da inibição (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). A diferença que se impõe entre um processo e outro ressalta que o objeto de satisfação existe apenas como representação, e isso não é suficiente para que a instância do eu, ainda em vias de constituição, possa dar conta de modo eficiente das demandas que lhe são apresentadas; sobretudo aquelas de caráter interno (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). </p>
            <p>Este pressuposto assume contornos ainda mais complexos em virtude de que o fracasso do investimento sobre a representação, que anteriormente denotava repercussões marcadamente econômicas, passa a ser compreendido no cenário da origem da angústia. A consequência direta desse aumento de complexidade se expressa na premissa de que a vivência de frustração, diante da ausência do objeto, encontrar-se-ia intimamente relacionada com a tese da separação, que fundamenta a natureza da angústia (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Implícita na emergência deste estado afetivo haveria a formação de uma experiência limite que, para o psiquismo, assume o estatuto de uma condição de desamparo, embora mais distante daquele dito como primordial. Por um lado, essa experiência limite reconhece a impotência da organização do eu sobre a regulação dos processos psíquicos, e por outro, a debilidade do psiquismo ao longo dos primeiros anos de vida no que se refere aos processos de simbolização. Não deve passar desapercebido o fato de que embora a alucinação do objeto de satisfação seja fundante da experiência que caracteriza o desamparo primordial, suas repercussões não dispõem sobre o problema da significação desta experiência (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). Antes disso, os investimentos que conferem origem à alucinação colocam em discussão a debilidade do psiquismo naquilo que se refere ao direcionamento dos processos associativos. Tanto as condições através das quais a representação do objeto de satisfação se sobrepõe a sua percepção no mundo externo, quanto à ausência de distinção entre os processos de rememoração e percepção, denunciam a precariedade das ações do eu (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). Nisto consiste a impossibilidade de consideramos a ausência de recursos para inibir os estados de carência orgânica como expressão direta de uma condição de desamparo, sem que esta significação tenha sido previamente atribuída pela organização do eu. Em última instância, o desvalimento que se supõe sobre a debilidade do psiquismo espelha as próprias significações conferidas pelo eu a essas vivências mais primevas. Teríamos que admitir, portanto, um deslocamento significativo da ideia do desamparo como origem, para a compreensão do desamparo como efeito das vivências do eu. </p>
            <p>Não obstante a pertinência dessas considerações, o entendimento acerca da relação que se estabelece entre a <italic>Hilflosigkeit</italic> e a angústia ainda padece de algumas imprecisões, uma vez que a apresentação dos fundamentos desta última não esclarece a real ameaça que se supõe à sua emergência. </p>
            <p>Paralelo ao pressuposto da perda do objeto haveria um outro subjacente, através do qual se compreenderia os princípios da situação de perigo que acompanha as manifestações da angústia. Retomando o argumento sobre a experiência de satisfação, Freud desenvolve a tese de que “quando a criança anseia a percepção da mãe, é somente porque já sabe, por experiência, quem ela satisfaz suas necessidades sem demora” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 130)<xref ref-type="fn" rid="fn18">
                  <sup>18</sup>
               </xref>. Nesse panorama, a situação que o aparelho psíquico qualifica como perigosa “e da qual tenta se proteger, é a da insatisfação, o <italic>aumento da tensão da necessidade</italic>, [grifo do autor] diante da qual é impotente” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 130)<xref ref-type="fn" rid="fn19">
                  <sup>19</sup>
               </xref>. Nesse pressuposto fundamenta-se a ideia de que uma perturbação da economia psíquica, cujas “magnitudes de estímulo alcançam um nível desprazeroso sem que se as domine pelo uso psíquico e descarga, estabelecem para o lactante a analogia com a vivência do nascimento, a repetição da situação de perigo” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 130)<xref ref-type="fn" rid="fn20">
                  <sup>20</sup>
               </xref>. Tal perturbação econômica, suscitada pelo aumento das magnitudes de estímulo, constituiria o autêntico núcleo da situação de perigo (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>) e, a partir dela, constituir-se-ia uma torção importante sobre o argumento freudiano, naquilo que se refere ao conteúdo dessa situação. Partindo da consideração de que “um objeto externo, apreensível por meio da percepção, pode pôr fim à situação perigosa que lembra o nascimento, o conteúdo do perigo passa da situação econômica para a sua condição, a perda do objeto” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 130)<xref ref-type="fn" rid="fn21">
