Trilhas para ver no escuro:
invisibilidade das pessoas com deficiência em filmes exibidos no Brasil, entre 2019 e 2023
Claudia Linhares Sanz 1, Mirella Ramos Costa Pessoa2 e Fabiane da Silva de Souza³
Resumo
Este artigo visa compartilhar resultados de pesquisa (Sanz et al., 2025c) acerca da presença das pessoas com deficiência em filmes que circularam no Brasil, entre os anos de 2019 e 2023. Buscando compreender como a invisibilidade das pessoas com deficiência se efetiva hoje, avaliamos a circulação de 2.189 filmes, presentes em três espaços de exibição: salas de cinema, programas de exibição de filmes da TV aberta e plataformas de streaming. Com uma abordagem que combinou procedimentos de análise quantitativos e qualitativos, mapeamos a presença de personagens, de protagonismos, a diversidade de deficiências, se os personagens eram interpretados por atores com deficiência e características dos enredos. Diante de grande lacuna de estudos acerca dos processos de invisibilidades das pessoas com deficiência no regime contemporâneo de imagens (Rodrigues et al., 2024), este estudo realiza uma sistematização de dados que demonstra que tal invisibilidade é constituída não apenas por significativa ausência, mas reforçada pela presença de imagens em lugares demarcados (Norden, 1993; Grammont; Azevedo, 2022).
Palavras-chave
pessoas com deficiência; cinema; invisibilidade; ausência; cripface.
1 Fez pós-doutorado na Universidade de Barcelona (UB, 2025) e no Leibniz-Zentrum für Literatur- und Kulturforschung em Berlim (ZFL, 2018). Professora e pesquisadora da UnB. Doutora pela UFF. Líder dos grupos de pesquisa GRITS e (IN)VIS (CNPq). E-mail: claudialinharessanz@gmail.com.
2 Fez pós-doutorado em Comunicação (UFPE). Doutora (UFPE) e Mestre (UnB) em Comunicação, é professora e pesquisadora da CESAR School, membro e vice-líder do GRITS e pesquisadora do (IN)VIS. Na UPFE, está à frente das ações do LEME: Laboratório de Educação Midiática ESTOPIM. E-mail: mihpessoa@gmail.com.
³ Fez pós-doutorado em Comunicação (UnB). Doutora e Mestre em Comunicação pela UnB, Bacharel em Cinema pela UFSC. Membro dos Grupos de Pesquisa (IN)VIS: Grupo de pesquisa em imagem e educação e GRITS - Imagem, Tecnologia e Subjetividade. E-mail: fabianeedesouza@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026023 10.34019/1981-4070.2026.v20.50527
Paths to see in the dark:
the invisibility of people with disabilities in films screened in Brazil between 2019 and 2023
Claudia Linhares Sanz 1, Mirella Ramos Costa Pessoa2 e Fabiane da Silva de Souza³
Abstract
This article aims to share research findings (Sanz et al., 2025c) regarding the presence of people with disabilities in films circulated in Brazil between 2019 and 2023. Seeking to understand how the invisibility of people with disabilities is manifested today, we evaluated the circulation of 2,189 films across three exhibition spaces: movie theaters, broadcast television film schedules, and streaming platforms. Using an approach that combined quantitative and qualitative analysis procedures, we mapped the presence of characters, leading roles, the diversity of disabilities, whether characters were portrayed by actors with disabilities, and plot characteristics. Given the significant gap in studies concerning the processes of invisibility of people with disabilities within the contemporary image regime (Rodrigues et al., 2024), this study systematizes data demonstrating that such invisibility is constituted not only by a significant absence but also reinforced by the presence of images in delimited spaces (Norden, 1993; Grammont; Azevedo, 2022).
Keywords
people with disabilities, cinema, invisibility, absence, cripface.
1 Fez pós-doutorado na Universidade de Barcelona (UB, 2025) e no Leibniz-Zentrum für Literatur- und Kulturforschung em Berlim (ZFL, 2018). Professora e pesquisadora da UnB. Doutora pela UFF. Líder dos grupos de pesquisa GRITS e (IN)VIS (CNPq). E-mail: claudialinharessanz@gmail.com.
2 Fez pós-doutorado em Comunicação (UFPE). Doutora (UFPE) e Mestre (UnB) em Comunicação, é professora e pesquisadora da CESAR School, membro e vice-líder do GRITS e pesquisadora do (IN)VIS. Na UPFE, está à frente das ações do LEME: Laboratório de Educação Midiática ESTOPIM. E-mail: mihpessoa@gmail.com.
