História e memória da Renovação Crítica do  
Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
History and memory of the Critical Renewal of Brazilian and Latin  
American Social Work: an interview with Leila Lima Santos  
Leila Lima Santos*  
Carina Berta Moljo**  
Daniela Leonel de Paula Mendes***  
Resumo: Apresentamos a entrevista realizada  
com Leila Lima Santos em 2023, no âmbito de  
pesquisas acadêmicas sobre a Renovação crítica  
do Serviço Social ocorrida no período de 1964 a  
1985. Destaca-se o Projeto da Escola de Belo  
Horizonte, as articulações latino-americanas, as  
Abstract: We present an interview conducted  
with Leila Lima Santos in 2023, as part of  
academic research on the critical renewal of  
Social Work that occurred between 1964 and  
1985. The interview highlights the Belo  
Horizonte School Project, Latin American  
connections, the connections between the Minas  
Gerais experience and the national experience and  
and the theoretical and political influences that  
underpinned the construction of a critical stance  
in the initial stages of professional renewal in  
Brazil.  
conexões da experiência mineira com  
a
experiência nacional e as influências teóricas e  
políticas que sustentaram a construção do  
posicionamento crítico nos marcos iniciais da  
renovação profissional no Brasil.  
Palavras-chave: Serviço Social Crítico; Leila  
Keywords: Critical Social Work; Leila Lima  
Lima Santos; Brasil; América Latina.  
Santos; Brazil; Latin America  
Introdução  
A entrevista, publicada com pequenas modificações e revisões na revista Libertas,  
resulta de pesquisas integradas à pesquisa em rede internacional “Serviço Social na história:  
questão social, movimentos e lutas sociais - América Latina e Europa (1960-2020)”. Trata-se  
das seguintes pesquisas: “Serviço Social crítico no Brasil, antecedentes, história e memória”  
* United Nations High Commissioner for Refugees. E-mail: liminha57@hotmail.com  
** Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: carinamoljo@uol.com.br  
*** Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: danielaleoneljf@yahoo.com.br  
DOI: 10.34019/1980-8518.2026.v26.53221  
Esta obra está licenciada sob os termos  
Recebido em: 02/06/2026  
Aprovado em: 16/06/2026  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
(CNPq)1; “Fundamentos históricos e teóricos do Serviço Social no Brasil e em Portugal:  
antecedentes, memória e desafios contemporâneos” (Fapemig)2; “A virada crítica da formação  
profissional em Serviço Social no Brasil: o protagonismo da ABESS e os marcos históricos,  
teóricos e políticos” (PPGSS/UFJF)3.  
A professora Leila Lima Santos nasceu no estado de Goiás, mas ainda na infância se  
mudou para Minas Gerais, é uma das mais importantes referências do Serviço Social latino-  
americano, sendo uma das “responsáveis” pelo conhecido “Método Belo Horizonte” (1972-  
1975), diretora do CELATS (Centro Latinoamericano de Trabajo Social), assim como uma das  
incentivadoras da Renovação Crítica da profissão no nosso continente.  
Na entrevista que nos foi concedida em 03/10/2023, Leila Lima reconstrói o período  
histórico analisado4, trazendo importantes informações, memórias e histórias que nos auxiliam  
na reconstrução do passado recente, que ainda tem muito a ser desvendado. A leitura desta  
entrevista ajuda o leitor a conhecer o Serviço Social na história5.  
Entrevista com Leila Lima Santos  
Entrevistadoras: Professora Leila, para começar, fala para nós o ano e local de  
nascimento e o ano e local onde a senhora se formou.  
477  
Leila: Eu sou absolutamente provinciana. Nasci no estado de Goiás, em 1943, vim  
bem pequenina para Minas, quer dizer, “sou das Minas Gerais”. Estudei até o final do curso  
secundário em Uberlândia, que é a minha terra; de lá, vim para Belo Horizonte para fazer  
Serviço Social, cujo curso ainda funcionava na rua Antônio Aleixo, anterior a sede da Praça da  
Liberdade. Entrei na escola em 1962 e saí em 1965, quer dizer, quando houve o golpe militar  
em 1964 era ainda estudante. Então, a escola, fiz aí. Já como estudante, fui assistente da diretora,  
na época, professora Maria da Conceição Machado, conhecida como Yá Machado, diretora do  
curso de Serviço Social da Universidade Católica e diretora em Minas Gerais da LBA (Legião  
Brasileira de Assistência), quem me convidou para ser sua monitora da cadeira justamente de  
Teoria de Serviço Social. A experiência como monitora me deu elementos para entender que  
talvez eu tivesse certa tendência para a vida acadêmica. Acho que uma pessoa que escolhe fazer  
1 Aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da UFJF (Parecer n° 6.056.692 de 12/5/2023).  
2 Ambas as pesquisas foram realizadas sob coordenação da Professora Carina Berta Moljo.  
3 Tese de Doutorado de Daniela Leonel de Paula Mendes, sob orientação da Professora Carina Berta Moljo, que  
pode ser acessada em sua íntegra no repositório da UFJF.  
4 A Renovação crítica do Serviço Social (1964-1985).  
5 A entrevista foi revisada e validada intelectualmente pela Leila, assim, ela é coautora do texto.  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
Serviço Social, por mais que ela não tenha consciência, no início, obviamente revela desde esse  
momento uma especial sensibilidade de serviço, de alguma outra forma, ainda que não explícita.  
E realmente ao ser monitora fui consciente disto. Fiz também um curto período de prática no  
BNH (Banco Nacional de Habitação), trabalhando com as comunidades habitacionais,  
beneficiadas pelo PNH (Plano Nacional de Habitação). Pouco depois e graças a uma bolsa do  
governo francês, fui para a França fazer uma maestria, naquela época DES (Diploma de Estudos  
Superiores). Permaneci três anos no ISST (Institut Des Sciences Sociales du Travail), no curso  
de Sociologia do Trabalho. Ao regressar a Belo Horizonte em 1969, recomecei imediatamente  
a trabalhar na Escola de Serviço Social da PUC e pouco depois assumi, digamos assim,  
responsabilidades maiores: professora, supervisora. A partir do ano de 1972 estive como  
Diretora da escola durante quatro anos, de 1972 a 1975. Foi mais ou menos isto.  
Entrevistadoras: A senhora teve um protagonismo na elaboração do conhecido  
método BH, né? A gente queria que a senhora falasse para a gente, como que a senhora lembra  
dessa experiência da Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais, mas  
principalmente no sentido de resgatar o que possibilitou esse novo projeto de formação. Quais  
foram as experiências teóricas e políticas, naquele momento, que deram o chão para vocês  
fazerem esse novo projeto?  
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Leila: Olha, isso aí já abordei em algumas entrevistas anteriores e escrevi também  
sobre estas origens. Acho que o principal que a gente tinha na época era um forte e audaz espírito  
de busca que ninguém continha, já que nós estávamos absolutamente motivados com novas  
perspectivas de mudança, queríamos inovar e essa busca por fazer algo diferente implicava,  
obviamente, não somente, não apenas não recuperar uma visão estabelecida, vigente.  
Queríamos a toda força cortar, fazer rupturas sérias com o que, na época, se chamava o Serviço  
Social tradicional. Quer dizer, qual era o chão que nos impulsionava? O que nos impulsionava,  
do ponto de vista, profissional, era construir algo distinto, algo novo, e, obviamente, isso aí  
vinha muito dimensionado pela experiência de toda a nossa equipe. Por um lado, a minha,  
inspirada no vivido em outros cantos e a das colegas mineiras com as quais nos identificávamos;  
havia também entre todas nós uma espécie de alinhamento com o que ocorria no mundo e  
sobretudo na América Latina. No meu caso, vivi e participei do processo de questionamento e  
ruptura com a tradicional e rígida institucionalidade da Universidade em maio de 1968 na  
França. Esta experiência foi muito forte, impactante e apontava claramente a uma nova  
formação teórica de absoluta ruptura também com o que era a formação universitária dos  
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História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
estudantes franceses e europeus. Tudo tinha um lastro de ruptura muito grande, de coisas novas,  
e isto convergia com nossas iniciais preocupações com nossa própria formação teórica naquela  
época. Então, chegando ao Brasil reassumi o trabalho na escola no final da década de 1960 e  
início dos 1970, com tudo o que implicou o impacto da Revolução Cubana e de movimentos  
sociais, religiosos impulsados por uma igreja avançada, de primeira linha com iniciativas como  
o MEB (Movimento de Educação de Base). Esse era nosso chão...Vindo de uma família católica  
cristã, tive uma formação religiosa desde pequena; fui Benjamin na ação católica, na minha  
juventude participei ativamente da JEC (Juventude Estudantil Católica), da JUC (Juventude  
Universitária Católica), que, como vocês sabem, era o patamar para uma formação e ação  
política de maior compromisso político através da AP (Ação Popular) na época, certo? Então,  
qual era o chão que pisávamos? Era de muito movimento, um chão de muito dinamismo, que  
trazíamos, uns, do outro lado do mundo, mas que encontrava também no continente latino-  
americano uma conjuntura absolutamente propícia, convergente, dinâmica e muito politizada.  