                  <sup>21</sup>
               </xref>. A falta da mãe tornar-se-á, portanto, a própria personificação do perigo, e, consequentemente, a condição primeva da angústia. “Este movimento”, assevera Freud, “significa um primeiro grande progresso para alcançar a autopreservação; simultaneamente, compreende a passagem da neoprodução involuntária e automática da ansiedade para a sua reprodução deliberada como sinal de perigo” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 130)<xref ref-type="fn" rid="fn22">
                  <sup>22</sup>
               </xref>.</p>
            <p>Seja como fenômeno automático ou como sinal diante de uma situação ameaçadora, o argumento de Freud coloca em relevo o fato de que a angústia se apresenta como “produto do desamparo psíquico do lactante, que obviamente é o correspondente de seu desamparo biológico” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 130)<xref ref-type="fn" rid="fn23">
                  <sup>23</sup>
               </xref>. Este argumento conduz a hipótese de que entre a angústia do nascimento e aquela expressa pela criança, encontra-se latente o evento da separação da mãe. “A vida intrauterina e a primeira infância constituem um continuum”, diz Freud, “em extensão muito maior do que nos faria pensar a impressionante cesura do ato do nascimento. O objeto psíquico materno substitui para a criança situação biológica fetal” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>, p. 131)<xref ref-type="fn" rid="fn24">
                  <sup>24</sup>
               </xref>. </p>
            <p>Novamente, a elaboração freudiana acerca da <italic>Hilflosigkeit</italic> padece de uma série de imprecisões, as quais convergem para o problema que emerge da suposição de uma equivalência entre imaturidade orgânica e desamparo, tal como já se percebe nas teses do <italic>Projeto</italic>. Trinta anos após a escrita do texto, permanece em aberto a explicação acerca dos processos através dos quais um estímulo originariamente somático adquire uma representação, que além de envolver uma operação em nível psíquico, também materializa expressões de desamparo. A indeterminação deste impasse, todavia, é apenas aparente. O fato de a angústia revelar-se efeito do desamparo não anula o pressuposto de que a organização do eu é precisamente a matriz sobre a qual ela conhece sua origem, e, tampouco, o fato de que sua natureza determina um estado afetivo que somente pode ser sentido pelo eu (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Por conseguinte, os processos por meio dos quais uma experiência é representada econômica e afetivamente como condição de desamparo, encontra-se subordinada não apenas às operações da organização do eu, mas, sobretudo, à rede simbólica que significa a história das suas vivências. </p>
            <p>Visto que a ausência de representação psíquica nos impossibilita supor sobre a criança a consciência do risco objetivo que se coloca para ela no ato do nascimento, torna-se inviável considerar que esse evento seja vivido como uma experiência de desamparo; já que esta implica uma operação no nível psíquico. No contexto da prematuração, os estímulos que acometem a criança caracterizam-se como um distúrbio sem precedentes sobre sua incipiente economia psíquica, e este aspecto, associado à ausência de representação que determina o cenário de debilidade no qual o nascimento se realiza, conduz-nos à compreensão de que, naquilo que se refere aos processos de simbolização, essa é uma experiência limite para o psiquismo. </p>
            <p>Neste sentido, a possibilidade de o desprovimento biológico vir a ser elemento determinante de uma condição de desamparo não se justifica pela via da prematuração, mas sim pelo pressuposto de que o estado econômico e afetivo que lhe é correlato se repete quando da perda do objeto materno, na qual um esboço da organização do eu já se encontra presente (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">1905/1992</xref>). O conjunto dessas considerações evidencia que o caráter de impotência atribuído ao aparelho psíquico sofre um deslocamento bastante significativo em 1926: da circunstância orgânica em si mesma, para a ausência do objeto capaz de anular o aumento da excitabilidade, que particulariza uma condição limite para o funcionamento dos processos psíquicos (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Subjacente à ausência de recursos para simbolizar a ruptura da vida intrauterina, e a experiência da perda do objeto materno, que sinaliza a situação de perigo que está na base da emergência da angústia, encontra-se a debilidade da organização do eu. É em virtude de o desamparo revelar-se como subordinado da impotência do eu que ele demarca o limite e as condições de possibilidade dos processos de simbolização (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Mais que uma suposição introdutória, o desamparo se estende como condição de base para as diferentes situações de perigo que se desenvolvem a partir do protótipo do nascimento, em uma dinâmica que caminha titubeando da perda do objeto materno à angústia diante do <italic>supereu</italic>.</p>
