Entre a fábrica e a cozinha: precarização do  
trabalho e a reprodução social das catadoras de  
caranguejo na Amazônia dos manguezais  
Between the factory and the kitchen: labor precarization and the social  
reproduction of women crab gatherers in the mangrove Amazon  
Clara Sousa Maria*  
Adriana de Azevedo Mathis**  
Resumo: O artigo apresenta dados da pesquisa  
sobre a precarização do trabalho das catadoras  
de caranguejo da vila do Treme, comunidade  
localizada no entorno da Reserva Extrativista  
Marinha Caeté-Taperaçu (RESEX) em  
(Bragança/PA). Nesse contexto, ele analisa as  
relações e condições de trabalho, articulando o  
trabalho de produção com processos de  
reprodução social. Fundamentada na tradição  
marxista e feminista, evidencia que essas  
esferas são interdependentes. Com base em uma  
abordagem qualitativa, a pesquisa contou com a  
participação de 13 catadoras de caranguejo que  
realizam trabalhos nas suas próprias casas e  
fábricas da comunidade. Como principais  
Abstract: The article presents data from  
research on the precarious working conditions  
of crab gatherers in the village of Treme, a  
community located near the Caeté-Taperaçu  
Marine Extractive Reserve (RESEX) in  
Bragança, Pará. It analyzes labor relations and  
conditions, linking production work with  
processes of social reproduction. Based on and  
feminist tradition, it shows that these spheres  
are interdependent. Using  
a
qualitative  
approach, the research involved 13 crab  
gatherers who work in their own homes and in  
factories within the community. The main  
results of the study incude: precariousness,  
informality, and lack of labor rights for women  
collectors; a combination of paid work and  
domestic and care work; the simultaneous  
performance of productive and reproductive  
activities in workplaces such as kitchens and  
backyards, and in factories near their homes;  
and gender inequalities in labor relations.  
resultados  
da  
pesquisa  
identificam-se:  
precarização, informalidade e ausência de  
direitos trabalhistas das mulheres catadoras;  
combinação de trabalho remunerado e trabalho  
doméstico e de cuidado; realização simultânea  
de atividades produtivas e reprodutivas, em  
locais de trabalho, como cozinhas, quintais  
residenciais e nas fábricas próximas às  
residências; e, desigualdades de gênero nas  
relações de trabalho.  
Palavras-chave:  
Mulheres;  
Trabalho.  
Keywords: Women; Labor; Crab; Social  
Caranguejo; Reprodução social.  
reproduction.  
* Universidade Federal do Pará. E-mail: sousaclara21@gmail.com  
** Universidade Federal do Pará. E-mail: adriana.azevedo.mathis@gmail.com  
DOI: 10.34019/1980-8518.2026.v26.50476  
Esta obra está licenciada sob os termos  
Recebido em: 07/10/2025  
Aprovado em: 21/05/2026  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
Introdução  
O presente artigo apresenta parte dos resultados de uma pesquisa sobre o trabalho das  
catadoras de caranguejo da Vila do Treme, comunidade localizada no entorno da Reserva  
Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu (RESEX), no município de Bragança1, no estado do Pará.  
Nessa comunidade, a pesca e o extrativismo constituem importantes formas de subsistência das  
famílias. Entre as principais atividades extrativistas desenvolvidas no município, destaca-se a  
extração e a catação de caranguejos, atividade que compõe uma parte central da cadeia  
produtiva2 local.  
As mulheres, em especial, têm participação expressiva no processo de beneficiamento3  
do caranguejo, atividade realizada de maneira informal, precarizada e sob jornadas contínuas4.  
Além disso, muitas catadoras acumulam essa função com o trabalho doméstico e os cuidados  
familiares, o que acentua ainda mais a sobrecarga cotidiana vivida por elas.  
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar as condições de trabalho  
das catadoras de caranguejo da Vila do Treme, com ênfase na precarização das atividades  
produtivas5 articuladas aos processos de reprodução social, esferas que se entrelaçam e se  
sustentam mutuamente. A análise está ancorada na teoria social de Marx e dialoga com distintas  
vertentes do feminismo marxista, desde a Teoria da Reprodução Social6 (TRS) até a teoria da  
consubstancialidade. Essa abordagem evidencia como os trabalhos não remunerados,  
domésticos, de cuidado e familiares, majoritariamente realizados por mulheres, são essenciais  
133  
1
Bragança abrange uma extensa área de manguezal, totalizando cerca de 120 km² segundo Ribeiro (2001), e de  
acordo com Krause et al. (2001), aproximadamente 90% da península bragantina são cobertos por áreas de  
manguezais.  
2 Por cadeia produtiva do caranguejo neste estudo, compreende-se o conjunto de etapas que o caranguejo percorre,  
desde a extração nos manguezais até a sua comercialização. Em Bragança (PA), a cadeia produtiva do caranguejo-  
uçá envolve captura, beneficiamento, atravessadores, comércios locais e regionais, sendo marcada por  
informalidade, múltiplas funções e dependência dos manguezais (Gomes, 2018).  
3 Beneficiamento do caranguejo refere-se ao conjunto de etapas realizadas após a captura, que incluem a limpeza,  
retirada de partes comestíveis, preparo, conservação e embalagem do caranguejo, para garantir sua qualidade e  
viabilizar a comercialização.  
4
Verônica Maria Ferreira (2020) emprega o termo “jornadas contínuas” para mostrar que as mulheres não se  
dividem apenas entre trabalho doméstico e emprego remunerado, mas vivenciam uma única rotina de tarefas que  
se sobrepõem entre produtivas e reprodutivas ao longo de todo o dia, sob diferentes condições sociais.  