Nossas convicções eram alimentadas pela Revolução Cubana, por uma progressista Igreja  
Católica na qual eu participava muito inspirada na teoria da consciência histórica do Padre  
Henrique Vaz e em Paulo Freire. Ademais, minha família nuclear em BH era muito próxima a  
Dom Serafim, Bispo e Reitor da Universidade Católica, quem inclusive, batizou meu segundo  
filho. Eu então estava muito ligada à igreja mais aberta e renovadora e Dom Serafim foi um  
Bispo e Reitor progressista, receptivo, que incentivava e estimulava visões e ações novas no  
interior da sua diocese e da Universidade Católica. Então, nós embarcamos nesse mundo de  
uma igreja aberta, de um concílio ecumênico, de um Papa João XXIII, de uma Comunidade  
Eclesiástica de Base, do Movimento de Educação de Base, alimentados pela teoria freiriana.  
Como estudante, estagiária, monitora, professora, como diretora, os elementos sempre  
presentes em cada momento eram estes, de muita ebulição, de muita motivação e compromisso  
com a ruptura com o estabelecido e com a busca de algo novo. Na América Latina,  
concomitantemente, estava em voga o chamado Movimento de Reconceitualização, sobretudo  
no Chile e Argentina. Alguns dos integrantes do corpo docente da Escola de Serviço Social de  
Minas Gerais, (as irmãs Quiroga, Ana Maria e Consuelo, Marilda Villela, Roberto Rodriguez  
e outros) participamos dos seminários organizados e coordenados pelo PTS/ISI (Projeto de  
Trabalho Social/Instituto de Solidariedade Internacional) que foram, digamos assim, referentes  
emblemáticos, que ‘abandeiraram’ e impulsaram nossa inscrição absoluta e convicta neste  
movimento de Reconceitualização; os seminários de Porto Alegre, Caracas, Uruguai, Ambato,  
são, creio, considerados os mais emblemáticos nessa história. E aí sempre estávamos como  
participantes ativas. Enfim, íamos alimentando-nos também de tudo isto, certo? Então, o que  
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Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
nos moveu e nos impulsionou? Um pouco a experiência pessoal neste contexto mundial,  
inspirada nas vivências do maio de 68 em Paris, o forte impacto da Revolução Cubana no grupo  
progressista latino-americano, momentos também de emergência e de uma espécie de adesão a  
uma posição de identidade com os movimentos mais democráticos na América Latina e sem  
dúvida, o forte impacto do Movimento de Reconceitualização do Serviço Social no continente,  
como falei anteriormente. Então, nosso piso, nosso chão eram esses. Tínhamos poucas coisas  
claras e essa certamente era a principal: não estávamos na escola para repetir velhos esquemas  
de educação, assumimos com muita motivação a direção da escola para fazer uma nova gestão,  
com um projeto de formação teórico-prático diferenciado, buscando realmente romper com  
uma formação profissional que tínhamos vivido em carne própria, que conhecíamos bem,  
porque éramos alunas e professoras dessa escola. Achávamos que aquele não era o caminho,  
buscávamos novos andares, novas pistas e em adesão, em alinhamento, em consonância e  
coerente digamos assim, com o que passava no mundo e especialmente no nosso continente.  
Queríamos transformar, queríamos “revolucionar” e colocar em marcha um projeto, uma  
arquitetura de formação profissional acorde a tudo isto. Essa era nossa motivação básica.  
Entrevistadoras: Sim. Claramente, houve uma articulação da experiência de Belo  
Horizonte com esse cenário latino-americano, muito ligado ao que a senhora disse que é o  
Movimento de Reconceituação e o próprio CELATS. A senhora gostaria de falar alguma outra  
coisa em relação à influência latino-americana, assim, se ela foi mais incisiva, ou em que  
momento ela foi mais incisiva para a construção da experiência de Belo Horizonte?  
480  
Leila: Importante relembrar que esses seminários latino-americanos já mencionados  
eram facilitados, promovidos e totalmente financiados, pela fundação Konrad Adenauer (FKA)  
do partido da Democracia Cristã alemã. Acho que a Konrad Adenauer tinha claro qual era a  
natureza da inserção do Serviço Social na estrutura e dinâmica das classes sociais em nossos  
países. E os alemães por esta razão nos buscavam, apoiavam e propiciavam de forma regular  
nossa ativa participação em seminários dessa natureza por todo o continente. Na minha  
compreensão, a fundação Konrad Adenauer entendeu, desde o princípio, que o Serviço Social  
era uma profissão cujo exercício tinha como base uma especial articulação, vínculo e inserção  
direta junto à classe trabalhadora. Então, nessa medida, desde a época do PTS/ISI, e com maior  
razão a partir do período do CELATS, os alemães tiveram marcada estratégia de financiamento,  
de valorização, de promoção, de acercamento e apoio junto à classe trabalhadora e que o  
Serviço Social como profissão era também, a juízo deles, muito próxima dos trabalhadores,  
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História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
com vínculos claros com a quotidianidade da classe assalariada. Então, isto ajuda a entender o  
significativo apoio que os democratas cristãos alemães nos brindaram e que foi fundamental na  
vida dos organismos que impulsionaram uma nova visão da profissão -fundamentalmente  
ALAETS (Associação Latino-Americana de Escolas de Trabalho Social) e o CELATS, seu  
organismo acadêmico, funcionando de forma estável, com caráter de Organismo Internacional  
através de um convenio com o ministério de relações exteriores do Peru. O Diretor do CELATS  
e os Coordenadores Acadêmicos tinham estatuto de funcionários internacionais com visto  
respectivo como residentes em Lima. Os alemães propiciaram através do PTS/ISI a realização  
desses seminários latino-americanos que reunia por uma ou duas semanas um grupo de  
destacados e qualificados profissionais que liderava essa nova forma de pensar o Serviço Social  
latino-americano e posteriormente destinaram recursos financeiros para a manutenção de toda  
a estrutura e funcionamento do CELATS (incluída a compra de um imóvel para sediar o  
funcionamento do Centro Acâdemico de Alaets em um importante bairro limenho, atualmente  
com incerta e complexa situação jurídica) com programação ampla e diversificada, em forma  
permanente por um longo período. A primeira diretora do PTS/ISI foi Ruth Madueno, assistente  
social peruana, originária da Universidade de São Marcos em Lima, uma das mais politizadas  
da América Latina. Ruth era, certamente, uma destacada profissional com formação  
diferenciada e distanciada do Serviço Social tradicional. Ruth foi substituída por Consuelo  
Quiroga, que havia sido vice-diretora da ESS/UCMG de Belo Horizonte nos anos 1970 e  
responsável pela transição do PTS/ ISI-CELATS. O CELATS foi inicialmente estruturado com  
três coordenadores acadêmicos dos quais um era o Diretor. Este primeiro “triunvirato” foi  
composto por Juan Mojica como Diretor, Boris Lima e Leila Lima como coordenadores  
acadêmicos6. Em acordo entre ALAETSS/ Fundação Konrad Adenauer, o CELATS contava  
também com a presença, em Lima, de um assessor alemão, que regularmente se reunia uma vez  
por semana com os coordenadores acadêmicos. A programação do CELATS contava, ademais,  
com um grupo de importantes investigadores sociais permanentes ou por períodos  
determinados: Alejandrino Maguina, Manuel Manrique Castro, Roberto Rodriguez, Walter  
Tesch, Carlos Urrutia Bologna, Jorge Parodi, Jorge Valenzuela, Marilda Villela, Raul de  
Carvalho, Myrian Gamboa, entre muitos outros. Ademais deste setor de Investigação e  
Pesquisa, o CELATS se estruturou com programas de Capacitação-Formação e Comunicação-  
Difusão a nível continental. Tínhamos, então, consciência de que se bem o projeto dos alemães  
não era o nosso e o nosso não era o deles, houve sim, uma convergência, uma simbiose de  
481  
6
Outros destacados colegas da América Latina também integraram a coordenação do CELATS, como Norberto  
Alayon (Argentina), Cecília Tobon (Colômbia) e Margarita Rosas (Peru), entre outros.  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
interesses compatíveis em determinado momento da história do Serviço Social com projetos  
vinculados a área social através do Serviço Social - PTS/ISI e CELATS em Lima - e sindical  
de trabalhadores assalariados na América Latina com a CLAT (Central Latino-Americana de  
Trabalhadores), com sede em Caracas. Perguntávamo-nos uma e outra vez sobre as razões de  
tudo isso e buscávamos entender os interesses “embutidos” neste projeto profissional, durante  
o período daqueles anos de guerra fria e de disputas das duas potências USA x URSS pela  
hegemonia mundial. Alemanha buscava novo lugar no mundo, queria “blanquearse” de seu  
passado nazista, com o holocausto e ampliar sua, até então, escassa presença naAmérica Latina,  
com forte presença americana através da Aliança para o Progresso. Alemanha buscava assim  
uma via distinta do capitalismo americano e do comunismo soviético, através da chamada  
terceira via, convergente com os princípios norteadores da Democracia Crista alemã e, portanto,  
da FKAe dos projetos do PTS/ISI no continente. Entendo que o grande apoio ao Serviço Social,  
à ALAETS e ao CELATS certamente se inscreve no quadro político mundial daquele momento.  
