A formação profissional em Serviço Social no  
Brasil entre 1930 – 1970  
Professional training social work in Brazil between 1930 - 1970  
Sandra Rodrigues dos Santos*  
Resumo: O debate crítico sobre o ensino do  
Serviço Social brasileiro foi iniciado pela  
categoria no segundo lustro da década de 1970,  
quando as condições históricas deram bases  
para tensionamentos ideopolíticos em torno das  
Abstract: The critical debate on the teaching of  
Brazilian Social Work was initiated by the  
category in the second half of the 1970s, when  
historical conditions provided the basis for  
ideological and political tensions surrounding  
the theoretical-methodological foundations that  
have been present in professional training since  
fundamentações  
teórico-metodológicas  
incidentes na formação profissional desde seu  
surgimento. Apesar da extensa bibliografia  
consolidada sobre o tema, seu estudo continua  
imprescindível em nosso tempo para balanços,  
aprendizados e projeções, sobretudo quando  
acirram as disputas em torno da direção social  
do atual projeto de formação profissional,  
expresso nas Diretrizes Curriculares de 1996.  
Considerando o legado histórico e político que  
compõe o nascimento e desenvolvimento do  
projeto de ensino do Serviço Social no Brasil, o  
presente ensaio pretende, por meio de pesquisa  
bibliográfica de caráter qualitativo, recuperar as  
propostas de ensino construídas entre os anos de  
1930 e 1970, tendo como referência as  
principais ingerências sócio-históricas que  
configuraram o modo de ser, pensar e agir dos  
assistentes sociais no bojo das condições e  
relações sociais entre as classes sociais e dessas  
com o Estado na particularidade da formação  
social brasileira entre os anos supracitados.  
its inception. Despite the  
extensive  
bibliography on the topic, its study remains  
essential in our time for assessments, learning,  
and projections, especially as disputes intensify  
over the social direction of the current  
professional training project, as expressed in the  
1996 Curricular Guidelines. Considering the  
historical and political legacy that shaped the  
birth and development of the Social Work  
education project in Brazil, this essay aims,  
through qualitative bibliographic research, to  
recover the teaching proposals developed  
between the 1930s and 1970s, taking as  
reference the main socio-historical influences  
that shaped the way social workers were,  
thought, and acted within the social conditions  
and relations between social classes and  
between these classes and the State, in the  
particularity of Brazilian social formation  
during the aforementioned years.  
Palavras-chave: Fundamentos do Serviço  
Social brasileiro; Formação profissional;  
Projeto profissional.  
Keywords: Foundations of brazilian Social  
Work; Professional training; Professional  
project.  
* Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: sandra.rodrigues@ufjf.br  
DOI: 10.34019/1980-8518.2026.v26.50111  
Esta obra está licenciada sob os termos  
Recebido em 18/09/2025  
Aprovado em: 28/04/2026  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
Introdução  
O Serviço Social brasileiro e sua formação profissional se tornam objeto de estudos da  
categoria a partir do segundo lustro de 19701. Data desse período o conjunto de acontecimentos  
que embasam as primeiras análises sobre os fundamentos históricos da profissão, bem como as  
fundamentações teórico-metodológicas que nortearam o seu ensino no país.  
Na bibliografia especializada, é consenso que a institucionalização da profissão ocorre  
sobre os pilares estabelecidos pelo Estado moderno e pela burguesia industrial na fase do  
capitalismo monopolista, sendo política e ideologicamente ancorados pelo bloco católico, com  
respaldo da fundamentação teórica conservadora. Porém, em seu decurso, “como um dos  
elementos que participa da reprodução das relações de classe e do relacionamento contraditório  
entre elas” (Iamamoto; Carvalho, 2006, p. 71), põem-se determinações que exigem dos  
assistentes sociais não só no Brasil, como em todo o continente latino-americano –  
posicionamento político com relação à formação e à intervenção de cunho tradicional e  
conservador.  
As condições materiais para o questionamento e a proposta de ruptura com o espólio  
tradicional da profissão no âmbito da formação e intervenção profissionais se explicitam na  
sociedade brasileira a partir de meados dos anos de 1960, quando, diante do reordenamento do  
capitalismo mundial, são forjados, em grande parte do continente latino-americano,  
movimentos de libertação e desenvolvimento nacional questionadores da condição de  
subdesenvolvimento legada a esses países sobre o domínio imperialista de hegemonia  
predominantemente norte-americana. Como afirma Netto (2015), configura-se um cenário  
favorável às mobilizações sociais contestatórias não apenas ao Estado e à sua configuração  
burguesa, como também, em sua forma mais radical, ao estilo de vida regido pela ordem  
burguesa.  
212  
É na esteira dessa efervescência social e política que a profissão protagoniza, entre os  
anos de 1965 e 1975 em alguns países da América Latina, o Movimento de Reconceituação,  
que propunha a ruptura com as bases tradicionais da profissão, visando à sua redefinição  
formativa e interventiva por uma perspectiva crítica.  
1 Entre os anos de 1975 e 1979, foram realizadas três Convenções Nacionais protagonizadas pela ABESS – atual  
ABEPSS – (XIX Convenção Nacional da ABESS, Piracicaba, 1975; XX Convenção Nacional, Belo Horizonte,  
1977; XXI Convenção Nacional da ABESS, Natal,1979), tendo como ponto central a ampliação das discussões  
em torno do ensino em Serviço Social e do exercício profissional na nova conjuntura, que demandava um projeto  
profissional correspondente à direção do projeto democrático em curso no país. Abriu-se, então, a revisão  
curricular que culminou na proposta de ensino presente no Currículo Mínimo de 1982 (Santos, 2024).  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 211-230, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Sandra Rodrigues dos Santos  
Tal como os projetos sociais de caráter reformista-democrático e revolucionários em  
curso pelo continente nesse período, o Movimento de Reconceituação do Serviço Social latino-  
americano foi interrompido com a instauração da “perspectiva burguesa da ‘modernização’ e  
suas ditaduras” (Netto, 2015, p. 192). Seu tolhimento precoce, no entanto, não impediu sua  
irradiação em vários países, inclusive no Brasil. Suas contribuições aparecem nas disputas em  
torno da teorização e redefinição da direção social do ensino e atuação profissionais no Brasil  
a partir de meados de 1960, tendo como maior exemplo a experiência realizada por um grupo  
de profissionais na Universidade Católica de Minas Gerais, atual PUC/MG, bastante conhecida  
por seu método; o “Método BH”.  