5 A distinção entre trabalho produtivo e reprodutivo nos termos que é empregada nesta análise está ancorada na  
tradição marxista e nas formulações do feminismo marxista. Nessa perspectiva, o trabalho produtivo está  
relacionado à produção de mais-valia, enquanto o trabalho reprodutivo, apesar de ser essencial à reprodução da  
força de trabalho é considerado improdutivo, levando em consideração que não gera mais valia diretamente para  
o capital.  
6
Importa considerara que para compreender a TRS, destacam-se como autoras elementares Lise Vogel, Tithi  
Bhattacharya e Nancy Fraser. A gênese dessa perspectiva remonta a Vogel (1983), que sistematizou a reprodução  
da força de trabalho como um pilar social do capitalismo. Contemporaneamente, Bhattacharya (2017) contribui  
para a expansão da TRS como teoria no sentido “remapear a classe”, propondo uma abordagem unitária entre  
produção e opressões. No mesmo sentido, Nancy Fraser (2022, 2024) oferece uma crítica fundamental ao  
demonstrar como o capitalismo "canibaliza" as atividades de cuidado e os processos sociorreprodutivos para  
sustentar a acumulação, resultando em crises sistêmicas de reprodução.  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
para a reprodução e manutenção da força de trabalho e, consequentemente, para a reprodução  
do capital.7  
Para a realização da pesquisa, adotou-se uma abordagem qualitativa desenvolvida em  
2024. Inicialmente, foram realizadas quatro visitas voltadas ao mapeamento preliminar e ao  
estabelecimento de vínculos éticos com as participantes. Em seguida, ocorreu a inserção no  
campo8 para a coleta de dados, realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com 13  
catadoras de caranguejo que trabalham ou trabalharam em suas próprias casas e para uma  
fábrica específica da comunidade. A análise dos dados seguiu a técnica de Bardin, envolvendo  
transcrição integral, leituras repetidas e categorização temática. Esse procedimento possibilitou  
um olhar aprofundado sobre as condições de vida e trabalho das catadoras9.  
Assim, este artigo está estruturado da seguinte forma: após esta introdução, são  
apresentados e discutidos os resultados, com ênfase na relação entre o trabalho produtivo  
precarizado e generificado das catadoras de caranguejo e os processos de reprodução social.  
Por fim, as considerações finais sintetizam os principais achados e sugerem caminhos para  
futuras investigações sobre o tema.  
Condições e relações de trabalho das catadoras da Vila do Treme  
O trabalho das mulheres catadoras de caranguejo na Vila do Treme desempenha um  
papel fundamental na cadeia produtiva do caranguejo-uçá na região bragantina. São elas as  
responsáveis pelas etapas mais demoradas e complexas do beneficiamento, conforme destaca  
Silva (2022), especialmente no momento em que a carne é retirada manualmente das patas e do  
corpo do animal. Trata-se de um trabalho minucioso, repetitivo e que exige habilidade, tempo,  
atenção e muita paciência, sendo tradicionalmente realizado pelas mulheres da vila em dois  
principais espaços: nas cozinhas de suas casas e nas chamadas fábricas de beneficiamento  
existentes na localidade.  
134  
7
Diversas autoras feministas, especialmente a partir dos anos 1970, têm aprofundado esse debate, destacando a  
centralidade do trabalho reprodutivo no funcionamento do capitalismo. Entre elas, destacam-se: Maria Mies com  
Patriarchy and Accumulation on a World Scale (1986) – Patriarcado e acumulação em escala mundial (2022);  
Angela Davis com Women, Race and Class (1981) – Mulheres, raça e classe (2016); Heleieth Saffioti com A  
mulher na sociedade de classes: mito e realidade (1976).  
8 A entrada no campo foi precedida pela aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do  
Pará (Parecer nº 7.161.961/2024), e a aproximação com as participantes ocorreu de forma ética e acolhedora, com  
a apresentação formal da pesquisa e o devido esclarecimento de seus objetivos. Todos os procedimentos  
respeitaram a Declaração de Helsinki (1975, revisada em 1983) e as Resoluções do Conselho Nacional de Saúde  
nº 196/96 e nº 251/97.  
9
Para preservar a identidade das entrevistadas, seus nomes reais não foram utilizados, sendo substituídos por  
nomes de pedras preciosas ao longo do artigo.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 132-147, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
O cotidiano de trabalho das catadoras de caranguejo envolve uma rotina intensa que,  
para algumas mulheres, começa entre 2h e 5h da manhã. Segundo as entrevistadas, acordar  
nesse horário permite mais tempo para catar, em suas próprias casas, o que elas denominam de  
“redes de caranguejo”. As redes às quais se referem são sacos plásticos geralmente utilizados  
para embalar cebolas em grande quantidade. Dentro desses sacos há, em média, 100  
caranguejos. Diariamente, essas mulheres trabalham na catação de uma ou duas redes em suas  
residências, o que equivale, ao final, a aproximadamente dois a quatro quilos de massa. Trata-  
se de uma atividade que ocupa toda a manhã e, em alguns casos, estende-se ao longo do dia, ao  
mesmo tempo em que elas buscam conciliar os trabalhos domésticos, de cuidado e familiares.  
