Apresentação
Jhonatan Mata1, Nilson Alvarenga2, Heloísa de A. Duarte Valente3 e José Luís Fernández4
1 Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Jornalista e Mestre em Comunicação (UFJF). Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGCOM-UFJF). Coordenador do Grupo de Pesquisa Sinestelas (CNPq). E-mail: jhonatan.mata@ufjf.br.
2 Graduado em Comunicação Social pela UFJF. Doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Professor da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFJF e tutor do PET-Facom-UFJF.
3 Doutora em Comunicação e Semiótica pela Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pós-doutora em Cinema, Rádio e Televisão (Universidade de São Paulo - USP), é líder do Centro de Estudos em Música e Mídia – MusiMid e editora-chefe da Revista Brasileira de Estudos em Música e Mídia. E-mail: musimid@gmail.com.
4 Doutor em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA) e professor consultor da mesma faculdade. Leciona seminários de pós-graduação em diversas universidades. Seu livro mais recente é As Quatro Revoluções Invisíveis: Audiências, do Antes do Rádio ao Depois dos Podcasts, Buenos Aires, SB, 2024. E-mail: unjlfmas@gmail.com.
A recente – e ainda pulsante – aclamação mundial do filme Ainda estou aqui (2024) sinaliza questões que ultrapassam o legítimo frisson por seus mais de 90 prêmios e indicações, incluindo a primeira estatueta do Oscar para o Brasil, na categoria filme Internacional. No drama biográfico dirigido por Walter Salles, a função do som – e da música em particular – é basilar. E oscila entre as instâncias do acusmático e da performance (Zumthor, 2014), sobretudo quando as canções dialogam diretamente com as falas dos personagens. O diretor declarou, inclusive, que o filme foi “guiado por Caetano, Gal, Erasmo e tantos outros cantores cuja música realmente deu sentido a muitas cenas do filme”. Uma vitrola e um compacto colocam “em cena” a faixa Take me back to Piauí, composição de Juca Chaves que embala uma das cenas mais memoráveis. E desloca a música de um recorrente lugar de ambiência para sua dimensão de evento social, coletivo. A família Paiva, numa festiva reunião, se despede de Veroca, a primogênita do casal Rubens e Eunice, que viaja para uma estada em Londres. Depois desse momento audiovisual, o próprio longa-metragem se despede do clima solar e o que se tem a partir daí é um vazio sonoro sufocante. A morte da música traz à tona um paratexto (Genette, 1997) político, composto pelo fechamento do Congresso, AI-5, tortura e repressão. Com os créditos da produção subindo em tela, a faixa É preciso dar um jeito meu amigo, de Erasmo e Roberto Carlos, convoca não apenas a família Paiva nos anos 1970, mas também toda a plateia do cinema, no século XXI, à mobilização – seja esta a favor da divulgação e torcida pelo filme em premiações ou na luta pelo Estado democrático de direito, recém-abalado no Brasil. A viralização da faixa nas plataformas de streaming – mais de dois milhões de visualizações no YouTube e a inclusão na lista dos maiores virais do Spotify Brasil – e a contribuição cinematográfica para esse processo dialoga com a perspectiva de “visualização da música” – defendida por Arlindo Machado (2000). A grande quantidade de vídeos-react de profissionais e amadores em plataformas como TikTok e YouTube, analisando a trilha sonora também. E nos instiga, nesse novo dossiê da Revista Lumina, a pensar nos deslocamentos da música de um cenário de autossuficiência calcado em sua pura dimensão acústica para outro – de complementaridade e mesmo equivalência com as imagens. Levando em consideração que a ideia de “música pura” é bastante recente na cultura humana e tributária da intervenção de Beethoven e seu modelo de sonata na despedida do século XVIII, essa edição especial prioriza propostas de trabalho que reconhecem o oposto: a força das palavras, dos gestos, dos acompanhamentos visuais (cenários, coreografia, artes gráficas), da performance teatral, das referências narrativas ou figurativas nas relações entre audiovisualidades e música.