³ Fez pós-doutorado em Comunicação (UnB). Doutora e Mestre em Comunicação pela UnB, Bacharel em Cinema pela UFSC. Membro dos Grupos de Pesquisa (IN)VIS: Grupo de pesquisa em imagem e educação e GRITS - Imagem, Tecnologia e Subjetividade. E-mail: fabianeedesouza@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026023 10.34019/1981-4070.2026.v20.50527
Huellas para ver en la oscuridad:
invisibilidad de las personas con discapacidad en películas exhibidas en Brasil, entre 2019 y 2023
Claudia Linhares Sanz 1, Mirella Ramos Costa Pessoa2 e Fabiane da Silva de Souza³
Resumen
Este artículo busca compartir resultados de investigación (Sanz et al., 2025c) sobre la presencia de las personas con discapacidad en películas que circularon en Brasil entre los años 2019 y 2023. Con el objetivo de comprender cómo se efectúa hoy la invisibilidad de las personas con discapacidad, evaluamos la circulación de 2.189 películas presentes en tres espacios de exhibición: salas de cine, programas de exhibición de películas en televisión abierta y plataformas de streaming. Con un enfoque que combinó procedimientos de análisis cuantitativos y cualitativos, mapeamos la presencia de personajes, protagonismos, la diversidad de discapacidades, si los personajes eran interpretados por actores con discapacidad y las características de las tramas. Ante la gran brecha de estudios sobre los procesos de invisibilidad de las personas con discapacidad en el régimen contemporáneo de imágenes (Rodrigues et al., 2024), este estudio realiza una sistematización de datos que demuestra que dicha invisibilidad no solo está constituida por una ausencia significativa, sino que también se ve reforzada por la presencia de imágenes en lugares demarcados (Norden, 1993; Grammont; Azevedo, 2022).
Palabras clave
personas con discapacidad; cine; invisibilidad; ausencia; cripface.
1 Fez pós-doutorado na Universidade de Barcelona (UB, 2025) e no Leibniz-Zentrum für Literatur- und Kulturforschung em Berlim (ZFL, 2018). Professora e pesquisadora da UnB. Doutora pela UFF. Líder dos grupos de pesquisa GRITS e (IN)VIS (CNPq). E-mail: claudialinharessanz@gmail.com.
2 Fez pós-doutorado em Comunicação (UFPE). Doutora (UFPE) e Mestre (UnB) em Comunicação, é professora e pesquisadora da CESAR School, membro e vice-líder do GRITS e pesquisadora do (IN)VIS. Na UPFE, está à frente das ações do LEME: Laboratório de Educação Midiática ESTOPIM. E-mail: mihpessoa@gmail.com.
³ Fez pós-doutorado em Comunicação (UnB). Doutora e Mestre em Comunicação pela UnB, Bacharel em Cinema pela UFSC. Membro dos Grupos de Pesquisa (IN)VIS: Grupo de pesquisa em imagem e educação e GRITS - Imagem, Tecnologia e Subjetividade. E-mail: fabianeedesouza@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026023 10.34019/1981-4070.2026.v20.50527
Introdução
Hoje, a longa trajetória de reivindicações por espaço no território comunicacional ganha dimensões próprias, posto que a comunicação e, em especial, os dispositivos imagéticos que ela supõe, ocupam centralidade política, econômica, social e subjetiva, provavelmente inédita na história (Sanz; Palatucci, 2024). Entre os grupos minorizados, as pessoas com deficiência constituem provavelmente um dos segmentos mais invisibilizados nos circuitos hegemônicos da comunicação. Nesse sentido, os impactos dos processos dispersivos da economia digital não parecem ser capazes de corromper de modo definitivo a hegemonia social de uma suposta normalidade. Como constatado em nossa pesquisa e como demonstraremos aqui a partir de números, os avanços sociais e dispositivos legais conquistados pelos movimentos das pessoas com deficiência ainda não se refletem, pelo menos não de maneira significativa, nos circuitos dominantes comunicacionais, seja porque as leis não preveem regulamentações adequadas para garantir a inclusão nesses ambientes, seja porque esses avanços enfrentam resistências culturais, econômicas e políticas no âmbito das organizações e corporações que os gerenciam.
Assim, embora a infinidade de imagens que circulam no mundo contemporâneo – por meio de filmes, séries, novelas, programas de televisão, perfis em redes sociais, propagandas e conteúdos de formatos múltiplos – anuncie uma espécie de inclusão total de corpos e diversidade de subjetividades, comportamentos e culturas, os regimes de visibilidade das quais participam não se instituem sem simultaneamente criar apagamentos e silenciamentos de certos grupos sociais, em especial, das pessoas com deficiência. Mantém-se, nesse caso, uma história de ausências e formas simbólicas de exclusão, atualizada por sobreposições, já que a deficiência pode estar combinada com outros marcadores sociais – como gênero, raça e classe social – produzindo camadas interseccionais de invisibilização.