No momento que a questão fundamental e que afetava o conjunto de profissões  
institucionalizadas no continente, incluindo o Serviço Social, era a contestação da ordem  
burguesa, suas instituições e políticas, bem como a eficácia das intervenções institucionais a  
partir dos próprios resultados que produziam, configuram-se no Brasil o processo de renovação  
do Serviço Social brasileiro sob três direções que Netto (2015) denomina “teorização”,  
enquanto formulações teóricas e ideopolíticas de maior predominância na disputa pela direção  
social da formação profissional, sendo elas: a modernização conservadora, a reatualização do  
conservadorismo e a perspectiva da intenção de ruptura. Nos currículos de 1962 e 1970, é  
possível identificar a predominância das perspectivas modernizadoras e de reatualização do  
conservadorismo, ambas marcadas pelo positivismo e suas derivações.  
213  
Essas são considerações importantes para pensarmos as propostas de ensino do Serviço  
Social no Brasil. Porém, considerando que não é possível realizar neste ensaio um estudo  
exaustivo dos elementos que as configuram na história brasileira, nos limitaremos a destacar os  
fatos mais importantes sobre o tema, atendo-nos às primeiras fundamentações teórico-  
metodológicas que incidiram sobre a profissão desde seu nascedouro até os anos de 1970,  
trazendo à baila elementos permitam a reflexão sobre o processo de formação profissional, bem  
como as bases e condições históricas em que se operam as disputas profissionais em torno de  
sua direção social.  
Para tanto, o texto se encontra dividido em três partes: na primeira tratamos sobre a  
incidência da Igreja Católica e sua Doutrina Social na formação e intervenção dos primeiros  
profissionais, imprimindo-lhes uma concepção e visão social de mundo enraizados no  
humanismo cristão. Identificamos os alinhamentos socialmente necessários ao pensamento  
conservador franco-belga e à sociologia norte-americana, forjando o que Iamamoto (2004)  
definiu como a primeira fundamentação teórico-metodológica da profissão, isto é, como seu  
arranjo teórico-doutrinário-operativo”. Na segunda parte, passamos às notas referentes ao  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
projeto de formação no contexto do “período desenvolvimentista” e do Estado autocrático-  
burguês, apontando como, a partir do acirramento das lutas entre as classes no continente,  
reverberaram no interior da profissão disputas em torno da direção social de seu projeto  
formativo e interventivo, agregando ao ensino da profissão correntes de pensamento e  
demandas que não contesta o status quo, como é possível observar até o currículo de 1970. A  
verdade é que apenas a partir da revisão curricular de 1982, devido ao cenário econômico,  
político e cultural que se apresenta em face das lutas sociais pela redemocratização do país, o  
ensino da profissão ganha bases materiais para a revisão de seu conteúdo e redefinição de seu  
ensino.  
Não adentraremos neste ensaio o período da revisão curricular de 1982, apesar de  
considerar a bibliografia especializada sobre o tema elaborada desde esse período. Cabe  
destacar que, para a investigação, utilizamos a produção de autores/pesquisadores de relevância  
na área. Por meio de pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo, realizamos um resgate  
histórico que visa abrir debates em torno do legado da profissão fundamental para aprendizados,  
balanços críticos e projeções que objetivem o fortalecimento e a consolidação do atual projeto  
profissional e de formação em Serviço Social, ainda em disputa.  
A incidência da Igreja Católica nas primeiras escolas de Serviço Social  
214  
A atuação do Estado no processo de acumulação de capital no país se deu articulada à  
burguesia industrial e aliada à Igreja Católica: àquele pelo papel dominante e pelas alianças  
indispensáveis ao desenvolvimento industrial próprio do capitalismo de tipo dependente, e a  
essa pelo poder político que vinha constituindo desde os anos de 1920 e que ganhou força social  
de relevo no “contexto de uma sociedade sacudida pelas consequências da progressiva  
instauração das relações de produção capitalistas” (Castro, 2006, p. 101). Tendo como suporte  
doutrinário as encíclicas papais Rerum Novarum (1891) e a Quadragésimo Anno (1931), a  
Igreja Católica consolida, a partir de 1930, o espaço necessário para seu amplo projeto político  
de recuperação da hegemonia na sociedade civil e no Estado.  
Assumindo papel decisivo na configuração de uma “política social mais abrangente”  
(Castro, 2006, p. 100), a Igreja Católica teve alcance destacado pela atuação que passou a ter  
em todos os níveis da educação pública e da vida social a partir da Constituição de 1934, quando  
a religião católica passou a ser reconhecida como religião oficial do Brasil. Não por acaso  
caberá a essa instituição, entre os anos de 1932 e 1945, sob ingerências da burguesia e  
financiamento do Estado, a estruturação do “arranjo-teórico-doutrinário-interventivo” para a  
formação das primeiras profissionais assistentes sociais. O recrutamento operado por seu  
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aparato próprio, formado pelo Centro Dom Vidal, Confederação Católica, a Ação Universitária  
Católica, Instituto de Estudos Superiores, Associação de Bibliotecas Católicas, os círculos  
operários, a Confederação Nacional de Operários, Liga Eleitoral Católica e Ação Católica,  
explicitava a magnitude do projeto político que concebera (Castro, 2006; Iamamoto; Carvalho,  
2006).  
