A trilha sonora como modulação emocional no cinema de animação Disney
Bibiana Lauretti1
Resumo
Este artigo examina a trilha sonora como dispositivo de modulação emocional no cinema de animação contemporâneo da Disney, argumentando que o som não apenas intensifica ações visíveis, mas configura um campo acústico de antecipação que torna partilháveis impasses psíquicos ainda não verbalizados. A análise situa-se em produções nas quais o conflito narrativo se desloca do antagonismo externo para tensões identitárias e geracionais inscritas na interioridade das personagens, tendo como corpus Encanto (2021) e Turning Red (2022), selecionados por tematizarem traumas familiares e processos de reconhecimento subjetivo. A investigação articula dois eixos teórico-metodológicos. No plano cognitivo-perceptivo, mobiliza-se o Modelo de Congruência-Associação (Congruence-Association Model) de Annabel J. Cohen e a teoria da expectativa musical de David Huron. No plano interpretativo, recorre-se à tradição psicanalítica para examinar a sonoridade como instância simbólica implicada na constituição da interioridade. A metodologia consiste em análise fílmica comparativa de cenas nas quais procedimentos sonoros organizam a experiência afetiva antes da explicitação verbal do conflito. Conclui-se que a modulação emocional constitui categoria analítica operatória para compreender a centralidade da sonância na organização estética dessas narrativas.
Palavras-chave
trilha sonora; cinema de animação; modulação emocional; interioridade.
1 Doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: bibi.lautt@hotmail.com
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026025 10.34019/1981-4070.2026.v20.53475
The soundtrack as emotional modulation in Disney animated cinema
Bibiana Lauretti1
Abstract
This article examines the soundtrack as a device of emotional modulation in contemporary Disney animated cinema, arguing that sound not only intensifies visible actions but also configures an acoustic field of anticipation that renders still-unverbalized psychic impasses shareable. The analysis focuses on productions in which narrative conflict shifts from external antagonism to identity-based and generational tensions inscribed in the characters' interiority, with a corpus comprising Encanto (2021) and Turning Red (2022), selected for their focus on family trauma and processes of subjective recognition. The study articulates two theoretical and methodological axes. On the cognitive-perceptual level, it draws on Annabel J. Cohen's Congruence-Association Model and David Huron's theory of musical expectation. On the interpretative level, it engages the psychoanalytic tradition to examine sound as a symbolic instance implicated in the constitution of interiority. The methodology consists of a comparative film analysis of scenes in which sonic procedures organize the affective experience prior to the verbal articulation of conflict. The article concludes that emotional modulation operates as an analytical category capable of elucidating the centrality of sound in the aesthetic organization of these narratives.
Keywords
soundtrack; animated cinema; emotional modulation; interiority.
1 Doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: bibi.lautt@hotmail.com
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026025 10.34019/1981-4070.2026.v20.53475
La banda sonora como modulación emocional en el cine de animación de Disney
Bibiana Lauretti1
Resumen
Este artículo examina la banda sonora como dispositivo de modulación emocional en el cine de animación contemporáneo de Disney, argumentando que el sonido no solo intensifica acciones visibles, sino que configura un campo acústico de anticipación que vuelve compartibles impasses psíquicos aún no verbalizados. El análisis se sitúa en producciones en las que el conflicto narrativo se desplaza del antagonismo externo hacia tensiones identitarias y generacionales inscritas en la interioridad de los personajes, con un corpus compuesto por Encanto (2021) y Turning Red (2022), seleccionadas por abordar traumas familiares y procesos de reconocimiento subjetivo. La investigación articula dos ejes teórico-metodológicos. En el plano cognitivo-perceptivo, se moviliza el Modelo de Congruencia-Asociación (Congruence-Association Model) de Annabel J. Cohen y la teoría de la expectativa musical de David Huron. En el plano interpretativo, se recurre a la tradición psicoanalítica para examinar el sonido como instancia simbólica implicada en la constitución de la interioridad. La metodología consiste en un análisis fílmico comparativo de escenas en las que procedimientos sonoros organizan la experiencia afectiva antes de la explicitación verbal del conflicto. Se concluye que la modulación emocional constituye una categoría analítica operativa para comprender la centralidad del sonido en la organización estética de estas narrativas.
Palabras clave
banda sonora; cine de animación; modulación emocional; interioridad.