No interior do CELATS em nosso trabalho diário, os vínculos com os alemães se deram sempre  
em um âmbito de respeito as nossas motivações e concepções sobre o Serviço Social e nosso  
pensamento teórico-metodológico e fundamentalmente à extensa e intensa programação da  
ALAETS e do CELATS. Tivemos neste sentido uma perspectiva realista e pragmática, acorde  
aos parâmetros profissionais com um balanço altamente positivo frente aos logros e avanços  
alcançados nesta relação com a fundação Konrad Adenauer. Definíamos com absoluta  
autonomia e independência nossa linha de trabalho e programação no campo da pesquisa,  
formação e difusão de nosso mandato fundacional. Reafirmo que apesar de algumas previsíveis  
tensões nesta relação tivemos apoio e total autonomia para definir em forma independente nosso  
projeto com propostas inovadoras, tanto no âmbito da investigação como da formação  
profissional e de difusão de seus resultados a nível latino-americano.  
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Entrevistadoras: Leila, é muito interessante quando a senhora diz que participou do  
maio francês e, assim, quando a gente lê a questão do método BH (a professora Rosângela  
Batistoni denomina agora como “Projeto da Escola de Belo Horizonte”, já não chama mais de  
método BH), fica muito clara a influência do maio francês, dos intelectuais franceses na  
experiência de Belo Horizonte. Quando a senhora estudou lá, quais professores, autores,  
pessoas do movimento articulado ao maio francês influenciaram claramente sua experiência,  
enquanto professora e de Belo Horizonte?  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
Leila: Olha, do ponto de vista, digamos assim, do pensamento europeu, acho que a  
influência mais forte que eu pessoalmente tive e que certamente reverberou na nossa  
experiência na escola foi, sem dúvida alguma, a de Louis Althusser, de quem tive a honra de  
ser aluna. E como sabemos, Althusser tinha uma forte aproximação com o marxismo. De fato,  
a formação daqueles anos na França estava permeada por uma estreita relação entre  
estruturalismo e marxismo. Líamos Lévi-Strauss e Jacques Lacan no curso de sociologia. Então  
e, sem dúvida, Rosângela tem toda razão quando menciona a grande influência dos seminários  
do Althusser em minha formação. Além do estruturalismo com maior acercamento com o  
marxismo, através do Althusser, transitamos também por Gramsci, Lacan, Michel Foucault,  
Hegel, Lenin. E tudo isto atravessado pela minha limitada formação teórica e filosófica e pelo  
impacto que causou em nossa geração o movimento político do maio 1968. Estes foram de  
todas as maneiras os acercamentos teóricos que marcaram muito minha formação. Havia  
também muito ecletismo.... Fui aluna do Jacques Lambert, que apesar da força que tinha  
naquela época se enquadrava mais como um pensador modernista da sociologia política e das  
análises institucionais sobre desenvolvimento, desigualdades e democracia na América Latina.  
De fato, Lambert nunca se afiliou ao marxismo. Uma indicação disto foi que não se inscreveu  
nas lutas políticas dos estudantes do maio de 68. A leitura do seu conhecido livro “Os dois  
Brasis” lançado justamente na época do governo do Juscelino Kubitschek, abordava a  
problemática da marginalidade, desemprego, analfabetismo, temas orientados a uma visão mais  
desenvolvimentista. Havia muito interesse naqueles anos, na França, por Brasília, com todas as  
reverberações relacionadas com a mudança da capital do Rio para Brasília. Isto chamava muita  
atenção dos franceses e me perguntavam por que estudava sociologia do trabalho e não  
sociologia urbana...Eu estava igualmente muito impactada com o que acontecia na França, que,  
digamos assim, mostrou nas ruas, de forma tão radical, um movimento de ruptura total e  
absoluta com a velha institucionalidade da formação universitária questionada no seu formato,  
em sua estrutura, organização e funcionamento. As mobilizações dos estudantes no Quartier  
Latin nos pareciam extraordinárias, pela sua força e capacidade convocatória para mobilizações  
gigantescas, arrancando os “pavês” deste famoso bairro em Paris; e nos chamava muito a  
atenção a “relativa” repressão policial; e pelo fato de que concomitantemente às famosas  
passeatas do Boulevard Sain Michel e Saint German, os estamentos do SRSS (polícia francesa),  
ambulâncias se estacionavam nas ruas principais destes dois boulevards para atender qualquer  
atropelo físico aos estudantes...era algo meio surrealista para nós, estudantes brasileiros,  
acostumados aos ferozes níveis de repressão estudantil naqueles anos no Brasil. Como  
estudante, vivi de perto, em Paris, os impactos do modelo da universidade até então vigente.  
483  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
No ISST (Instituto de Ciências Sociais do Trabalho), onde estudei e mencionei anteriormente,  
vinculado a escola de Direito e Economia da Universidade da Sorbonne, recebíamos ainda  
aquele tipo de formação por meio de destacadas conferências que foram justamente muito  
questionadas pelo movimento de 1968. Eu, pessoalmente, participei de aulas de mais de 100,  
200, 300 estudantes, com professores de toga, com transmissão por televisão, tudo muito rígido  
e tradicional. Quer dizer, todo esse ritualismo das cátedras magistrais, toda essa estrutura tão  
pesada da formação universitária francesa foi absolutamente questionado nas ruas, o que  
provocou, como se sabe, uma ruptura e uma nova arquitetura da formação universitária,  
sobretudo na Sorbonne do Quartier Latin (onde eu residia e estudava) e em Nanterre. Vivíamos  
então com meu marido e meu primeiro filho recém-nascido num miniestúdio frente à  
universidade na rue da Sorbonne, ou seja, maio de 1968 tocava de forma direta a porta de meu  
diário viver. Então, e para mim, todo o influxo teórico, metodológico, filosófico, antropológico,  
sociológico francês era mais que bem-vindo. Estávamos muito imbuídos disso naqueles dias  
que paralisaram Paris, afetando parte da Europa (grupos estudantis radicalizados seguiam a um  
legendário líder alemão, Cohen Bendit...). Quando voltei ao Brasil, final de 1969, o movimento  
de repressão da ditadura militar era extremamente duro, vocês devem se lembrar ou recordar  
por relatos e leituras; período terrivelmente obscuro, bem retratado no filme “Ainda estamos  
aqui”... Então, era tudo muito contraditório: em Paris nas ruas com os estudantes, vivendo com  
emoção o maio de 1968, apoiando o movimento que buscava a quebra da estrutura e da rigidez  
da universidade francesa e ao regressar a Belo Horizonte me deparando com um regime de  
ditadura militar repressivo, muito duro, com vários mortos, muitos torturados e  
desaparecidos...tudo muito, muito pesado...  
484  
Então, como é que poderíamos fazer florescer um projeto profissional com todas os  
condicionamentos e limitações do momento político que vivíamos no país? Isso aí explica, em  
parte, porque essa experiência da Escola de Serviço Social de BH foi, de certa forma - isso aí  
também já está analisado por muitos de vocês - uma experiência singular naquele momento,  
muito articulada na América Latina, mas um tanto solitária dentro do Brasil; a experiência da  
ESS da PUC de Minas Gerais estava no holofote do Movimento de Reconceitualizacao e, ao  
mesmo tempo, quase “escondida” no Brasil. Acho que nosso novo projeto de formação  
profissional, de fato, foi naqueles anos mais bem acolhido e compreendido fora do Brasil.  