É necessário enfatizar que as mulheres que trabalham na catação de caranguejo em casa  
recebem o crustáceo por diferentes vias. Caso o caranguejo seja fornecido por maridos, filhos  
ou parentes, elas assumem todo o processo, desde o esquartejamento e cozimento até a retirada  
da carne. Entretanto, a comercialização geralmente é realizada pelos homens. Quando recebem  
o crustáceo de marreteiros ou atravessadores10, as mulheres atuam apenas na retirada da massa,  
no armazenamento em saquinhos plásticos de um ou dois quilos e na refrigeração. Nesse caso,  
o caranguejo pertence aos atravessadores, e elas normalmente já recebem os animais cozidos,  
prontos para a etapa de catação. Assim, vendem sua força de trabalho aos atravessadores, que  
pagam cerca de R$11 por quilo da carne extraída. Isso gera uma renda diária entre R$22 e R$44,  
a depender da quantidade processada.  
135  
Nesse cenário, quando não realizam a catação em suas próprias residências, cozinhas ou  
quintais, essas mulheres também atuam nas fábricas de beneficiamento de caranguejo existentes  
na Vila do Treme. Entre elas, destaca-se a fábrica selecionada para esta pesquisa, denominada  
tanto na internet quanto em suas instalações como “Cooperativa”. Todas as 13 entrevistadas já  
trabalharam nesse local, e algumas ainda permanecem na atividade, porém sem qualquer forma  
de contrato legalmente estabelecido. Segundo as entrevistadas, trata-se de um trabalho sem  
carteira assinada, no qual elas próprias organizam os horários de entrada e saída e recebem por  
quilo de massa catada. Ou seja, quanto maior a produção, maior a possibilidade de aumento da  
renda.  
Diante disso, apesar de aparentar certa autonomia, essa atividade exige longas horas de  
trabalho repetitivo, mal remunerado, sem regulamentação ou proteção social. Além disso, trata-  
10 Atravessadores, também conhecidos como marreteiros, são mencionados neste estudo como intermediários que  
adquirem os produtos diretamente dos pescadores/tiradores de caranguejo, repassando-os posteriormente às  
catadoras. Em seguida, esses produtos são comercializados para comerciantes ou outros empreendimentos que  
integram a cadeia produtiva do caranguejo.  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
se de uma ocupação invisibilizada na cadeia produtiva. Embora organizem seus próprios  
horários, essa autonomia é limitada pela constante pressão por produtividade, já que a  
remuneração é proporcional à quantidade produzida. Algumas trabalhadoras optam por levar  
suas próprias refeições para evitar pausas longas. O pagamento é realizado semanalmente, com  
base na quantidade de carne extraída, sendo o quilo pago a R$14. Produzindo entre dois e três  
quilos por dia, suas rendas diárias variam de R$28 a R$42, totalizando, ao final do mês, valores  
entre R$448 e R$672.  
Dessa maneira, observa-se que a realidade de trabalho dessas mulheres pode ser  
interpretada a partir da análise de Ricardo Antunes (2008), ao demonstrar que o trabalho  
informal é caracterizado pela precarização, ausência de contratos, jornadas extensas e utilização  
das horas extras como estratégia para garantir renda. Entre as catadoras, isso se traduz na  
intensificação do ritmo de trabalho e na redução das pausas como forma de ampliar os ganhos.  
Graça Druck (2011) também contribui para a compreensão dessa realidade ao enfatizar que a  
precarização do trabalho se manifesta na intensificação da exploração, na instabilidade dos  
vínculos e na redução dos direitos trabalhistas.  
Também é importante mencionar que, embora a fábrica escolhida para esta pesquisa se  
identifique como uma cooperativa, constatou-se que o modelo adotado na vila não corresponde  
à proposta de uma organização baseada em princípios de solidariedade e autogestão. Ao  
contrário, trata-se de um formato que reproduz condições de exploração e precarização do  
trabalho, conforme apontado por Antunes (2008), ao afirmar que o capital, em escala global,  
tem redesenhado formas de trabalho precário por meio de expressões como  
“empreendedorismo” e “cooperativismo”, utilizadas para mascarar a precarização. Segundo o  
autor, as cooperativas, originalmente concebidas como instrumentos de luta dos trabalhadores  
contra a exploração, passaram a ser apropriadas pelo capital como mecanismo de fragilização  
dos direitos trabalhistas.  
136  
Nesse sentido, ao analisar a realidade das catadoras que trabalham para as chamadas  
fábricas no Treme, Santos (2020) destaca que essas mulheres permanecem constantemente  
disponíveis para atender à demanda por catação. A autora conclui que as fábricas se beneficiam  
de uma mão de obra barata, frequentemente vista como complementar ao sustento familiar,  
sobretudo porque esse trabalho garante recursos tanto para a subsistência das próprias mulheres  
quanto de suas famílias. Assim, as catadoras são inseridas informalmente nesse trabalho, muitas  
vezes por meio de redes familiares ou comunitárias, sem qualquer tipo de contrato formal ou  
garantia trabalhista. Em grande parte, isso ocorre pela necessidade de complementar a renda  
familiar, sendo comum que mulheres de diferentes gerações compartilhem o mesmo ofício.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 132-147, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
Além disso, é importante ressaltar que a catação de caranguejo é um trabalho atento,  
detalhista e repetitivo, que exige intenso uso das mãos, podendo levar ao desenvolvimento de  
Lesões por Esforço Repetitivo11 (LER) e outros problemas de saúde. Três entrevistadas  
relataram problemas diretamente associados à atividade, como dores na coluna, possivelmente  
relacionadas à postura mantida por longas horas durante a catação, geralmente realizada na  
posição sentada. Também foram mencionados problemas de visão, decorrentes da necessidade  
de “recatar” a massa, isto é, verificar se o produto final não possui resíduos de ossos ou fiapos  
do crustáceo, sob luz intensa e próxima. Além disso, algumas mulheres relataram dores e  
dormências nas mãos causadas pelo manuseio repetitivo de caranguejos refrigerados.  
