Utopias possíveis:
estratégias para sensibilizar o mundo em Políticas do Encanto
Pedro Henrique Andrade1
Resumo
Esta resenha pretende discorrer sobre como (re)imaginar futuros e propor utopias possíveis produzindo formas estratégicas de comunicabilidade política a partir do uso das plataformas de redes social (PRS), espaços capturados e muito bem apropriados pela extrema-direita na contemporaneidade. Tomando a leitura de Políticas do Encanto (2024) de Paolo Demuru como marco de referência para tal apropriação, vislumbramos o contexto atual como simbólico e marcante para a emergência e adesão de uma extrema-direita que captura seus seguidores pelo fascínio e encanto ante argumentos racionais, pragmáticos e embasados cientificamente. A resenha busca, a partir de saídas propostas pelo semioticista, delinear formas de como atuar politicamente pela sensibilização, pelo fascínio e mesmo pela estesia a partir de experiências que não se deixem levar, contudo, pela imoralidade, mentira, derrisão e pelo ódio, características comuns nos usos e apropriações realizados pela extrema-direita nas ambiências plataformizadas por todo o mundo. Para "quebrar o feitiço”, o autor propõe três pilares que se distanciam de perspectivas verborrágicas ou excessivamente racionais: sensibilizar, imaginar e reencantar – todas elas fincadas em efeitos práticos na vida cotidiana plataformizada.
Palavras-chave
comunicação; política; extrema-direita; plataformas; Políticas do Encanto.
1 Doutorando em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (PPGCOM/ESPM). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Membro do grupo Sense/CNPq (Comunicação, consumo, imagem e experiência). Jornalista. E-mail: pedroandradejornalismo@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026017 10.34019/1981-4070.2026.v20.50155
Possible utopias:
strategies for raising awareness in the world in Politics of Enchantment
Pedro Henrique Andrade1
Abstract
This review aims to discuss how to (re)imagine futures and propose possible utopias by producing strategic forms of political communicability through the use of social media platforms (SMPs), spaces that have been captured and appropriated by the far right in contemporary times. Taking Paolo Demuru's Políticas do Encanto (Politics of Enchantment, 2024) as a reference point for such appropriation, we view the current context as symbolic and significant for the emergence and adherence of a far right that captures its followers through fascination and enchantment rather than rational, pragmatic, and scientifically based arguments. Based on solutions proposed by the semiotician, this review seeks to outline ways of acting politically through awareness, fascination, and even aesthetics, based on experiences that are not, however, carried away by immorality, lies, derision, and hatred, characteristics common in the uses and appropriations made by the far right in platform-based environments around the world. To “break the spell,” the author proposes three pillars that distance themselves from verbose or overly rational perspectives: raising awareness, imagining, and re-enchanting — all of which are rooted in practical effects in everyday platformized life.
Keywords
Communication; Politic; far-right; platforms; Politics of Enchantment.
1 Doutorando em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (PPGCOM/ESPM). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Membro do grupo Sense/CNPq (Comunicação, consumo, imagem e experiência). Jornalista. E-mail: pedroandradejornalismo@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026017 10.34019/1981-4070.2026.v20.50155
Utopías posibles:
estrategias para sensibilizar el mundo en Políticas del Encanto
Pedro Henrique Andrade1
Resumen
Esta revisión tiene como objetivo analizar cómo (re)imaginar futuros y proponer posibles utopías mediante la producción de formas estratégicas de comunicación política a través del uso de plataformas de redes sociales (PRS), espacios capturados y muy bien apropiados por la ultraderecha en la actualidad. Tomando como referencia Políticas do Encanto (Politicas del Encantamiento, 2024), concebimos el contexto actual como simbólico y significativo para el surgimiento y la adhesión de una ultraderecha que cautiva a sus seguidores mediante la fascinación y el encantamiento con argumentos racionales, pragmáticos y con base científica. A partir de las soluciones propuestas por el semiólogo, la revisión busca delinear formas de actuar políticamente a través de la sensibilización, la fascinación e incluso la estética, basadas en experiencias que, sin embargo, no sucumban a la inmoralidad, la mentira, la burla y el odio, características comunes en los usos y apropiaciones que la ultraderecha lleva a cabo en entornos de plataformas digitales en todo el mundo. Para "romper el hechizo", el autor propone tres pilares que se distancian de las perspectivas verbosas o excesivamente racionales: sensibilizar, imaginar y volver a encantar, todos ellos arraigados en efectos prácticos en la vida cotidiana.