            <p>A análise das teses sobre a angústia (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>) conduz a um deslocamento sobre a compreensão do desprovimento biológico como elemento disparador da estruturação do eu e de sua contrapartida, que pressupõe nesta instância um vetor de passagem da debilidade orgânica para uma condição de desamparo. Em vez de compor uma relação de oposição, essas premissas apresentam um estatuto de complementaridade. Coexistem no interior das elaborações sobre a<italic> Hilflosigkeit</italic> tanto a referência ao estado de insuficiência psicomotora como síntese concreta das primeiras vivências da criança, quanto a ideia de uma rede simbólica que borda a história das experiências do eu sobre a trama do desamparo, de modo que ambas se complementam no decorrer da obra de Freud. Esse segundo vetor de análise sobre o desamparo, por sua vez, parece encontrar nas interrogações sobre o fundamento psicológico das ideias religiosas (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>) contornos mais definidos e sistematizados.</p>
         </sec>
         <sec>
            <title>Ideias Religiosas e Desamparo</title>
            <bold> </bold>
            <p>“Em que reside o valor particular das representações religiosas?” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>, p. 15)<xref ref-type="fn" rid="fn25">
                  <sup>25</sup>
               </xref>. Eis a questão com a qual Freud se defronta ao longo de <italic>O futuro de uma ilusão</italic>, sobretudo naquilo que se refere ao problema psicológico implícito a ela. Tratar-se-ia, mais especificamente, de compreender no que consiste a força interna dessas doutrinas e a quais circunstâncias devem sua eficácia, que parece ser independente da aceitação racional. Para Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1927/1992</xref>), dois aspectos marcam o impulso que confere origem às concepções religiosas: por um lado, busca-se proteção contra os perigos do opressivo poder da natureza e do destino; e por outro, contra os danos oriundos das imperfeições da cultura, que são dolorosamente sentidas. O cenário sobre o qual a narrativa freudiana alinhava suas considerações sobre a necessidade de proteção latente nas ideias religiosas remonta a uma experiência que se encontra às voltas com o modelo do desamparo infantil. O qual, por vez, dispõe o espelho dos vínculos que o desamparo da criança estabelece com o do adulto, e que parece lhe dar prosseguimento (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>). É precisamente na relação entre o desamparo e o complexo paterno que a gênese psíquica das ideias religiosas encontra sua determinação. Ao examinarmos essa relação, todavia, temos que partir de algumas considerações teóricas preliminares.</p>
            <p>À primeira vista, o panorama no qual as elaborações de Freud se desenvolvem conduz à compreensão de que o desamparo, que se supõe horizonte último da formação da religião, alude ao pressuposto da insuficiência psicomotora que caracteriza a precariedade dos primeiros anos de vida da criança (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">1905/1992</xref>). Seus efeitos, porém, são residuais, tornando, portanto, este raciocínio apenas parcialmente válido. A correlação entre o fundamento psicológico da religião e o complexo paterno denota uma significação que retoma o histórico da debilidade orgânica para colocar em relevo o fato de que, em 1927, a <italic>Hilflosigkeit </italic>denuncia a fragilidade simbólica diante das ameaças com as quais a capacidade de representação do psiquismo se defronta. O desamparo, que se apreende como registro da dimensão sobre a qual se sustenta a realidade psíquica, encontra no acervo das concepções religiosas uma de suas expressões de maior magnitude. Segundo Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1927/1992</xref>), as repercussões das situações de perigo que se impõem sobre a incipiente economia do aparelho psíquico teriam instituído sobre sua dinâmica de funcionamento “a necessidade de proteção - proteção através do amor - fornecida pelo pai; e o conhecimento de que esse desamparo duraria uma vida inteira foi a causa da crença da existência de um pai muito mais poderoso” (p. 30)<xref ref-type="fn" rid="fn26">
                  <sup>26</sup>