1 Doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: bibi.lautt@hotmail.com
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026025 10.34019/1981-4070.2026.v20.53475
Introdução
Neste artigo, a noção de modulação emocional designa o conjunto de procedimentos pelos quais a trilha sonora intervém na organização perceptiva e afetiva da experiência fílmica. A análise aqui desenvolvida articula dois eixos teórico-metodológicos complementares. No plano cognitivo-perceptivo, essa formulação dialoga com modelos que investigam como a música orienta a atenção do espectador, configura expectativas narrativas e regula níveis de excitação emocional. Esse eixo apoia-se no Modelo de Congruência-Associação de Cohen (2015) e na teoria da expectativa musical de Huron (2006).
Nessa perspectiva, a trilha atua como vetor de antecipação, incidindo sobre a interpretação dos acontecimentos antes mesmo de sua consolidação visual. Em um segundo eixo, de orientação psicanalítica, a modulação emocional permite examinar o som como instância simbólica implicada na constituição da interioridade psíquica, conforme sugerem Silverman (1988) e a leitura do envelope sonoro apresentada por Socha (2008). Assim concebida, a modulação constitui mecanismo estruturante da experiência narrativa, articulando expectativa e simbolização na constituição do sentido fílmico. A tradição psicanalítica, nesse quadro, não opera como reforço interpretativo externo, mas como referencial integrado ao próprio dispositivo analítico.
A sonoridade ocupa um dos lugares centrais na constituição da narrativa cinematográfica, não apenas como acompanhamento expressivo, mas como componente estrutural da experiência fílmica. Ao longo da consolidação do cinema, o som passou a integrar o sistema de significação da imagem, participando ativamente da construção de atmosferas, da organização temporal das cenas e da orientação da recepção. No caso da animação, essa integração assume caráter ainda mais evidente, dado o grau de estilização da imagem e a frequência com que a trilha sonora participa da dinâmica dramática.
Na tradição Disney, essa articulação entre musicalidade e conto tornou-se elemento constitutivo da identidade estética do estúdio. A revalorização do musical integrado, que se consolida de modo decisivo a partir do chamado Renascimento Disney, reposiciona a canção como motor narrativo e como eixo de expressão de interioridade e desejo, conforme discutido por Bunch (2021). Em paralelo, a tradição da animação preserva procedimentos de sincronização estreita entre gesto visual e evento sonoro, frequentemente descritos como mickeymousing, nos quais a sonância acompanha com precisão os movimentos e gestos das personagens, recurso que não se restringe a efeitos cômicos e participa também da caracterização e da estruturação dramática (Goldmark, 2005).
Nesse panorama, pode-se compreender a trilha sonora como instância de mediação entre imagem, ação e recepção afetiva, o que delineia o problema deste artigo. Interessa examinar de que modo a música participa da organização perceptiva e emocional do espectador, especialmente em produções contemporâneas da Disney, nas quais conflitos de identidade e tensões intergeracionais ocupam lugar central na construção dos personagens. Para isso, torna-se necessário retomar contribuições teóricas que examinam o funcionamento do som no audiovisual, tema desenvolvido nos próximos parágrafos.
A escritora Annabel Cohen, referência em psicologia musical, propôs o Modelo de Congruência-Associação como forma de compreender a interação entre melodia e imagem no cinema. Esse modelo parte da premissa de que a sonoridade pode influenciar a interpretação fílmica de duas maneiras centrais. A primeira pela congruência, quando padrões sonoros e visuais se alinham estruturalmente, como ritmo, acentuação ou movimento, direcionando o foco da atenção do espectador. A segunda pela associação, quando a sonância evoca significados adquiridos culturalmente ou pela própria narrativa, moldando a percepção de personagens, ambientes e acontecimentos. A partir de estudos, Cohen demonstrou que essas duas dimensões permitem que a trilha sonora crie um mecanismo de anteparo sobre as emoções, sobre a cena, e intensifique estados tocantes como suspense ou alívio, mesmo antes da ocorrência do evento visual, o que confirma o papel da música como vetor ativo de expectativas na construção do sentido narrativo (Cohen, 2015).
Em Audio-vision: sound on screen, Michel Chion, músico e compositor francês, elabora a distinção entre música empática e anempática como formas fundamentais de articulação sonora no cinema, evidenciando como a trilha pode tanto espelhar quanto contrastar com o estado sentimental da cena. A empática manifesta-se quando o ritmo, o timbre e o fraseado acompanham o tom da imagem, reforçando códigos culturais de tristeza, alegria ou melancolia e intensificando o sentimento representado. Já a anempática, ao contrário, mantém uma indiferença ostensiva diante do drama, prosseguindo de modo contínuo. Justamente essa ausência de correspondência, que, em vez de neutralizar o pathos, o intensifica ao situar a ação em um horizonte mais amplo, quase cósmico, revelando a disparidade entre o destino individual dos personagens e a impassibilidade do mundo.
