O que o talk show diz sobre o podcast?
Matrizes televisivas e modos de conversação digital
Juliana Freire Gutmann1 e Fernanda Mauricio da Silva2
Resumo
Considerando as abordagens hegemônicas que relacionam os podcasts à tradição radiofônica, este estudo busca contribuir para o debate sobre os modos de conversação nativos da cultura digital a partir de uma outra referência igualmente importante: a matriz televisiva. Diante desse argumento, o artigo revisita o processo de formação histórica e cultural do talk show no Brasil como gesto metodológico para a compreensão dos repertórios televisivos convocados por dois podcasts nacionais de grande prestígio, Podpah e É Nóia Minha?, ambos em circulação no Spotify e no YouTube. Convenções do gênero talk show identificadas nesses programas – ênfase às visualidades, temáticas populares, informalidade da conversação, participação da audiência e retórica do ao vivo – não apenas são indícios da televisão enquanto importante matriz do podcast, mas evidenciam como múltiplas temporalidades atuam na constituição de novas escutas e espectatorialidades. Neste estudo, o podcast é tomado como forma mestiça da comunicação, com trânsitos entre as mídias sonoras e televisivas, a cultura do blog e das plataformas, e a noção de gênero televisivo é reiterada enquanto conceito analítico ainda profícuo para o estudo dos processos de mutações midiáticas no contexto digital.
Palavras-chave
talk show; podcasts; matrizes históricas; gênero televisivo; formas mestiças.
1 Professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA. Bolsista PQ 2/CNPq. E-mail: jugutmann@gmail.com.
2 Professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFMG. E-mail: fernandamauricio@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026003 10.34019/1981-4070.2026.v20.49026
What does the talk show say about the podcast?
Television matrices and modes of digital conversation
Juliana Freire Gutmann1 and Fernanda Mauricio da Silva2
Abstract
Considering the hegemonic approaches that relate podcasts to the radio tradition, this study seeks to contribute to the debate on the modes of conversation native to digital culture from another equally important reference: television. In light of this argument, the article revisits the historical and cultural formation of the talk show in Brazil as a methodological gesture for understanding the television repertoires summoned by two highly prestigious national podcasts, Podpah and É Nóia Minha?, both available on Spotify and YouTube. Conventions of the talk show genre identified in these programmes – emphasis on visuals, popular themes, informal conversation, audience participation and live rhetoric – are not only evidence of television as an important matrix for podcasts, but also highlight how multiple temporalities act in the constitution of new forms of listening and spectatorship. In this study, podcasts are taken as a mestizo form of communication, with transitions between sound and television media, blog and platform culture, and the notion of television genre is reiterated as an analytical concept that is still useful for studying the processes of media mutations in the digital context.
Keywords
talk show; podcasts; historical matrices; television genre; mestizo forms.
1 Professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA. Bolsista PQ 2/CNPq. E-mail: jugutmann@gmail.com.
2 Professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFMG. E-mail: fernandamauricio@gmail.com.
Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 20, 2026 | e026003 10.34019/1981-4070.2026.v20.49026
¿Qué dice el programa de entrevistas sobre el podcast?
Matrices de televisión y modos de conversación digitales
Juliana Freire Gutmann1 y Fernanda Mauricio da Silva2
Resumen
Considerando los enfoques hegemónicos que relacionan los podcasts con la tradición radiofónica, este estudio busca contribuir al debate sobre los modos de conversación propios de la cultura digital desde otro referente igualmente importante: la matriz televisiva. Con este argumento, el artículo revisita el proceso de formación histórica y cultural del talk show en Brasil como gesto metodológico para comprender los repertorios televisivos convocados por dos podcasts nacionales de gran prestigio, Podpah y É Nóia Minha?, ambos circulando en Spotify y YouTube. Las convenciones del género de los programas de entrevistas identificadas en estos programas (énfasis en las visualidades, temas populares, informalidad de la conversación, participación de la audiencia y retórica en vivo) no son sólo signos de la televisión como una importante matriz de podcast, sino que también muestran cómo múltiples temporalidades actúan en la constitución de una nueva escucha y audiencia. En este estudio, se toma el podcast como una forma de comunicación mixta, con tránsitos entre medios sonoros y televisivos, cultura blog y plataforma, y se reitera la noción de género televisivo como un concepto analítico que aún resulta útil para estudiar los procesos de mutaciones mediáticas en el contexto digital.
Palabras clave
programa de entrevistas; pódcasts; matrices históricas; género televisivo; formas mixtas.
1 Professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA. Bolsista PQ 2/CNPq. E-mail: jugutmann@gmail.com.
2 Professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFMG. E-mail: fernandamauricio@gmail.com.
Introdução
Muito se tem questionado sobre o movimento antropofágico da TV, cuja produção não se reduz ao que é transmitido pelo meio (o televisor), mas se expande e se atualiza permanentemente em fragmentos dispersos, que extravasam a programação televisiva e as plataformas de streaming, passam pelo YouTube, articulam memes no X, dancinhas no TikTok, sequência de stories no Instagram etc. Somando a esses investimentos, nos parece igualmente necessário reafirmar a força cultural de suas matrizes para a compreensão desses novos modos de fazer e ver TV. Nessa direção, sustentamos que a investigação sobre novas práticas e dinâmicas midiáticas demanda visada permanente nos processos de formação histórica da televisão.