Se, para Nestrovski (apud Machado, 2020), a própria ideia de se escutar uma obra em silêncio, com uma concentração comparável à da reflexão ou da leitura, causaria espanto às plateias de 250 anos atrás, a sincronização entre som e imagem, consolidada no cinema a partir de 1920 ganha contornos globais e transdisciplinares de estudos num panorama contemporâneo. Dentre as muitas possibilidades de estudos, destacamos os novos ângulos que o cinema e a televisão têm para encarar a “questão musical”, desde as faixas musicais que deram origem a obras audiovisuais – de Veludo Azul (David Linch, 1986) à Saudosa Maloca (Pedro Serrano, 2024) –, à popularização e diversificação de cine/videobiografias musicais, até a relevância das trilhas para a “visualização” de formatos como séries, novelas e documentários. Em uma perspectiva da arquitetura, a relação da música com o espaço para o qual foi (ou não) concebida contrapõe as noções de música portátil em seus diálogos com a música concebida para momentos e lugares específicos. São notáveis ainda as reconfigurações do videoclipe na era do streaming (Garret, 2020), em suas dimensões estéticas (Soares, 2013), de consumo, circulação e participação do público. A ascensão de formatos como lyric vídeos, oficial visualizer, videocoreografias, o retorno dos making of’s, as contribuições do público com produções feitas por smartphones enxertadas nas “narrativas profissionais” e que apontam, segundo Mata (2022), para a “vontade de uma instância enunciadora que sempre existiu”, e que antecedem a própria disponibilização do videoclipe por meio do streaming, também nos aparecem como ótimas frentes de estudos. No âmbito das artes e do design gráfico, publicações impressas e desenvolvimento de encartes para mídias físicas – com destaque para o vinil – são exemplos de objetos de estudos que revigoram uma indústria impulsionada por fatores como o apelo nostálgico e experiências ritualísticas de materialidade e fetichismo com a música.
A onipresença da televisão nas letras de músicas e nas incursões imagéticas do videoclipe contemporâneo, e a posição do Brasil, dono de sete das dez maiores lives do planeta – todas musicais – são fatores que justificam nossa incursão por esse dossiê. A cobertura de grandes eventos musicais pelo jornalismo visual também se destaca. No espaço da política, o engajamento e a mobilização pró-voto jovem estimulado por fandoms de artistas como Army BTS e Anitta via redes sociais são casos a se destacar. No âmbito da IASPM-AL, seção latino-americana da Associação Internacional para o Estudo da Música Popular, espaço multidisciplinar de convergência em torno da reflexão sobre músicas populares em suas dimensões estéticas, usos e períodos históricos, crescem vertiginosamente os estudos voltados para as relações entre música, audiovisualidades e inteligência artificial. Os casos emblemáticos da polêmica campanha que “reviveu” Elis Regina em publicidade da Volkswagen, Lola Flores na campanha da Cruzcampo e das “participações corpóreas e vocais” de John Lennon e George Harrison em imagem e som restaurados via IA com a música Now and Then, lançada em 2023 e vencedora do Grammy 2025 (melhor performance de rock) são exemplos de mapeamentos recentes da associação. Num recorte ibérico, as pesquisas reforçam um cenário já vislumbrado por Castaño e Selva Ruiz (2014, p.125) no qual “as características da autocomunicação de massas e a extensão de seu uso, assim como o auge das redes sociais digitais estão provocando alterações de modelos de difusão e consumo de música”. Imersos neste meio/ambiente que reconhece o papel da musicologia e estende os braços à semiótica das relações audiovisuais, com a relevância das “vozes da canção na mídia” (Valente, 2004) que alteram referenciais e percepções de gêneros, intérpretes e públicos, os autores e seus trabalhos selecionados para esta edição ofertam contribuições para esse campo de investigações de perspectivas efervescentes e imensuráveis.