               </xref>. Nessa analogia se encontram as razões pelas quais as ideias religiosas gozam de tamanho vigor: elas conformam em si mesmas um acervo de crenças nas quais em suas motivações prevalece a realização de um desejo (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>). Caracterizar-se-iam, portanto, como <italic>ilusões</italic>, cujo princípio fundador expressa a realização “dos desejos mais antigos, intensos e urgentes da humanidade; o segredo da sua força é a força desses desejos” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>, p. 30)<xref ref-type="fn" rid="fn27">
                  <sup>27</sup>
               </xref>.</p>
            <p>Essas considerações sinalizam que a tese sobre a gênese psíquica das ideias religiosas circunscreve dois deslocamentos epistemológicos elementares: I. o desamparo se insere na economia psíquica como representante de um registro marcadamente simbólico; e II. a figura cuidadora, capaz de prover ao infante o amparo diante das situações de perigo, assume contornos paternos em detrimento dos maternos. Comum ao esclarecimento de ambos os deslocamentos, subjaz uma proposição muito mais antiga, que retorna sobre o argumento da escolha de objeto que se faz por apoio (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Freud, 1905/1992</xref>). Partindo do princípio de que a libido segue o curso das necessidades narcísicas, e se agarra aos objetos que asseguram sua satisfação, “a mãe, que sacia a fome, se torna o primeiro objeto de amor, e por certo também a primeira proteção diante de todos os perigos indeterminados que ameaçam o mundo exterior; poderíamos dizer: a primeira proteção contra a angústia” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>, p. 24)<xref ref-type="fn" rid="fn28">
                  <sup>28</sup>
               </xref>. No decorrer da infância, o caminho através do qual essa função protetora se estabelece nomeará o pai em detrimento da mãe para exercê-la, não obstante a relação estabelecida com o primeiro ser dotada de uma ambivalência particular, posto que o pai constitui um perigo em si mesmo, já que remete à trama da relação edípica. Assim, a criança anseia e a admira ao pai, mas nem por isso o teme menos; e, de acordo com Freud (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1927/1992</xref>, p. 24), os “indícios da ambivalência do vínculo com o pai se acham profundamente gravados em todas as religiões”.<xref ref-type="fn" rid="fn29">
                  <sup>29</sup>
               </xref>
            </p>
            <p>No interior das marcas deixadas por essa experiência infantil, determina-se a matriz da precariedade com a qual a criança conhece a vida adulta: ao se aperceber incapaz de “prescindir da proteção contra poderes superiores desconhecidos”, isto é, fadado a permanecer infantil, o indivíduo adulto “empresta a esses poderes os traços da figura paterna, cria os deuses diante dos quais passa a temer, cujos favores procura conquistar e para os quais, no entanto, transfere a tarefa de protege-lo” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>, p. 24)<xref ref-type="fn" rid="fn30">
                  <sup>30</sup>
               </xref>. Inerentemente ao anseio pelo pai, encontra-se a “necessidade de proteção contra as consequências da impotência humana”, bem como o fato de que “a defesa contra o desamparo infantil confere seus traços mais característicos à reação diante do desamparo que o adulto tem de reconhecer, que é justamente a formação da religião” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>, p. 24)<xref ref-type="fn" rid="fn31">
                  <sup>31</sup>
               </xref>. A religião organizaria, portanto, um ato de defesa em face da nossa própria indigência existencial: no lugar dedicado à figura de Deus está sepultada aquela que um dia foi a imagem do pai. Em última instância, o exame crítico da religião consiste na delimitação do ideal da função paterna em sua íntima relação com o patrimônio simbólico de uma determinada cultura.</p>
         </sec>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Considerações finais</title>
         <bold> </bold>
         <p>Ao longo deste breve ensaio, quatro direções nos serviram de orientação. Em 1895, o fato da prematuração orgânica materializava uma condição originária de desamparo, que subordinava a vivência de satisfação aos limites da alucinação do objeto materno (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Freud, 1950/2007</xref>). Sobre a experiência da perda do objeto de satisfação, constituir-se-ia uma repetição da referência a essa condição originária de desamparo, na qual a gênese e a organização dos processos psíquicos determinam-se no interior de um conflito irremediável: se o objeto da satisfação primária é estruturalmente perdido, a completude não pode ser mais do que uma promessa imaginária (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Moreira &amp; Pinto, 2012</xref>). As repercussões dos estados