Tal efeito não se restringe ao domínio musical, podendo ser produzido também por ruídos persistentes, como o som de máquinas, ventiladores ou chuveiros que continuam após eventos violentos, instaurando um ambiente de estranhamento em que a vida cotidiana parece prosseguir indiferente à tragédia. Para Chion, esses recursos não apenas organizam a temporalidade da imagem, mas desvelam a própria natureza do cinema enquanto dispositivo mecânico e repetitivo, no qual a trilha sonora opera simultaneamente como fio condutor emocional e como instância reveladora da artificialidade do movimento fílmico (Chion, 2016).
No capítulo O envelope sonoro de O eu-pele (1989), Anzieu desenvolve a noção de um espelho sonoro, concebido como uma pele auditivo-fônica constituída pelo banho melódico da voz materna nas primeiras interações entre mãe e bebê. Esse invólucro acústico exerce uma função estruturante ao conferir contorno e coesão ao aparelho psíquico, possibilitando a passagem da vivência inominável à representação dotada de sentido. Ao nomear e atribuir significados às experiências primárias da criança, como fome, dor ou sono, a fala materna inaugura a capacidade de significar e, em seguida, de simbolizar, instaurando uma dinâmica em que a melodia não é mero estímulo, mas uma matriz de subjetivação.
Essa concepção permite compreender a trilha sonora no cinema como herdeira dessa função primordial da musicalidade, pois o espectador também é envolvido por um envelope acústico que acolhe, organiza e regula a experiência sensível. Tal como o bebê encontra na voz materna um espaço de contenção e mediação, o público encontra na música fílmica uma superfície psíquica de acolhimento. Isso dá forma ao afeto e prepara a intensidade emotiva das imagens, revelando o papel da musicalidade como eixo fundamental da constituição da experiência estética e narrativa (Socha, 2008).
Em adjunto às ideias anteriores, pode ser citado The acoustic mirror (1988), texto da autora Kaja Silverman, que considera a voz materna como instância inaugural de constituição subjetiva, mostrando que ela funciona como um espelho acústico no qual o bebê encontra os primeiros contornos de sua identidade e de sua própria voz (Silverman, 1988). Essa dimensão auditiva, simultaneamente interna e externa, ultrapassa fronteiras entre interioridade e exterioridade e imprime marcas afetuosas que estruturam o psiquismo nascente. Mais tarde, essa mesma voz é reposicionada como superfície de projeção dos elementos repudiados da experiência infantil, tornando-se depositária de afetos e tensões que precisam ser deslocados para fora do campo paterno (Silverman, 1988).
Nessa perspectiva, a sonância deixa de ser acessório narrativo e passa a se constituir como matriz de sentimentos e de reconhecimento, sustentando a experiência emocional do sujeito. Essa aproximação não pretende reduzir o fenômeno cinematográfico à teoria psicanalítica, mas indicar uma dimensão adicional de significação que amplia o referencial conceitual a partir do qual o fenômeno sonoro é examinado.
Som, subjetividade e interioridade
Ao deslocar para o campo empírico as contribuições da psicologia cognitiva da música e do audiovisual, particularmente aquelas relativas à influência da trilha sonora na orientação da atenção e na formação de inferências narrativas, pode-se mencionar o estudo realizado por Ansani, Marini, D’Errico e Poggi (2020). Este estudo investiga experimentalmente como o ouvir molda a interpretação de cenas cinematográficas. Articulando métodos de psicologia experimental e neurociência cognitiva aplicada ao audiovisual, os autores conduziram um experimento com 118 participantes. Foi apresentada a mesma cena de um curta-metragem pouco conhecido em três condições distintas: acompanhada por um piano melancólico de Bill Evans, por uma peça orquestral ansiosa de Rachmaninov ou apenas com sons ambientes.
Os resultados demonstraram que a escolha da música alterou significativamente a interpretação da cena, produzindo leituras distintas do personagem, de sua personalidade e de suas intenções futuras. O som melancólico suscitou empatia e favoreceu a percepção do personagem como introvertido e sensível, enquanto a trilha ansiosa evocou desconfiança, associando-o a traços de frieza e possível ameaça.