Perante esse argumento, propomos revisitar o que consideramos, em pesquisas anteriores (Gutmann; Silva, 2017; Silva; Gutmann, 2018), matrizes de formação do talk show no Brasil, um dos gêneros televisivos de maior prestígio, mas pouco abordado no país enquanto objeto de investigação, como gesto metodológico para a compreensão dos repertórios convocados pelos modos de conversação dos podcasts. O termo, originário da simbiose entre as palavras iPod e broadcast, dá nome à forma midiática (expressa em áudio e vídeo) em circulação nas plataformas digitais, que tem o bate papo informal e descontraído como principal estratégia comunicativa.
Hegemonicamente conhecidos e debatidos por recuperar parte da linguagem e hábitos de escuta que remetem a uma memória do rádio, posicionamos o podcast enquanto forma mestiça da comunicação (Martín-Barbero, 2009) com trânsitos entre as mídias sonoras e televisivas tradicionais em articulação com marcas da cultura digital. Enquanto forma mestiça, o podcast é constituído por dinâmicas sincrônicas de conexão com outras expressões audioverbovisuais típicas das redes (edits, comentários, reactions, memes etc.), mas também evidencia processos diacrônicos que respondem por sua formação. As evidências de suas relações com o rádio e os blogs (Jácome et al., 2023; Bonini, 2020; Herschmann; Kischinhevsky, 2008) têm sido amplamente debatidas. Interessa-nos contribuir para o debate a partir de uma outra referência igualmente importante, mas ainda pouco abordada: a matriz televisiva.
Partindo dessa constatação, retomamos a noção de gênero televisivo como um conceito metodológico ainda produtivo para a análise das formações mestiças da cultura digital, como o podcast. A formação cultural e histórica do talk show brasileiro é então revisitada, num primeiro momento do artigo, como forma de recuperar o que consideramos uma matriz fundamental para a compreensão desses novos modos de conversação midiática. Num segundo momento, nos debruçamos sobre as estratégias comunicativas de dois podcasts nacionais, Podpah e É Nóia Minha?, ambos disponíveis no Spotify e no YouTube, entendidos como espaços em que as marcas dessas matrizes se fazem mais notáveis. Daí porque defendemos, a partir deste estudo analítico, já respondendo à pergunta que dá nome a este artigo, que o talk show e a televisão brasileira têm muito a nos ensinar sobre os podcasts.
Revistando o talk show: gênero como categoria analítica das mutações televisivas
No campo dos estudos de televisão, há uma vasta tradição de referências nacionais e internacionais que destacam a produtividade da noção de gênero para a análise televisiva (Feuer, 1992; Mittell, 2001; Edgerton; Rose, 2008; Neale, 2008; Martín-Barbero, 2008; Gomes, 2011; Gutmann, 2014; Silva, 2013a, 2013b etc.). Tais perspectivas se afastam da ideia de tipologia e posicionam gênero como conceito fluido cuja coerência resulta de relações múltiplas com os domínios textuais, culturais, mercadológicos, políticos e históricos. Em conformidade com essas perspectivas, já assentadas no campo, acionamos a compreensão de gênero televisivo não em referência a um determinado tipo de programa, mas como dimensão analítica da televisão, de seus processos de formação e interfaces com a cultura digital.
Os estudos de gênero têm acompanhado as mutações da TV diante dos seus novos contextos. São diversas as pesquisas recentes dedicadas a examinar os modos como as plataformas de streaming reconfiguram convenções de gênero, seja por conta de suas dinâmicas transnacionais, que incidem sobre negociações entre características locais e globais, como ocorre com os K-dramas (Yoon; Lee, 2024), seja por conta das implicações de seu modelo econômico nas formas de produzir, distribuir, categorizar e consumir os programas (Lotz, 2022), seja pelo modo como as serializações em circulação nos espaços digitais desafiam convenções narrativas e de representação da TV (McHugh, 2023), só para citar alguns exemplos. Em todas essas abordagens, a noção de gênero atua como uma dimensão ainda pulsante de investigação.
Nessa direção, propomos retomar uma compreensão de gênero, nos termos de Martín-Barbero (2008), que nos auxilie no exame de como as novas práticas e dinâmicas das plataformas transformam as chamadas mídias tradicionais, mas também são por elas moduladas. Ao tomar as mediações televisivas como objeto inicial de investigação, Martín-Barbero já posicionava o gênero como chave analítica das estratégias de comunicabilidade dos produtos e processos midiáticos. Por essa abordagem, gênero não é tomado como um conceito abstrato e preconcebido, mas como dimensão que existe empiricamente (Feuer, 1992).