Cabe destacar que excluir dos circuitos comunicacionais as pessoas com deficiência significa deixar à margem 18,6 milhões de brasileiros (IBGE, 2023) e quase um bilhão de cidadãos do mundo (ONU, 2017). Significa subtrair das telas uma variedade gigantesca de pessoas, participantes de culturas diversas, pertencentes a realidades econômicas múltiplas, níveis e tipos variados de deficiência, grupo absolutamente heterogêneo que, muitas vezes, só tem em comum o fato de estar submetido a “valores sociais estigmatizantes e riscos debilitantes, socialmente construídos” (Longmore;Umansky, 2001, p. 12). Invisibilizar as pessoas com deficiência nos espaços comunicacionais significa intensificar uma deficiência social que não se refere exatamente aos indivíduos, suas características físicas, habilidades ou inabilidades, mas à sociedade em que vivemos – aos processos sociais e históricos que definiram e definem, regulamentaram e ainda regulamentam, controlam nossas maneiras de pensar as variações físicas e mentais do humano a partir de um corpo entendido como normal (Davis, 1995).
A invisibilidade das pessoas com deficiência nos dias atuais é, portanto, tema de máxima urgência, tratado neste texto a partir do recorte dos filmes em circulação no Brasil. Visamos aqui compartilhar resultados, quantitativos e qualitativos, da investigação acerca da presença da imagem da pessoa com deficiência em 2.189 filmes que circularam no Brasil, entre 2019 e 2023. De fato, desde seus primórdios, o cinema participou da difusão social dos modelos da deficiência, biomédico e religiosos (Foresti; Bousfield, 2022). Hoje, diante das transformações impostas pela cultura digital e informacional, esse vínculo histórico se renova e apresenta novas configurações, mantendo-se como território fértil de análise para o tema. Por um lado, atualiza dinâmicas segregadoras, repetindo formas tradicionais de ver e de fazer ver a deficiência; por outro, é igualmente atravessado por deslocamentos e rupturas que expressam a luta e as conquistas das pessoas com deficiência (Sanz et al., 2025b).
Este artigo está estruturado em três partes. No primeiro momento, compartilhamos nossos procedimentos metodológicos e o estado da questão, decorrente de revisão de literatura integrativa (Rodrigues et al., 2024). A seguir, apresentamos os principais resultados quantitativos referentes à presença (ou ausência) da pessoa com deficiência nas obras exibidas nas salas brasileiras de cinema, na televisão aberta e nas plataformas de streaming analisadas. Posteriormente, nas considerações finais, sintetizamos algumas das análises qualitativas que fizemos de filmes em que os processos de invisibilidade são instituídos a partir da presença de imagens.
Aportes metodológicos: análise em três continentes
Motivada pela urgência de estudar os modos pelos quais a invisibilidade da pessoa com deficiência ainda se efetiva hoje, a pesquisa examinou a circulação fílmica, durante cinco anos, em três “continentes” importantes do espaço de circulação cinematográfica no Brasil. Nas salas brasileiras de cinema, analisamos os filmes nacionais e internacionais que chegam ao circuito de exibição comercial. No sentido de ampliar a observação dessas dinâmicas, foram analisados também, no mesmo período, os filmes exibidos em programas de TV nas emissoras Globo, Band e TV Brasil. Por último, a pesquisa estudou como as imagens da pessoa com deficiência circulam hoje em filmes disponíveis em três das plataformas mais populares de streaming no cenário brasileiro, Netflix, Prime Video e Globoplay.
Em termos metodológicos, a incursão por esses três territórios do cinema foi realizada por meio da combinação de dispositivos de medição, coleta de dados e procedimentos de análise quantitativos e qualitativos. Os recursos de estatística descritiva dessa quantidade relevante de dados permitiram identificar dados empíricos e reunir evidências das condições objetivas da invisibilidade da pessoa com deficiência no cinema que circula em nosso país. Buscou-se identificar a frequência – quantos filmes, independentemente do gênero, apresentavam na trama um ou mais personagens com deficiência – e verificar como essa frequência se distribuía – quantos desses personagens eram protagonistas, que diversidades de deficiência apareciam nas tramas, quais eram interpretados por atores com deficiência e quais filmes abordavam explicitamente o tema da deficiência.
Para o mapeamento dos filmes lançados nas salas de cinema, foram utilizados os dados disponibilizados pela Agência Nacional de Cinema do Brasil (Ancine, 2024) [1]. Para analisar os filmes exibidos nos programas de TV, utilizamos como fonte as listas de programação veiculadas e divulgadas pelas próprias emissoras. No caso das plataformas, na falta de um catálogo de filmes publicados pelas empresas, a pesquisa utilizou descritores para encontrar – nos próprios sistemas de buscas das plataformas – os filmes com personagens com deficiência [2].