No segundo estudo, realizado em laboratório com 92 participantes, os mesmos estímulos foram analisados, mas com a inclusão de medidas fisiológicas de atenção, como eye-tracking, que permite registrar com precisão os pontos e a duração das fixações visuais, e pupilometria. Esse segundo experimento replicou os achados do primeiro e acrescentou evidências objetivas. O acompanhamento com a música ansiosa levou a maior dilatação pupilar, sinalizando aumento de vigilância e alerta. Além disso, houve maior fixação visual em detalhes periféricos da cena, como a presença quase imperceptível de um segundo personagem em plano de fundo. Já a sonoridade melancólica promoveu foco no protagonista, diminuindo o estado de alerta e ampliando a conexão emotiva com tal personagem.
Outro estudo realizado pelos pesquisadores da Michigan State University, Bente, Kryston, Jahn e Schmälzle (2022), investigou como a composição não diegética estrutura a percepção do suspense, utilizando o curta Love Field em três versões: audiovisual, apenas vídeo e apenas som. Com 105 estudantes distribuídos aleatoriamente nas condições, os autores monitoraram em tempo real autorrelatos contínuos de suspense e indicadores fisiológicos, como frequência cardíaca, condutância da pele e amplitude do pulso. Os resultados mostraram que a melodia, mesmo sem imagens, elevou significativamente a excitação fisiológica, sendo a condição apenas com ruído mais intensa do que a apenas com vídeo. Além disso, eventos críticos, como pausas súbitas na trilha seguidas de sons agudos, provocaram acelerações e desacelerações cardíacas associadas à atenção e alerta. Esses achados demonstram que a musicalidade no cinema atua como elemento central na modulação afetiva e cognitiva, capaz de antecipar acontecimentos e intensificar a experiência de suspense.
Em destaque, a fim de concluir os mecanismos práticos, o estudo Soundtrack design: the impact of music on visual attention and affective responses, realizado na University of Miami, nos Estados Unidos, representa uma contribuição significativa para a compreensão da centralidade da sonância no cinema ao investigar, de forma interdisciplinar, como a trilha musical interfere na atenção visual e nas respostas afetuosas do espectador. A pesquisa contou com 60 participantes universitários submetidos a diferentes condições de acompanhamento sonoro de cenas, enquanto seus movimentos oculares foram monitorados por meio da técnica de eye-tracking. Os resultados evidenciaram que a presença da música não apenas intensificava as respostas sensíveis positivas diante das imagens, mas também acelerava o tempo até a primeira fixação nos elementos narrativos relevantes, orientando o olhar e organizando a experiência perceptiva. Embora a trilha não tenha modificado as crenças ou julgamentos sobre os eventos da cena, revelou-se determinante para estruturar cognitivamente a percepção e atribuir maior densidade emotiva ao que é visto.
Nesse sentido, em diálogo com pesquisas internacionais que investigam a influência da trilha sonora na orientação da atenção e na formação de inferências narrativas, parte-se do reconhecimento de que o papel ativo da musicalidade no audiovisual já se encontra amplamente discutido na literatura. O propósito deste artigo não é reiterar essa premissa, mas examinar como essa atividade se manifesta de modo específico nas animações contemporâneas da Disney, marcadas pelo deslocamento do conflito para a interioridade das personagens e para tensões familiares não resolvidas.
Nessas narrativas, em que o antagonismo tradicional cede lugar a conflitos identitários e afetivos, a trilha sonora não apenas intensifica ações visíveis. Ela atua como dispositivo de mediação entre a interioridade diegética e a recepção do espectador, organizando a experiência emocional antes mesmo da consolidação plena do sentido narrativo. Por esse ponto, a noção de modulação emocional se torna operatória, permitindo compreender a trilha como instância estruturante da experiência afetiva que acompanha e orienta a construção simbólica dessas novas formas de conflito.
Estudos de caso
Embora a animação tenha um longo legado em recorrer à música como elemento estruturante de sua narrativa, o que se observa na contemporaneidade é uma ênfase crescente em roteiros que exploram de forma mais profunda a dimensão emocional e psicológica dos personagens. A trilha sonora, nesse contexto, deixa de ser apenas um suporte rítmico ou ilustrativo e assume a função de intensificar sentimentos complexos, como o medo, a angústia e a inadequação, frequentemente associados a experiências traumáticas no sentido freudiano.