Referimo-nos a práticas culturais que respondem por estabilidades e mutações. Em pesquisas anteriores [2] (Gutmann; Silva, 2017; Silva; Gutmann, 2018), convocamos esse entendimento de gênero televisivo para o exame dos modos de construção e reconhecimento do talk show no Brasil. Buscamos construir uma abordagem sobre o gênero que evidenciasse, no marco do processo analítico, transformações de ordem cultural, material e discursiva, o que, de antemão, já justifica o entendimento do gênero enquanto categoria metodológica.
A partir de um amplo recorte temporal – dos anos 1950 até a primeira década dos anos 2000 – mapeamos quais definições, valorações, recusas e comparações sobre o talk show foram disputados ao longo da história da TV brasileira com o intuito de recuperar suas conformações no país [3]. Oito anos após a conclusão dessa pesquisa, a televisão já é outra e o talk show também. Mas a categoria gênero ainda nos parece profícua para a investigação das transformações da experiência televisiva e suas intersecções com as plataformas digitais. Como proposta teórico-metodológica para a abordagem dos modos de conversação em formatos audiovisuais nativos de redes sociais, como o podcast, reiteramos, neste novo estudo, a importância da compreensão da formação histórica da TV e do talk show brasileiro para o debate dos fluxos e formatos de conversação das ambiências digitais.
Na literatura estrangeira, o termo talk show designa tanto os programas que se articulam de maneira mais evidente com o campo jornalístico, como os programas de entrevistas e de debates, quanto aqueles com apresentações musicais, stand-up comedies e encenações teatrais (Livingstone et. al, 1994; Mittell, 2003; Timberg et. al, 2002). Mas, no Brasil, a nomenclatura se mostrou tensionada. Inicialmente, programas cujas marcas remetiam aos late-night talk shows estadunidenses eram rechaçados em função da disputa com o campo jornalístico. Conforme o pensamento dominante na época, sendo a entrevista uma prática legítima de apuração de notícias, ao transformar-se em show, misturando-se com humor e música, perderia caráter informativo. Assim, a nomenclatura programa de entrevista procurava delimitar produtos mais identificados com os valores do campo jornalístico, como Roda Viva, Sem Censura, Cara a Cara etc. Quando se aproximava do entretenimento, porém, os programas ganhavam outras definições como programa vespertino, programa feminino e programa de auditório.
O borramento dessas fronteiras e a importação da nomenclatura talk show se deu no país no final dos anos 1980, a partir do Jô Soares Onze e Meia (SBT, 1988-1999), seguindo uma tendência da programação internacional que encontra ecos em programas semelhantes desde os anos 1950, como é o caso do pioneiro Bate-Papo com Silveira Sampaio e SS Show (TV Paulista e Record, década de 1950), Gente Importante, com Aldo Viana (1963, Bandeirantes) e Ferreira Netto na Sessão dos Executivos (1978, Record), todos tendo a conversação, um mediador homem e o humor político como estratégias de comunicabilidade (Silva, 2013a).
Na referida pesquisa, foram identificadas duas tradições de talk shows nacionais, que respondem por esta definição dominante acerca do gênero no país, mas também por negociações com outras práticas culturais brasileiras, como os programas de auditório e o melodrama (Gutmann; Silva, 2017; Silva; Gutmann, 2018). Uma matriz é marcada pela atualização do formato late night, herdado do modelo global de entrevistas bem-humoradas com personalidades públicas, celebridades e especialistas, lideradas por um apresentador masculino, com presença de plateia e banda no estúdio. A outra matriz negocia com gêneros populares da TV brasileira e é caracterizada pela apresentação feminina, tom intimista, entrevistas com “gente comum” e ênfase em testemunhos da vida privada.
A primeira matriz responde pelo modo como o termo talk show se consolida no país no final dos anos de 1980 enquanto expressão de distinção a partir do Jô Soares Onze e Meia (SBT), referência do gênero para inúmeros programas que se articulam à linhagem de remake do late-night show - etiqueta da tradição televisiva estadunidense, cujo formato foi consagrado por Jonny Carson e David Letterman numa combinação de entrevista com shows de comédia, participação de celebridades, presença de plateia e exibição tarde da noite. Nos anos 2000, Jô Soares leva o formato consagrado no SBT para a Rede Globo e, por 16 anos, comanda o Programa do Jô. Se no SBT o formato se destacou pelo humor político, em sua exibição na Globo, ressalta-se a ênfase na intimidade entre Jô Soares e seus convidados célebres e o protagonismo da experiência do apresentador nas entrevistas (Silva, 2013a).
