Preciado e a disforia do mundo:

um manifesto pelo desmantelamento das estruturas e a (des)esperança das possibilidades

Antonio Hélio da Cunha Filho1

Resumo

Esta resenha busca ecoar, por meio do livro Dysphoria Mundi (2023), de Paul Preciado, a relação que o autor estabelece entre as disforias vividas pelos corpos e a inadequação e os desafios enfrentados, de forma global e simultânea, pelo “corpo” do mundo. A obra mostra como o autor percebe essas dinâmicas de rupturas que marcam a sincronia espaço-tempo do planeta, e como desafios contemporâneos recentes — como a pandemia de Covid-19, as mudanças climáticas, as guerras, as polarizações políticas etc. — hipermediados pelas tecnologias e mídias digitais, criam fricções e dissensos. Essas fricções, por sua vez, não são apenas tensões ou colapsos isolados, mas pontos críticos que evidenciam a fragilidade das estruturas sociais, políticas e epistemológicas vigentes. O presente texto tenta compreender como essas fricções podem representar, na perspectiva do autor, tanto barreiras para a constituição da sociedade, como também momentos de emergência e criação de fenômenos capazes de propiciar o desmantelamento e a desestruturação das normas sociais coercitivas e hegemônicas, dando oportunidade ao surgimento de novas possibilidades para a manutenção da humanidade e continuidade do planeta como espaço habitável e vivível.

Palavras-chave

Disforia; Mundo; Preciado; Contemporaneidades; Sociedade.

1 Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da UFRN, Doutorando no Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE. E-mail: heliofilho2@hotmail.com.

Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 19, n. 2, p. 209-215, mai./ago. 2025                                                                                                                      10.34019/1981-4070.2025.v19.48982

Preciado and the dysphoria of the world:

a manifesto for the dismantling of structures and the (dis)hope of possibilities

Antonio Hélio da Cunha Filho1

Abstract

This review, through Paul Preciado’s Dysphoria Mundi (2023), seeks to echo the relationship the author establishes between the dysphorias experienced by bodies and the inadequacy and challenges faced, globally and simultaneously, by the “body” of the world. The work shows how the author perceives these dynamics of ruptures that shape the space-time synchrony of the planet, and how contemporary challenges — such as the Covid-19 pandemic, climate change, wars, and political polarizations — hypermediated by digital technologies and media, create frictions and dissensus. These frictions, in turn, are not merely isolated tensions or collapses, but critical points that highlight the fragility of the current social, political, and epistemological structures. This text attempts to understand how these frictions can represent, from the author's perspective, both barriers to the constitution of society, as well as moments of emergence and creation of phenomena capable of enabling the dismantling and destructuring of coercive and hegemonic social norms, providing opportunities for the emergence of new possibilities for the maintenance of humanity and ensuring the planet’s continuity.

Keywords

Dysphoria; World; Preciado; Contemporaneities; Society.

1 Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da UFRN, Doutorando no Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE. E-mail: heliofilho2@hotmail.com.

Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 19, n. 2, p. 209-215, mai./ago. 2025                                                                                                                      10.34019/1981-4070.2025.v19.48982

Introdução

Como resultado de um processo de reflexão em um mundo solitário da pandemia de Covid-19, e permeado de solitude, Paul Preciado (filósofo, escritor e curador espanhol) reflete sobre as rupturas profundas pelas quais o planeta passa e como o tempo presente gera possibilidades para uma “virada de chave” em nível global. Para o autor, é imperativa a mudança que o mundo quer; resta saber em qual polaridade será possível fazer essa mudança e em quais rupturas, nós, enquanto humanidade, seremos capazes de agir. Dysphoria Mundi, lançado em 2023 no Brasil, é um livro que tenta elucubrar justamente a respeito desses dissensos em que a sociedade contemporânea vem mergulhando, e o autor usa essa representação da disforia do corpo, refletindo-a no “corpo do mundo”.

