Clara Sousa Maria; Adriana de Azevedo Mathis
Introdução
O presente artigo apresenta parte dos resultados de uma pesquisa sobre o trabalho das
catadoras de caranguejo da Vila do Treme, comunidade localizada no entorno da Reserva
Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu (RESEX), no município de Bragança1, no estado do Pará.
Nessa comunidade, a pesca e o extrativismo constituem importantes formas de subsistência das
famílias. Entre as principais atividades extrativistas desenvolvidas no município, destaca-se a
extração e a catação de caranguejos, atividade que compõe uma parte central da cadeia
produtiva2 local.
As mulheres, em especial, têm participação expressiva no processo de beneficiamento3
do caranguejo, atividade realizada de maneira informal, precarizada e sob jornadas contínuas4.
Além disso, muitas catadoras acumulam essa função com o trabalho doméstico e os cuidados
familiares, o que acentua ainda mais a sobrecarga cotidiana vivida por elas.
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar as condições de trabalho
das catadoras de caranguejo da Vila do Treme, com ênfase na precarização das atividades
produtivas5 articuladas aos processos de reprodução social, esferas que se entrelaçam e se
sustentam mutuamente. A análise está ancorada na teoria social de Marx e dialoga com distintas
vertentes do feminismo marxista, desde a Teoria da Reprodução Social6 (TRS) até a teoria da
consubstancialidade. Essa abordagem evidencia como os trabalhos não remunerados,
domésticos, de cuidado e familiares, majoritariamente realizados por mulheres, são essenciais
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Bragança abrange uma extensa área de manguezal, totalizando cerca de 120 km² segundo Ribeiro (2001), e de
acordo com Krause et al. (2001), aproximadamente 90% da península bragantina são cobertos por áreas de
manguezais.
2 Por cadeia produtiva do caranguejo neste estudo, compreende-se o conjunto de etapas que o caranguejo percorre,
desde a extração nos manguezais até a sua comercialização. Em Bragança (PA), a cadeia produtiva do caranguejo-
uçá envolve captura, beneficiamento, atravessadores, comércios locais e regionais, sendo marcada por
informalidade, múltiplas funções e dependência dos manguezais (Gomes, 2018).
3 Beneficiamento do caranguejo refere-se ao conjunto de etapas realizadas após a captura, que incluem a limpeza,
retirada de partes comestíveis, preparo, conservação e embalagem do caranguejo, para garantir sua qualidade e
viabilizar a comercialização.
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Verônica Maria Ferreira (2020) emprega o termo “jornadas contínuas” para mostrar que as mulheres não se
dividem apenas entre trabalho doméstico e emprego remunerado, mas vivenciam uma única rotina de tarefas que
se sobrepõem entre produtivas e reprodutivas ao longo de todo o dia, sob diferentes condições sociais.
5 A distinção entre trabalho produtivo e reprodutivo nos termos que é empregada nesta análise está ancorada na
tradição marxista e nas formulações do feminismo marxista. Nessa perspectiva, o trabalho produtivo está
relacionado à produção de mais-valia, enquanto o trabalho reprodutivo, apesar de ser essencial à reprodução da
força de trabalho é considerado improdutivo, levando em consideração que não gera mais valia diretamente para
o capital.
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Importa considerara que para compreender a TRS, destacam-se como autoras elementares Lise Vogel, Tithi
Bhattacharya e Nancy Fraser. A gênese dessa perspectiva remonta a Vogel (1983), que sistematizou a reprodução
da força de trabalho como um pilar social do capitalismo. Contemporaneamente, Bhattacharya (2017) contribui
para a expansão da TRS como teoria no sentido “remapear a classe”, propondo uma abordagem unitária entre
produção e opressões. No mesmo sentido, Nancy Fraser (2022, 2024) oferece uma crítica fundamental ao
demonstrar como o capitalismo "canibaliza" as atividades de cuidado e os processos sociorreprodutivos para
sustentar a acumulação, resultando em crises sistêmicas de reprodução.