Um segundo marco identificado nessa matriz é o Gordo a Gogo, programa do canal segmentado aberto MTV Brasil, comandado pelo VJ e líder da banda punk paulista Ratos de Porão, João Gordo. Ao passo que o novo programa, que estreia no mesmo ano do Programa do Jô, reitera convenções desta matriz – bancada, convidados célebres, tom humorístico, plateia e banda – também introduz estratégias de conversação marcadas pela ironia, sarcasmo, escracho, constrangimento, uso de gírias e palavrões (Gutmann, 2014b). No rastro dessa primeira matriz, na segunda década dos anos 2000, o talk show se constitui enquanto fenômeno midiático, provocando o que os críticos televisivos denominam de guerra de audiência. Programas como Agora é Tarde (Band, 2011-2015) e The Noite com Danilo Gentili (SBT, 2014-), ambos apresentados por comediantes stand-up, são exemplos de como a TV aberta negociou com marcas do formato late-night show em direção ao embaralhamento mais intenso entre humor, informação, política, jornalismo e entretenimento (Gutmann; Silva, 2017).
De modo articulado a esse movimento de reprodução e atualização do gênero, o processo de formação do talk show brasileiro contempla uma segunda tradição de programas que, no lugar do humor político, tinha a intimidade do espaço doméstico como foco das entrevistas e debates. Tendo a figura feminina como personagem central, este modelo se originou com Hebe Camargo, cujo estilo de entrevista se consolidou com seu programa dominical lançado em 1966 pela TV Record. O formato se caracteriza por entrevistas e debates com celebridades feitas em um sofá, de onde se forjava uma sala de estar, e teve versões na TV Tupi, Bandeirantes, até chegar ao SBT em 1986, onde permaneceu por 14 anos no ar. O processo de popularização desse modelo de talk show passa pela dimensão carismática da apresentadora assentada em estratégias de distinção. “A apresentadora falava para as massas e pelas massas, mas se impunha como celebridade” (Silva; Gutmann, 2018).
A intimidade do espaço doméstico como foco da conversação e a forte valorização do auditório marcam esse outro modo de fazer talk show instituído no Brasil por Hebe e atualizado por programas como Sílvia Poppovic (SBT, 1990-1992), Márcia (SBT, 1997-1998) e Encontro (TV Globo, 2012-). Silvia Poppovic é um marco importante nessa tradição. Diferentemente de Hebe, Poppovic aciona matrizes do jornalismo para a abordagem de temas de apelo popular, como a cura de doenças, casamento aberto e casos amorosos. A conversa envolvia a apresentadora, pessoas comuns e especialistas, e era transmitida ao vivo como forma de autenticar os testemunhos (Silva; Gutmann, 2018). No lugar da sala de estar popularizada por Hebe, ganha destaque o palco em arena, o que intensifica o sentido de debate dado às entrevistas. Os vespertinos do final dos anos de 1990 e início dos anos 2000, como Márcia (SBT, 1997-1998 e Band, 2007-2010), Encontro Marcado (Rede TV!, 2005-2008), Jogo da Vida (Band, 2003-2005) e Casos de Família (SBT, 2004-2023), amplificam a tendência de ter a polêmica como estratégias de comunicabilidade. São programas qualificados pela crítica como “telebarraco ou teleajuda, como forma de caracterizar o debate convertido em brigas e o espaço para aconselhamento ao vivo” (Silva; Gutmann, 2018, p. 250).
Ao longo do percurso de investigação das matrizes do talk show, articulamos um referencial teórico-metodológico baseado num olhar para o gênero a partir dos Estudos Culturais para mapear historicidades do talk show no Brasil. Com Mittell (2004), recorremos a uma análise de gênero televisivo que não se limita aos textos, mas que os articula ao material que circula sobre eles: críticas, reportagens, cartas de leitores, grade de programação. Quando pensamos as dinâmicas de produção, circulação e consumo midiático no contexto digital, essa trama de textualidades se constitui de modo ainda mais complexo. Nossa experiência com a televisão e com os podcasts se dá a partir de um emaranhado de textualidades, que inclui críticas, reportagens, anúncios, mas também outras expressões, como edits, comentários, memes, reactions etc. (Gutmann, 2021). É sob essa perspectiva que conduzimos nosso exame dos podcasts apresentados a seguir.
Pensando os podcasts a partir das matrizes do talks show
Boa parte da bibliografia brasileira e internacional sobre podcasts aponta os anos 2000 como marco da popularização dessa mídia sonora que se constitui pela estreita articulação entre o digital e a herança radiofônica (Herschmann; Kischinhevsky, 2008; Jácome et al., 2023), num movimento também alicerçado na cultura dos blogs (Jácome et al., 2023), em que pesa um reforço na interação íntima para construção de autenticidade. Ainda que transmitido por plataformas de áudio, os podcasts têm incorporado o uso de imagens em suas exibições e circulação nas plataformas de vídeo, o que explica também o uso do nome videocast. O formato audiovisual/sonoro possui diversas estruturas, podendo ser constituído como um programa roteirizado em que um narrador conduz a história, incluindo ou não entrevistas, ou se apresentar na forma de transmissão de um bate-papo, como é o caso dos programas em análise: Podpah e É Nóia Minha?.