Assim, retomando a expressão grega mousiké (a arte das musas), modalidade de espetáculo que hoje classificaríamos como “multimídia”, por incluir não apenas a performance instrumental e o canto, mas também a poesia, a filosofia, a dança, a ginástica, a coreografia, a performance teatral, as indumentárias e máscaras e até mesmo “efeitos especiais” produzidos através de jogos de luz, movimentos dos cenários e truques de prestidigitação, nossa proposta se justifica e se destaca pela mobilização de interesses e proponentes de distintas formações, em 11 artigos e uma entrevista.
“Fazer o filme vibrar na frequência do som”: multissensorialidade em Terror Mandelão, de Diogo Cunha, da Universidade Federal Fluminense, é nosso trabalho “abre-alas”. No texto, o autor se ancora na dimensão não verbal de imagens e sons deste documentário para mensurar a mobilização de sentidos no subgênero do funk paulistano denominado “mandelão”. Ao deslocar o foco dos documentários performáticos da primeira pessoa para aqueles voltados para os ritos de sociabilidade, a pesquisa desvela roteiros performáticos de afetações corpóreas mútuas.
A canção & a tela: cinebiografia, música e memória na obra de Renato Terra, de Tatiana Oliveira Siciliano, Miguel Jost Ramos e Amanda Cunha Weaver, da PUC-Rio também enfatiza os documentários musicais contemporâneos no Brasil, a partir da trajetória do diretor Renato Terra. Busca-se compreender aqui como o cineasta-biógrafo organiza o percurso e a experiência dos artistas em uma linguagem audiovisual que integra dimensões imagéticas, sonoras e textuais. Nara Leão e Tim Maia são estandartes dessas produções no recorte, que nos direciona para uma “construção artesanal” do documentarista, que remixa autoria, memórias e entrevistas como dispositivos narrativos, em um tipo de documentário que, conduzido pela trilha sonora e pelo desenho de som, pode ser “visto com os ouvidos”.
Em Escutas do mundo: paisagens sonoras, sinfonias cósmicas e cosmopolitismo no cinema, Lucca Nicoleli Adrião, Angela Freire Prysthon e Bruno Mesquita Malta de Alencar, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, descortinam relações entre música, paisagem sonora e geografia no cinema moderno e contemporâneo. A “geografia da imaginação’ de Davenport é acionada, a fim de compreender o papel da trilha sonora na composição de paisagens sensoriais. A música é percebida como estratégia para a criação de um “cinema – mundo”, sediado em geografias afetivas.
O artigo seguinte, Boys will be boys...O momento musical como espetáculo de masculinidades dissidentes, com autoria de Luiz Fernando Wlian, da UNESP, discute o gênero musical como território de encenação de masculinidades dissidentes. Tendo o cinema clássico de Hollywood como cenário, o estudo questiona a ruptura de “masculinidades hegemônicas” por meio do canto e da dança.
A performance também é observada como mediação estética e comunicacional na cultura digital no texto A visualidade na performance musical de Miss Tacacá na plataforma digital Boiler Room, de Ana Priscila Cayres de Oliveira e Richard Perassi Luiz de Sousa, da Universidade Federal de Santa Catarina. A videoperformance da artista brasileira Miss Tacacá ressitua questões sobre uma “identidade amazônica”, por meio de elementos estratégicos como a música, a expressão corporal e o vestuário.
Ainda “circulando pelo globo” e agora no contexto da cultura pop japonesa, o artigo O som da aventura: o papel da canção “We Are!” na visualização do animê One Piece, de Iago Fillipi Patrocínio Macedo e Juliana Fernandes Teixeira, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará reconhece a importância das músicas de animê (as anisongs) na visualização das animações. Por meio de relações simbióticas, as faixas antecipam o tom das obras e as jornadas dos personagens em tela.
Já o trabalho Cantovivências pretas: estética e reconhecimento em Amina de Tasha e Tracie, produzido por Laan Mendes de Barros e Ana Laura dos Santos Cardoso, da UNESP, se utiliza da vertente francesa da Análise do Discurso e do paradigma das mediações de Barbero para compreender a dimensão social do rap como um mecanismo possível para o reconhecimento e identificação para as mulheres pretas e periféricas. O gênero musical estudado é percebido como ferramenta decolonial, por meio da escrita e do canto.
