Assistência social e bancarização: reflexões a partir da execução dos programas socioassistenciais
pelo Banco de Brasília no Distrito Federal
A hegemonia das relações de produção capitalistas em escala mundial intensificou a
concentração de riqueza e de poder econômico, exigindo, consequentemente, maior poder
político. Isso impulsionou reformas administrativas e políticas no Estado, deslocando suas
funções em direção ao campo econômico e em detrimento das áreas sociais. Um indicador desse
movimento é o alinhamento da macroeconomia brasileira à dinâmica da dívida pública, que
subordina o Estado ao bloco de poder rentista e limita mediações progressistas entre Estado e
sociedade, como a política social.
É importante destacar que, diferentemente dos países centrais, as políticas sociais
brasileiras foram historicamente estruturadas sob a lógica do capitalismo dependente. Até a
Constituição Federal de 1988, mantinham caráter corporativo e fragmentado, sem identidade
de direito social. O marco constitucional, fruto das lutas sociais e de classes, inaugurou um
período progressista de mediação estatal, assegurando o direito social e instituindo uma rede de
proteção. Contudo, tal avanço confronta diretamente os interesses e a lógica do mercado
financeiro.
Entre as medidas que restringem o financiamento e a universalização das políticas
sociais, destacam-se: a Desvinculação das Receitas da União (DRU), a política de superávit
primário, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Emenda Constitucional nº 95/2016 — que
instituiu o novo regime fiscal — e seu substitutivo, o arcabouço fiscal aprovado pela Lei
Complementar nº 200/2023 (Brasil, 2023). Soma-se a isso a contrarreforma do Estado, que
redefiniu as políticas sociais como serviços não exclusivos, ampliando a terceirização de
atividades, inclusive operações financeiras delegadas a entidades vinculadas ao mercado.
Além disso, a reestruturação produtiva contemporânea, associada ao atual regime de
acumulação, gerou novas formas de trabalho sem, contudo, ampliar a proteção social; ao
contrário, intensificou a precarização e a desmobilização política da classe trabalhadora.
O conjunto desses processos consolidou o discurso neoliberal de que a satisfação das
necessidades sociais é responsabilidade individual, alcançada por meio do acesso a bens
privados mediante iniciativas empreendedoras. Daí decorre a defesa de um sistema econômico
livre de controles que atribui ao mercado — e não ao Estado — o papel de provedor de bens e
serviços sociais.
50
Dessa forma, o ainda frágil, porém fundamental, sistema de proteção social brasileiro
tem passado por reformas que conduzem a um perfil focalizado, subfinanciado e privatizado.
Apesar disso, trata-se de uma conquista histórica constituída na particularidade brasileira e
mantida como pauta de luta e resistência das classes subalternas, o que impede sua completa
destruição.
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 46-61, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518