Essa abordagem pode ser identificada em produções recentes da Disney, como Encanto (2021) e Turning Red (2022). Em ambos os filmes, cenas expressam imageticamente o trauma herdado da infância, enquanto o som opera como mediador sensível entre as imagens e os conflitos internos das protagonistas. Essa mediação dramatiza a persistência de marcas inconscientes herdadas das relações familiares e oferece ao espectador um espaço de identificação e elaboração estética dessas experiências.
A seleção das cenas analisadas orientou-se por dois critérios complementares. O primeiro diz respeito à representatividade temática: ambas as obras tematizam laços familiares femininos marcados por ciclos de violência geracional, a relação avó-neta em Encanto e a relação mãe-filha em Turning Red, e as cenas escolhidas constituem o momento em que esse ciclo se torna visível imageticamente, não como flashback do passado, mas como expressão do medo e do trauma vividos na infância. O segundo critério é sonoro: as cenas selecionadas são aquelas em que a trilha opera de forma mais estruturante, especialmente por meio do leitmotif, termo alemão que significa “motivo condutor”, em que uma melodia pode representar um local, personagem, sentimento, uma razão de algo.
Em Encanto, o motivo do dom torna audível a exclusão de Mirabel da ordem simbólica familiar. Em Turning Red, o ostinato que acompanha o encontro entre Mei e Ming retorna quando Ming encontra sua própria mãe, inscrevendo sonoramente o acolhimento, tornando-se então o motivo audível desse recebimento e a quebra do ciclo de dores. Os parâmetros que orientaram a observação da trilha se mostram com o uso de leitmotif e ostinato, rupturas e silêncios dramáticos, e a relação entre evento sonoro e experiência afetiva do espectador.
O filme Encanto, produzido pela Walt Disney Animation Studios, constitui um estudo de caso para refletir sobre o papel da sonoridade na articulação entre narrativa. A história se passa em uma vila, na qual vive a família Madrigal, possuidora de poderes nomeados como dons. Cada integrante possui uma peculiaridade, essa concebida na infância, por meio de um ritual mágico, no qual o familiar deve ir até o encontro da porta de seu novo quarto. No momento em que a maçaneta é tocada, seu poder é revelado e um novo cômodo é concedido. Entretanto, a protagonista Mirabel se torna a única de toda a sua linhagem a não herdar um dom.
A análise recai sobre a cena em que Mirabel, ainda criança, sobe as escadas para tocar a maçaneta de sua porta mágica, momento no qual a expectativa da família se dissolve quando a porta desaparece diante de seus olhos. Essa ruptura é enfatizada pela trilha sonora, que abandona o clima festivo instaurado até então, instaurando pausas e silêncios dramáticos que acentuam o desamparo da protagonista diante da falha em corresponder às expectativas da família Madrigal. O uso sonoro nessa cena pode se revelar como operador de sentido, pois o silêncio não é ausência, mas signo que traduz a exclusão de Mirabel da ordem simbólica dos dons, fazendo ecoar a experiência de perda e fracasso. Nessa operação estética, a música não se limita a ornamentar, mas dá corpo à tensão entre pertencimento e marginalidade, podendo sugerir no espectador a mesma sensação de angústia que atravessa a personagem (Lauretti, 2023).
Na escrita do texto Efeitos Audiovisuais na Animação: A Produção do Medo, a conclusão acerca da análise do filme Encanto oferece um exemplo significativo do uso da trilha sonora como recurso fundamental na narrativa:
As vivências da história são contempladas por sua trilha sonora, tanto a cultura e os costumes locais da Colômbia são repassados por sons constantes de festividades e instrumentos como o cuatro, um violão usado tipicamente em países da América Latina, como as angústias e medos que Mirabel e Abuela carregam de traumas intensificados do tempo. Pode-se notar a inocência que a pequena Mirabel tem ao subir as escadas na infância pela música harmoniosa e angelical, com sua quebra para o que seria o trauma no desaparecimento da porta, havendo sons de tensão e suspense. Além de, na trilha, também estar presente o dom que possui melodia própria e se mistura pela trilha do filme de diversas maneiras, tendo sua base adaptada, mas com a mesma melodia que é apresentada ao título do filme. Os estímulos dramáticos são compostos com sintonia à musicalidade de Encanto, sem ela, não seria possível notar a presença em diversos momentos do dom, além de sentimentos e criação de personalidade para as personagens (Lauretti, 2023, p. 68).