Nesse mesmo contexto, uma das entrevistadas destacou o cansaço extremo nos pés e  
nas pernas ao final do dia, associado à presença visível de varizes12. Esse relato evidencia como  
as condições de trabalho prolongado em posição sentada podem impactar diretamente a saúde  
física dessas mulheres, sobretudo pela permanência durante longas horas sem movimentação  
adequada. Tal realidade revela não apenas o desgaste cotidiano, mas também o adoecimento  
silencioso ao qual essas trabalhadoras estão expostas. De maneira semelhante, Santos (2020)  
aponta que suas entrevistadas também relataram agravos físicos associados à catação,  
especialmente quando realizada nas próprias residências sem equipamentos de proteção, como  
luvas. Em alguns casos, as mãos chegavam a ficar “em carne viva”, o que evidencia a  
precariedade das condições laborais enfrentadas por essas mulheres.  
137  
Diante dessa realidade, evidenciou-se que o trabalho das catadoras de caranguejo da  
Vila do Treme exemplifica os modos de ser da informalidade no Brasil analisados por Antunes  
(2013), ao revelar a existência de trabalhadoras submetidas a jornadas exaustivas sem qualquer  
tipo de proteção legal ou estabilidade. Trata-se de uma realidade que intensifica a exploração e  
demonstra como o trabalho informal atua como mecanismo do sistema capitalista para ampliar  
a extração de valor, reduzir custos e aprofundar a precarização. Embora a informalidade não  
seja sinônimo direto de precarização, Antunes (2013) destaca que ambas estão intimamente  
11 As Lesões por Esforços Repetitivos (LER), também conhecidas como Distúrbios Osteomusculares Relacionados  
ao Trabalho (DORT), são condições que afetam músculos, nervos e tendões, geralmente causadas por movimentos  
repetitivos, posturas inadequadas ou esforço contínuo no ambiente laboral. Segundo o Ministério da Saúde, entre  
2007 e 2016, foram registrados 67.599 casos de LER/DORT no Brasil, com um aumento de 184% no período,  
passando de 3.212 casos em 2007 para 9.122 em 2016.  
12  
De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV, 2021), "as varizes são  
veias superficiais dilatadas, alongadas e tortuosas, causadas por uma falha no funcionamento das válvulas que  
regulam o fluxo sanguíneo, o que provoca o acúmulo de sangue e aumento da pressão dentro da veia". Essa  
condição está frequentemente associada à permanência prolongada em pé, e entre os sintomas mais comuns estão  
dor, sensação de peso, inchaço e cansaço nas pernas. Estudos como o de Berenguer et al. (2008), apontam que as  
mulheres estão mais propensas ao desenvolvimento de varizes, sobretudo quando submetidas a jornadas exaustivas  
que exigem a manutenção prolongada da postura em pé durante o trabalho.  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
relacionadas, uma vez que o trabalho informal submete os trabalhadores à instabilidade, à  
ausência de garantias e à falta de direitos vinculados aos contratos formais.  
Também é importante enfatizar que a catação de caranguejo é marcada por diversas  
dificuldades. Trata-se de uma atividade instável, com baixa remuneração e pagamento variável,  
dependente da estação do ano e de fatores ambientais, conforme destaca Silva (2022). Além  
disso, as fábricas não operam continuamente, sendo fechadas em determinados períodos do ano,  
seja pela escassez do crustáceo, seja pelo período do defeso13. Dessa forma, o trabalho  
remunerado dessas mulheres encontra-se constantemente atravessado por dinâmicas de  
instabilidade e incerteza.  
Diante desse contexto, torna-se fundamental reconhecer e problematizar as condições  
de trabalho das catadoras, especialmente diante da intensa rotina à qual estão submetidas, da  
irregularidade dos ganhos e da baixa remuneração frente ao esforço exigido. Trata-se de um  
cotidiano marcado pelas expressões da informalidade e da precarização. Assim, a  
informalização da força de trabalho, conforme discute Antunes (2013), manifesta-se de forma  
evidente nessa realidade, marcada pela exploração do trabalho feminino, por remunerações  
instáveis, jornadas extensas e ausência de garantias legais, elementos que expressam aquilo que  
o autor denomina como precarização estrutural do trabalho.  
138  
Casa e fábrica: espaços de produção e reprodução social  
Para além das condições relacionadas ao trabalho remunerado, é necessário considerar  
que ele se insere em um conjunto mais amplo de atividades que atravessam o cotidiano dessas  
mulheres, tarefas essenciais à manutenção da vida, mas que permanecem, em grande parte,  
invisibilizadas e não remuneradas. Trata-se do que as feministas e os estudos da Teoria da  
Reprodução Social (TRS) denominam como trabalho de reprodução social: um conjunto de  
práticas responsáveis por garantir o sustento físico, emocional e relacional da vida,  
possibilitando a dedicação das mulheres e de suas famílias a jornadas produtivas tão intensas.  
Em outras palavras, para que possam sair para as fábricas ou mesmo realizar a catação de  
caranguejos em casa, é necessário manter uma rotina rigidamente organizada, marcada por  
jornadas contínuas entre a casa e o local de trabalho, em que a residência se torna,  
simultaneamente, espaço de produção e reprodução.  