Podemos considerar o período compreendido entre 1936 e 1945 o primeiro momento da  
formação acadêmica-profissional do Serviço Social brasileiro, no qual o ideário e conteúdo do  
ensino do Serviço Social estiveram substancialmente baseados e orientados pela Doutrina  
Social da Igreja Católica de cunho humanista conservador2. Na esteira desse período, competiu  
à Igreja Católica a criação de 20% dos cursos de Serviço Social no Brasil (Pereira, 2022), e sua  
relação com a profissão explicitava o caráter eminentemente político dessa articulação, visto  
que o conteúdo e os objetivos da ação profissional por ela orientada diferenciavam-se das  
atividades tradicionais de caridade ao mobilizar recursos a partir do Estado e do patronato para  
obras assistenciais de maior envergadura e eficiência técnica” pautadas por uma matriz  
ideológica conservadora e uma prática profissional homogeneizada (Iamamoto; Carvalho,  
2006, p. 166). Assim, os currículos elaborados nesse período não podiam expressar outra coisa  
senão as bases materiais conservadoras sob as quais se forjavam as condições e relações sociais  
próprias da formação do capitalismo brasileiro. A determinação social do pensamento se  
expressa nos projetos pedagógicos de ensino do Serviço Social em que a direção social se pauta  
hegemonicamente na perspectiva tradicional/conservadora.  
215  
A primeira referência metodológica para formação e intervenção profissionais foi a  
Doutrina Social da Igreja Católica de cunho humanista conservador. Contrária aos princípios  
liberais e marxistas, essa doutrina propugnava a defesa das bases dispostas nas encíclicas  
papais, apoiada na concepção de que a gênese da então chamada “questão social” se encontrava  
na dimensão moral e não nas bases materiais contraditórias da sociedade moderna. Era, assim,  
funcional às necessidades e aos interesses das classes dominantes e do Estado na medida em  
que se propunha a operar o adequado ajustamento e disciplinamento dos trabalhadores e das  
2
O que não significa que não houve indagações em torno dessa orientação hegemônica. Desde seu nascedouro,  
Myrian Veras Baptista, em “Relembrando Histórias” (2006), afirma que a profissão, entre a crítica romântica ao  
capitalismo e a orientação da formação e atuação profissionais pautada na Doutrina Social da Igreja Católica,  
identificava as limitações da proposta pautada pela religião católica. Porém, não existia outra direção social em  
disputa e com força suficiente à época para colocar em xeque esse projeto. Tal movimento só viria a ocorrer a  
partir de finais dos anos de 1950, em um cenário de lutas populares pela libertação e pelo desenvolvimento  
nacionais dos países latino-americanos, que incidiu no interior do Serviço Social, dando condições históricas para  
que um grupo de profissionais redefinisse a direção social do projeto de formação e intervenção profissionais até  
então existente.  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
camadas populares e pobres às exigências do desenvolvimento capitalista e, por consequência,  
a seu modo adequado de expropriação e exploração para acumulação.  
Pautadas pelo método da ação católica de abordagem da realidade social, a concepção  
e intervenção das assistentes sociais se baseavam no ver, julgar e agir (Baptista, 2006). Sob  
esses ditames, o pensamento doutrinário imprimia à profissão “um caráter conservador de  
apostolado” que desempenhava uma “ação educativa entre família trabalhadora, numa linha  
não apenas curativa, mas preventiva dos problemas sociais” (Iamamoto, 2004, p. 20). Como a  
“ação profissional”, no entanto, carecia de base teórica e científica para fundamentar seus  
princípios doutrinários e ações morais, a Igreja buscou primeiro auxílio na metodologia do  
Serviço Social franco-belga, trazida ao Brasil pelas seguidoras de Santo Agostinho3.  
A doutrina social da Igreja Católica encontrou na ação social franco-belga e no  
pensamento de São Tomás de Aquino (século XII), retomado em fins do século XIX por  
Jacques Maritain na França e pelo Cardeal Mercier na Bélgica (neotomismo), respaldo  
metodológico correspondente para sua ação e concepção de mundo, “aplicando” esse  
pensamento às necessidades do contexto social como estratégia política (Guedes, 2020, p. 146).  
Porém, era ainda necessário o respaldo científico para garantir a eficiência demandada ao ver,  
julgar e agir profissionais. A base para isso foi buscada nas vertentes das Ciências Sociais  
emergidas em finais do século XIX como ciência particular e especializada (o positivismo e  
suas derivações).  
216  
O Serviço Social encontrou no positivismo advindo da fragmentação da Ciência da  
História, os subsídios necessários a seu aprimoramento. Como afirma Netto (2007), a filiação  
teórica do Serviço Social desde seu nascedouro “vem, precisamente, na esteira da consolidação  
das ciências sociais” enquanto disciplina autônoma e particular, cuja maior expressão  
evidenciou-se na consolidação da sociologia como área especializada (Netto, 2007, p. 144).  
A tecnificação da ação e burocratização das atividades institucionais cresce a partir de  
meados dos anos de 1940, quando se identifica o aumento do número de instituições  
socioassistenciais estatais, paraestatais e autárquicas, ampliando o mercado de trabalho para os  
profissionais e exigindo maior qualificação e sistematização de seu espaço ocupacional, bem  
como eficiência na implementação das políticas públicas. Data desse período a fundação do  
Conselho Nacional de Serviço Social, 1938; da Legião Brasileira de Assistência Social, 1942;  
3 A vinda de Adèle Loneux, da Escola de Serviço Social de Bruxelas (Bélgica), e a Criação do Centro de Estudos  
e Ação Social (CEAS) marcam a formação dos primeiros assistentes sociais no Brasil. Tratava-se de uma  
preparação de leigos apoiada “numa base social feminina de origem burguesa respaldada por assistentes sociais  
belgas, que oferecem a sua experiência para possibilitar a fundação da primeira escola católica de Serviço Social”  
(Castro, 2006, p. 103).  
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do Serviço Social de Aprendizagem Industrial, 1942; e do Serviço Social da Indústria, 1946  
(Iamamoto; Carvalho, 2006). A profissão, portanto, se universaliza como atividade  
institucionalizada e legitimada pelo Estado e pela classe dominante, tendo ampliado e  
diversificado tanto seu público quanto seus profissionais e processo de formação.  
Tal como nas ciências sociais, a fundamentação teórico-metodológica da formação e  
intervenção nesse período passa a reproduzir um saber fragmentado dos fenômenos sociais,  
desvinculados de sua base econômica (Netto, 2007). Desse modo, soma-se à herança  
doutrinária da Igreja Católica e ao pensamento conservador de origem franco-belga, a partir do  
segundo lustro de 1940, a sociologia-conservadora norte-americana (Iamamoto, 2004, p. 26).  