O que se evidencia, contudo, não é apenas o emprego de procedimentos tradicionais da escrita musical no cinema de animação. Esse recurso está presente desde as primeiras experiências sonoras do estúdio; no entanto, a maneira como esses procedimentos são reorganizados em história, na qual o antagonismo não se apresenta como uma força externa a ser vencida, é notável. Em Encanto, o conflito central desloca-se para a interioridade da personagem e para a tensão entre pertencimento e inadequação no interior da família. Nesse contexto, a trilha sonora pode ser compreendida não apenas como intensificação de uma ação visível, mas como instância que antecipa e organiza a experiência afetiva associada a um colapso simbólico ainda não plenamente verbalizado.
A ruptura do som no desaparecimento da porta não se limita a marcar o trauma; ela o configura esteticamente como campo sensível compartilhável, instaurando uma modulação emocional que precede sua elaboração narrativa explícita. A música, assim, pode operar como mediadora entre a interioridade diegética e a recepção, configurando um espaço acústico de contenção e de antecipação afetiva que orienta a experiência do telespectador diante de conflitos identitários não externalizados em um vilão, mas inscritos nas relações familiares e na memória.
No caso de Turning Red, dirigido por Domee Shi e produzido pela Pixar, a análise recai sobre a história de Mei Lee, uma adolescente de 13 anos que herda a capacidade de transformar-se em um panda-vermelho gigante sempre que suas emoções extravasam. Tal feito funciona como metáfora do despertar do pubertário e da transmissão geracional de angústias, em especial na relação com sua mãe, Ming. Nesse contexto, a trilha sonora e os efeitos sonoros intensificam os conflitos internos da protagonista, convertendo suas tensões psíquicas em experiências sensoriais que envolvem o espectador. A musicalidade não se limita a ilustrar os acontecimentos, mas dramatiza a oscilação entre medo e desejo, delineando a luta pela autonomia frente ao olhar materno controlador. Essa função narrativa e afetiva da música ressoa diretamente com a psicanálise freudiana, que compreende o trauma como vivência de excesso pulsional e de desamparo, reativado em novas situações (Lauretti, 2023).
Nesse sentido, Turning Red oferece uma amostra de como a animação contemporânea articula som, imagem e memória para representar a permanência do infantil na vida adulta, assim como discutido por Freud e retomado por psicanalistas como Winnicott. As cenas em que Mei confronta as frustrações herdadas de Ming são intensificadas por trilhas que oscilam entre tensões dissonantes, silêncios dramáticos e melodias suaves, modulando a recepção do espectador e traduzindo a ambivalência entre amor e ressentimento na relação mãe-filha.
A questão do trauma geracional manifesta-se de forma emblemática na cena final do filme, quando a protagonista Mei acessa o mundo espiritual para socorrer a mãe. Nesse momento, encontra-se Ming em uma versão mais jovem, uma leitura de recurso imagético que evidencia tratar-se de um trauma originado na infância (Lauretti, 2023). O filme reafirma a trilha sonora como dispositivo psíquico e estético, capaz de elaborar, pela via sensível, tanto a persistência do medo quanto a possibilidade de sua transformação. Essa dimensão se torna evidente, especificamente, na cena descrita anteriormente, conforme se observa na seguinte passagem do texto:
Um acréscimo pode ser feito por um profissional da música, conforme dito pelo maestro Di Angelo Mathias. Ao ver e escutar a cena nos bambuzais, ele menciona como complemento: “Em relação à trilha sonora, há no início da cena um detalhe musical interessante. Junto dessa aura de ancestralidade vocal, há uma melodia insistente tocada por um instrumento de cordas oriental (provavelmente um Guzheng) no momento em que Mei encontra a sua mãe. Nota-se que a melodia se mantém estável e repetitiva (ostinato), mesmo com a mudança de harmonia. A partir do momento em que Mei diz à sua mãe "Mas não é verdade", o ostinato desaparece, dando lugar ao som de flautas, enquanto as duas caminham até se encontrarem com as outras da família. Quando Ming encontra sua mãe, o mesmo ostinato reaparece, mostrando-nos que se trata de um leitmotif que narra a conversa sincera entre mãe e filha, o que acaba por unir musicalmente as três personagens (Lauretti, 2023, p. 52).