Entrevistadoras: Professora Leila, na construção desse Projeto da escola de Belo  
Horizonte, nesses anos, teve alguma articulação com a ABESS, em algum momento?  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
Leila: Total e absoluta. Olha, eu acho que uma das coisas que tínhamos claro e que é  
uma fortaleza do projeto da escola, que vem sendo “destrinchado” por vocês e um dos  
elementos que talvez eu reforçaria seria justamente esse. Eu quase que diria que tivemos essa  
certa habilidade e acerto, numa conjuntura repressiva, tão fechada, entender que apesar de tudo,  
nós não podíamos ter uma ótica isolada da escola, dos grêmios profissionais e, sobretudo, da  
associação das escolas no Brasil. Tivemos uma ativa participação na ABESS sobretudo no  
centro oeste, no período da escola... A memória é às vezes muito traiçoeira e não me permite  
precisar bem alguns detalhes destes períodos. Fui também, da direção da ALAETS, porque  
como diretora do CELATS participava do Conselho Diretivo da ALAETS. Bom, acho então  
que tivemos certa lucidez para entender que a formação profissional não era isolada, nem da  
realidade das instituições onde nossos estudantes faziam seus estágios, mas menos ainda da  
categoria profissional em exercício da profissão. Cultivamos estas relações e contatos, através  
das mencionadas equipes de prática, integradas organicamente ao nosso projeto de formação:  
professores, supervisores e alunos. Construímos com acerto uma aliança e uma frente,  
articuladas entre a formação acadêmica, a organização profissional, a gremial e o processo de  
ensino, através da ABESS, que, já naquela época, tinha força relevante, expressão e capacidade  
convocatória. Então, foi esse tabuleiro onde não há possibilidade de mover uma ficha sem ter  
presente todas as demais. Isto nós estivemos sempre muito presentes. Outra dimensão que eu  
ressaltaria no nosso projeto, tanto da escola, quanto no CELATS e, na verdade, acho que em  
outras dimensões do meu trabalho, foi uma espécie de...eu diria... de sorte, porque, finalmente,  
nessas experiências há sempre elementos absolutamente objetivos, materiais, tangíveis e outros  
ponderáveis que também dependem de uma dinâmica que às vezes nos escapa. Então, nisso aí,  
por exemplo, acho que tivemos boa dose de olfato para conformar equipes que vinham já,  
digamos assim, como produto e fruto de uma consciência de um trabalho coletivo, crítico e  
diferenciado: não somente coletivo enquanto de todos, mas coletivo enquanto também de todos,  
o melhor e mais representativo. Então, contamos com os melhores investigadores, os melhores  
capacitadores, os melhores professores e supervisores. Fizemos também numa outra dimensão  
do nosso trabalho na escola, um forte vínculo com as ciências sociais. Através do ciclo básico  
em ciências sociais da universidade católica, convocávamos e contratávamos rapidamente os  
melhores sociólogos, economistas, antropólogos, filósofos para serem professores na escola de  
Serviço Social. E esse estar acompanhados dos melhores professionais esteve também presente  
no trabalho do CELATS. Certamente, pela pesquisa que estão fazendo, vocês são conscientes  
de que o CELATS tão pouco trabalhou isolado, mas sim vinculado com os melhores acadêmicos  
e pesquisadores em ciências sociais do Peru, do Brasil e da América Latina naquele período.  
485  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
Na leitura de nossos trabalhos certamente puderam identificar a presença do Lúcio Kowarick,  
um dos grandes pesquisadores sobre temas vinculados a políticas públicas e seus impactos nas  
populações mais vulneráveis. Kowarick aceitou um convite do CELATS para ditar no Equador  
durante 10 dias um seminário sobre Políticas Sociais com colegas de todo o continente.  
Buscávamos compreender melhor o significado destas políticas e seu impacto no trabalho do  
Serviço Social. Ademais, convocamos Carlos Vivas, argentino, também estudioso de temas  
vinculados às políticas sociais. Queríamos entender melhor os vínculos dessas políticas com a  
ação social dos assistentes sociais. Conseguimos uma aproximação grande com estes  
destacados especialistas para alimentar o projeto em formação dos futuros estudantes do  
primeiro mestrado de caráter latino-americano organizado e dirigido pelo CELATS, o MLATS  
(Maestria Latino-americana em Trabajo Social), vinculado à UNAH (Universidad Nacional  
Autonoma de Honduras), com ênfase na temática de políticas sociais. O MLATS contou com  
apoio do então reitor da UNAH, doutor JorgeArturo Reyna, e do professor Guillermo Camacho,  
conhecidos ambos pelo compromisso com a qualidade e democratização do ensino superior no  
país. E esta Maestria teve diretores emblemáticos como Boris Lima e Diego Palma. E  
professores da estatura intelectual de José Paulo Netto. Este projeto contou também com apoio  
da CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais) e do CSUCA (Conselho  
Superior Universitário Centro-Americano), que buscavam a integração e o fortalecimento da  
educação superior pública na região. Ambos os organismos contavam com excelentes  
professores e investigadores destacados na América Latina que apoiaram o MLATS. Então, por  
isto estou sempre ressaltando essa presença de equipes de alta qualidade acadêmica e  
investigativa ao longo do nosso trabalho aqui e acolá.  
486  
Entrevistadoras: Professora, nós vamos voltar em BH, mas pensando na virada crítica  
da formação profissional do Serviço Social brasileiro como um todo. A experiência de Belo  
Horizonte foi uma experiência pioneira, mas que ficou localizada, ela não é considerada como  
uma virada nacional da formação profissional. Especialmente, ao longo da década de 1970,  
tiveram convenções da ABESS que foram muito importantes, como a convenção de Piracicaba,  
em 1975, a de Belo Horizonte, em 1977 e a de Natal, em 1979, quando foi aprovado o currículo,  
né? Então, gostaríamos de ouvir da senhora a relação da sua trajetória, da trajetória dos  
professores da escola, do método BH, nas convenções; se houve uma influência da história do  
método BH para ajudar a virar a formação profissional nacional, nesse processo da profissão  
como um todo; como e se teve essa articulação, na processualidade mesmo, ali, nas assembleias,  
em falas, intenções, em construções.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
Leila: Sim, estas Convenções da ABESS tiveram naqueles anos um papel muito  
importante na definição das condições básicas requeridas para uma nova formação professional  
acorde aos elementos teórico-metodológicos com os quais estávamos identificados e que eram  
convergentes com o Movimento de Reconceitualização do Serviço Social no continente.  
Algumas destas Convenções tiveram um impacto decisivo na formulação do curriculum  
convergente com novas perspectivas alinhadas com um pensamento mais crítico e diferenciado.  
Ademais destas três Convenções mencionadas por vocês, participei da XVIII Convenção da  
ABESS em São Luís do Maranhão em 1973, em pleno período de efervescência do método BH,  
que pretendia um alinhamento a esta busca de uma formação crítica e de qualidade crescente.  
Anos depois recebi da professora Josefa Batista o testemunho do impacto que a apresentação  
do Método BH causou naquele momento no grupo de professores de Serviço Social de São  
Luís. Participei também ativamente da XIX da Convenção de 1975 em Piracicaba. Olha, eu  
acho que, como todos os processos, obviamente, este também tinha suas tensões e dificuldades.  
Sem dúvida nós estávamos muito convencidos do nosso processo e, de certa forma, liderávamos  
esse movimento de repensar a formação e o exercício da profissão em articulação com a  
Reconceitualização. Então, nós éramos, por um lado, respeitados, escutados nessas convenções,  
acho que fundamentalmente isso, sim, mas havia, obviamente, uma contra visão mais  
conservadora, ligada, digamos, às matrizes mais tradicionais de entender a profissão, de  
impulsioná-la. Inevitavelmente nesses encontros sempre havia representantes destas duas  
visões. Então, em uma dessas convenções, há registros que certamente vocês já conhecem  
através de textos. De fato, em Piracicaba houve um enfrentamento expressivo daqueles tempos  
de tensão. Analisando hoje com mais serenidade, acho que houve certa irreverência da minha  
parte. Isso porque quando se é muito jovem, pode haver certa altivez quase sempre movida por  
motivações e forte compromisso; que também é criativa, impulsora, conduzida com firmeza  
pelas convicções que as animam... mas, às vezes pode ser também irreverente com certa  
dificuldade para ouvir e entender melhor o pensamento, as expressões e posições de nossos  
oponentes. Eu era então bastante mais jovem que a professora Nadir Kfouri, que era muito  
respeitada e identificada, por nossa equipe, talvez de forma até ligeira, como uma convicta  
representante do pensamento conservador da profissão. O fato é que quando fiz a intervenção  
sobre a experiência da escola de BH esta professora criticou severamente nosso projeto e me  
convidou, publicamente na assembleia da ABESS, a abandonar a carreira de Serviço Social e  
a experiência da escola com seu método BH porque, segundo ela, o que eu estava expondo,  
como Diretora, era exatamente uma negação dos princípios fundacionais básicos do Serviço  
487  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
Social, de sua filosofia e metodologia de trabalho, afastando-me do que eram os referentes  
teóricos, metodológicos, do “legítimo”, “autêntico” e “verdadeiro” Serviço Social. A partir daí,  
acho que com certa irreverência, rebati energicamente, defendendo nosso projeto e posição.  