de carência orgânica, que em 1926 serão determinantes do núcleo da experiência primária de perigo, ressaltam que a expressão da <italic>Hilflosigkeit</italic> que se encontra na origem da angústia reclamava, mais uma vez, a ausência do objeto materno (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Freud, 1926/1992</xref>). Os fundamentos desse argumento metapsicológico, no entanto, parecem sofrer uma ampliação bastante significativa em 1927. Sobre o princípio que roga a intercessão do pai glorificado, pressupõe-se uma condição de desamparo que antecipa no fato da prematuração orgânica os determinantes simbólicos da nossa própria indigência existencial: a precariedade de recursos diante dos poderes superiores da natureza e do destino que, sem exceções, apenas conduz à morte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>). Nas entrelinhas desse raciocínio, delineiam-se duas experiências que, apesar de distintas, complementam-se: ao passo que o desprovimento biológico circunscreve na base da organização da vida anímica um estado de debilidade primordial, a vulnerabilidade originária do eu significa este estado de debilidade como o espelho do desvalimento simbólico do adulto. O lugar e a função destas experiências no curso do desenvolvimento psíquico destacam uma torção expressiva sobre o argumento freudiano: se à época da dispersão instintual dos primeiros anos de vida a criança recorre à função materna como fonte de amparo primordial, ao se aperceber herdeira da miséria originária da cultura, a criança se volta para a função paterna como fonte de amparo simbólico. </p>
         <p>Em relação à problemática da <italic>Hilflosigkeit</italic> na obra de Freud, as repercussões dessa análise sintetizam dois eixos de investigação principais: I. um desamparo que se vincula ao corpo, ao fato da prematuração, no qual a função materna personifica o ideal de proteção em face do estado de insuficiência psicomotora; e II. um desamparo que constitui a significação das experiências mais iniciais do eu, na qual a função paterna demarca o limite e as condições de possibilidade dos processos de simbolização. Seja em termos orgânicos ou simbólicos, a <italic>Hilflosigkeit </italic>desvela uma condição de desproteção irremediável, cujas variações assumem - no curso do desenvolvimento psíquico - um estatuto de complementaridade. No limite, esta condição de desproteção delineia no plano individual a falta de garantias de uma herança cultural, na qual a criação dos deuses parece confirmar a suspeita de que “o desamparo e a perplexidade humana são irremediáveis” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Freud, 1927/1992</xref>, p. 18)<xref ref-type="fn" rid="fn32">
               <sup>32</sup>
            </xref>.</p>
      </sec>
   </body>
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               <fpage>389</fpage>
               <lpage>404</lpage>
               <pub-id pub-id-type="doi">10.1590/S1516-14982012000300003</pub-id>
            </element-citation>
         </ref>
         <ref id="B7">
            <mixed-citation>Pereira, M. E. C. (2008). <italic>Pânico e desamparo: </italic>Um estudo psicanalítico. São Paulo: Editora Escuta.</mixed-citation>
            <element-citation publication-type="book">
               <person-group person-group-type="author">
                  <name>
                     <surname>Pereira</surname>
                     <given-names>M. E. C</given-names>
                  </name>
               </person-group>
               <year>2008</year>
               <source>
                  <italic>Pânico e desamparo: </italic>Um estudo psicanalítico</source>
               <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
               <publisher-name>Editora Escuta</publisher-name>
            </element-citation>
         </ref>
      </ref-list>
      <fn id="fn1" fn-type="other">
         <label>1</label>
         <p>Daqui em diante apenas <italic>Projeto.</italic>
         </p>
      </fn>
      <fn id="fn2" fn-type="other">
         <label>2</label>
         <p>Daqui em diante apenas <italic>Três ensaios</italic>.</p>
      </fn>
      <fn id="fn3" fn-type="other">
         <label>3</label>
         <p>As referências aos textos de Freud que se seguem estão em conformidade com a edição espanhola das <italic>Obras Completas</italic> publicadas pela Amorrortu Editores, e traduzidas por José Luiz Etcheverry. As traduções em português, feitas a partir da edição espanhola, são de nossa responsabilidade. Quando possível, comparamos nossas traduções com as da Companhia das Letras, de Paulo César de Souza. Ao final de cada citação, tomamos o cuidado de disponibilizar os excertos do texto original do qual nos utilizamos.</p>
      </fn>
      <fn id="fn4" fn-type="other">
         <label>4</label>
         <p>“la pulsión no está dirigida a otra persona; se satisface en el cuerpo propio”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref]).</p>