Assim, a trilha não se restringe a sublinhar a transformação de Mei ou a acentuar o drama visual, mas integra a própria organização da tensão geracional. O ostinato que acompanha o encontro entre mãe e filha, reaparecendo quando a conversa atinge seu núcleo mais sincero, inscreve sonoramente a persistência do trauma e sua transmissão entre as gerações. Ao desaparecer e retornar em momentos decisivos, o motivo delimita o espaço de confronto e reconciliação, tornando audível aquilo que a imagem sugere como memória ainda não elaborada. A cena evidencia, portanto, que o som atua como elemento estruturante desse vínculo, não como adorno, mas como parte constitutiva da maneira pela qual a tensão é encenada e reelaborada.
Nesse sentido, tanto em Encanto quanto em Turning Red, a trilha sonora não se reduz ao acompanhamento da ação visível, mas intervém na construção estética de impasses inscritos na esfera da interioridade e das relações familiares. Se a centralidade da música na tradição da animação é amplamente reconhecida, o que se observa nessas produções é a reconfiguração de sua função em narrativas nas quais o antagonismo migra do embate externo para a tensão psíquica e geracional. A sonoridade, nesse contexto, não apenas potencializa acontecimentos, mas integra a própria dinâmica pela qual esses impasses ganham forma, constituindo um campo sensível que antecede e orienta sua elaboração simbólica.
Discussão
Se, nas produções analisadas, a trilha sonora participa da organização estética de conflitos inscritos na interioridade das personagens, torna-se pertinente retomar a tradição psicanalítica que compreende a experiência simbólica como forma de elaboração do vivido. Logo no início de A interpretação dos sonhos, Freud estabelece que sua tarefa consiste em demonstrar como as imagens oníricas possuem sentido próprio e podem ser inseridas na continuidade da vida psíquica. Ao propor que o sonho condensa desejos e memórias em figuras visuais que exigem tradução, o autor firma um modelo de leitura do inconsciente baseado na articulação entre imagem e significação (Freud, 2019). Tal perspectiva permite compreender o audiovisual como espaço privilegiado de encenação simbólica, no qual imagem e som participam conjuntamente da configuração da experiência subjetiva.
Lacan amplia a herança freudiana ao propor, em O estádio do espelho como formador da função do eu, que o reconhecimento da própria imagem refletida inaugura uma experiência estrutural para o sujeito. O júbilo da criança diante do espelho não é apenas motor, mas simbólico, pois prematura uma unidade que ainda não se encontra consolidada biologicamente (Lacan, 1996). A mediação da mãe, que sustenta e autentica esse reconhecimento, confere à imagem um papel fundamental na constituição do eu. Nessa perspectiva, a psicanálise lacaniana inscreve a visualidade como matriz formadora da subjetividade, na medida em que o imaginário especular funda o eu em sua relação com a alteridade. A imagem, assim, aparece como suporte privilegiado da simbolização, lugar em que a experiência se projeta e se organiza. Esse eixo de subjetivação articula olhar, corpo e palavra.
Segundo J. Lacan, fase da constituição do ser humano que se situa entre os seis e os dezoito primeiros meses; a criança, ainda num estado de impotência e de incoordenação motora, antecipa imaginariamente a apreensão e o domínio da sua unidade corporal. Esta unificação imaginária opera-se por identificação com a imagem do semelhante como forma total; ilustra-se e atualiza-se pela experiência concreta em que a criança percebe a sua própria imagem num espelho. A fase do espelho constituiria a matriz e o esboço do que será o ego (Laplanche; Pontalis, 1991, p. 176).
A partir desse cenário, a reflexão de Michel Chion se torna decisiva, ao articular a teoria do espelho de Lacan à experiência sonora. No prólogo de The voice in cinema, o autor observa que a psicanálise, a partir de Lacan, tornou possível pensar a voz como objeto, quando esta foi incluída entre os chamados objetos parciais, categoria que Lacan denominou objet (a) (Chion, 1999). Essa formulação indica que a voz não é apenas um veículo da linguagem, mas também um elemento que participa da constituição do sujeito por marcar a sua experiência de incompletude. O objet (a), no pensamento lacaniano, designa aquilo que simboliza a falta estrutural, isto é, a impossibilidade de qualquer sujeito alcançar uma unidade plena e definitiva. Ao incluir a voz nesse conjunto, Lacan a reconhece como ponto em que desejo e subjetividade se organizam. Nesse sentido, Chion mostra como a voz, em especial na figura materna, funciona como superfície de reconhecimento e de ressonância sentimental, instaurando uma identificação paralela àquela proporcionada pelo espelho visual.