13  
O período de defeso do caranguejo-uçá (Ucides cordatus) é estabelecido para proteger o ciclo reprodutivo da  
espécie, durante o qual é proibida a captura, o transporte, o beneficiamento, a industrialização e a comercialização  
do caranguejo.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 132-147, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
Tal realidade se manifesta no cotidiano das mulheres da Vila do Treme, que acordam  
ainda de madrugada, preparam o café para si e suas famílias e, muitas vezes, iniciam a catação  
em casa antes mesmo do nascer do sol. Ao longo do dia, dividem-se entre a catação e os afazeres  
domésticos, como lavar louça, preparar refeições, buscar água14 e realizar trabalhos de cuidado,  
tudo em um ritmo contínuo e exaustivo. No contexto de trabalho nas fábricas, as tarefas  
domésticas precisavam ser realizadas antes da saída dessas mulheres para o trabalho e após o  
retorno para casa, como relatou Tanzanita: “É, cuidava da casa aqui, ia pra lá catava, tornava  
vim meio-dia fazer comida.” Nessa mesma perspectiva, Rubi compartilha: “Me sinto cansada  
mesmo, que chega vai varrer a casa né? Lavar a roupa, chega meia cansada do trabalho.”  
Esses e outros relatos revelam que o cotidiano das catadoras de caranguejo entrevistadas  
para esta pesquisa é marcado pela necessidade de uma organização previamente estabelecida,  
exigindo que conciliem a catação de caranguejos com o trabalho de reprodução social. Assim,  
algumas delas destacaram que cuidam ou já cuidaram de filhos pequenos, pais idosos e  
familiares doentes, realidade que reflete exatamente o que a TRS propõe ao demonstrar que as  
mulheres contribuem para o funcionamento do capitalismo tanto de forma direta, em seus  
trabalhos considerados produtivos, quanto indiretamente, ao garantirem a sustentação cotidiana  
da vida.  
Dessa maneira, embora possa parecer evidente, é fundamental destacar que as mulheres  
entrevistadas nesta pesquisa se reconheceram como as principais responsáveis pelo trabalho  
doméstico, pelas atividades de cuidado e pelas responsabilidades familiares em seus lares. Elas  
relataram, inclusive, não possuir o hábito de contabilizar as horas dedicadas às tarefas  
domésticas, mas afirmaram que provavelmente dedicam mais de sete horas diárias a essas  
atividades e que frequentemente se sentem cansadas. Ainda que não determinem exatamente o  
número de horas, expressões como “às vezes é o dia todo”, “olha, para lavar roupa é a manhã  
todinha” e “não dá nem pra contar, são tantas horas” revelam como o tempo dessas mulheres é  
intensamente consumido pelas tarefas domésticas e pela organização cotidiana da vida.  
Nesse sentido, a reflexão de Federici (2017) contribui para compreender como o  
trabalho doméstico e, consequentemente, o tempo das mulheres são apropriados e naturalizados  
como expressões de amor, cuidado e dedicação, o que torna esse trabalho socialmente  
invisibilizado, apesar de sua centralidade para a reprodução da vida e da força de trabalho. Esses  
aspectos podem ser visualizados no cotidiano das catadoras, haja vista que, em seus  
depoimentos, relataram ser mães e desempenhar atividades familiares, como levar os filhos à  
139  
14 O termo buscar água refere-se ao esforço realizado por algumas mulheres da comunidade que, por não possuírem  
poço artesiano em casa, precisam coletar água em suas casas através das caixas d’água comunitárias.  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
escola e aos postos de saúde. Além disso, são esposas que cozinham, lavam roupas, trabalham  
na roça e filhas que, desde crianças, auxiliam na catação e nas responsabilidades domésticas.  
Na vida adulta, algumas também assumem o cuidado com os pais idosos, acompanhando-os em  
consultas médicas e, em determinados casos, afastando-se do próprio trabalho de catação para  
dedicar-se integralmente a esses cuidados.  
Dessa maneira, a realidade vivida por essas mulheres concretiza debates centrais das  
teóricas15 feministas, que apontam como, historicamente, as tarefas domésticas e de cuidado  
foram atribuídas às mulheres. Segundo Arruzza e Bhattacharya (2023), essas atividades  
constituem partes essenciais da reprodução social, isto é, de todo o conjunto de práticas  
responsáveis por sustentar e renovar diariamente a vida e, consequentemente, a força de  
trabalho. Tais tarefas não são meramente naturais ou espontâneas, mas indispensáveis ao  
funcionamento do capitalismo, pois garantem que os trabalhadores e trabalhadoras permaneçam  
ativos no sistema, alimentados, cuidados e emocionalmente sustentados. Além disso, são  
fundamentais para a formação das futuras gerações de trabalhadores e para a manutenção  
daqueles que já não podem mais trabalhar.  
Somado a isso, a interpretação das falas das catadoras indica que, no cotidiano dessas  
mulheres, a articulação entre as demandas do trabalho de catação e as responsabilidades de  
cuidado gera sobrecargas que se manifestam diretamente no corpo. Essa dimensão corporal  
ficou evidente no relato de uma das entrevistadas, que compartilhou que sua vida entre a  
maternidade e a catação era corrida e que, quando parava, o corpo queria até ficar “doente”. Em  
outras palavras, ela demonstrava estar acostumada a uma rotina incessante, na qual o descanso  
parecia provocar estranhamento físico. Essa expressão evidencia a experiência de um corpo  
submetido continuamente ao desgaste, em que a exaustão deixa de ser percebida como  
problema e passa a ser naturalizada, incorporando-se às rotinas cotidianas e revelando a  
complexa relação entre sobrevivência, trabalho e cuidado.  