Diferentemente da produção radiofônica massiva, os podcasts, como boa parte dos conteúdos on demand, constituem-se como uma mídia personalizada (Bonini, 2020), implicando práticas de escuta selecionadas pelo ouvinte (Jácome et al., 2023). Do ponto de vista da produção, reduz os constrangimentos de grandes corporações midiáticas e possibilita a coexistência de mídias hegemônicas e produtores alternativos – comediantes, professores, entidades organizacionais, universidades etc. Também nesse espaço, como em diversos outros do universo digital, emerge a figura do influenciador, cuja presença em rede se espraia pelo YouTube, TikTok, Instagram etc.
Nesses termos, o podcast é abordado por este estudo a partir do que Martin-Barbero (2009) denominou de formas mestiças da comunicação. Conforme o autor, transformações de tempos e espaços são flagradas na comunicação em seus produtos e processos que se apresentam, nos tempos atuais, enquanto fluxos de imagens e informações. São formas mútuas de contaminação que desestabilizam e atualizam convenções radiofônicas e televisivas, a partir de articulações com as práticas e dinâmicas da cultura digital, de modo a não apenas produzir alterações nos meios, mas concebê-los radicalmente enquanto espaços de mestiçagem.
Quando reflete sobre os modos de examinar a organização espaço-temporal fabulada pela TV, Martín-Barbero aciona a noção de palimpsesto, relacionada ao emaranhado de gêneros e tempos que configura nossa experiência televisiva. Enquanto tempo ocupado, cada programa promove articulações com o palimpsesto, replicando-se e reenviando-se uns aos outros (Martín-Barbero, 2008). Assim, no contexto em que ainda não debatíamos a cultura digital, o autor já pensava a televisão enquanto forma mestiça. Reiteramos o argumento para localizar os podcasts como textos tecidos com links que os conectam com fala, imagens e sons (Martín-Barbero, 2013). Enquanto forma mestiça, o podcast se relaciona com o palimpsesto, espécie de indício temporal não linear, constituído por temporalidades múltiplas que envolvem não apenas uma tradição que se reproduz no presente ou uma novidade que recusa sua história, mas se configura como espaço de entrecruzamentos midiáticos.
Ainda seguindo o autor, propomos acionar a categoria de gênero televisivo como dimensão analítica das estratégias de comunicabilidade dos objetos empíricos deste estudo: Podpah e É Nóia Minha?, dois podcasts populares no Brasil, com periodicidade de transmissão e ampla circulação nas plataformas de áudio e vídeo. A abordagem analítica se ancora, portanto, nos processos de formação cultural do talk show brasileiro, detalhados anteriormente, para a compreensão de como esses podcasts se apropriam, negociam e ressignificam convenções de gênero construídas e disputadas no marco de distintas matrizes e de seus processos de mutação.
Este estudo analítico se deu com base nas experiências de consumo de cada uma das autoras, seguindo seus próprios fluxos e engajamentos em rede. Por isso, não efetuamos um corpus definido a priori, mas, em contato com esses produtos, tateamos suas configurações, suas formas de interagir, sua presença dispersa em múltiplos espaços midiáticos, a fim de oferecer uma leitura panorâmica dos dois programas, que acionam estratégias de construção e presença em rede distintas.
O Podpah é um podcast criado e apresentado por Igor Cavalcanti (Igão) e Thiago Marques (Mítico Jovem), disponível pelo Spotify desde 2020, onde angaria cerca de 4,7 milhões de seguidores, e também em canal próprio no YouTube, com mais de 9 milhões de inscritos [4]. No rastro do formato conhecido como “podcasts de mesa” [5], o Podpah já esteve em primeiro lugar na lista do Spotify entre os mais ouvidos do Brasil. Em post feito no Linkedin, o CEO do Podpah, explica:
Muita gente pode esperar assistir a uma entrevista como fomos acostumados na TV, com roteiro, perguntas pautadas e controle sobre a entrevista. Acho que está aí a primeira diferença: não fazemos entrevista – Igor e Mítico nem jornalista são –, o Podpah Poscast se propõe a ter uma conversa, leve, sem pauta e principalmente em linguagem livre (Assis, 2025)
Já o É noia minha? é um podcast criado e apresentado por Camila Fremder, humorista, escritora, roteirista e influenciadora que começa a circular na internet em 2019 assinando diversos projetos, como newsletters e outros podcasts. Em 2024, registrou um aumento de 45% em sua base de seguidores (Podnotícias, 2024), tornando-se um dos podcasts mais ouvidos do país. É exibido em todas as plataformas de áudio e no YouTube e, em 2025, ganhou versão com vídeo no Spotify. Assim Fremder define o programa: “O Nóia é um podcast que traz à tona temas pertinentes e de senso comum, que fazem parte do cotidiano da sociedade” (uhuu, 2025).