Dos autores Thiago de Almeida Menini e Braulyo Antônio Silva de Oliveira (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Escuta musical na era digital: entre atenção e distração oferta relevante contribuição para os estudos centrados em escutas contemporâneas em ambientes plataformizados. Recuperando a abordagem de Walter Benjamim sobre distração e de Adorno sobre a superficialidade na audição, os pesquisadores, a partir de perspectiva teórico-crítica, apostam no conceito de “escuta adequada”. A partir de Hans Zimmer, direcionam para um regime de desatenção estrutural na era digital, no qual as tecnologias midiáticas democratizam o acesso, ao mesmo tempo em que retroalimentam ciclos de dispersão e de saturação de estímulos.
Efeitos de presença no filme publicitário: a música que (vemos e) ouvimos em “Nosso Jeito de Cuidar”, de Caroline Westerkamp Costa, do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina mapeia os efeitos de presença acionados pela música ao retratar a rotina hospitalar. Por meio da análise da materialidade audiovisual de Coutinho, a pesquisadora evidencia o papel sinestésico da escuta e da imagem publicitária, capaz de evocar sensações por meio de uma “memória teleafetiva de cuidado”.
Do sessentismo à copaganda: Turn! Turn! Turn! como dispositivo de ativação histórica e redenção simbólica em Arquivo Morto, de Lucas Ravazzano e Guilherme Maia, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, mergulham na “biografia social” dessa canção com o objetivo de perceber a ativação de memórias coletivas por meio do cinema, da TV e da música popular. Os autores evidenciam o potencial das trilhas no reavivamento de zonas de afetação complexas, nas quais convivem nostalgia, reparação simbólica e sedimentação ideológica.
Tendo como pano de fundo a cidade do Rio de Janeiro e a ideia de paisagem sonora, o trabalho Mahmundi e a cidade: espacialidades, sonoridades e textualidades acústicas, de Gustavo Souza Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, percebe a música a partir de sua tessitura de realidades possíveis. Por meio do álbum auto-intitulado Mahmundi, o autor descobre na produção um dispositivo que (re)combina som e música às paisagens do eu e do cotidiano na/da cidade.
Nosso dossiê se encerra com a entrevista Aeromobilidades, marcas e sons da lusofonia, realizada com o pesquisador Bart Vanspauwen, vinculado ao Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa. Realizada pelos professores do Departamento de Turismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Carolina Castellitti e Lucas Gamonal Barra de Almeida e pela professora do Centro Universitário Celso Lisboa, Milene Gomes Ferreira Mostaro, a conversa se torna uma síntese do próprio dossiê. Alicerçada por vivências multiculturais e observações atentas sobre sons, marcas e memórias das localidades, as questões levantadas nos fazem (re)pensar as disputas de poder e jogos políticos na esfera da comunicação e da música.
Desejamos uma leitura e um 2026 sinestésico a todos os leitores!
Referências
CASTAÑO, L. C. e SELVA RUIZ, David. La difusión y el consumo de música: del gatekeeping a la autocomunicación de masas. In: BAILÉN, A. H.; MAS, M. F. (org). Audiencias juveniles y cultura digital. Belaterra: Institut de la Comunicació, Universitat Autônoma de Barcelona, 2014.
GARRET, F. Relembre a evolução do streamimg de vídeo e música entre 2010 e 2020. Tech Tudo. 14 dez. 2020. Disponível em: https://tinyurl.com/2t3bkzzj. Acesso em: 22 dez. 2025.
GENETTE, G. Paratexts: thresholds of Interpretation. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
MACHADO, A. Da sinestesia, ou a visualização da música. In: MACHADO, A. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac SP, 2000.
MATA, J. O amador no audiovisual: conteúdos gerados por cidadãos comuns às produções jornalísticas da televisão brasileira. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2019.
VALENTE, H. A. D. As vozes da canção na mídia. São Paulo: Via Lettera; FAPESP, 2003.