140  
Essa realidade pode ser compreendida como resultado de um processo educativo  
construído sob ideologias16 de gênero que naturalizam a sobrecarga feminina e a  
responsabilização quase exclusiva das mulheres pelas tarefas domésticas e de cuidado. Mies  
15 Importa destacar que autoras como Silvia Federici e Helena Hirata, mobilizadas ao longo deste artigo, embora  
contribuam significativamente para os debates acerca da reprodução social, não se inserem diretamente na Teoria  
da Reprodução Social (TRS) em seu sentido estrito, havendo diferenças analíticas relevantes entre essas  
perspectivas teóricas.  
16 As ideologias de gênero que naturalizam o papel da mulher como cuidadora, submissa e responsável pela vida  
doméstica são problematizadas por autoras como Federici (2017) e Dalla Costa e James (2022), sustentadas  
historicamente tanto pelo sistema capitalista que se beneficia do trabalho reprodutivo não remunerado quanto por  
instituições como a igreja, que, ao longo do tempo, legitimaram e moralizaram a divisão sexual do trabalho.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 132-147, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
(2022) denomina esse processo como ideologia do autossacrifício, lógica que naturaliza a  
sujeição feminina ao associar amor, cuidado e dedicação ao lar a deveres morais. Tal  
perspectiva reforça a imagem da mulher como naturalmente “multitarefa” ou “guerreira”,  
apagando a sobrecarga que recai sobre ela. Sob esse mesmo enfoque, Davis (2016) evidencia  
que essa suposta força feminina, especialmente no caso das mulheres negras, foi historicamente  
utilizada para justificar processos de exploração. Assim, a ideia da mulher que tudo suporta  
transforma a exaustão em virtude e mascara estruturas de opressão.  
Por conseguinte, torna-se fundamental enfatizar que diversas autoras17 vêm destacando  
que o cuidado não se restringe a um gesto amoroso e privado, mas constitui um trabalho  
essencial à vida em sociedade, ainda que frequentemente invisibilizado, desvalorizado e  
marcado pela divisão sexual do trabalho. Para Hirata (2022), o cuidado envolve dimensões  
técnicas, emocionais e materiais, sendo atravessado por relações de gênero, classe e raça, além  
de ocorrer tanto em contextos remunerados quanto não remunerados. Federici (2019) e Fraser  
(2023) reforçam essa perspectiva ao situarem o cuidado como parte central da reprodução  
social, isto é, como um trabalho indispensável à manutenção da vida e ao funcionamento do  
próprio sistema capitalista. Sem ele, não apenas os laços sociais e as relações cotidianas se  
fragilizariam, mas também a própria existência dos sujeitos, da economia e de qualquer forma  
de organização coletiva.  
141  
Sob essa perspectiva, evidencia-se que a Teoria da Reprodução Social (TRS) contribui  
significativamente para compreender como as múltiplas responsabilidades das mulheres da Vila  
do Treme estão diretamente vinculadas à continuidade do sistema econômico vigente. A  
reprodução cotidiana envolve não apenas o cuidado imediato, mas também a formação de novos  
sujeitos para o mundo do trabalho, incluindo parto, amamentação, criação dos filhos e cuidados  
diários. Essa dinâmica foi identificada no cotidiano das mulheres da Vila do Treme, cujos  
relatos demonstram que essas tarefas coexistem frequentemente com o trabalho produtivo, já  
que continuam catando enquanto cuidam de crianças pequenas, preparam refeições e organizam  
o lar.  
Também é importante mencionar que a reprodução geracional na comunidade do Treme  
ultrapassa a maternidade biológica e assume a forma de um processo social contínuo de inserção  
e preparação para o trabalho. Além de exercerem funções relacionadas ao cuidado e à  
17 Diversas autoras feministas, como Helena Hirata, Silvia Federici e Nancy Fraser, mostram que o cuidado não é  
apenas um gesto amoroso e privado, mas um trabalho essencial à reprodução da vida. Hirata analisa o cuidado  
como um trabalho marcado por desigualdades de gênero e raça; Federici evidencia como o trabalho reprodutivo  
foi apropriado de forma invisível e não remunerada pelo capitalismo; e Fraser discute as crises contemporâneas  
do cuidado como expressão de contradições estruturais entre produção econômica e reprodução social.  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
manutenção da vida, muitas mulheres também transmitem às novas gerações os saberes  
associados à catação de caranguejo, inserindo filhos e filhas, desde cedo, na lógica produtiva  
local. Do ponto de vista da TRS, essa articulação entre trabalho produtivo e reprodutivo não se  
resume à preservação de práticas culturais, mas atua como engrenagem do sistema capitalista  
ao garantir a permanência e a renovação da força de trabalho.  
Nesse cenário, constata-se que a realidade vivenciada cotidianamente por essas  
trabalhadoras expressa, de forma concreta, jornadas contínuas, precarizadas e sobrecarregadas.  
Essas mulheres atuam exaustivamente em atividades informalizadas, marcadas por baixos  
rendimentos e pouca proteção social, ao mesmo tempo em que assumem integralmente as  
responsabilidades relacionadas à reprodução social, como os cuidados com a casa, os filhos e  
outros membros da família. Assim, a sobreposição entre trabalho produtivo e reprodutivo  
concretiza aquilo que Mies (2022) define como dupla exploração direcionada às mulheres dos  
países em desenvolvimento, tanto como produtoras informais quanto como cuidadoras não  
remuneradas.  