A influência do Serviço Social norte-americano, após a Segunda Guerra Mundial, não  
significou a rejeição à fundamentação metodológica anterior, ao contrário, a ela foi integrada a  
qualificação técnica e racionalização da intervenção (instrumentalização técnica e valorização  
do método) pressupostas pelo Serviço Social de Caso e de Grupo. Calcada na racionalização  
dos métodos e procedimentos de intervenção, a profissão toma como princípio básico de suas  
elaborações teórico-metodológicas e técnico-operativas dois elementos herdados do  
positivismo, quais sejam: por um lado, estende a racionalidade das ciências da natureza à  
reflexão da sociedade e com ela seu empirismo; de outro, recusa a razão teórica que nega a  
ordem vigente e, como premissa dessa tradição cultural, concebe a naturalização das  
contradições inerentes à produção capitalista, configurando, assim, o que Iamamoto (2004)  
definiu como “arranjo teórico-doutrinário-operativo” (Iamamoto, 2004, p. 28).  
217  
Arranjo teórico-doutrinário-operativo que se constituiu, de fato, como a primeira  
fundamentação teórico-metodológica do Serviço Social brasileiro, sofrendo atualizações  
impostas pelos acontecimentos conjunturais e sócio-históricos no quadro nacional e mundial  
desde então. Esse arranjo teve papel fundamental na estruturação e direção social do projeto  
de formação profissional tradicional/conservador, condizente ao movimento de “modernização  
conservadora” do país, à medida que “coesiona tanto as bases de interpretação da sociedade, o  
campo dos valores norteadores da ação profissional, assim como o aperfeiçoamento de seus  
procedimentos operativos(Iamamoto, 1998, p. 219-220). Nesse quadro, a hegemonia da Igreja  
Católica no direcionamento do conteúdo que estrutura a formação profissional é abalada, ainda  
que ideologicamente o humanismo cristão continue guiando os pressupostos técnico-operativos  
do Serviço Social.  
Antes da instauração do primeiro currículo mínimo para formação em Serviço Social no  
Brasil, em 1953, a referência curricular das demais Escolas de Serviço Social advinha do Centro  
de Estudos e Ação Social de SP (1932) e da Escola de Serviço Social de SP (1936), entre as  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
quais essa última foi pioneira em todas as revisões curriculares realizadas pela profissão desde  
sua emersão no Brasil, em 1936. Os currículos de 1943-1945, apresentados abaixo, expressam  
esses elementos no ensino do Serviço Social. É possível observar que, ao lado das disciplinas  
de cunho doutrinário e conservador, aparecem conteúdos como: contabilidade, economia  
política, organização de comunidade, administração de problemas econômicos e Serviço Social  
de Grupo. Tais disciplinas correspondem a duas tendências já presentes no currículo de 1945:  
por um lado, a abertura à secularização da profissão, que se adensaria na década de 1950 e se  
consolidaria no segundo lustro de 1960, face às condições dispostas pelo governo ditatorial,  
sobretudo a ampliação das Faculdades e Escolas de Serviço Social e a expansão e a  
consolidação do mercado nacional de trabalho para a profissão; por outro, a abertura de  
questionamentos no interior da profissão em torno do Serviço Social de Caso, Grupo e  
Desenvolvimento de Comunidade alinhados ao projeto desenvolvimentista que se instaurou  
durante os anos de 1950 sob ingerência dos interesses norte-americanos em detrimento da  
autonomia dos povos e recursos latino-americanos.  
A expansiva industrialização do país e seus desdobramentos econômicos, sociais e  
políticos implicaram a absorção do Serviço Social predominantemente pelo Estado, o que não  
implicou sua ausência no setor privado. Nesse contexto, sob a fundamentação científica e  
técnica para sistematização e racionalização da assistência, evidencia-se o enfraquecimento da  
crítica romântica presente desde o surgimento da profissão, prevalecendo o ideário do projeto  
modernizador do país, para o qual deveria ser disciplinada de modo regular a força de trabalho  
urbana, mas também rural pautada em valores éticos e cristãos (Iamamoto, 2004).  
218  
Quadro 1 Currículos do Curso de Serviço Social da Escola de Serviço Social de SP de 1936 a 1945.  
1936  
1937  
1938  
1939  
1940  
Sociologia  
Sociologia  
Sociologia  
Sociologia  
Sociologia  
Higiene  
Anatomia  
Higiene  
Anatomia  
Estatística  
Serviço Social  
Enfermagem  
-
Higiene  
Anatomia  
Estatística  
Serviço Social  
Enfermagem  
-
Higiene  
Anatomia  
Estatística  
Serviço Social  
Enfermagem  
-
Higiene  
-
Estatística  
Serviço Social  
-
Estatística  
Serviço Social  
Enfermagem  
Higiene Industrial  
-
Psicologia  
Direito  
Psicologia  
Direito  
Psicologia  
Direito  
Psicologia  
Direito  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 211-230, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Sandra Rodrigues dos Santos  
Direito do trabalho  
Direito do trabalho  
-
Moral  
Direito do trabalho  
Moral  
Técnica  
Moral  
Moral  
-
Técnica  
-
Psicotécnica  
-
Psicotécnica  
Economia  
Psicotécnica  
Economia  
Economia  
Higiene do trabalho  
Direito do menor  
Higiene do trabalho  
Direito do menor  
Português  
Higiene do trabalho  
Direito do menor  
-
-
-
Lógica  
Patologia dos  
anormais  
Puericultura  
Puericultura  
Religião  
Psiquiatria  
Orientação  
Ética Profissional  
Pedagogia  
219  
1941  
1942  
1943  
1944  
1945  
Sociologia  
Sociologia  
Sociologia  
Sociologia  
Sociologia  
Higiene  
Anatomia  
Higiene  
Anatomia  
Estatística  
Serviço Social  
-
Higiene  
Higiene  
Higiene  
-
Estatística  
Serviço Social  
-
-
Estatística  
Serviço Social  
-
-
Estatística  
Serviço Social  
-
Estatística  
Serviço Social  
Enfermagem  
-
-
-
-
-
Psicologia  
Psicologia  
Psicologia  
Psicologia  
Psicologia  
Direito  
-
Direito  
-
Direito  
Direito do trabalho  
Moral  
Direito  
Direito do trabalho  
Moral  
Direito  
Direito do trabalho  
Moral  
Moral  
Moral  
-
-
-
-
-
-
Psicotécnica  