Se levarmos em consideração a formação histórica do talk show brasileiro, a partir dos resultados de pesquisa indicados no tópico anterior, o Podpah nos permite localizar, de modo mais evidente, marcas da matriz cultural que se estabeleceu no Brasil a partir do formato late night show. É Nóia minha?, por sua vez, nos deixa ver relações mais explícitas com a segunda matriz de talk show, relacionada aos programas vespertinos dos anos de 1990. Apesar de, à primeira vista, identificarmos tais referências, também entendemos que elas se materializam de modo articulado nos dois programas. Nosso olhar para o podcast pela chave do gênero televisivo, portanto, ao reconhecer essas matrizes, reitera a produtividade das articulações e dos trânsitos entre elas. Assim, identificamos que convenções das duas matrizes são acionadas pelos dois podcasts, ainda que por diferentes nuances.
Como nos talk shows, a conversa do podcast se configura pela informalidade e improviso de um bate papo cotidiano, em que, muitas vezes, a entrevista em si não é o foco da cena, mas os testemunhos, as histórias de vida, as experiências dos entrevistados e entrevistadores. Apesar de contar com um roteiro previamente elaborado, os podcasts são abertos para mudar os rumos da prosa de acordo com os depoimentos dados ao longo da conversa. O lugar de autoridade é diluído para um espaço de intimidade, que legitima e autoriza o debate. Nos modos de conversação nativos da rede, esse clima de descontração e proximidade, muito típico dos talks shows, se acentua. Apresentador e apresentadora se colocam, muitas vezes, não apenas como “amigos íntimos" do entrevistado, mas enquanto fãs.
No caso de Podpah, muito da construção do programa parte de uma dimensão biográfica e intimista dos entrevistados que ganham amplo espaço para contar suas histórias. Igão e Mítico têm um roteiro de perguntas, mas pouco se atêm a ele, deixando a conversa solta durante um intervalo de duas horas. O bate papo, com uso de gírias e clima de intimidade, prioriza convidados célebres, nacionais e internacionais, o que confere certo prestígio e distinção ao programa. Já passaram pela mesa do Podpah nomes como Neymar, Lula e o piloto de Fórmula 1 Max Verstappen. O prestígio dos eleitos a compor a mesa do podcast, que pode estar associado à carreira internacional, ao futebol, à política, à visibilidade midiática e à popularidade na música, especialmente no rap e funk, e o tom da conversa bem-humorada pautada nos testemunhos e experiências pessoais são convenções relacionadas aos modos de conversação da matriz late night show, popularizada no país por Jô Soares.
Já o É Nóia Minha? se constrói no cotidiano, fazendo referência à matriz popular dos talk shows no Brasil, em que temas do universo doméstico e do ordinário eram comentados livremente. A finalidade do programa é a partilha, relacionada a assuntos como encontros e desencontros amorosos, cansaço, cuidado com os pais, que são comentados pela apresentadora e convidados. Tal qual Silvia Popovic, Márcia, Casos de Família, os temas pautados pelo É Nóia Minha? aparecem em chamadas como: “trans e não binário”; “match de amizades”; “sou coadjuvante”, “como anda o seu pique”. O foco central da conversa não é a entrevista com os convidados, em sua maioria personalidades da Internet, mas o debate em torno dos temas que envolvem medos, angústias, “noias” do cotidiano, que são tratados com humor e descontração.
A autorreferência aos convidados do universo midiático também deriva de uma prática dos talk shows televisivos que, especialmente após os anos 1990, tomaram a própria televisão como lugar de referenciação. Nas ambiências digitais, há ênfase na circulação de pessoas em seus múltiplos trânsitos pelas redes sociais, formando uma espécie de metiê, em que influenciadores se cruzam e se retroalimentam em seus produtos. Podpah levou Mano Brown para seu programa e, meses depois, Igão e Mítico foram ao Mano a Mano para dar entrevista. No É Nóia Minha?, Camila Fremder faz referências à podcaster Déa Freitas, do Não Inviabilize, que por sua vez divulgou o podcast de Camila em algumas edições de seu programa.
Um aspecto que nos interessa é a ênfase na dimensão visual dada ao programa originalmente sonoro. Os dois podcasts acionam modos de espectatorialidade, tanto a partir de suas versões para o YouTube, quanto de sua versão audiovisual exibida nas plataformas de áudio. O aspecto visual é constantemente convocado durante as conversas: “A gente sabe que esse episódio será muito assistido” (Igão, no Podpah #883); “qual câmera que olha?” (pergunta Deolane Bezerra, no Podpah #890); “você que escutou a gente ou assistiu a gente até agora” (Camila Fremder, no episódio “Batalha de Noias”, 20 mar. 2025).
A composição visual se vale de diferentes enquadramentos, interação entre mediadores e câmera, cortes na montagem e efeitos de edição. Do ponto de vista cenográfico, a presença da mesa ressignifica o status de bancada que, nos talk shows, institui o lugar da autoridade e certa fronteira entre os sujeitos de fala. Nos podcasts, a mesa que acolhe os convidados ao redor dilui essa ênfase hierárquica, contribuindo para a cena de “encontro entre amigos”. A conversa aparentemente sem cortes também forja o espaço de uma situação despojada e espontânea.