A título de identificação da presença da pessoa com deficiência nos filmes, utilizamos, como referência e critério de classificação da deficiência, o decreto brasileiro ainda em vigor (Brasil, 1999), que, a partir de diversas atualizações, categoriza as diferentes deficiências por meio das categorias física, auditiva, visual, intelectual e múltipla. A identificação dos personagens com deficiência se deu, prioritariamente, no cruzamento de leitura da sinopse e visualização do trailer, peças importantes na apresentação desses filmes aos espectadores. Na sinopse, texto essencialmente expositivo que anuncia de forma sintética os principais elementos do filme – tema, personagens, local e tempo da narrativa –, procuramos menções textuais a personagens com deficiência. No trailer, esse breve texto fílmico com função de atrair espectadores, verificamos visualmente se os personagens apresentados tinham alguma deficiência. Excluímos dessa análise os figurantes e, em caso de dúvidas, fomos também aos filmes, utilizando critérios complementares de inclusão que ampliaram o mapeamento e sua acuidade.
Cabe ressaltar que esses procedimentos possibilitaram a identificação de quando e onde as imagens da pessoa com deficiência estão, a constatação da frequência de sua aparição, a obtenção de percentagens de ausência, a observação de avanços ou retrocessos dessa presença nos últimos anos, a identificação do volume do protagonismo das personagens com deficiência e a percepção das variações e regularidades dessa aparição. A partir desses cálculos de médias e percentuais, foram elaboradas representações gráficas que nos permitiram também obter “fotografias” nítidas da presença (ou, como veremos, da ausência) das pessoas com deficiência no cinema.
Após revisão de literatura integrativa realizada no contexto da pesquisa (Rodrigues et al., 2024), ficou evidente a carência de uma discussão ampliada acerca dos processos de invisibilidades das pessoas com deficiência no regime contemporâneo de imagens [3]. Não há estudos quantitativos sobre a presença das pessoas com deficiência no cinema que atualmente é exibido nas salas de cinema, na TV ou no streaming. Além disso, observa-se a escassez de pesquisas que aprofundem o conceito de visibilidade ou que problematizem as assimetrias inerentes à relação entre o ver e o ser visto (Honneth, 2001). Constatamos que:
os processos de invisibilidade e visibilidade das pessoas com deficiência podem ser mais discutidos como marca transformadora no discurso social, deslocando-se e avançando em relação às análises acionadas para o entendimento das mídias, cinema, peças publicitárias, fotografias e redes sociais no regime contemporâneo de imagens. A produção acadêmica brasileira dos últimos dez anos opera como uma construtora de outras possibilidades analíticas e cria condições para que as pesquisas avancem para além da presença-ausência de imagens e, quando da presença de imagens da pessoa com deficiência, avança, abrindo portas para que as pesquisas problematizem as assimetrias reconhecidas naqueles que são vistos e veem (Rodrigues et al., 2024, p. 13).
Para avançar na compreensão de nossos resultados quantitativos, foi necessário confrontar esses resultados primeiramente com a mencionada revisão de literatura (Rodrigues et al., 2024) e, posteriormente, analisá-los à luz de uma incursão teórica (Norden, 1993; Longmore; Umansky, 2001; Grammont; Azevedo, 2022). Paralelamente, analisamos tramas e personagens para identificar a permanência de estereótipos ou novos deslocamentos narrativos. Além disso, entrevistas e encontros com cineastas, roteiristas, atores, escritores e ativistas com deficiência nos possibilitaram ampliar reflexões, confirmar hipóteses e testar perspectivas. Assim, a articulação de procedimentos quantitativos e qualitativos respondeu ao pressuposto de que o tema da deficiência configura campo complexo e interdisciplinar de análise, que exige a articulação de abordagens teóricas e metodológicas diversas a fim de constituir um domínio de reflexão suficientemente consistente para responder às perguntas a ele endereçadas.
Análise dos dados: uma “fotografia” da ausência
Não há imagem, existem apenas imagens. E há uma certa forma de montagem das imagens: desde que há duas, há três. É o fundamento da aritmética, é o fundamento do cinema.
Jean-Luc Godard (1998, p. 430)
Dos 1.724 filmes (Ancine, 2024) lançados nas salas de cinema no Brasil entre 2019 e 2023, 96,35% não possuem, em suas tramas, sequer um personagem com deficiência. Principal entrada de novos longas-metragens estrangeiros e de filmes comerciais brasileiros no mercado cinematográfico, os lançamentos atuais nas salas de cinemas de nosso país evidenciam que as conquistas sociais obtidas pelas pessoas com deficiência não estão refletidas nas telas. A análise da série temporal de filmes lançados, comparando o número total de filmes e o daqueles que têm personagens com deficiência, não permite identificar padrão de progressão – nem de crescimento, nem de recuo da presença desses personagens. A comparação, aliás, das duas pontas desse intervalo, 2019 e 2023, sinaliza que no último ano analisado a presença é inferior à de 2019. Na realidade, a presença de personagens com deficiência no universo de filmes lançados nesse período oscila significativamente, demonstrando que não é possível detectar, nesses anos, nem constância nem gradação, apenas que essas variações da presença da pessoa com deficiência ocorrem dentro de um nível significativamente baixo, no âmbito de um volume irrisório de filmes.