Nas análises fílmicas de Psycho e Sansho the bailiff, Chion evidencia como a voz da mãe, mesmo acusmática, comanda a cena, mobiliza desejo de ver e subverte fronteiras entre dentro e fora (Chion, 1999). Essas fronteiras dizem respeito ao espaço visível do quadro e ao espaço invisível fora de campo. Quando a voz se faz ouvir sem corpo presente, ela atravessa esses dois registros e desfaz a separação entre o que está mostrado e o que permanece oculto.
O som, nesse processo, reorganiza a experiência fílmica ao dar à voz um poder de direção narrativa e afetiva que não depende da imagem. Ao lado da visualidade, a musicalidade mostra-se capaz de temporalizar, envolver e estruturar a cena, instaurando um campo em que a subjetividade se inscreve pela escuta. Cinema e animação, nesse sentido, constituem territórios privilegiados para pensar a articulação entre palavra, imagem e voz, pois fazem do espaço audiovisual uma extensão do espaço de escuta que a psicanálise já reconhece como fundante.
A música no cinema constitui um elemento decisivo para a conformação da experiência emotiva, uma vez que não se limita a ilustrar a narrativa, mas atua como um guia perceptivo capaz de orientar o espectador na sequência dos acontecimentos visuais. A teoria ITPRA de David Huron (Imagination, Tension, Prediction, Reaction, Appraisal) demonstra que as emoções derivadas da expectativa musical resultam de cinco sistemas distintos, cada qual acionado em diferentes momentos do processo de escuta, desde a imaginação inicial até a avaliação consciente após o desfecho. Essa dinâmica explica como estruturas sonoras específicas, como acordes, dissonâncias, pausas e resoluções, produzem respostas fisiológicas e cognitivas que intensificam sentimentos de tensão, surpresa, alívio ou prazer. No âmbito cinematográfico, tal compreensão da expectativa torna-se essencial para o uso estratégico da trilha sonora, que amplia a imersão do público e potencializa sua vinculação emotiva com a imagem em movimento, revelando a sonância como um dispositivo narrativo de primeira ordem na manipulação de anteparo às emoções (Huron, 2006).
Esse mecanismo pode operar de modo empático, espelhando a atmosfera da cena, ou anempático, instaurando contrastes que intensificam a expectativa, mas, em ambos os casos, atua como vetor de condução das emoções, conforme evidencia Chion ao compreender a trilha sonora simultaneamente como fio condutor emocional e como instância reveladora da artificialidade do movimento fílmico (Chion, 2016).
Considerações finais
A análise de Encanto e Turning Red permitiu observar que, embora a centralidade do som na animação não constitua novidade histórica, sua função é reorganizada nas produções contemporâneas da Disney. Nessas narrativas, o conflito deixa de se estruturar prioritariamente em antagonismos externos e passa a se inscrever em tensões identitárias e geracionais situadas na interioridade das personagens. A trilha sonora, nesse contexto, não atua apenas como organizadora da ação visível, mas integra a própria configuração simbólica desses impasses.
Nesse quadro, a noção de modulação emocional assume estatuto operatório. Ao evidenciar como a expectativa sonora orienta a atenção e como o campo acústico organiza simbolicamente a interioridade, torna-se possível compreender a trilha sonora como dispositivo estruturante da experiência afetiva no cinema de animação contemporâneo. A música não apenas intensifica sentimentos previamente inscritos na imagem, mas delimita um campo sensível no qual o conflito pode se tornar perceptível, compartilhável e simbolicamente elaborável.
Tal configuração não determina a experiência do espectador, mas instaura condições de recepção que orientam a atenção, modulam níveis de excitação e favorecem processos de identificação e reconhecimento afetivo. Assim, a modulação emocional consolida-se como categoria analítica capaz de explicar o deslocamento do antagonismo externo para a tensão psíquica e geracional, evidenciando a centralidade do som na organização estética dessas narrativas e na configuração das possibilidades de sua vivência pelo público.
Como desdobramento, a pesquisa pode ser ampliada em duas direções complementares. A primeira consiste em estender o corpus a animações de estúdios de outras nacionalidades, permitindo examinar como diferentes contextos culturais organizam sonoramente conflitos de interioridade e tensões familiares. A segunda consiste em investigar outras formas de conflito interno além do trauma geracional, aprofundando o alcance da modulação emocional como categoria analítica para narrativas contemporâneas centradas na subjetividade dos personagens.
Artigo submetido em 16/03/2026 e aceito em 02/07/2026.
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