Psicotécnica  
Psicotécnica  
Psicotécnica  
Economia  
-
Economia  
Economia  
-
-
-
Higiene do trabalho  
Higiene do trabalho  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
Direito do menor  
Direito do menor  
Direito do menor  
Direito do menor  
Direito do menor  
-
-
-
-
-
-
-
-
-
Puericultura  
Puericultura  
Puericultura  
Religião  
Puericultura  
Puericultura  
Religião  
Religião  
-
Religião  
Psiquiatria  
Psiquiatria  
Psiquiatria  
Psiquiatria  
Psiquiatria  
Orientação  
profissional  
Orientação  
profissional  
Orientação  
profissional  
Ética Profissional  
Pedagogia  
Ética profissional  
Pedagogia  
Ética Profissional  
Ética Profissional  
Pedagogia  
Pedagogia  
-
Ética Profissional  
Pedagogia  
Curso familiar  
Obstetrícia  
Psicologia do  
adolescente  
Psicologia do  
adolescente  
Psicologia do  
adolescente  
Direito administrativo  
-
-
História do Serviço  
Social  
Higiene pré-natal  
Higiene pré-natal  
Higiene pré-natal  
Serviço Social de  
menores  
Serviço Social de  
menores  
Serviço Social de  
menores  
220  
Correspondência  
Contabilidade  
Contabilidade  
Economia Política  
Pesquisa social  
Administração de  
problemas  
econômicos  
Serviço Social de  
Grupo  
Organização social  
de Comunidade  
Serviço Social da  
Indústria  
Administração  
Fonte: Organizado pela autora a partir de Cardoso (2016, p. 436-437).  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 211-230, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Sandra Rodrigues dos Santos  
No campo da formação e da intervenção profissional, identifica-se, portanto, que se  
estende a racionalidade das ciências da natureza à reflexão sobre a sociedade, negando a razão  
teórica contestatória da ordem vigente e dando por natural as relações sociais e o modo  
capitalista de reprodução da vida (Netto, 2007). Como afirma Iamamoto (2004, p. 21), a  
preocupação na preparação profissional nesse período se baseia na eficiência social para a  
prática da assistência “no bojo do movimento de cunho reformista conservador”, que naturaliza  
as contradições sociais e direciona a ação profissional para a “defesa da pessoa humana, do seu  
desenvolvimento integral e do bem comum” (Iamamoto, 1998, p. 220).  
Considerados em seu sentido amplo4, os currículos acima demonstram que o projeto  
pedagógico da formação profissional tinha como direção social a perspectiva  
tradicional/conservadora. A vinculação da religião católica e as “implicações de caráter extra-  
religioso que o catolicismo trouxe à configuração do Serviço Social” (Castro, 2006, p. 44),  
atrelado aos subsídios das ciências sociais, nascidos no seio da tradição positivista do século  
XIX5 e aos princípios da sociologia norte-americana, legou vicissitudes que, predominantes no  
nascedouro da profissão, deixaram resquícios que perduram ainda hoje mais em sua intervenção  
que formação. Fato que não se deve à mera subjetividade dos profissionais, mas principalmente  
à formação social que lhe serve de base e sustento, que “modernizou conservando” e  
retroalimentando suas estruturas e ideias arcaicas funcionais à manutenção do status quo  
ineliminável à acumulação no capitalismo de tipo dependente (Fernandes, 1975) que se  
configurou no Brasil.  
221  
O ensino do Serviço Social no contexto desenvolvimentista e autocrático brasileiro  
A partir dos anos 1950, sob a dinâmica desenvolvimentista e ingerência do imperialismo  
norte-americano na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), deflagram-se as condições  
históricas que corroboram a disputa em torno da direção social do projeto de formação  
profissional, principalmente diante da inserção do curso no espaço universitário, ocorrida  
oficialmente em 1953, quando se regularizam a graduação e pós-graduação em Serviço Social  
no Brasil e define-se pelas entidades da categoria o primeiro currículo mínimo do curso no país,  
por meio da Lei n. 1.889 de junho de 19536. Essa disputa se adensou, especialmente, no período  
4 O currículo em sentido estrito se refere ao currículo do curso propriamente dito, na disposição de seus respectivos  
conteúdos, disciplinas e carga horária. Enquanto o currículo em sentido amplo se refere ao “projeto educacional e  
todos os fatos históricos, institucionais, legais e profissionais que informam e que lhe dão sustentação” (ABESS,  
1993, p. 149).  
5 Como afirma Netto (2007, p. 141), “a tradição positivista é a típica resposta conservadora na cultura ocidental  
do século XIX, e é no seu seio que se constituem as ciências sociais”.  
6 A referida Lei foi assinada pelo então presidente, João Café Filho e se encontra disponível para consulta no site  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
do governo ditatorial, apresentando-se como mecanismo de resistência política e acadêmica à  
ditadura e ao modelo de Serviço Social norte-americano implantado pelo projeto  
desenvolvimentista no Brasil baseado no Serviço Social de Caso, Grupo e Desenvolvimento de  
Comunidade (Iamamoto, 2006). Como afirma Ammann (2003), toda a década de 1950 é  
marcada pela incidência das alterações previstas no acordo entre Estados Unidos e América  
Latina no processo de formação dos profissionais do continente, inclusive dos assistentes  
sociais. O que não se deu ao acaso, antes, como afirma a autora, demarcou o interesse pela  
hegemonia da ideologia e do modo de produção capitalista. Por essa razão,  
[...] a ONU volta simultaneamente suas atenções para o Serviço Social,  
realizando três distintas pesquisas de caráter internacional sobre a formação  
de seus profissionais a níveis auxiliar, de graduação e pós-graduação [...] a  
preocupação com o Serviço Social brasileiro com o Desenvolvimento de  
Comunidade atrela-se a um movimento de âmbito internacional, deflagrado  
oficialmente pelas Nações Unidas e referendado por inúmeros organismos  
interessados na expansão da ideologia e do modo de produção capitalista  
(Ammann, 2003, p. 33, grifo nosso).  