Palabras clave
comunicación; política; ultraderecha; plataformas; Políticas del Encantamiento.
1 Doutorando em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (PPGCOM/ESPM). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Membro do grupo Sense/CNPq (Comunicação, consumo, imagem e experiência). Jornalista. E-mail: pedroandradejornalismo@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026017 10.34019/1981-4070.2026.v20.50155
Introdução
No dia 14 de janeiro de 2025, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo em seu perfil no Instagram com informações falsas sobre os novos critérios na utilização do PIX a partir do ano de 2025. No vídeo, o deputado afirma que o governo vê os trabalhadores que ganham até cinco mil reais como vilões e termina dizendo que o PIX não seria taxado “por enquanto”, como se isso “pudesse acontecer”. Até maio de 2026 o conteúdo tinha nove milhões de curtidas e mais de um milhão de comentários.
Quatro dias depois, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), fez uma postagem sobre a mesma temática, com estilo bastante parecido: na ocasião Hilton mostrava o porquê das informações ditas pelo deputado serem falsas, que o PIX não seria taxado e que o governo na verdade propôs informar à Receita Federal movimentações acima de cinco mil reais. Os números do vídeo: 2,5 milhões de curtidas e mais de meio milhão de comentários.
Seguindo o léxico das redes, podemos dizer que ambas as postagens engajaram.
Esses exemplos práticos bastante recentes na vida política do país nos ajudam a entender um pouco do cerne do que o semioticista Paolo Demuru nos convoca a pensar em Políticas do encanto - extrema direita e fantasias de conspiração, lançado pela editora Elefante em 2024. Dividido em quatro capítulos, a proposta do livro é refletir sobre estratégias e saídas para usos e apropriações mais inteligentes – ou talvez perspicazes – das plataformas de rede social (PRS), sem deixar de considerá-las propriamente enquanto agentes causadores do boom de um populismo conspiratório de extrema-direita, que inflama mais pelo que provoca em traços subjetivos e menos por ideais vinculados a uma racionalidade plena – como no caso do vídeo de Nikolas Ferreira, repleto de informações inverídicas proferidas de modo dúbio, sugestivo e com alguma espécie de encanto característico de iniciativas da extrema-direita pelo mundo.
Nas primeiras páginas o autor já nos situa: “O populismo conspiratório de extrema direita seduz mais pelo fascínio que provoca” (Demuru, 2024, p. 13) e conclui, dando indícios sobre o que encontraremos nos próximos capítulos do título: “Não adianta enfrentar o populismo de direita apenas com fatos. A luta da vez é pela maravilha” (Demuru, 2024, p. 16), algo que, historicamente, sempre esteve mais vinculado às experiências progressistas e libertárias filiadas às esquerdas. Talvez tenha sido pensando nisso que Hilton produziu seu vídeo contradizendo as mentiras proferidas por Nikolas Ferreira: usando ferramentas de encantamento e sedução que estão mais próximas a elementos subjetivos, imagéticos e mesmo estésicos do que optando por um apelo ao racionalismo exacerbado ou a verborragia – tão comum nas práticas políticas progressistas nos últimos anos e, como sabemos, malsucedidas.
Mas como a extrema-direita chegou até aqui e capturou tanta gente? Demuru chama de populismo conspiratório esta forma bastante usual percebida no novo milênio em que a direita consegue unir: a) teorias da conspiração (que não são, a priori, novidades) e b) um discurso populista (que tampouco é novo). A sociabilidade on-line, os espaços virtuais e todo o seu arcabouço de práticas de consumo ainda em constante construção e evolução é onde essa captura acontece.
São nesses espaços – dos quais temos pouco ou nenhum controle em termos materiais, em se tratando dos processos de algoritmização – que emergem o que o autor conclama enquanto um paradoxo fundacional para os discursos conspiracionais: “A verdade se mantém, sempre, um mistério. Seus segredos não podem ser desvendados por inteiro, senão a maravilha acaba. As teorias seguem em frente” (Demuru, 2024, p. 32) – ambiência perfeita para promover apropriações por parte do público, favorecendo a escrita coletiva do roteiro e incitando uma dimensão de participação e convergência, termos bastante comuns nos estudos mais introdutórios e um tanto ingênuos sobre a cultura digital, por exemplo.
Significa que a convergência não exista? Não. Ela continua acontecendo nas mentes e nos processos culturalistas que atravessam os sujeitos pela intermidialidade. Parece, no entanto, que neste caso, aliada à participação e propagabilidade permitidas por essa noção, se encontra também a satisfação dessas pessoas em se sentirem "diferentes” (Demuru, 2024, p. 40), como se soubessem e tivessem informações que as outras não têm ou buscando respostas simples para problemas complexos: um palco perfeito para o nascimento das teorias da conspiração. Um estado de êxtase.