Houve, então, um momento de impasse, porque era, afinal, uma convenção da ABESS onde eu  
tinha também certa liderança. Ao mesmo tempo, a professora Nadir Kfouri era uma profissional  
muito reconhecida. Refletindo sobre isto e reconhecendo a respeitável trajetória desta  
importante figura do Serviço Social no Brasil, penso que houvera merecido, naquele momento,  
um trato mais respeitoso de parte dessa jovem impetuosa, totalmente convencida e  
comprometida com o projeto de formação que estava dirigindo em BH. Compartilho com vocês  
detalhes desta anedota para ilustrar o período de tensões e polarização que já vivíamos naqueles  
anos. Anos mais tarde e na qualidade de Diretora do CELATS, residindo em Lima, vim ao Brasil  
para assinar um convênio com a PUC de São Paulo em apoio à criação da pós-graduação, dos  
projetos de pesquisas da universidade na época. Vocês conhecem bem a importância da PUC  
de São Paulo na história do Serviço Social no Brasil. A Reitora era justamente a professora  
Nadir Kfouri e com ela iria assinar o mencionado convênio. Então, quando nos encontramos no  
salão da reitoria, lhe disse que queria em primeiro lugar pedir perdão pela minha altivez e pela  
forma altaneira como conduzi nossa discussão e debate na convenção da ABESS. Ela,  
obviamente, uma mulher de grande elegância e sabedoria, me acolheu calidamente com um  
abraço e assinamos de bom grado o convênio do CELATS-PUC. Infelizmente, não voltei a vê-  
la... Esta convenção de Piracicaba, em 1975, ficou bem registrada em minha memória, como  
um dos momentos de embate mais duros entre visões distintas sobre nossa profissão. As outras  
duas convenções foram igualmente muito importantes sim, mas eu acho que onde a nossa escola  
entrou com uma linha de frente bastante forte e incisiva, foi em Piracicaba. Mas, como relatei,  
isso aí se transformou em um capítulo superado e que, felizmente, foi recuperado em uma  
instância também de produção, de impulso, de apoio, ao que era - e continua sendo - a luminosa  
história da Escola de Serviço Social da PUC de São Paulo. Figuras como as pesquisadoras e  
professoras Carmelita Yazbek, Rachel Raichelis, Marilda Villela, José Paulo Netto e tantos  
outros destacados colegas falam por si mesmas.  
488  
Entrevistadoras: Interessante. A professora Nadir, posteriormente, foi considerada  
pelas colegas, professoras, como uma força muito grande dentro do Serviço Social crítico. Há  
registros de que ela ajudou, ela abriu caminhos, especialmente na Convenção de 1979. Então,  
talvez, esse posicionamento que a senhora fala, assim, de ter revisto o que aconteceu lá, talvez  
ela também tenha feito, porque depois foi mudando.  
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História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
Leila: Certo. A professora Nadir Kfouri era uma dama, um respeitável ícone do  
Serviço Social, sem dúvida alguma e, profissional séria e comprometida com seu trabalho.  
Certamente, não merecia este trato de minha parte, então uma jovem entusiasta, profissional  
mineira em seus trinta e poucos anos...Ainda nos dias de hoje lamento aquele incidente...  
Entrevistadoras: Então, em 1975 teve esse embate, né? Em 1977 houve a Convenção  
de belo horizonte, a senhora estava?  
Leila: Não participei diretamente da Convenção de Belo Horizonte em 1977, pois já  
estava no CELATS e, para ser franca, não me lembro, sinceramente, dos temas básicos  
discutidos nesta ocasião.... recorrentes traições da memória....  
Entrevistadoras: É curioso porque, em 1975, já houve uma indicação de mudança do  
currículo, em 1977 isso estava muito claro, mas não foi possível em 1977. Essa Convenção de  
1977, ela fica muito em aberto, tanto em termos de intenção quanto de produção. Então, a gente  
queria entender um pouquinho porque ali não foi aprovado o novo currículo.  
Leila: Eu também não me lembro bem, como disse. E não poderia afirmar  
categoricamente para vocês se o CELATS teve ou não uma participação direta nesta  
Convenção... Basta lembrar que foi realizada depois da crise da ESS de BH em 1975. Ademais,  
era um período muito dinâmico do CELATS, provavelmente, estava muito envolvida com  
outras iniciativas e responsabilidades como Diretora nesta ocasião. Eu não saberia dizer. E, se  
bem eu vinha com muita frequência ao Brasil, sempre tratando de apoiar as múltiplas  
iniciativas, não participava de muitas delas...cobríamos toda a América Latina.  
489  
Entrevistadoras: E aí, em 1979 foi aprovado o currículo, que foi na Convenção de  
Natal, a XXI Convenção. Em 1982 ele foi regulamentado pelo Conselho Federal de Educação.  
E a gente está trabalhando com uma hipótese, professora, de que essa Convenção de Natal foi  
um grande marco na formação profissional crítica do Serviço Social, pela decisão política  
hegemônica da aprovação do novo currículo. O que a senhora acha disso?Acha que faz sentido?  
Leila: Olha, também não creio que poderia dar uma resposta muito satisfatória. De  
todas as maneiras, a aprovação do currículo básico mínimo para todo o país foi fruto de um  
processo construído coletivamente por aquelas escolas, cuja direção e professores se alinhavam  
a uma posição crítica renovadora preponderante no interior da ABESS. E não há dúvida que a  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
associação tinha uma grande capacidade convocatória, liderando naqueles anos a luta por um  
novo projeto de formação. A ABESS era dinâmica, propiciava debates e embates que fazem  
parte da nova inserção do Serviço Social na história do país. O que eu percebo de uma forma  
mais global, é que a força do Serviço Social no Brasil hoje é particularmente chamativa ...  
Estava pensando sobre o “parangon” das histórias, da história grande - com h maiúsculo - em  
consonância com nossa história, na construção deste novo Serviço Social, que logrou  
sobreviver graças a um qualificado corpo de docentes e a essa cobertura universitária que  
tínhamos naqueles anos de repressão no país; de fato, algumas universidades católicas como a  
de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte, cujos reitores e diretivos nos apoiavam e nos  
deixavam uma importante margem de ação, com todo o significado do âmbito acadêmico, que  
em geral é mais aberto e protegido....sem ignorar suas contradições. Ao mesmo tempo, é  
impressionante ver como o Serviço Social brasileiro foi crescendo, como foi se agigantando,  
como foi se empoderando e, hoje, eu diria, em uma palavra, que o Serviço Social brasileiro é  
potente, por diversas razões: quando se observa o que é o universo dos assistentes sociais no  
Brasil, com volume e uma dimensão importantíssima, resultado de tantas lutas de nossa  
categoria professional. O que se avançou na regulamentação, nas novas bases da formação  
profissional, do currículo básico, do Código de Ética do Serviço Social do Brasil, na  
regulamentação do exercício profissional. Todas elas conquistas relevantes e eu diria quase  
únicas. Isso aí ainda não é comum nem generalizado em muitos países, até onde estou  
informada, certo?! E se sabe que o Serviço Social no Brasil é hoje referência latino-americana  
e internacional. Nossa experiência nos anos 1970 foi reverberante, criou muitas contracorrentes,  
mas certamente contribuiu também a construir uma nova mirada sobre nossa profissão. E, ao  
longo destas últimas décadas, e graças fundamentalmente a novos e qualificados parâmetros de  
análises, de investigação, de intervenção com consciência ética e política ao redor do que hoje  
se conhece como projeto ético-político, sem dúvida catapultou o Serviço Social do Brasil, na  
América Latina e em outros países. O Serviço Social no Brasil, hoje, goza de importante  
dimensão, tanto na formação profissional, quanto na organização gremial e no marco  
legislativo-jurídico que protege o exercício da profissão. Isso é superlativo, não tem outra  
palavra: é muito potente. O Serviço Social brasileiro é hoje, sem dúvida, um referente graças  
a esse avance que foi e segue sendo muito batalhado, graças às conquistas, às lutas e resistência  
dos que estão formando novas gerações, impulsando, pesquisando, produzindo investigações  
de qualidade, projetando essa nova presença e interlocução de nossa profissão. São avances  
muito importantes que gostaria de ressaltar.  