Logo nos primeiros momentos do texto, os quais ele intitula de Disforia mon amour, o autor reflete sobre o que seria essa disforia — uma sensação de discordância e inadequação que se manifesta em relação a algo ou alguma coisa. Usando suas próprias vivências enquanto pessoa trans, explora como há uma tensão entre o que entendemos como corpo e como mente, e como existem pressões sociais para adequação — até mesmo dentro das inadequações — sobre o que se é e o que se sente. Essa relação reflete muito o que Haraway (2013) entende como um saber localizado, que é a percepção de que todo conhecimento é produzido a partir de uma perspectiva individual, situada e corporificada. A vivência, literalmente, na pele do autor, permite situar que essa disforia sentida (ou não) por seus pares (ou não) reflete um estado que ele comparou com a situação do planeta na contemporaneidade.

Nessa análise, sobre a atualidade, questiona se essa disforia – que pode ser vivida pelo corpo humano – também não pode ser sentida coletivamente enquanto corpo social. Indagando: será que o mundo já não se reconhece a partir das normas estabelecidas? Preciado argumenta que a única maneira de pensar as relações hegemônicas e superá-las é mergulhando nas categorias criadas por elas para conseguir “dar a volta” no pensamento epistêmico. É uma estratégia de subversão que busca desestabilizar as bases dos padrões dominantes, e isso só será possível a partir da constatação e reflexão a respeito dessa inadequação do corpo social, a Dysphoria Mundi. Ele reforça que não estanca a disforia como uma condição natural e imutável dos seres, mas como um estágio que pode ser vivenciado por diversas pessoas e subjetividades, apontando possibilidades que escapam da norma. Assim, o autor desloca o termo de um campo puramente médico e biológico — onde se originou — para um espaço de inquietude e potência crítica.

A disforia não existe como doença individual. Ao contrário, é preciso entender a dysphoria mundi como efeito de uma defasagem, de uma brecha, de uma falha entre dois regimes epistemológicos: entre o regime petrossexorracial herdado da modernidade ocidental e um novo regime ainda balbuciante que se forja através de atos de crítica e desobediência política. (Preciado, 2023, p. 16).

Após esse prelúdio, Preciado introduz o tema central do livro: a disforia do mundo. A partir de um relato que mistura observação e análise, e ancorado em suas epistemologias, ele marca, especialmente o pós-pandemia de Covid-19, como esse estado de desajuste e colapso planetário. O autor defende que vivemos em um irrealismo capitalista, retomando a ideia de Fisher (2020). Ele afirma que já ultrapassamos a noção de uma realidade capitalista estática e agora habitamos uma irrealidade capitalista, marcada por uma destruição tão profunda que compromete qualquer senso de estabilidade. Ou seja, para o autor, o irreal não é o que o mundo passa — seja por pandemias, mudanças climáticas ou desestruturações sociais —, mas sim, é irreal passar por esses problemas, fruto do capitalismo, e não os associar ao sistema, nem haver tentativas de romper com essa irrealidade.

No livro, Preciado descreve essa realidade como uma estética petrossexorracial — uma combinação de regimes de poder baseados no petróleo (simbolizando esse capitalismo poluente e destrutivo), na sexualidade normativa e nas hierarquias raciais. É dentro desse cenário que ele propõe a revolução como uma transição epistêmica, a ser conduzida por corpos subalternizados, que, para ele, são disfóricos e inversamente proporcionais a esse mundo petrossexorracial. Esses corpos, vistos aos olhos da normatividade como fracassados e “perdidos”, ao se conectarem entre si ou com as máquinas, criam novas possibilidades de existência, daí uma das esperanças que podem surgir de Dysphoria Mundi. Essa reflexão do autor se alinha, em consonância com a perspectiva de Halberstam (2020) sobre a arte queer dos fracassos, afirmando que existem corpos que, inerentemente, já se encontram em um estado de "fracasso" perante as normas hegemônicas. Assim, ao reconhecer a insustentabilidade das bases do sistema petrossexorracial, são justamente esses corpos, comportamentos e pensamentos dissidentes que se tornam capazes de vislumbrar um futuro alternativo, um “fracasso” para os padrões dominantes, mas essencialmente mais justo e equânime.