O cenário do É Nóia […] é minimalista. A sala é composta por uma grande mesa de madeira, cadeiras de escritório e um painel ao fundo iluminado por tons claros, que variam entre azul, lilás, verde e rosa. Sobre a mesa, estão grandes pedestais e microfones, um papel que serve de roteiro para a apresentadora e xícaras, referência consagrada pelos talks shows de Jô Soares. O nome do programa aparece em cores neon numa intervenção gráfica no topo da tela (Fig. 1). Enquanto âncora do programa, a apresentadora é a única que usa o fone de ouvido, o que permite que ela interaja com a produção, assumindo lugar de comando na cena.
Figura 1 – Cenário do É Noia Minha? com Camila Femder, Edu Oliveira e Giovana Heliodoro.
https://encurtador.com.br/dOHA
Fonte: YouTube (É Nóia Minha?, 2025a)
O Podpah reitera os mesmos elementos cênicos da mesa, cadeira e microfones à vista. Mas, diferentemente do clima minimalista do É Nóia […], a intenção aqui é acentuar uma atmosfera de despojamento e bagunça. São diversos os elementos em cena. Do lado direito, uma grande prateleira, que funciona como pano de fundo do enquadramento dado aos convidados, ampara uma profusão de objetos: brinquedos, jogos, bonecos de super-heróis e diversos artefatos relacionados à cultura geek. São objetos de valor e consumo dos apresentadores que remetem ao espaço privado, estratégia cenográfica presente nos talks shows do João Gordo da MTV. No painel frontal do estúdio, há um telão com a logomarca do programa e, atrás, diversas fitas de sinalização coladas na parede, o que contribui para o clima de improviso próprio da cultura de vídeo amador dos vlogs (Gutmann; Caldas, 2020). Sobre a mesa, imperam latas de produtos dos patrocinadores, taças, fios, cabos e fones de ouvido (Fig. 2). O uso do fone apenas por Igão reforça visualmente o seu lugar de âncora.
Figura 2 – Cenário do Podpah com Negra Li e Karol Conká e os apresentadores Igão e Mítico
https://encurtador.com.br/sTfG
Fonte: YouTube (Podpah, 2025a)
Como parte da construção de sentido de participação na conversação dos talk shows, a presença do público sempre teve um lugar significativo, seja por meio de perguntas enviadas diretamente para a produção ou por sua evidência no estúdio, interagindo com palmas, risos e falas. Como uma das marcas centrais do gênero, tal característica se modifica nas formas digitais. Aqui, a presença do público é ampliada e se apresenta de modo fragmentado, múltiplo, hiperconectado e, muitas vezes, controverso sob a forma de comentários, likes, emojis, memes e reactions, numa dinâmica de disputa de vozes muito típica das redes, em que os modos afetivos têm na controvérsia seu meio de expressão dominante (Pereira de Sá, 2019).
No Podpah, há presença de convidados na plateia que aparecem pontualmente nas transmissões, principalmente através de risadas e palmas, mas são pouco convocados para a conversa. Mas quando tomamos o programa enquanto audiovisual em rede (Gutmann, 2021), ou seja, pela ênfase na experiência de consumo que se dá de modo expandido e fragmentado, sob uma trama de textualidades que orbita e atravessa o podcast, identificamos a treta como uma dinâmica central da participação da audiência. O programa é popularmente conhecido nas redes pelos comentários e reações de haters, sob a forma de memes, sobre a atuação de Igão e Mítico. Os comentários do perfil no YouTube do podcast ilustram essa dinâmica (Fig. 3). Quando a pessoa entrevistada não possui uma fanbase consolidada, como foi o caso dos comentários elogiosos à conversa com Neymar, o foco se volta para a suposta má qualidade da entrevista. Em março de 2025, o Podpah foi acusado de censura após derrubar vídeos no YouTube que criticavam o programa (Vila Nova, 2025).
Figura 3 - Print de tela com comentários do Podpah #890 com participação de Deolane Bezerra.
https://encurtador.com.br/pwrU
Fonte: YouTube (Podpah, 2025b)
No caso do É Nóia […], a inclusão da audiência se dá de forma distinta, constituindo-se de modo fragmentado, disperso e ampliado nas redes e fora delas. Além do formato gravado em estúdio e disponibilizado em streaming, há apresentações do podcast feitas em um teatro, com participação de plateia, atualizando um elemento central dos talk shows: o auditório. O encontro com a audiência é exclusivo para participantes in loco, mas compartilhado por meio de stories no Instagram, pequenas pílulas dispersas no cotidiano dos seguidores, que alimentam sua relação com o programa. Já nos comentários no YouTube, é possível identificar tons críticos, principalmente ao fato de a apresentadora “falar mais” do que os convidados, mas a maior parte da participação se volta efetivamente para o tema do debate. A conversa sobre os dilemas do dia a dia se expande pela seção de comentários, onde os seguidores reverberam seus testemunhos e conselhos, reconhecendo-se nas histórias contadas (Fig. 4).