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Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
Entrevistadoras: Professora Leila, o Serviço Social crítico e a hegemonia do  
pensamento marxiano, de formação na teoria do Marx, é muito forte no Brasil, se expressa na  
nossa legislação, etc., diferente de outros países da América Latina, se a gente pensar, por  
exemplo, o caso da Argentina ou do Chile, com a influência do Serviço Social terapêutico, etc.  
Então, para a senhora, por que no Brasil, apesar da ditadura, apesar de tudo, o Serviço Social  
crítico, diferente de outros países da América Latina, foi possível, e ainda é potente?  
Leila: Olha, eu acho que é uma certa, digamos, convergência de muitas coisas. Existe  
muita fecundidade nas escolas e nos cursos de pós-graduação, em matéria da compreensão da  
natureza da nossa profissão, de seu posicionamento no mundo acadêmico e investigativo, de  
sua inserção no âmbito das políticas públicas. Está impulsionando novas investigações  
coerentes com novos desafios do momento atual, certo? Então, vocês me corrijam, mas eu  
entendo que hoje há mais de 30 cursos de pós-graduação, sei que há muitíssimas iniciativas de  
formação, a nível de mestrados e doutorados, aqui e em outras partes, além de várias pesquisas  
em diferentes universidades, como a de Juiz de Fora. Vocês já são também referências aqui e  
alhures. E, como disse, o Serviço Social brasileiro abriu um “scope” muito importante a nível  
latino-americano e mundial. O livro “A história pelo avesso” sobre a Reconceitualizacao do  
Serviço Social na América Latina e interlocuções internacionais, coordenado por Marilda  
Villela Iamamoto e Cláudia Mônica dos Santos é, sem dúvida alguma, o melhor exemplo deste  
grande avanço e um marco na aproximação do Serviço Social no continente e em vários países  
da Europa.  
491  
Entrevistadoras: Trinta e seis programas de pós-graduação.  
Leila: Olha! Isso aí é uma coisa muito importante, porque, finalmente, significa um  
potencial muito grande para pensar, repensar, recuperar e projetar nossa profissão a um nível  
crescente de qualidade e interlocução junto as ciências sociais e responsáveis pela formulação  
e implementação de políticas públicas acordes as demandas das maiorias no país. Entendo,  
também que, ao mesmo tempo, houve certa massificação da formação universitária do Serviço  
Social no Brasil, sobretudo com os chamados cursos à distância. Nem sempre a democratização  
do ensino pode garantir a qualidade requerida. Outro âmbito com grande potencial no Brasil, é  
a capacidade convocatória que os órgãos organizativos da nossa profissão têm. É realmente  
impressionante o que se vê neste campo. No roteiro vocês tinham colocado o Congresso da  
Virada e nós ainda não falamos nisso, mas lembrei agora. O Congresso da Virada, há mais de  
40 anos, teve uma grande capacidade de convocação...o Brasil é grande, com mais de duzentos  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
e vinte milhões de habitantes e, se bem nossa população profissional é relativamente pequenina  
frente à população brasileira - 200 mil professionais -, ela é enorme como quadro profissional,  
com uma força gigante! E não somente é grande em termos quantitativos, ela é dinâmica, é  
muito vivaz, vivificante, ela é também ousada, criativa e, sobretudo, é resistente e muito audaz  
rente as lutas com as quais se identifica, certo? Acho que a categoria profissional brasileira, na  
minha forma de entender, se caracteriza basicamente por isso, ousada em suas lutas e resistente  
em seus questionamentos e propostas. A capacidade de luta, resiliência, resistência de nossa  
categoria é mesmo grande, ela é enorme. Confesso que fico muito emocionada quando vejo e  
constato isto. Em seus últimos seminários, podem inscrever-se mais de 4.000 profissionais!  
Que potência de grupo!!!  
Entrevistadoras: A Marilda tem um papel fundamental, porque antes havia uma visão  
quase mágica, de que o III CBAS aconteceu com as pessoas que se reuniram e pronto, viraram  
a mesa; e a Marilda o tempo inteiro vai mostrando como foi fundamental o trabalho do  
CELATS, em conjunto com as greves, com os sindicatos de assistentes sociais etc., para  
articular a possibilidade dessa virada, aí o seu papel, Leila, fundamental em todo esse processo  
da construção.  
Leila: Olha como são as coincidências e incidências dos processos. Na minha cabeça,  
eu acho que todos os processos sociais, econômicos e fundamentalmente os políticos têm, todos,  
digamos assim, certa dinâmica inicial, acorde aos propósitos de sua respectiva base fundacional.  
No começo se pode projetar, programar, organizar, impulsar determinado processo, que pouco  
a pouco adquire certa dinâmica própria, vai tomando um determinado caminho, andamento e,  
de repente, não há mais e unicamente o pensado e programado anteriormente. E ainda que a  
base fundacional permanece, o processo assume, pouco a pouco e progressivamente uma  
dinâmica e perfil distinto, próprio. Esta dinâmica própria é as vezes tão importante que  
realmente muda nesses processos, e o que aconteceu com o da virada foi mais ou menos isto no  
meu entender. Luiza Erundina, outra grande referência no quadro patrimonial do Serviço Social  
no Brasil, foi membro do Conselho Diretivo do CELATS, uma profissional vinculada à classe  
trabalhadora, ao sindicalismo. E fizemos o possível para que ela integrasse o Conselho Diretivo,  
decisivo na formulação da programação geral do CELATS. Este conselho era formado pela  
diretoria da ALAETS e por profissionais de destaque na profissão e no mundo acadêmico.  
Assim, chegou Erundina ao CELATS e teve um papel fundamental no Congresso da Virada.  
Olha, isto é um exemplo claro da dinâmica dos processos, certo? Nesse momento, Seno Cornely  
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História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
tinha igualmente ativa participação nos congressos e seminários latino-americanos e no Brasil,  
como presidente da ALAETS. Seno Cornely nem sempre representava nossa linha de  
pensamento, era mais ligado ao que, na época, se chamava planificação ou planejamento, numa  
linha, digamos assim, com enfoque mais desenvolvimentista e nem sempre com claro  
alinhamento com as tendências mais progressistas...e menos ainda com as matrizes  
simpatizantes do marxismo. E nós, sem um conhecimento real das categorias marxistas,  
tínhamos esse acercamento, uma espécie de alinhamento quase natural a essa matriz, mais por  
convicção que propriamente por conhecimento e formação. Lembremo-nos que, naquela época,  
estavam iniciando-se os cursos de formação de pós-graduação, Maestria e Doutorado do  
Serviço Social no Brasil. Como presidente da ALAETS, Seno Cornely gozava de uma projeção  
enorme, era dinâmico, então, tratamos de canalizar ao máximo seus aportes, juntamente com  
os de Luiza Erundina, já que ambos representavam duas vertentes, duas forças, com processos,  
convicções e histórias diferentes. Então, estávamos no chamado Congresso da Virada, com  
Seno Cornely, e Luiza Erundina. E os três vinculados ao CELATS, preparando o congresso.  
Fizemos todo um trabalho de coordenação para apoiar este evento. Eu vim de Lima a São Paulo  
várias vezes para apoiar a organização e o programa do congresso, apoio que incluiu também  
aspectos financeiros. E neste congresso, Luiza Erundina teve um papel de liderança decisivo.  
Seria muito oportuno poder rastrear toda a documentação existente deste evento, registro  
fotográfico ou de vídeo. E a liderança de Luiza Erundina no Congresso da Virada é de uma  
importância singular que até hoje, quando penso, me emociona. Ela levantou literalmente o  
congresso, dando-lhe um giro radical para criar a famosa assembleia paralela. Em matéria de  
movimentos sociais, de lutas sindicais, de mobilização de massas, Luiza Erundina exerceu uma  
liderança única, com forca extraordinária. Sua capacidade como líder e seu carisma merece  
também destaque nas conquistas logradas como prefeita de São Paulo. Então, e regressando à  
sua pergunta, por que isso? Acho que o trabalho prévio do conselho diretivo e da diretoria do  
CELATS, no âmbito político, e de apoio a virada da mesa neste Congresso teve importante  
impacto. Vocês sabem bem como foi, quando os representantes do “establishment” foram  
substituídos por uma assembleia de trabalhadores, onde estava, inclusive, o atual presidente  
Lula, então destacado sindicalista no ABC de São Paulo. Erundina teve, a meu ver, um papel  
de liderança no quadro profissional, armando uma nova arquitetura deste Congresso com sua  
indiscutível liderança para que o coletivo lograsse esta grande e simbólica Virada. Fato histórico  
da maior importância e com uma decisiva participação destes líderes nesta virada histórica.  