Figura 1
https://encurtador.com.br/IGtq
Fonte: Banco de dados da pesquisa. Elaboração própria
Cabe identificar que, se o cenário pandêmico impactou fortemente a produção e circulação cinematográfica no Brasil e no mundo, tendo desdobramentos óbvios no número de filmes lançados, a retomada das produções e dos lançamentos não trouxe consigo avanços consistentes acerca da presença da pessoa com deficiência. Proporcionalmente ao total de filmes lançados, é justamente em 2021, primeiro ano pós-pandemia, que temos o maior índice de presença de personagens com deficiência nos filmes lançados (6,15%). No ano seguinte, todavia, ocorre o pior índice de presença na série temporal, havendo personagens com deficiência em apenas seis filmes, ausência que chega a 98,44%. Observando a recuperação gradual do mercado cinematográfico e do número de filmes lançados, não identificamos, em contrapartida, avanços na presença da pessoa com deficiência nas telas; nelas não há sinais de “recuperação”.
Pensar a circulação de filmes no Brasil supõe, entretanto, levar em conta também a televisão: uma audiência consolidada no país, responsável por alcançar, em 2023, 94,8% da população (IBGE, 2023b). Entrada importante de filmes no cotidiano das casas brasileiras, a televisão se institui como um dos territórios organizadores da recepção cinematográfica nacional. Embora a audiência de exibições de filmes na televisão aberta brasileira tenha sofrido impactos da entrada das plataformas de streaming no mercado, ela continua sendo um ponto de contato importante entre o cinema e o público brasileiro, sobretudo aquele que não tem acesso nem às salas escuras nem a conteúdos pagos [4]. Dona de um lugar de destaque nas casas, a televisão ficou ligada, em 2023, em média 5h14min por dia nos domicílios brasileiros, segundo indica o relatório Anual Inside Video, realizado pela Kantar Ibope Media (2024). Não por acaso, a TV aberta recebeu, em 2023, cerca de R$ 25,1 bilhões em verbas publicitárias, segundo outro levantamento realizado pelo Kantar Ibope Mídia (2024), superior ao montante direcionado à internet, que ficou com 40,8% da verba publicitária das agências de publicidade, o equivalente a R$ 23,5 bilhões.
Analisando a exibição de programas de três das maiores emissoras do Brasil, duas privadas e uma pública – Globo, Band e TV Brasil –, no mesmo período da análise dos lançamentos nas salas de cinema, vemos que os baixíssimos graus de visibilidade evidenciados pelos números das salas se repetem de maneira proporcional nos números da TV [5]. De fato, a ausência da pessoa com deficiência nesse território também é dado inquestionável: entre 422 filmes exibidos ao longo dos cinco anos, nessas três emissoras, apenas 31 contaram com a presença de personagens com deficiência, o que significa uma ausência de 92,65%. Nesse cenário, a Band destaca-se como a emissora que menos exibiu filmes com a presença de personagens com alguma deficiência, tendo em sua programação, desses cinco anos, apenas cinco filmes com esses personagens.
Figura 2
https://encurtador.com.br/cLZo
Fonte: Banco de dados da pesquisa. Elaboração própria
Importante lembrar que os filmes exibidos na televisão aberta são, geralmente, comprados de grandes estúdios internacionais. Visando preencher a grade de programas semanais, as emissoras compram pacotes que incluem tanto títulos de sucesso quanto fracassos de bilheteria que não suscitaram interesses em outros mercados, encalhados, às vezes, há décadas. Isso significa que trazem para a nossa análise produções fílmicas de ampla faixa temporal, tendo em comum, entretanto, o fato de serem, na maioria, produções audiovisuais em consonância com o estilo e formato da indústria cinematográfica hollywoodiana. Trata-se, nesse sentido, da intensificação dos circuitos hegemônicos que também dominam a entrada de filmes inéditos internacionais nas salas de cinema, em grande parte conteúdos comerciais produzidos na indústria estadunidense. São enredos e formatos estéticos que, visando apenas à bilheteria, dificilmente inauguram dissensos de normalidade – a não ser quando se veem obrigados a mudar padrões estéticos porque socialmente aqueles padrões já estão amplamente questionados.
A hegemonia de modelos que apregoam uma suposta normalidade fica ainda mais evidente quando o critério de identificação é o protagonismo de personagens com deficiência. No universo de 1.724 filmes lançados no Brasil nas salas de cinema, em apenas 1,45% há protagonismo desempenhado por um personagem com deficiência. No âmbito da TV, entre os 422 filmes exibidos nas três emissoras, o número de protagonismo, em comparação à simples presença de personagens, cai pela metade: apenas 3,79%, enquanto a percentagem de presença de personagens era de 7,35%.