Mas, na visão de Demuru, há ainda algo maior envolto a tudo isso: o ódio. As experiências conspiracionistas de extrema-direita estão em transe conjunto mas também sempre se relacionam com conteúdos e discursos odiosos. As mídias digitais favorecem, para o autor, não apenas a difusão do ódio, como podemos testemunhar de maneira cada vez mais expressiva a partir de decisões de não intervenção em conteúdos odiosos como as do Meta desde o início de 2025 (Galf, 2025), mas também dão forma a um ódio: “Imperativo, rápido, intenso e capaz de causar estragos inversamente proporcionais a sua pequenez” (Demuru, 2024, p. 59).
E dizemos pequenez porque notamos diariamente no scrollar de nossas telas a tentativa desses atores em mandar bem com frases de efeito, cortes virais e estratégias de visibilidade que buscam desalinhar uma proposta efetivamente comunicativa, aquela onde tenta-se tornar comum como o cerne da palavra comunicação nos indica. A pequenez aqui está ligada à derrisão (Demuru, 2024, p. 62). Esse tipo de performance em rede, embora efetiva em termos pragmáticos, não busca elementos de ligação e vinculação, tampouco construir elos – para esse tipo de ódio cômico, o que importa é o riso que zomba do outro, que se expressa por meio do desprezo, roda que articula toda uma cadeia produtiva que, inclusive e obviamente, é financeiramente rentável.
São incontáveis as experiências às quais podemos recorrer aqui, em especial se tratando de casos nacionais: o próprio Nikolas Ferreira, citado no início deste texto, tem sido um grande expoente deste tipo de iniciativa. No dia 8 de março de 2023, por exemplo, usou uma peruca ao discursar na Câmara dos Deputados (Pinotti; Amaral; Hirabahasi, 2023), afirmando que mulheres estariam perdendo espaço para homens que se sentem mulheres e completou dizendo que na ocasião podia ser chamada de “Deputada Nikole”, em um discurso derrisório e transfóbico, mas que culminou em diversos cortes para vídeos nas PRS e que, obviamente, engajaram. Jair Bolsonaro, ex-presidente da república, também é uma figura política que se apropriou muito bem da derrisão para catapultar seu eleitorado.
Mas, afinal, como combater isso tudo?
O grande trunfo do texto de Demuru talvez seja justamente inverter os ideais excessivamente racionalistas e objetivistas aos quais estamos adaptados como acadêmicos e permitir-nos tecer uma leitura curiosa, intrigante e valiosa na busca por compreender o porquê da esquerda e o campo progressista ter se afundado, diversas vezes, em uma areia movediça no que diz respeito às suas práticas e estratégias de comunicação em ambientes digitais. Não se ganha do fascínio e do maravilhamento com razão, argumenta o autor. Não se conquista atenção com ceticismo. Isso não significa, contudo, apelar para as mesmas iniciativas de captura de atenção bem-sucedidas mas criminosas da extrema-direita. Há saídas éticas e humanizadoras.
Notamos isso em especial no capítulo em que o autor debate sobre o que chama de suprematismo da razão, vinculado ao debunking, ou seja: a apresentação de elementos racionais para provar (ou comprovar) que ideias, crenças e discursos são falsos. Nos últimos tempos, as experiências de fact checking talvez sejam as que mais conseguem exemplificar essas práticas. Para o autor o ratiosupremacismo se caracteriza por um excesso de lógica, e ignora todo um constructo “fantástico” que encanta e tensiona ao maravilhamento nas experiências do populismo conspiratório da extrema-direita. Obviamente isso não significa acabar com todas práticas de debunking senão estabelecer uma autocrítica: não chegamos em nenhum lugar até aqui sendo excessivamente racionais. É preciso mudar a tática.