Figura 4 - Print de tela dos comentários ao episódio “Batalha de Nóias”
https://encurtador.com.br/NqHv
Fonte: YouTube (É Nóia Minha?, 2025)
Um outro aspecto distintivo do programa é a participação do público nos quadros “Rapidinhas” e “Batalha de Nóias”, em que pessoas enviam seus áudios que são comentados pela apresentadora no estúdio, numa espécie de ampliação da conversação forjada como autêntica. A apresentadora refere-se a seus ouvintes/espectadores como noyers, uma tendência de podcasts que reitera o sentido de comunidade em rede. Os efeitos de participação mediante leituras de cartas ou ligações telefônicas da audiência é tradição radiofônica incorporada pela televisão desde seu surgimento. Camila Fremder recupera o lugar simbólico da ligação em áudio como estratégia de interação e intimidade com seus seguidores aliada às práticas de testemunhos e aconselhamentos, também popularizadas pelos talk shows vespertinos da TV aberta brasileira.
Uma marca reiterada pelos dois programas, mas que também se mostra de formas distintas, é a relação com a transmissão direta, o ao vivo, que possui forte vinculação com a matriz televisiva dos talk shows. O Nóia é gravado e disponibilizado em streaming, mas recorre às apresentações no teatro como estratégia de construção de presença. Tais presenças também são reiteradas, em rede, pelos comentários e acessos contínuos ao vídeo, que atualizam a sensação de presente. No caso do Podpah, a transmissão é feita ao vivo – um elemento distintivo das enunciações radiofônicas e televisivas – agora sob a forma de live. Essa forma atualizada da transmissão, através das redes, transita entre o direto e o gravado, uma vez que pode ser arquivada nas plataformas para posterior acesso. O efeito de aqui e agora é então atualizado pelo sentido de conectividade a partir dos comentários e reações (Gutmann, 2021; 2025)
Podpah e É Nóia Minha? reescrevem, à sua maneira, convenções do talk show brasileiro e das materialidades radiofônicas sob as dinâmicas das redes. São produtos consolidados e de sucesso comercial, com patrocínio de grandes marcas, constituídos e sob a aura da cultura youtuber: longas entrevistas, periodicidade de postagem, cenário simples e despojado, que propositalmente reitera elementos cênicos amadores herdeiros da cultura do vlog, tom confessional das entrevistas, fala coloquial e ênfase nos testemunhos (Gutmann; Caldas, 2020). A escuta aqui se expressa e se especifica a partir da cultura audiovisual das redes, que mobiliza tipicidades das plataformas de compartilhamento de vídeos ao passo que reiteram a televisão como matriz, seja pelo sentido de referenciação, comparação ou distinção.
Considerações Finais
A análise aqui apresentada sinaliza para a importância de situarmos novas práticas comunicacionais nativas da internet numa relação com suas historicidades. Ressaltamos que, em busca de suas matrizes, são inúmeras as contribuições de formas midiáticas que incidem sobre as formas mestiças em circulação nas redes. Nosso interesse foi articular dois podcasts com amplo alcance de audiência no Brasil, o Podpah e o É Noia Minha?, com as matrizes históricas do talk show. As continuidades que observamos em nosso movimento analítico – a visualidade dos programas, a permanência de temáticas populares, a informalidade da conversação, a participação da audiência em rede, a retórica do ao vivo – não apenas são indícios da força da televisão, como também evidenciam os modos como as transformações midiáticas ocorrem no âmbito da cultura, reforçando marcas hegemônicas; hibridizando práticas antigas com as novas; disputando outras espectatorialidades.
A intenção deste estudo foi articular o passado da televisão ao presente e futuro, mostrando a importância de considerarmos os movimentos do tempo na configuração e reconfiguração das formas midiáticas atuais. Buscamos evidenciar que as práticas estabelecidas pela televisão brasileira, ao longo dos seus 75 anos, permanecem ativas nas audiovisualidades contemporâneas, gerando novas experiências de consumo, reconfigurando sensibilidades e atualizando memória.
Notas
[1] Parte desta pesquisa é financiada pelo CNPq.
[2] Pesquisa pregressa também financiada pelo CNPq (2011-2015).
[3] Diante do desafio da ausência de acervo público televisivo no país, a pesquisa construiu um protocolo analítico que incluiu o exame de material impresso sobre os programas encontrado em acervos públicos e material audiovisual mapeado em sites de compartilhamento de vídeos na Internet.
[4] Dados capturados em 28.04.25
[5] Modelo inspirado no Flow, podcast de sucesso mundial liderado por Joe Rogan, comediante stand-up e apresentador de TV nos EUA.
Artigo submetido em 05/06/2025 e aceito em 12/09/2025.
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