493  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
Entrevistadoras: Na sua fala fica bem claro o protagonismo político da vanguarda da  
profissão na construção do Serviço Social crítico e dentro das instituições. Sobre a ABESS,  
então, está evidente que ela esteve envolvida nessa construção. Queríamos fazer uma pergunta  
bem objetiva, para corroborar o que a senhora já mencionou anteriormente: a senhora considera  
que o método BH influenciou a virada crítica da ABESS e da formação profissional do Serviço  
Social no Brasil?  
Leila: Olha, eu não sei se o método BH (esforço de corpo diretivo com participação  
de boa parte da equipe e em forma decisiva da professora Ana Maria Quiroga), como arcabouço  
teórico-metodológico, com suas virtudes e falhas teve um influxo direto na virada da ABESS e  
da formação profissional em âmbito geral. Salientamos isto quando falamos por exemplo da  
XVIII Convenção da ABESS em São Luís em 1973, certo? Digamos assim, que o método BH  
nos ajudou a todos a analisar um pouco mais, a adotar certas categorias e sobretudo a buscar  
novas referências teóricas guiadas por um entendimento do profissional do Serviço Social no  
que diz respeito a sua natureza e suas relações institucionais. Então, não sei se o método BH  
tenha tido “per se” este impacto, mas o que sim acho que posso afirmar é que nos impulsou a  
dar certos saltos na busca da formação de um novo profissional de Serviço Social. O método  
BH que se alimentou de pinceladas da matriz marxista, nos ajudou certamente a dar novos  
saltos, já que não queríamos repetir aqui nada de caso ou de comunidade, queríamos  
implementar uma formação realmente voltada para a relação do serviço social e os interesses e  
benefícios da classe trabalhadora. E, neste sentido, não foi por acaso que o método BH foi  
implementado, naquele momento, na zona mineira, no vale do rio doce e em contagem, que  
teve também uma greve no cinturão industrial de Belo Horizonte, muito importante na época,  
elementos mencionados por Rosangela. Agora, a parte metodológica, digamos assim, mais  
aparatosa, mais técnica, a das famosas aproximações sucessivas, da relação dialética, da teoria  
e da práxis - a revisão do marco teórico em função do diagnóstico e da leitura da realidade etc.  
poderia se considerar como algo mecânico, formal e reducionista, certo? Então, eu não vou  
dizer que o método BH teve, como tal, como arcabouço, tal impacto, mas sim, creio que teve  
uma influência indiscutível no novo projeto de formação da escola, que era algo mais totalizante  
e com outras dimensões. A experiência foi altamente formadora e não só para os estudantes,  
para nós também. Então, em síntese, o método BH como arcabouço e como tal, acho que  
influenciou pouco, teve um impacto relativo, mas sim o impacto real foi relacionado ao projeto  
global da Escola de Serviço Social, que ia muito além do método BH. É importante vocês  
saberem que, antes ou durante o período da formulação do método BH, nós fizemos um ciclo  
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Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
de estudos e seminários sobre o marxismo na escola. Isso aí, na época, não se podia anunciar,  
mas nós fizemos, inclusive, com um professor da Faculdade de Economia da Universidade  
Federal de Minas Gerais, Fausto Brito, que, naquele momento era muito destacado e a quem  
manifestamos nosso reconhecimento. Naquela época, a Faculdade de Economia que funcionava  
em pleno centro de Belo Horizonte era considerada a melhor Faculdade de Economia do Brasil.  
Estendemos esta homenagem a todo um grupo de professores, como Otavio Dulci, Jorge Pozada  
e muitos outros7. Fizemos, então, seminários internos na escola, fechados, para a direção e  
professores interessados, ali muito na surdina... Os tempos eram aqueles, não podíamos  
anunciar um seminário sobre marxismo. Isso aí para dizer que, realmente, por mais que a nossa  
matriz não fosse marxista, ela nos inspirava, disto aí não tenho dúvida nenhuma, basta rever a  
bibliografia que líamos na época8. Nos apegávamos a tudo que tinha que ver com, digamos  
assim, uma crítica ao imperialismo norte-americano, um esforço para entender o que era  
realmente nossa realidade e tudo que se identificasse com transformação, com câmbios, com  
mudanças. Importante dizer também que, apesar destes ciclos de alguns seminários ou sessões,  
não estudamos naquela época seriamente o marxismo. De nosso grupo da escola naquela época  
acho que Marilda foi a única pessoa que, a posteriori, realmente se debruçou seriamente sobre  
o marxismo e escreveu obras importantes para compreender a natureza de nossa profissão a  
partir desta matriz. Alguns fizemos aproximações, diria apenas básicas. Outros nem isto9...O  
método BH teve muita reverberância, sabe por quê? Vocês talvez conheçam um trabalho que  
fiz junto com o meu companheiro de vida, Roberto Rodriguez, “Metodologismo: estallido de  
una época”, que trata de analisar este fenômeno e que foi publicado pelo CELATS numa revista  
“Accion Critica”. Uma visão mais analítica e crítica. E, claro, também é sempre oportuno  
recordar que o problema do arcabouço metodológico vigente naqueles anos não era  
particularidade exclusiva da Escola de Serviço Social de BH. Muitas escolas em outros países  
e que tratavam de entender a natureza da nossa profissão, seu vínculo com as contradições  
sociais, apelaram também para vários modelos de métodos de intervenção10. Por isso, nosso  
495  
7
Trata-se do debate com a sociologia crítica e a economia política, por meio da articulação com professores  
eméritos da UFMG.  
8 Além dos influxos franceses, nos influenciaram um grupo de brasileiros como Florestan Fernandes, Octavio  
Ianni, Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos, Florestan Fernandes, Francisco de Oliveira, Darcy Ribeiro, Hélio  
Jaguaribe, Vania Bambirra, Fernando Henrique Cardoso com a teoria da dependência, e os chilenos Enzo Faletto  
e Martha Henecker.  
9 Em meu período como Diretora do CELATS, recordaria também a figura do professor José Paulo Netto, então  
refugiado e que colaborou com nossas pesquisas e recorrentes discussões sobre a profissão naqueles efervescentes  
anos.  
10  
Argentina, Chile (Universidade Católica de Valparaiso), Colômbia, (Universidade Nacional da Colômbia,  
Universidade de Caldas), Venezuela (Universidade Central da Venezuela) com o MIR - método de intervenção na  
realidade - com ativa participação dos professores Boris Lima y Lady Fonseca, insignes professores da  
Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
artigo se chamou “Metodologismo: estallido de una época”. Em outras palavras, o  
Metodologismo não foi uma invenção exclusiva da Escola de Serviço Social de BH, mas de  
todas as demais escolas inscritas nessa busca para lograr uma formação diferente, com  
inspiração na matriz marxista. Teoria e práxis, método dialético, aproximações sucessivas etc.,  
era a linguagem recorrente em cada um destes diferentes métodos de intervenção profissional.  
Cada país criou a sua forma de entender o novo acercamento à realidade, acercamento esse que  
priorizava a comunidade, a vigência daquele tipo de concepção humanizadora que tínhamos  
todos, de compromisso com os grupos mais vulneráveis, mais afetados em seus direitos. Não  
se falava em direitos como tal, mas nos pobres, oprimidos, nas vítimas da pobreza, das  
desigualdades sociais, das contradições do sistema capitalista. Essa era a nossa linguagem,  
própria de todos os que nos alinhamos ao Movimento de Reconceitualização latino-americano.  
Entrevistadoras: A senhora pode falar um pouco como que se deu o desfecho da  
experiência do projeto em BH, considerando que ele já surge em um período super duro da  
ditadura. A decisão política e teórica de vocês ali enfrentou um momento adverso, surgiu no  
adverso e continuou nele, né? A que a senhora atribui esse desfecho tão precoce?  