      </fn>
      <fn id="fn5" fn-type="other">
         <label>5</label>
         <p>“Así, en el caso más simple, la satisfacción se obtiene mamando rítmicamente un sector de la piel o de mucosa. Es fácil colegir también las ocasiones que brindaron al niño las primeras experiencias de ese placer que ahora aspira a renovar. Su primera actividad, la más importante para su vida, el mamar del pecho materno (o de sus subrogados), no pudo menos que familiarizarlo con ese placer”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref], p. 164).</p>
      </fn>
      <fn id="fn6" fn-type="other">
         <label>6</label>
         <p>“los labios del niño se comportaron como una zona erógena [grifo do autor] y la estimulación por el cálido aflujo de leche fue la causa de la sensación placentera”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref], p. 164-165).</p>
      </fn>
      <fn id="fn7" fn-type="other">
         <label>7</label>
         <p>“cuando aparecen los dientes y la alimentación ya no se cumple más exclusivamente mamando, sino también masticando”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref], p. 165).</p>
      </fn>
      <fn id="fn8" fn-type="other">
         <label>8</label>
         <p>“época en que el niño pudo formarse la representación global de la persona a quien pertenecía el órgano que le dispensaba satisfacción”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref], p. 202).</p>
      </fn>
      <fn id="fn9" fn-type="other">
         <label>9</label>
         <p>“una parte de su propia piel porque le resulta más cómodo, porque así se independiza del mundo exterior al que no puede aún dominar”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref], p. 165).</p>
      </fn>
      <fn id="fn10" fn-type="other">
         <label>10</label>
         <p>“el niño aprende a amar [grifo do autor] a otras personas que remedian su desvalimiento y satisfacen sus necesidades. Lo hace siguiendo en todo el modelo de sus vínculos de lactante con la nodriza, y prosiguiéndolos”. ([xref ref-type="bibr" rid="r5"]Freud, 1905/1992[/xref], p. 203).</p>
      </fn>
      <fn id="fn11" fn-type="other">
         <label>11</label>
         <p>“la fuente primordial de todos los motivos morales [grifo do autor]”. ([xref ref-type="bibr" rid="r2"]Freud, 1950/2007[/xref], p. 363).</p>
      </fn>
      <fn id="fn12" fn-type="other">
         <label>12</label>
         <p>“La angustia es, pues, en primer término, algo sentido”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 125).</p>
      </fn>
      <fn id="fn13" fn-type="other">
         <label>13</label>
         <p>“en la base de la angustia hay un incremento de la excitación, incremento que por una parte da lugar al carácter displacentero y por la otra es aligerado mediante las descargas mencionadas”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 126).</p>
      </fn>
      <fn id="fn14" fn-type="other">
         <label>14</label>
         <p>“el estado de angustia es la reproducción de una vivencia que reunió las condiciones para un incremento del estímulo como el señalado y para la descarga por determinadas vías”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 126).</p>
      </fn>
      <fn id="fn15" fn-type="other">
         <label>15</label>
         <p>“el nacimiento nos ofrece una vivencia arquetípica de tal índole, y por eso nos inclinamos a ver en el estado de angustia una reproducción del trauma del nacimiento”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 126).</p>
      </fn>
      <fn id="fn16" fn-type="other">
         <label>16</label>
         <p>“La angustia se generó como reacción frente a un estado de peligro; en lo sucesivo se la reproducirá regularmente cuando un estado semejante vuelva a presentarse”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 127).</p>
      </fn>
      <fn id="fn17" fn-type="other">
         <label>17</label>
         <p>“El peligro del nacimiento carece aún de todo contenido psíquico. Por cierto que no podemos presuponer en el feto nada que se aproxime de algún modo a un saber sobre la posibilidad de que el proceso desemboque en un aniquilamiento vital”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 128).</p>
      </fn>
      <fn id="fn18" fn-type="other">
         <label>18</label>
         <p>“Cuando el niño añora la percepción de la madre, es sólo porque ya sabe, por experiencia, que ella satisface sus necesidades sin dilación”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 130).</p>
      </fn>
      <fn id="fn19" fn-type="other">
         <label>19</label>
         <p>“Entonces, la situación que valora como «peligro» y de la cual quiere resguardarse es la de la insatisfacción, el aumento de la tensión de necesidad, [grifo do autor] frente al cual es impotente”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 130).</p>