Foi sobre esses ditames que se estruturou o primeiro currículo mínimo do curso de  
Serviço Social no Brasil, vigente entre os anos de 1953 e 1962. A seguir apresentamos as  
disciplinas que passam a compor a formação em Serviço Social.  
Quadro 2 Currículo Mínimo de 1953: aprovado pela Lei n. 1.899 de 13 de junho de 1953.  
222  
Disciplinas mínimas  
I - Sociologia e Economia Social  
Direito e legislação Social  
Higiene e Medicina Social  
Psicologia e Medicina Social  
Ética geral e profissional  
II - Introdução e Fundamentos do Serviço Social  
Método do Serviço Social  
Serviço Social de Caso de Grupo Organização de Comunidade  
Serviço Social e suas Especializações  
Família menores Trabalho Médico  
III - Pesquisa Social  
Fonte: Organizado pela autora a partir de Cardoso (2016, p. 436-437).  
da câmara dos deputados.  
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Sandra Rodrigues dos Santos  
Como é possível observar no Quadro 2, não constam mais no quadro de disciplinas  
conteúdos como moral, higiene, religião. Por seu conteúdo, o currículo parece se afastar das  
bases doutrinárias legadas pela Igreja Católica. Contudo, higiene do trabalho permanece como  
indicação, junto de Serviço Social de Caso, Grupo e Organização de Comunidade, o que sugere  
que a transição dos currículos anteriores para o de 1953 se baseia antes na integração e  
modernização dos conteúdos anteriores que em sua rejeição.  
As primeiras reflexões em torno do projeto educacional da profissão consideravam  
apenas o sentido estrito do currículo, seus conteúdos e disciplinas, visando a atender ao projeto  
desenvolvimentista em curso no país. Somente a partir do segundo lustro de 1960, abriram-se  
debates e reflexões considerando seu sentido amplo, o que pode ser creditado ao fato de a  
categoria ter sido compelida socialmente a movimentar e reelaborar suas fundamentações  
teórico-metodológicas diante dos eventos políticos e sociais em curso no país.  
É certo que, durante o período compreendido entre os anos de 1953 e 1970, os conteúdos  
de formação profissional do Serviço Social mantiveram sua essência pautada no ideário  
humanista conservador e reforçaram uma formação voltada ao atendimento do indivíduo  
“problemático”, “desajustado”, como é possível identificar no Parecer n. 33 de 1964, que  
atualizava o Parecer n. 286 de 1962, e dispõe sobre as disciplinas e duração do curso de Serviço  
Social. Por mais que na grade curricular não se tenha explicitamente a presença da disciplina  
“moral”, como nos currículos anteriores, observa-se que os valores e princípios éticos-morais  
seguem enraizados na concepção da pobreza e miséria decorrentes da produção social e sua  
apropriação privada, como um problema do indivíduo a ser resolvido por meio de seu  
ajustamento às condições sociais postas.  
223  
A dimensão ideopolítica do projeto profissional pauta-se na naturalização do status quo  
da sociabilidade capitalista e na doutrina social, mas agora mais bem sistematizada e ancorada  
nas fundamentações teóricas das ciências sociais que contribuem no entendimento desse  
indivíduo a ser ajustado. O conteúdo do currículo mínimo de 1962 comprova esse argumento,  
como podemos observar no Quadro 3:  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
Quadro 3 Currículos mínimos do Curso de Serviço Social (1962 e 1970).  
1962 - Parecer n. 286 de 1962 e Resolução 512 de  
1964  
1970 - Parecer n. 242 aprovado em março de  
1970 e Resolução s/n  
Introdução ao Serviço Social  
Serviço Social de Casos  
Ciclo Básico  
Sociologia  
Serviço Social de Grupos  
Psicologia  
Desenvolvimento e Organização de Comunidade  
Administração em Serviço Social  
Economia  
Direito e Legislação Social  
Teoria do Serviço Social  
Ciclo Profissional  
Serviço Social de Casos  
Política Social  
Psicologia  
Sociologia  
Pesquisa Social  
Economia Social  
Direito  
Ética profissional  
Serviço Social de Grupo  
Serviço Social de Comunidade  
Ética  
Higiene e Medicina Legal  
224  
Fonte: Organizado pela autora a partir dos pareceres e das resoluções.  
Como afirma Cardoso (2016), nos currículos de 1960 e 1970 prevalecem o positivismo  
e a ideologia desenvolvimentista como fundamentação da formação, “na busca de uma  
cientificidade e de preparação técnica para o ‘fazer profissional’” (Cardoso, 2016, p. 440). Com  
uma divisão entre “ciclo básico” e “ciclo profissionalizante” impostada pela reforma  
universitária operada em 1968 pelo governo ditatorial7, a base da formação até meados de 1970  
continuará sendo, predominantemente, o pensamento conservador atualizado pelas condições  
sociais da nova conjuntura, mas permeado ideologicamente pela Doutrina Social da Igreja.  
Como endossam as disciplinas que compõem a grade do curso, como: higiene, família –  
trabalho médico.  
Esse projeto de formação profissional vigora, não sem disputas e tensões, até meados  
dos anos de 1970, reatualizando e modernizando seus aportes teóricos, sem romper  
completamente com sua base originária. As atualizações mencionadas, corresponderam aos  
princípios formativos pragmáticos cuja preocupação central estava em preparar profissionais  
7
Trata-se da Lei n. 5.540/1968 de 28 de novembro de 1968, que entrou em vigor no governo de Costa e Silva,  
estabelecendo as diretrizes para a estruturação e funcionamento do ensino superior e ensino médio no país.  
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aptos para o “modernizado” mercado de trabalho, respondendo às demandas sociais “a partir  
de uma competência operacional, com supervalorização das técnicas e instrumentos” (Cardoso,  
2016, p. 443), tendo na fundamentação teórico-metodológica o suporte teórico da prática que  
permitisse “aplicá-la” à realidade social.  
A busca pela redefinição do ensino do Serviço Social no Brasil teve início com processo  
de sua renovação profissional aberto pelos ditames da autocracia burguesa, operada entre os  
anos de 1964 e 1985 (Netto, 2015). Nesse contexto, surgiram as condições de diferenciação e  
redefinição inéditas da profissão expressas na diversidade de profissionais, de escolas, de  
postos de trabalho, bem como da população atendida, que imerge a profissão em polêmicas em  
torno de sua direção social até então não vivenciadas8.  