Leila: Essa é uma resposta difícil e diria que até dolorosa. Fui entrevistada há algum  
tempo pela professora Rosângela Batistoni, ex-aluna da escola de BH, hoje uma destacada  
profissional, para um artigo que fez no livro “A História pelo Avesso” e comecei a me  
emocionar e lhe disse: “Rosângela, sem querer estou tremendo só de refletir sobre isso”. É  
dessas coisas que te causam sempre emoção, por mais anos que passem. É também uma espécie  
de confluência e de convergência de muitas coisas. Primeiro, o contexto social, político, de  
violência, de repressão que vivíamos, com a vigência do ato institucional, da lei 477, do ato  
institucional número 5, que era muito repressivo, de ataque às universidades, às escolas  
superiores; esse era o panorama. Outro elemento era o surgimento, a ebulição dos movimentos  
políticos partidários, inclusive, mais do que isso, do início da formação dos grupos mais radicais  
que depois optaram pela via armada no Brasil - isso aí não é novidade para vocês. Em nossa  
escola havia estudantes de diferentes vertentes e linhas políticas. E eles sabiam que podiam  
contar conosco; o projeto da escola era um projeto inclusivo, com eles, era um projeto a partir  
deles, para eles, um projeto de unificação da escola como uma totalidade. Então, eles, de uma  
forma absolutamente legítima, tensionaram o momento e foram exigindo e, em curtas palavras,  
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Universidade Central da Venezuela.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
foram estirando as possibilidades de uma pressão política cada vez maior, porque certamente  
isso também respondia a uma afiliação progressiva deles a esta alternativa. Intuíamos, mais ou  
menos, que assim era. Ao mesmo tempo, tínhamos claro que não iríamos de maneira alguma  
acionar medida alguma contra os estudantes. E, buscando que a escola se posicionasse mais e  
mais e se radicalizasse, entraram em greve. Nós éramos jovens, tínhamos trinta e poucos anos  
e os estudantes dispostos a romper as amarras políticas, familiares, pessoais, sociais e todas as  
necessárias. Todos nós vivemos esses processos. Então, chegou o momento em que, pela greve,  
e a partir do AI -5, da lei 477, as autoridades chegaram na universidade e pediram a lista dos  
estudantes em greve. Isso nos sobrepassava, pois era totalmente incompatível, inconsequente,  
incoerente com nossos propósitos, absolutamente impensável. Nosso projeto tinha uma  
conotação coletivo-participativa e uma base quase que “sobre protetora”. Apostávamos num  
projeto conjunto, comum, da totalidade, de professores e alunos. Então, diante do impasse, a  
escola em greve, nós permanecemos ali, certo tempo discutindo, refletindo, atônitos sobre o  
que acontecia, buscando visualizar os possíveis cenários alternativos. Até que chegou em forma  
direta a pressão militar. Isto marcou realmente o limite. Nesse momento, assumi grande  
responsabilidade e decidimos sair do processo e isto foi e, ainda é, muito doloroso para mim, e  
ao não visualizar saídas, desistimos. Disse aos professores que saia do processo apesar do temor  
do que poderia passar com os estudantes. E tratei de transmitir-lhes que já não podíamos mais,  
que não cederíamos e que não compactuaríamos com nada que não fosse acorde ao projeto  
fundacional da formação profissional. Então, houve consenso e todos os professores em massa  
decidiram também se demitir. E veio a debacle. Talvez tenha sido um ato de certa ingenuidade  
política, já que tínhamos ainda a esperança de recuperar o processo. Para vocês terem ideia, na  
minha casa, e longe do âmbito universitário, continuamos uma assembleia permanente de  
professores com reuniões diárias por um mês. Não acreditávamos que estávamos perdendo a  
batalha, mas é claro, a contraposição, a corrente conservadora estava atenta e retomou a  
tradicional formação do Serviço Social, porque em sua perspectiva a nossa era uma versão  
equivocada. Isto é mais ou menos uma representação, dolorosa, do que passou. Então, quer  
dizer, ao renunciar buscamos ser consequentes com nossos valores éticos, mas houve, também,  
uma boa dose de ingenuidade política, ao não ter podido administrar e gestionar tão forte tensão.  
Acho que nos faltou visão política e certa habilidade para compreender a totalidade do  
momento; enfim, foi o que passou, não foi um ato individual isolado meu, nem de minha única  
responsabilidade. Estávamos todos nesta jogada, mas sinceramente penso também que puxei  
forte este cordão, e em poucas palavras, tratamos de ser consequentes com nossos valores, com  
nosso projeto e fomos todos arrastados pela voragine política e de forte repressão daqueles  
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Leila Lima Santos; Carina Berta Moljo; Daniela Leonel de Paula Mendes  
anos. Algo assim como um caminho interceptado e a consequência foi o desmantelamento de  
uma promissora, talvez utópica e singular experiência, cujo final doeu muito, doeu muito e dói  
até hoje, sim, dói até hoje...Pouco tempo depois do fim da experiência de BH, o CELATS me  
convocou e foi possível retomar então uma estratégia muito convergente e alinhada com o que  
pretendíamos fazer na escola. Então, entre todos os diretivos do CELATS e ALAETS,  
projetamos uma ampla e diversificada programação a nível continental que, digamos assim,  
com erros e com acertos, como todas as experiências, teve impacto positivo. Acho que o balanço  
do trabalho do CELATS, vocês hoje podem dimensionar também, deixou bons frutos. Acho que  
isso aí também foi um pouco...o das dinâmicas de cada processo. Eu não tinha, inicialmente,  
uma clara ideia desse novo desafio, e vivi um curto período de transição entre estes dois  
projetos. Comecei a trabalhar em Lima, inicialmente, por um ano como Coordenadora  
Acadêmica do CELATS em 1976 e, posteriormente, como Diretora, sucedendo a Juan Mojica.  
A experiência da escola explodiu no segundo semestre de 1975, quer dizer, as coisas  
aconteceram assim de forma meio sincronizada, foram coincidências históricas, de  
necessidades, de demandas, de oportunidades e de muita convergente efervescência. Os  
processos também são assim, muitas vezes ocorrem fatores imponderáveis, não esperados, que  
são absolutamente emergentes, imprevistos, impensáveis. Isso aconteceu e acho que o trabalho  
posterior como diretora do CELATS por vários anos foi profícuo e certamente uma experiência  
que marcou minha trajetória de trabalho.  
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Entrevistadoras: Nos estudos que os intelectuais brasileiros têm feito sobre o  
Movimento de Reconceituação, tem ficado cada vez mais evidente a influência da experiência  
de Belo Horizonte no Serviço Social crítico brasileiro. Essa experiência ficou localizada e  
datada na história, mas o que era fundamental e essencial ali não terminou, foi com a senhora  
para o CELATS, foi com os outros professores nas suas produções e atuações profissionais.  
Leila: Sim, sem dúvida. Lembrando que Marilda Villela foi trabalhar no CELATS  
como investigadora, como pesquisadora junto com Raul de Carvalho. Da investigação surgiu o  
livro “Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-  
metodológica” que, sem dúvida alguma, é um divisor de águas na compreensão do Serviço  
Social como profissão inscrita na divisão social e técnica do trabalho.  
Entrevistadoras: Então, a experiência de BH, ela não terminou ali, pelo contrário. Ela  
é considerada a primeira no âmbito da formação profissional crítica no Brasil. Tudo aquilo  
aconteceu como era possível acontecer no processo histórico, não é mesmo?  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 476-499, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
História e memória da Renovação Crítica do Serviço Social brasileiro e latino-americano:  
entrevista com Leila Lima Santos  
Leila: Claro, de certa forma foi assim... Devo dizer que, tanto na experiência da Escola  
em Belo Horizonte como na do CELATS em Lima, estávamos acima de tudo naqueles anos  
muito motivados pelos bons propósitos das mudanças sociais e éramos conduzidos,  
basicamente, pela coragem de nossas convicções e absolutamente convencidos de nossos  
propósitos. Tenho orgulho do realizado naqueles anos, não tanto pelos possíveis resultados que  
possamos ter tido, mas sobretudo pela atitude de luta, tenacidade e resistência com que  
enfrentamos nossos desafios naqueles obscuros anos.  
Entrevistadoras: Foi muito generoso de sua parte repetir tudo isso e participar dessa  
entrevista. Obrigada!  
Referências bibliográficas  
MENDES. D. L. P. A virada crítica da formação profissional em Serviço Social no Brasil: o  
protagonismo da ABESS e os marcos históricos, teóricos e políticos. Tese (Doutorado em  
Serviço Social) Programa de Pós-graduação em Serviço Social, Faculdade de Serviço  
Social, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2025. Disponível em:  
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