Figura 3
https://encurtador.com.br/oLzi
Fonte: Banco de dados da pesquisa. Elaboração própria
Cabe ressaltar que o protagonismo das pessoas com deficiência está, na maioria das vezes, submetido à condição de o tema do filme ser a própria deficiência. O vínculo entre essas duas questões é evidente quando observamos os resultados das plataformas. Considerando o universo de produções encontrado a partir dos descritores nos sistemas da Netflix, Prime Video e Globoplay, 86,67% dos filmes em que os personagens com deficiência são protagonistas têm como temática central de suas narrativas a própria deficiência e as questões que a envolvem. Como avalia o ator Giovanni Venturini (Entrevista […], 2024), é uma espécie de concessão da indústria cinematográfica – para o personagem com deficiência ser protagonista, o filme precisa, portanto, tratar da deficiência, e a deficiência ser a grande definidora do lugar da personagem na narrativa. Trata-se, como também alerta Clara Mar (2024), escritora e ativista no movimento de pessoas com deficiência, nossa entrevistada, de uma forma de apagamento:
quando vejo filmes com personagens com deficiência, tenho a sensação de que a deficiência é sempre o tema central dos filmes, e a personagem é acessória (...). Talvez isso deva-se ao fato de que nós ainda somos vistos como objetos de estudo ou como grupos isolados, bem-vindos apenas pela curiosidade do espectador [6].
Segundo Mar, a abordagem trabalhada no cinema serviria para atrair um público sem deficiência, geralmente interessado em histórias de personagens com deficiência apenas em certos cenários, desempenhando, por exemplo, o papel do extraordinário, geralmente em narrativas encharcadas de drama: “os enredos acabam então por invisibilizar a pessoa humana com uma de suas características que é deficiência. A deficiência está, assim, antes de qualquer coisa” (Entrevista […], 2023a).
Tal apagamento é reforçado por um dado impactante: a ausência das pessoas com deficiência pode ocorrer mesmo nos filmes em que há personagens com deficiência. De fato, “personagens” e “pessoas” com deficiência são dois critérios bem distintos que geram resultados quantitativos também contrastantes, já que no Brasil, ainda hoje, é bastante comum personagens com deficiência serem interpretados por atores sem deficiência. Como denuncia o diretor de cinema Daniel Gonçalves (Entrevista […], 2023b), o cripface é absolutamente corriqueiro: “há pelo menos 50 anos, o blackface é inadmissível, mas ainda hoje parece que não é tão problemático assim um ator sem deficiência interpretar um personagem com deficiência (...) [7]. O blackface não é mais aceitável, mas o cripface ainda rola com frequência”. Lutas de movimentos como o que combate o racismo, ressalta Daniel, conseguiram transformar essa prática em algo condenável, mas ainda hoje são muitos os casos do cripface que não levantam tanto questionamento. Os dados de nossa pesquisa comprovam que o cineasta está absolutamente certo: 76% dos filmes lançados entre 2019 e 2023 com personagens com deficiência são casos de cripface [8]. Em termos de progressão temporal, essa prática se mantém proporcional ao número de filmes com personagens com deficiência, reduzindo quando cai o número de filmes com personagens com deficiência, o que demonstra que é uma prática não questionada que se mantém no tempo sem alterações.
Figura 4
https://encurtador.com.br/Upvx
Fonte: banco de dados da pesquisa. Elaboração própria.
Figura 5
https://encurtador.com.br/gHzz
Fonte: Banco de dados da pesquisa. Elaboração própria
No cenário das plataformas, 80,65% dos filmes encontrados têm personagens com deficiência interpretados por atores sem deficiência. No caso da TV, esse quesito enfatiza uma diferença importante entre as emissoras privadas e a pública. Encontramos a prática do cripface em 82,35% dos filmes com personagens com deficiência exibidos pelas empresas Globo e 80% naqueles exibidos pela Band. Na TV Brasil, essa prática ainda existe, embora de maneira um pouco menos intensa: 66,67% dos filmes que têm personagens com deficiência são interpretados por atores sem deficiência. Trata-se aqui de uma diferença pequena que, entretanto, demonstra a relevância de regulamentos que obrigam a rede pública a respeitar “valores éticos e sociais da pessoa”, promover “cultura nacional, estímulo à produção regional e à produção independente”, garantir “acesso à informação por meio da pluralidade de fontes de produção e distribuição do conteúdo”, produzir “programação com finalidades educativas, artísticas, culturais, científicas e informativas”, além de manter o compromisso com a produção nacional” (Brasil, 2008). Nesse sentido, há abertura um pouco maior, mesmo que insuficiente, à presença das pessoas com deficiência, em função dos dispositivos legais que orientam a “participação da sociedade civil no controle da aplicação dos princípios do sistema público de radiodifusão, respeitando-se a pluralidade da sociedade brasileira” (Brasil, 2008).