Marcas de gênero na catação de caranguejos  
Na comunidade da Vila do Treme, como já mencionado, a catação de caranguejos  
constitui uma prática central para a sobrevivência das famílias locais, sendo ensinada desde  
cedo a meninas e meninos. No entanto, essa aparente igualdade inicial oculta um processo de  
socialização marcado por relações de gênero. Desde a infância, é possível perceber que as  
meninas, além de aprenderem a catar caranguejos, tendem a assumir também responsabilidades  
relacionadas ao cuidado do lar e ao trabalho doméstico, enquanto os meninos, muitas vezes,  
não são inseridos da mesma forma nessas tarefas.  
142  
Essa diferenciação nas atribuições cotidianas reflete o que Helena Hirata (2002) define  
como divisão sexual do trabalho. Trata-se de uma construção social e histórica que estabelece  
e hierarquiza funções destinadas a homens e mulheres, atribuindo às mulheres as  
responsabilidades ligadas ao cuidado e à reprodução social. Em diálogo com Danièle Kergoat,  
essa perspectiva insere-se na tradição francesa do feminismo materialista e das relações sociais  
de sexo, conforme apontado em Hirata e Kergoat (2011) e Briguglio et al. (2020). Tal  
abordagem possibilita a compreensão dessas desigualdades por meio dos princípios de  
separação e hierarquização entre os trabalhos.  
Sob essa perspectiva, evidenciou-se que a lógica da divisão sexual do trabalho se  
reproduz na cadeia produtiva do caranguejo na Vila do Treme. Os homens costumam ser  
responsáveis pela extração do crustáceo no mangue e pela comercialização, enquanto as  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 132-147, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
mulheres concentram-se na etapa da catação, realizada predominantemente no espaço  
doméstico e marcada pela exigência de habilidades manuais específicas, como dedos ágeis e  
cuidadosos, características culturalmente associadas ao “jeito feminino”. Embora essa divisão  
pareça naturalizada no cotidiano da comunidade, ela revela uma dinâmica mais profunda de  
desvalorização do trabalho feminino, articulada a estruturas patriarcais e capitalistas.  
Ademais, identificou-se, na realidade local, que os homens, mesmo participando de  
etapas fundamentais da cadeia produtiva, não costumam dividir de forma equivalente as  
responsabilidades dentro do lar. Ainda que participem do trabalho de reprodução social em  
algumas famílias, essa atuação é frequentemente percebida como ajuda, isto é, uma  
contribuição secundária que não altera a divisão desigual das tarefas, as quais permanecem sob  
responsabilidade principal das mulheres. Isso se torna ainda mais evidente ao considerar que a  
maioria das entrevistadas sequer menciona a participação dos companheiros nas tarefas  
domésticas, justificando que os homens “trabalham fora”, enquanto elas, mesmo envolvidas na  
catação, continuam assumindo tais funções.  
Ao destacar as marcas de gênero presentes no trabalho de catação de caranguejos,  
observa-se que as mulheres, enquanto principais responsáveis pela reprodução social, são  
diretamente impactadas mesmo quando inseridas na esfera da produção. Ainda que os maridos  
eventualmente colaborem, a responsabilidade continua recaindo majoritariamente sobre elas,  
especialmente enquanto mães e cuidadoras. Uma das entrevistadas, por exemplo, relatou que  
seu trabalho na fábrica era constantemente intercalado com a amamentação do filho pequeno.  
Disse ela: “Meu filho tava pequeno ainda, aí ele ficava com a mamãe, só que eu tinha que sair  
de hora em hora pra dar mama pra ele”. Nessa mesma perspectiva, outra entrevistada enfatizou:  
“Ficava com o pai e a mamãe que morava aqui perto”. Assim, percebe-se que a  
responsabilização do trabalho de cuidado sobre as mulheres interfere diretamente em sua  
disponibilidade para o trabalho produtivo.  
143  
Diante disso, evidenciou-se que a forma de organização do cuidado baseia-se em redes  
familiares de ajuda. Em outras palavras, uma mulher só consegue sair para trabalhar porque  
outra permanece em casa cuidando dos filhos, configurando aquilo que Hirata (2016)  
denominou como “modelo de delegação”, um dos aspectos da divisão sexual do trabalho e das  
relações de gênero. No entanto, é importante destacar que, no contexto das catadoras  
entrevistadas, essa delegação não ocorre nos moldes clássicos descritos por Hirata, nos quais  
mulheres com maior poder aquisitivo contratam outras mulheres para assumir o trabalho  
doméstico e de cuidado. Nesse caso, trata-se de uma delegação adaptada às limitações  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
econômicas locais: não há contratação formal, mas uma redistribuição necessária do cuidado  
entre mulheres da mesma família, geralmente sem remuneração.  
Em muitos casos, é a avó que interrompe ou reduz suas próprias atividades para cuidar  
dos netos, como contou Turmalina: “Ela fica (a neta), porque a mãe dela estuda à tarde... aí eu  
fico com ela”. Em outras situações, são as próprias mulheres que deixam o trabalho para cuidar  
de parentes doentes, como fez Topásio ao acompanhar o pai durante oito meses, ou Tanzanita,  
que pausou a catação para cuidar dos netos recém-nascidos. Assim, mesmo entre mulheres sem  
poder aquisitivo, o cuidado continua sendo um trabalho delegado quase exclusivamente às  
mulheres, perpetuando a lógica da divisão sexual do trabalho dentro das redes familiares e  
informais.  
Em todos esses exemplos, o cuidado aparece como uma tarefa realizada quase sempre  
por mulheres, sem remuneração e sem apoio institucional, mas que permite que o restante da  
vida, inclusive o trabalho produtivo, continue acontecendo. O que se observa é uma  
responsabilização privada ancorada na disponibilidade de outras mulheres da família,  
especialmente avós. Essa dinâmica reforça a lógica historicamente construída de que o cuidado  
constitui uma atribuição natural e feminina. Ainda que esses arranjos revelem formas de  
solidariedade familiar, eles também expõem os limites de uma estrutura social que delega às  
famílias e, sobretudo, às mulheres a sustentação do cuidado.  