O autor ainda adverte que o negacionismo é a ferramenta contrarrevolucionária do mundo em disforia. Segundo Preciado, aqueles que negam a crise climática geralmente também negam a ciência, as questões de gênero, as pautas sociais e outras insurgências que possam questionar as bases do sistema. Para ele, não é possível construir o futuro com as epistemologias, linguagens, códigos e hábitos do presente; é preciso pensar em outra alternativa. É a partir dessas insurreições disfóricas que devem emergir outras formas de continuar habitando o planeta.

A metáfora da pandemia de Covid-19 é muito forte para marcar essa mudança de paradigma em que vive o mundo. Para o autor, o planeta passa agora a experienciar as crises, as catástrofes, as rachaduras sociais etc., de forma global e simultânea. Os problemas locais devem conviver com os problemas globais. Todas essas dinâmicas serão mediadas pelas tecnologias digitais e só podem existir a partir delas. A cibernética foi capaz de encurtar essas distâncias e conferir rapidez aos processos, aproximando o problema de todos. Mas também é por meio dela que será possível criar conexões entre grupos e pensar, juntos, em transformações.

Sobre essa noção de território e tempo que se alarga na visão de Preciado, é prudente também expandir, ao nível planetário, a Partilha do Sensível pensada por Rancière (2004, 2009). A sociedade decide o que pode ser visto, ouvido e sentido por todos — nesse caso, literalmente. Ao partilhar o sensível, o audível e o visível, é possível, a partir das experiências reconhecidas como parte da realidade comum, pensar em alternativas. Não se trata de dividir o material, mas de distribuir o espaço da percepção.

Preciado aborda o impacto do imperativo das máquinas em um mundo em constante mudança. Ele resgata o pensamento de William S. Burroughs, que imaginava uma comunidade com uso livre das máquinas para revelar a realidade e romper com as assimetrias do capitalismo. No entanto, a realidade mostra como a comunicação digital narcotizou as pessoas, especialmente os jovens, e como há uma concentração de poder nas mãos daqueles que controlam essas tecnologias.

O incêndio da catedral de Paris pode simbolizar a ruína de uma ideia de tradição que tentamos preservar a qualquer custo. Trata-se de um esforço de manter um passado que petrifica relações, hierarquiza corpos e cristaliza as dinâmicas sociais. No fim, ele aponta que é esse modelo que está em colapso, e a disforia nos faz perceber como estamos inadequados a essa vida contemporânea.

Durante boa parte da obra, o autor fala sobre o que está “out of joint” (em livre tradução: fora do eixo). Para ele, o que entendíamos como tempo, espaço, sexo e identidade está fora de articulação. A pandemia é central para essa ideia de uma sociedade que está saindo de órbita. Por exemplo, a noção de tempo se alarga: até hoje, 2020 parece maior ou menor, dependendo da perspectiva; ele não começou em janeiro e, talvez, nunca tenha acabado. Além disso, o problema que parecia distante agora é também um problema próximo, mesmo que esteja do outro lado do mundo. Como afirma o autor, “Wuhan está em toda parte” (Preciado, 2023, p. 65). A distância e o tempo, ele argumenta, perdem seu significado diante das crises climáticas, sociais, sexuais e políticas.

Além do tempo, o autor comenta como a biopolítica também está fora de eixo. Preciado destaca a ironia de Foucault — um autor celebre que aborda a biopolítica — ter sido uma das primeiras grandes figuras intelectuais a morrer de HIV. A maneira como o HIV e, mais recentemente, a Covid-19, foram tratados revela a faceta necropolítica da globalização, em que a política dos corpos se transforma em uma máquina de matar. Preciado denomina essas práticas, comparando-as à forma como o HIV foi tratado e como outras questões relacionadas à sexualidade e ao gênero são manipuladas politicamente. Essas políticas reforçam o controle e a normatização dos corpos, mas também, como o livro sugere, oferecem pistas para rupturas e novas formas de existência.