Figura 6
https://encurtador.com.br/cCqj
Fonte: banco de dados da pesquisa. Elaboração própria
Figura 7
https://encurtador.com.br/nfRH
Fonte: Banco de dados da pesquisa. Elaboração própria
De todo modo, trata-se de prática naturalizada, emblemática para pensar as múltiplas formas pelas quais a segregação das pessoas com deficiência é intensificada com o cinema, no Brasil e no mundo. Assim, se a ausência de personagens é significativa, a ausência das pessoas – dos atores, dos cineastas, dos fotógrafos, dos figurinistas, dos inúmeros técnicos de uma equipe cinematográfica e da plateia com deficiência – é ainda mais vultosa.
Considerações finais
Não estamos ou estamos pouco ou estamos mal ou pelo menos estranhamente representados no cinema (...). E quando acontece que estejamos no centro de um filme somos muito, muito frequentemente interpretados por atores sem deficiência (...). Por que estamos gritando? Por que não estamos felizes?
(Handicap [...], 2021, tradução nossa)
A história das imagens das pessoas com deficiência no cinema é a história da consolidação do ponto de vista de um espectador pretensamente universal, sem deficiência, como avalia Norden (1994). Trata-se da naturalização de uma perspectiva, realizada pelo e na história do cinema, de que o mundo retratado nos filmes e, por consequência, o mundo em geral, é um mundo em que a existência das pessoas com deficiência é não apenas pontual, “estranha” e “anormal”, mas também motivo de temor ou fascínio, compaixão ou repulsa, espetáculo de terror ou drama. Atualizado nos dias contemporâneos, o processo desta naturalização é tecido por, pelo menos, dois vetores simultâneos e sobrepostos. O primeiro, o movimento de exclusão e ausência. O segundo, uma presença confinada, marcada pelo signo da alteridade.
Essa simultaneidade é, provavelmente, uma das evidências dos dados que nossa pesquisa confirmou. Diante dos números levantados, não se constata apenas a realidade de uma exclusão quase inabalada. São constatados também que entre os 3,65% de presença de personagens com deficiência nos filmes lançados nas salas de cinema e entre os 7,35% nos filmes exibidos na TV, outros fatores acabam por manter a invisibilidade das pessoas com deficiência. Como vimos, são também os números que certificam que o protagonismo dos personagens com deficiência é bastante pontual e geralmente vinculado ao tema dos filmes ser a própria deficiência no enredo dos filmes. Igualmente, são os dados que evidenciam que o lema que ganhou força no processo de construção da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em 2009, “nada sobre nós, sem nós” ainda não chegou no cinema: o cripface está nos filmes da sala escura, exibidos na telinha e nas plataformas de streaming.
A complexidade dos processos de invisibilização e da instituição de um espectador ideal (sem deficiência) não são, entretanto, reduzíveis à dicotomia de presença e ausência. A inclusão de personagens com deficiência é frequentemente submetida à espetacularização das diferenças, objetificação das pessoas com deficiência à serviço de um suposto contentamento do público sem deficiência, de sua comoção, riso, choro, temor, desprezo, pena, compaixão ou inspiração. Nesse sentido, as narrativas audiovisuais contemporâneas ainda confinam os personagens com deficiência no lugar do “outro”, a partir de uma relação binária que reafirma uma suposta normalidade do espectador e uma ideia homogeneizadora de sociedade (Hall, 2016). É esse lugar do “outro” que instaura uma tensão entre comum e singular, terror e atração, curiosidade e aversão, segurança e insegurança [9], mas que se apazigua quando o espetador é levado, como analisam Grammont e Azevedo (2022, p. 26), a se identificar com os personagens com deficiência somente até o ponto necessário para frisar seu distanciamento.
Trata-se da demarcação de lugares fixados para o “deficiente” – posições que são operadas tanto pela fetichização dos personagens com deficiência quanto pela frequente separação física e simbólica desses personagens, que, com muita frequência, aparecem apartados do restante da sociedade e até de seus pares. Como analisa Norden (1994, p. 3), a indústria cinematográfica tem perpetuado práticas do isolamento por meio de narrativas em que a solidão dos personagens com deficiência é aceita como inevitável, normal e natural, como uma fatalidade que o indivíduo (às vezes também sua família) deve enfrentar, em vez de aparecer como construção da própria cultura, como desafio e responsabilidade social. Não por acaso, entre os 31 filmes com personagens com deficiência exibidos na TV nesses cinco anos, em 26 deles, (83,87%) havia um só personagem com deficiência, ignorando que as pessoas com deficiência constituem comunidades e culturas. Esse percentual não é muito diferente se tomarmos com referência os filmes lançados nas salas de cinema brasileiras: dos 63 filmes com personagem com deficiência, em 82,54% deles (52 filmes), os personagens são “ilhas de solidão”, reforçando situações de previsibilidade, papéis com significados estabilizados, associados ao estereótipo e à diferença (Grammont; Azevedo, 2022). Assim, os resultados da pesquisa evidenciaram que a (in)visibilidade da pessoa com deficiência é fruto de complexa dinâmica entre ausência significativa de imagens e presença de imagens que operam intensificando a invisibilização, seja porque não incluem propriamente as pessoas com deficiência, seja porque, quando as incluem, fixam sua presença em lugares demarcados, previsíveis.