Para quebrar esse feitiço, Demuru apresenta algumas iniciativas: a primeira delas, seria sensibilizar. Para o autor, três operações são possíveis aqui. A primeira é a literacia midiática (bastante usual em textos difundidos nas áreas da Linguística e principalmente da Comunicação). O objetivo, além de garantir a dimensão cidadã vinculada ao direito democrático de se informar, como na literacia tradicional, é também garantir uma dimensão lúdica e sensível aos processos, permitindo que eles sejam menos rígidos. Na segunda, o debunking strito sensu, não importaria desmentir, senão mostrar como a mentira é ou foi construída, combatendo feitiços com outros feitiços e cativando os indivíduos durante este processo ao invés de entediá-los, como nas posturas convencionais que rechaçam os sujeitos por "caírem” em armadilhas, comumente vistas em frases: "Como alguém pode acreditar nisso?". Por fim, Demuru também nos apresenta as interações diretas como forma de solucionar o problema: é preciso “ajustar-se” ao interlocutor, neste caso, “construir uma interação fundada em emoções e sensibilidades positivas, e não na negação do outro e suas crenças, ainda que ele defenda o terraplanismo” (Demuru, 2024, p. 86). Aqui, vale a empatia, deixando de lado uma lógica racionalista que interpretaria essas posturas como malucas, absurdas ou burras. Sabe aquela discussão no almoço em família? Não cabe aqui.
Mas além de sensibilizar, também precisamos inventar: “Imaginar outros mundos, outras vidas, outras conversas, outras formas de socialidade” (Demuru, 2024, p. 89). Neste tópico, Demuru aponta como devemos reajustar o discurso para modificar a forma de impor pautas e difundir informações: tirando a evidência e a proeminência da extrema-direita em contextos plataformizados. A ideia é ter a consciência de se, quando, quanto, como e para quem falar, seja contra ou a favor. Mas principalmente: "Mudar de assunto, falar de outra coisa” (Demuru, 2024, p. 91), pensando em estratégias de comunicação potencialmente eficazes, em novas maneiras de contar histórias. Neste capítulo o autor sugere que experiências políticas como a do #EleNão nas eleições presidenciais de 2018 podem não ter sido estrategicamente as melhores, incitando-nos a pensar que a campanha se estagnou em um regime discursivo que negava o candidato Jair Bolsonaro sem necessariamente estabelecer um elo produtivo que mostrasse aos eleitores o porquê de, além de renegar a candidatura bolsonarista, eles deveriam escolher por Fernando Haddad (PT). Esse fator apareceu com evidência nas eleições de 2022, quando a comunicação da campanha de Lula valeu-se de termos como “união", "reconstrução” e “esperança”, optando por um sim enfático.
Por fim, mas não menos importante, devemos, nas palavras do autor, nos reencantar. Neste capítulo o autor assume uma postura autorreflexiva em relação ao próprio texto, afinal: como sensibilizar sem problematizar o discurso? A partir dessa premissa, o autor apropria-se de uma espécie de narrativa ficcional, criando um “objeto narrativo não identificado”. Simulando um diálogo informal, o autor vai mostrando como caímos em um lamaçal de objetivismo, tornando-nos exageradamente pragmáticos e frios: “A cada disparate deles respondemos com desgosto, consternação, repúdio. Soltamos centenas e centenas de notas de repúdio” (Demuru, 2024, p. 112) diz-nos o autor em um sugestivo diálogo em uma mesa de bar.
No fim, a ideia de Paolo Demuru, curiosa e criativa, é que nos apropriemos sim, de forma mais inteligente e sensata das PRS; sem, no entanto, vislumbrá-las como objetos de emancipação social. No que tange a ordem prática, contudo, há algo a se fazer que é anterior a essas estratégias de produção e consumo às quais não só as campanhas políticas e estrategistas de marketing devem estar atentos: abandonar o controle da busca pelo bom senso e verdade como pedestais inalcançáveis e abrir brechas para uma outra coisa: imaginar e sonhar, “encantos saudáveis, utopias possíveis” (Demuru, 2024, p. 127).
Artigo submetido em 04/04/2025 e aceito em 31/07/2025.
Referências
DEMURU, Paolo. Políticas do encanto: extrema direita e fantasias de conspiração. São Paulo: Elefante, 2024.
GALF, R. Desinformação eleitoral, armas e discurso de ódio podem ficar fora de vigilância da Meta. Folha de S. Paulo. São Paulo, 15 jan. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/01/desinformacao-eleitoral-armas-e-discurso-de-odio-podem-ficar-fora-de-vigilancia-da-meta.shtml. Acesso em: 22 ago 2025.
PINOTTI, F.; AMARAL, L.; HIRABAHASI, G. Nikolas Ferreira veste peruca na Cãmara e diz "Mulheres estão perdendo espaço para homens que se sentem mulheres". CNN, São Paulo. 08 mar. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/nikolas-ferreira-veste-peruca-na-camara-e-diz-mulheres-estao-perdendo-espaco-para-homens-que-se-sentem-mulheres. Acesso em: 24 ago. 2025.