A conjuntura nacional deflagrada pelo golpe civil militar instaurado em 1 de abril de  
1964, no Brasil, foi demarcada pelo investimento do governo na industrialização pesada do  
país, impulsionando a imigração interna, a concentração de renda e o crescimento da pobreza e  
do pauperismo pelos rincões do país. O Serviço Social teve seu campo de atuação expandido,  
demandado tanto para disciplinamento dos trabalhadores nas empresas quanto para assistência  
às famílias e aos “menores” nas instituições socioassistenciais.  
É nesse quadrante que se consolidam as bases para erosão do Serviço Social  
“tradicional” no Brasil, à medida que passa a ser demandado no novo contexto de modernização  
conservadora um perfil técnico também moderno e racional. Os traços tradicionais da profissão  
vão gradativamente, mas de forma expressiva, cedendo espaço a uma atuação burocrática-  
administrativa que só se tornou possível mediante “uma profunda rotação nos mecanismos  
vigentes de formação dos assistentes sociais” instaurada pela política educacional do ciclo  
autocrático que operou o distanciamento da profissão da Doutrina Social da Igreja, sobretudo  
ao ampliar, a partir de 1970, as agências estatais de formação profissional (Netto, 2015, p. 163).  
Ao realizar tais alterações, não teologicamente, a dinâmica do ciclo autocrático burguês  
irrompeu no interior da profissão mudanças nas relações tanto entre os profissionais quanto  
desses com o Estado e a sociedade, incidindo com igual intensidade na autorrepresentação  
profissional e em suas dimensões teórico-metodológicas e ideopolíticas.  
225  
Sustentando uma base de questionamento, revisão e reatualização das bases do Serviço  
Social “tradicional” em grande parte da América Latina, abre-se nesse cenário, entre os anos de  
1965 e 1975, o processo de reformulação crítica do Serviço Social latino-americano. Apesar de  
8 Como esclarece Netto (2015), não que antes desse período inexistissem tensões e disputas, existiam, mas eram  
solucionadas diplomaticamente, sem grandes ingerências sobre a profissão. A partir de 1960, as tensões, disputas  
e polêmicas causaram impactos inéditos à hegemonia tradicional e conservadora da profissão.  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
sua pujança e relevância histórica na luta pela direção social do projeto profissional, o  
movimento se desfez antes de concluir sua proposta. Tal como os projetos democráticos de  
caráter reformista-democrático e revolucionários em curso pelo continente, pela força e  
instauração da “perspectiva burguesa da ‘modernização’ deflagrada pelas ditaduras burguesas  
a partir da década de 1960” (Netto, 2015, p. 192), esse movimento foi imprescindível para a  
maior experiência da renovação crítica da profissão no Brasil.  
A renovação profissional do Serviço Social brasileiro, ocorrida majoritariamente entre  
os anos de 1960 e 1980, não se resumiu ao período do ciclo autocrático burguês, mas foi em  
seu bojo que se constituíram novas bases e condições à prática, à reprodução e à  
autorrepresentação dos assistentes sociais no Brasil. A expansão e diferenciação ocorridas na  
profissão a partir desse período desaguou em polêmicas, tensões e disputas em torno do projeto  
profissional e sua direção social por perspectivas teórico-metodológicas, ideopolíticas e  
técnico-operativas heterogêneas.  
As principais perspectivas e direções profissionais em disputa desde esse momento  
foram apresentadas por Netto (2015) como “teorização”, sendo elas: a modernização  
conservadora, a reatualização do conservadorismo e perspectiva da intenção de ruptura. A  
perspectiva modernizadora”, de cariz tecnocrático, visava à modernização do  
“tradicionalismo” e tinha como referência teórico-metodológica o estrutural-funcionalismo,  
como se identifica nos encontros de Porto Alegre (1965)9, Araxá (1967) e Teresópolis (1970);  
a “perspectiva de reatualização do conservadorismo” pretendeu recuperar a herança  
conservadora da profissão, reatualizando seu passado, mas divergindo de sua base  
predominantemente positivista e refutando o legado crítico da experiência reconceituadora. Sua  
teorização aparece nos encontros de Sumaré (1978) e Alto da Boa Vista (1984); por fim, tem-  
se a “perspectiva da intenção de ruptura com o Serviço Social ‘tradicional’”, situada entre a  
primeira metade de 1970 e a primeira metade de 1980, sendo a primeira direção social a realizar  
uma crítica sistemática e global ao tradicionalismo e conservadorismo profissionais,  
confrontando seus suportes teórico, metodológico e ideológico (Netto, 2015). Sua maior  
226  
9 Como afirma Netto (2015, p. 191, em nota), a bibliografia especializada do Serviço Social considera momento  
de arranque do Movimento de Reconceituação na América Latina o I Seminário Regional Latino-Americano de  
Serviço Social, realizado em maio de 1965, em Porto Alegre Rio Grande do Sul, no qual compareceram 415  
profissionais do Brasil, Argentina e Uruguai. Ao todo foram realizados seis encontros envolvendo Brasil, Uruguai,  
Bolívia, Chile e Argentina. O encontro voltou a ocorrer no Brasil em 1972 e teve papel fundamental no Movimento  
Latino-Americano de Reconceituação. Participou do I Seminário uma das figuras fundamentais para o surgimento  
da “intenção de ruptura” no Brasil a partir do projeto de reestruturação da formação profissional dos assistentes  
sociais da UCMG: Leila Lima Santos, liderança de um pequeno grupo de profissionais do qual fez parte Ana Maria  
Quiroga, Marilda Villela Iamamoto entre outros, responsáveis por inaugurarem o conhecido “Método-BH”, a única  
experiência reconceituadora da profissão no Brasil.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 211-230, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
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expressão pode ser identificada no III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) de  
1979, conhecido como Congresso da Virada, por ter sido ponto de inflexão da profissão no  
sentido de sua renovação crítica e mudança na direção social do projeto profissional.  