Não por acaso, Clara Mar (2024), uma de nossas entrevistadas, constata que o anseio em se reconhecer nas imagens do cinema, da TV ou da publicidade, está sempre permeado pelo temor do que essas imagens vão anunciar: “sempre tive medo de ser representada no cinema. Sempre tive medo de ver filmes em que houvesse pessoas com deficiência e, ao mesmo tempo, esse anseio sempre tomou conta de mim”. Nesta mesma direção, o ator brasileiro Giovanni Venturini (Entrevista […], 2024), também em entrevista a nós concedida, conta que
quando era criança, as pessoas com deficiência que eu via no cinema estavam em lugares em que eu não queria ser visto (…) se tinha alguém com nanismo, alguém numa cadeira de rodas, alguém com PC, paralisia cerebral, estavam sempre em um lugar que eu não queria ser visto. Eu queria ver outras camadas disso, queria ver outras discussões que não a do vitimismo, a da superação, ou a de filme feito para chorar. A maioria dos filmes com deficiência que eu assisti na infância tinham finais trágicos, eu saía chorando: “Meu Deus! Não quero! Não quero ser esse personagem!”
O espectador com deficiência não se reconhece nesse lugar de previsibilidade, não se identifica com as narrativas que tratam suas experiências a partir do campo do extraordinário, em enredos absolutamente distantes de sua realidade. Não se reconhece porque quando está na tela é frequentemente interpretado por alguém sem deficiência, dirigido por alguém sem deficiência, em histórias roteirizadas por alguém sem deficiência.
Não que não existam diferenças produzidas pelo cinema. O cinema, reiteramos, é território de cruzamentos polivalentes, fazendo parte do regime hegemônico dos circuitos de comunicação dominante, ao mesmo tempo em que movimenta sentidos e promove formas próprias de resistência, sendo também matéria de reflexão, deslocamentos de significados, introdução de sensibilidades, apresentação das múltiplas formas de habitar o corpo e a vida. Diante da invisibilidade, cabe iluminar trilhas que nos levem a uma sociedade de fato inclusiva, nas telas e fora delas.
Notas
[1] A categoria Filmes lançados (Ancine, 2024) se refere às obras lançadas comercialmente no período analisado, excluídos relançamentos, pré-estreias ou produções que estrearam em anos anteriores e continuaram em cartaz, em sessões de caráter público realizadas em salas de cinema com funcionamento regular e cobrança de ingresso.
[2] Foram utilizados os descritores: deficiência, deficiente, síndrome, transtorno, doença mental e inclusão.
[3] Os achados encontrados nas bases de dados CAPES, SciELO e BDTD, após análise do grupo de pesquisa, totalizaram 4623 resultados, na janela temporal de 10 anos (2023-2013).
[4] Os dados coletados apontam que, durante os cinco anos analisados não houve redução numérica das exibições de filmes na televisão brasileira, pelo menos nos programas estudados. Ao contrário, o número de filmes exibidos avança gradativamente de 79, em 2019, até 111 em 2023.
[5] Na Globo, analisamos os filmes exibidos no programa Tela Quente; na Band, os do Cine Clube Band (Fandom, 2024a e 2024b). Na TV Brasil, por falta de programação regular, foram analisados os filmes exibidos nos programas sazonais Cine Mundial (em 2019 e 2020), Cine Nacional (em 2019, 2021, 2022 e 2023), Cine Doc (em 2021, 2022, 2023), Cine CLPL - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (em 2019 e 2020), Festival de Cinema (em 2020, 2021 e 2022) e Cine Resenha (em 2023).
[6] As entrevistas concedidas no contexto da pesquisa estão disponíveis em: https://projfenapaes.wixsite.com/in-visibilidades/dialogos/interlocucoes.
[7] O termo blackface se refere à prática racista iniciada no século XIX, no teatro estadunidense e presente depois no cinema, de atores brancos pintarem seus rostos para representar e ridicularizar personagens afro-americanos. No contexto brasileiro, a prática se popularizou especialmente durante o carnaval quando pessoas brancas se fantasiam de “nega-maluca” ou de “índio”.
[8] Nesse caso, o percentual foi calculado sobre o total de filmes de ficção (excluindo documentários e animações).
[9] A presença das pessoas com deficiência – explica Izabel Maior (Deficiência […], 2016) – frequentemente constrange as pessoas sem deficiência já que representa uma ameaça, uma fragilidade, “não a da pessoa com deficiência, mas a de cada um, que a qualquer momento pode pertencer a esse grupo”.
Artigo submetido em 13/10/2025 e aceito em 29/04/2026.
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