      </fn>
      <fn id="fn20" fn-type="other">
         <label>20</label>
         <p>“la situación de la insatisfacción, en que las magnitudes de estímulo alcanzan un nivel displacentero sin que se las domine por empleo psíquico y descarga, tiene que establecer para el lactante la analogía con la vivencia del nacimiento, la repetición de la situación de peligro”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 130).</p>
      </fn>
      <fn id="fn21" fn-type="other">
         <label>21</label>
         <p>“un objeto exterior, aprehensible por vía de percepción, puede poner término a la situación peligrosa que recuerda al nacimiento, el contenido del peligro se desplaza de la situación económica a su condición, la pérdida del objeto”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 130).</p>
      </fn>
      <fn id="fn22" fn-type="other">
         <label>22</label>
         <p>“Esta mudanza significa un primer gran progreso en el logro de la autoconservación; simultáneamente encierra el pasaje de la neoproducción involuntaria y automática de la angustia a su reproducción deliberada como señal del peligro”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 130).</p>
      </fn>
      <fn id="fn23" fn-type="other">
         <label>23</label>
         <p>“producto del desvalimiento psíquico del lactante, que es el obvio correspondiente de su desvalimiento biológico”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 130).</p>
      </fn>
      <fn id="fn24" fn-type="other">
         <label>24</label>
         <p>“Vida intrauterina y primera infancia constituyen un continuo, en medida mucho mayor de lo que nos lo haría pensar la llamativa cesura " del acto del nacimiento. El objeto-madre psíquico sustituye para el niño la situación fetal biológica”. ([xref ref-type="bibr" rid="r4"]Freud, 1926/1992[/xref], p. 131).</p>
      </fn>
      <fn id="fn25" fn-type="other">
         <label>25</label>
         <p>“¿En qué reside el valor particular de las representaciones religiosas?”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]Freud, 1927/1992[/xref], p. 15).</p>
      </fn>
      <fn id="fn26" fn-type="other">
         <label>26</label>
         <p>“la necesidad de protección -protección por amor - proveída por el padre; y el conocimiento de que ese desamparo duraría toda la vida causó la creencia en que existía un padre, pero uno mucho más poderoso”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]Freud, 1927/1992[/xref], p. 30).</p>
      </fn>
      <fn id="fn27" fn-type="other">
         <label>27</label>
         <p>“de los deseos más antiguos, más intensos, más urgentes de la humanidad; el secreto de su fuerza es la fuerza de estos deseos”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]Freud, 1927/1992[/xref], p. 30).</p>
      </fn>
      <fn id="fn28" fn-type="other">
         <label>28</label>
         <p>“la madre, que satisface el hambre, deviene el primer objeto de amor, y por cierto también la primera protección frente a todos los peligros indeterminados que amenazan en el mundo exterior; podríamos decir: la primera protección frente a la angustia”. (Freud, [xref ref-type="bibr" rid="r3"]1927/1992[/xref], p. 24).</p>
      </fn>
      <fn id="fn29" fn-type="other">
         <label>29</label>
         <p>“Y cuando se pasa a anhelarlo y admirarlo no se lo teme menos. Los indicios de esta ambivalencia del vínculo con el padre están hondamente impresos en todas las religiones”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]1927/1992[/xref], p. 24).</p>
      </fn>
      <fn id="fn30" fn-type="other">
         <label>30</label>
         <p>“cuando el adolescente nota que le está deparado seguir siendo siempre un niño, que nunca podrá prescindir de la protección frente a hiperpoderes ajenos, presta a estos los rasgos de la figura paterna, se crea los dioses ante los cuales se atemoriza, cuyo favor procura granjearse y a quienes, empero, trasfiere la tarea de protegerlo”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]Freud, 1927/1992[/xref], p. 24).</p>
      </fn>
      <fn id="fn31" fn-type="other">
         <label>31</label>
         <p>“la necesidad de ser protegido de las consecuencias de la impotencia humana; la defensa frente al desvalimiento infantil
confiere sus rasgos característicos a la reacción ante el desvalimiento que el adulto mismo se ve precisado a reconocer, reacción que es justamente la formación de la religión”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]Freud, 1927/1992[/xref], p. 24).</p>
      </fn>
      <fn id="fn32" fn-type="other">
         <label>32</label>
         <p>“en lo que atañe a la distribución de los destinos, subsistirá una vislumbre desasosegante: el desvalimiento y el desconcierto del género humano son irremediables”. ([xref ref-type="bibr" rid="r3"]Freud, 1927/1992[/xref], p. 18).</p>
      </fn>
   </back>
</article>