Além de pensar o corpo do mundo, o excesso — seja de informação ou de estímulo — já afeta o corpo do indivíduo, não provocando mais as sensações sinestésicas e corpóreas que um dia já foram possíveis. Não por acaso, para o autor, o principal sintoma da Covid-19 — ou seja, biopolítica out of joint — era a perda dos sentidos (como paladar e olfato). É como se aquele sintoma da doença fosse um movimento sintomático do corpo e suas relações com o espaço no mundo. Wuhan é hoje.

Para Preciado, o que mais assombra na disforia atual do mundo é que ela ameaça todos os corpos, dando como exemplo a pandemia iniciada em 2020. É preciso fazer um recorte: o autor é um homem morando na Europa, e, na periferia do capitalismo, corpos subalternizados sofreram mais com a pandemia (IPEA, 2020). Contudo, diferente de outras pandemias e/ou catástrofes, esse vírus também ameaçou os corpos normativos, não conhecendo fronteiras nem acordos financeiros.

Ainda utilizando a metáfora da pandemia, Preciado aponta como o isolamento escalonou a individualização promovida pelo neoliberalismo, prejudicando a formação de dissensos coletivos necessários para pensar uma saída comum. A fragmentação dificulta a construção de alternativas. Ele conclui que, por isso, o tempo, a distância, a biopolítica, a sexualidade etc., ou seja, a vida está out of joint.

Quando tudo está fora do eixo, “somente uma modificação radical do desejo pode pôr em marcha a transição epistemológica e social capaz de desalojar o regime capitalista petrossexorracial” (Preciado, 2023, p. 378). Esse desejo, para o autor, deriva da necessidade — especialmente das identidades dissidentes. Só assim elas saberão como combater as instituições que querem reconstruir, dos escombros, a catedral simbólica como uma retomada forçada de um passado que a Dysphoria Mundi já entendeu que não pode pautar o futuro.

Após escancarar, nos últimos capítulos, os desafios vivenciados no capitalismo — comentando que, em breve, o neoliberalismo será o necro-humanismo, e mencionando os ataques de diversas indústrias, como a dos fármacos e fábricas — o autor afirma que, apesar de ser difícil, é preciso pensar no otimismo. “O otimismo é uma metodologia. Temos a capacidade coletiva de tomar consciência do que está ocorrendo e, pela primeira vez na história, compartilhar essa experiência em escala planetária” (Preciado, 2023, p. 388). Pensar nesse olhar otimista como um processo metodológico capaz de analisar e encontrar outras alternativas nesse mundo disfórico tem relação com a visão freiriana da esperança — não como palavra vazia, mas como verbo: esperançar — uma atitude e escolha política e cultural (Freire, 2001). O desânimo é contrarrevolucionário.

Por fim, é possível perceber que Preciado traça um paralelo entre as mudanças em sua vida (e corpo) com as transformações paradigmáticas que o mundo passou e passará. É como se o mundo fosse uma metonímia de seu corpo disfórico, fazendo dele um chamamento ao planeta: “Utilize sua disforia como plataforma revolucionária” (Preciado, 2023, p. 386).

Artigo submetido em 01/06/2025 e aceito em 08/07/2025.

Referências

HALBERSTAM, J. A arte queer do fracasso. Recife: Cepe, 2020.

HARAWAY, D. Situated knowledges: the science question in feminism and the privilege of partial perspective. In: HARAWAY, D. Simians, cyborgs, and women: the reinvention of nature. New York: Routledge, 2013, p. 183–201.

IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). A Pandemia de Covid-19 e a desigualdade racial de renda. Brasília: IPEA, 2020.

FISHER, M. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

FREIRE, P. Pedagogia da esperança. Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001

PRECIADO, P. B. Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, 2023. E-book.

RANCIÈRE, J. The politics of aesthetics: the distribution of the sensible. Londres: Continuum, 2004.

RANCIÈRE, J. A partilha do sensível. Estética e política. São Paulo: EXO experimental org., Editora 34, 2009.