144  
Além disso, esse cotidiano evidencia a tensão constante em tentar conciliar trabalho e  
família, algo que evidentemente não ocorre de forma equilibrada, sobretudo para as mulheres.  
No caso das catadoras, suas rotinas produtivas precisam ser organizadas em função das  
demandas familiares, especialmente do cuidado com filhos pequenos. Trata-se de uma realidade  
que, embora muitas vezes invisibilizada, impacta diretamente suas trajetórias de trabalho,  
resultando em pausas, jornadas parciais e até abandono de atividades produtivas. Assim, o  
acesso ao trabalho não depende apenas da vontade ou da capacidade individual, mas também  
das condições concretas que possibilitam a conciliação entre as diferentes dimensões da vida.  
Considerações finais  
Diante desse cenário, à luz das discussões apresentadas, compreende-se que as  
experiências de vida e trabalho das catadoras de caranguejo da Vila do Treme evidenciam  
dimensões centrais da Teoria da Reprodução Social (TRS), conforme discutida por Cinzia  
Arruzza e Tithi Bhattacharya (2023), uma vez que suas trajetórias são atravessadas pelas  
relações entre produção e reprodução, pelo papel das famílias, pelas dinâmicas de sexualidade  
e pelos efeitos da precarização intensificada pelo neoliberalismo. Ao destacar a interligação  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 132-147, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis  
entre o trabalho produtivo e as atividades domésticas e reprodutivas, a TRS permite  
compreender que a rotina das catadoras, marcada pela sobrecarga de trabalho e pela transmissão  
intergeracional de saberes, é essencial para a renovação da força de trabalho e,  
consequentemente, para a continuidade da lógica exploratória do capitalismo.  
Além disso, identificou-se que o trabalho remunerado das catadoras é atravessado por  
profundas marcas de informalidade e precarização, refletindo desigualdades sociais e de gênero  
que estruturam o mercado de trabalho no Brasil. Essas mulheres enfrentam jornadas extensas,  
trabalho intenso e repetitivo, baixa remuneração, ausência de proteção social e invisibilidade  
na cadeia produtiva. Embora suas atividades sejam fundamentais para a cadeia produtiva do  
caranguejo, elas permanecem ausentes das estatísticas oficiais18 e carecem de reconhecimento  
institucional. Ao ocuparem os elos iniciais dessa cadeia, possibilitam que o produto seja  
exportado, garantindo matéria-prima barata e abundante, elemento que sustenta o lucro de  
atravessadores e dos setores mais valorizados da comercialização.  
Ademais, com base na TRS, evidenciou-se que, no cotidiano das catadoras, a produção  
da carne de caranguejo, realizada por elas e destinada aos mercados consumidores, é  
indissociável da reprodução da força de trabalho, sustentada pelo trabalho doméstico, de  
cuidado e familiar, também desempenhado por essas mulheres. São essas atividades que  
mantêm a si mesmas e suas famílias em condições de continuar produzindo e consumindo. Isso  
demonstra que a produção da vida e a produção de mercadorias não constituem esferas  
separadas, mas partes conectadas de um mesmo sistema. Tal realidade evidencia que a  
reprodução social é indispensável para o funcionamento contínuo do capital, sobretudo por  
garantir a manutenção da principal mercadoria do capitalismo: a força de trabalho humana.  
Assim, diante do que foi exposto, destaca-se que o trabalho de cuidado, enquanto  
componente fundamental da reprodução social, assume papel central na organização da vida  
cotidiana das catadoras de caranguejo da Vila do Treme. Nesse território, o cuidado encontra-  
se diretamente entrelaçado à sobrevivência das famílias e à sustentação das práticas produtivas,  
ainda que continue sendo naturalizado como atribuição feminina. Aspectos relacionados ao  
cuidado, como a atenção aos filhos, a relação entre trabalho e família e o tempo destinado a  
essas atividades, permanecem, em grande medida, ausentes de políticas públicas efetivas  
voltadas para essa realidade.  
145  
18  
Durante a pesquisa de campo, evidenciou-se a inexistência de documentos que contabilizem a produção  
realizada pelas catadoras de caranguejo em qualquer esfera, também não foram encontrados detalhes oficiais sobre  
a destinação do caranguejo que é historicamente beneficiado em larga escala por elas.  
Entre a fábrica e a cozinha: precarização do trabalho e a reprodução social  
das catadoras de caranguejo na Amazônia dos manguezais  
Por fim, a pesquisa evidenciou como produção e reprodução social se articulam nas  
experiências das catadoras de caranguejo da Vila do Treme, localizada no entorno da RESEX  
de Bragança. Apesar do reconhecimento desse território como espaço tradicional e protegido,  
ainda são limitadas as ações públicas voltadas à redução da exploração do trabalho feminino na  
comunidade. As trajetórias dessas mulheres revelam uma realidade marcada pela invisibilidade  
e pela sobrecarga de responsabilidades, exigindo um olhar feminista, territorializado e  
antirracista para compreender as múltiplas dimensões de suas experiências. O estudo reforça a  
urgência de políticas públicas que reconheçam e valorizem o trabalho das mulheres em  
contextos rurais e extrativistas, além da necessidade de pesquisas que deem visibilidade às  
mulheres da Amazônia e promovam uma crítica às estruturas sociais e econômicas vigentes.  
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