A perspectiva da intenção de ruptura, hegemônica no III CBAS, ganhou força política  
na profissão apenas no cenário de crise da ditadura e da reorganização das forças sociais pela  
redemocratização do país no segundo lustro de 1970. Dada sua complexidade e os limites do  
ensaio ora proposto, não aprofundaremos em sua análise, cabendo-nos, no entanto, registrar seu  
legado e importância na luta pela renovação crítica da profissão e construção, ainda em aberto,  
do atual Projeto Ético-Político da profissão.  
O nascedouro dessa vertente se inscreveu no espaço universitário por intermédio do  
movimento intelectual e estudantil do Serviço Social, tendo sua primeira experiência no âmbito  
da formação e do exercício profissional construído pela vanguarda crítica da profissão no  
espaço universitário da Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais  
(UCMG) entre os anos de 1969 e 197510. Esse projeto de formação assumiu o legado do  
Movimento de Reconceituação, aproximando-se dos autores e profissionais que endossavam o  
Serviço Social latino-americano reconceituado por uma perspectiva crítica de contestação e  
transformação social. Por sua estrutura e ousadia, o projeto se tornou referência mundial e  
continental em oposição ao projeto tradicional e conservador de formação profissional, mas,  
dada a conjuntura e crise interna por que passa, se encerra ainda em 1975, devido a crises e  
tensões corridas no âmbito da UCMG, o que desencadeou a autodemissão de seus professores  
e gestores e o fechamento da escola no final daquele ano, sendo seus pressupostos retomados  
na nova conjuntura colocada pelo processo truncado de transição democrática realizado no país  
que angariou forças para ser retomado pela massa crítica da profissão.  
227  
Somente na conjuntura dinamizada pelo processo de democratização tornou-se possível  
a retomada do projeto de formação e exercício profissional crítico emergido na experiência de  
Belo Horizonte, pois sua viabilização encontrou alicerce nas reinvindicações das massas, com  
as quais a vanguarda crítica da profissão retomou articulação. Essa retomada do projeto  
profissional crítico deflagrado em início de 1970 articulou as dimensões ideopolíticas e teórico-  
metodológicas, tendo como base primeira para sua consolidação o espaço acadêmico, que logo  
alcançou espaço nas entidades da categoria de reflexão teórica e organização política, o que foi  
10O projeto de formação profissional da Escola de Serviço Social da Universidade de Minas Gerais (atual  
PUC/MG) se desenvolveu entre os anos de 1969 e 1975, mas as documentações existentes apreendem apenas os  
anos de 1972 a 1975. Foi liderado por profissionais como Leila Lima Santos, Ana Maria Quiroga, Marilda Villela  
Iamamoto entre outros profissionais. e se apresentou como a primeira alternativa global de contestação e oposição  
ao legado do conservadorismo e tradicionalismo na profissão.  
A formação profissional em Serviço Social no Brasil entre 1930 1970  
de fundamental importância para a construção e defesa de um projeto de formação profissional  
crítico e hipotecado à realidade social que o alimenta.  
Breves considerações  
Vimos de modo bastante breve que o surgimento do Serviço Social como profissão  
socialmente necessária, inserida na divisão social e técnica do trabalho no Brasil, se vincula à  
consolidação das relações de produção capitalistas no país e às medidas destinadas a garantir a  
acumulação de capital, em sua dupla dimensão: generalização da concentração privada da  
riqueza socialmente produzida e da pobreza e miséria, que, ao supurarem para além das  
capacidades da filantropia e assistências privadas, que até então eram as únicas a respondê-las,  
necessariamente tiveram que ser consideradas, econômica, política e administrativamente, pelo  
Estado. Trata-se de um Estado nacional fortemente influenciado pela concepção europeia de  
problemas sociais, sobretudo pelo positivismo, razão pela qual, junto da Igreja Católica e da  
sociedade civil, se consagram teórica e institucionalmente as consequências das desigualdades  
econômicas, sociais e étnico-raciais inerentes à nascente sociedade burguesa, como “questão  
social”.  
Dentre as principais ações desprendidas pelo Estado moderno em face das mudanças  
inerentes ao capitalismo brasileiro, identificamos o grande investimento realizado na formação  
e especialização de profissionais, dentre eles o profissional do Serviço Social, para a execução  
terminal das políticas sociais e medidas administrativas voltadas ao atendimento do pauperismo  
e os problemas sociais inerentes à nascente sociedade de classes. Para tanto, tratou ele de  
granjear o apoio da burguesia industrial e o suporte ideopolítico da Igreja Católica, principal  
responsável pela estruturação da proposta pedagógica para formação dos primeiros  
profissionais do Serviço Social no Brasil.  
228  
Por essa razão, vimos que, durante quase 50 anos, vigorou na profissão uma formação  
profissional direcionada pela perspectiva tradicional/conservadora. Sua definição ancorou-se  
na busca e criação de metodologias de atuação, aportes teórico-metodológicos e ideopolítico  
para seu desenvolvimento e sua modernização, tendo como matriz central desse processo o  
arranjo teórico doutrinário-operativoenraizado na tradição positivista e no humanismo  
cristão de cunho conservador, sendo que, somente a partir de meados de 1970, a renovação  
crítica do Serviço Social brasileiro alcançou predominantemente as formulações teóricas e as  
dimensões teórico-metodológica e ideopolítica da profissão (Netto, 2015).  
Assim, apenas a partir de 1970 o projeto de ruptura com a estrutura global do  
tradicionalismo e conservadorismo profissional alcançam, mesmo que de modo ainda isolado,  
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a formação acadêmica-profissional. Sua emersão foi marcada pelo surgimento da experiência  
de Belo Horizonte, enquanto expressão da emersão da perspectiva da intenção de ruptura na  
profissão e momento de inflexão fundamental na disputa pela direção social do projeto  
profissional e sua aproximação a vertentes críticas das ciências sociais, ainda que com desvios  
e limites, como atesta a bibliografia especializada.  
A partir dos estudos sobre o legado histórico e as disputas em torno do projeto de  
formação do Serviço Social no Brasil, observamos que o ensino da profissão esteve  
necessariamente imbricado às condições sociais historicamente determinadas. Fica claro o  
entendimento de que as mudanças na sociabilidade redefinem, em face das condições  
econômicas, sociais, políticas e culturais postas pelas condições sociais e pelas relações entre  
as classes sociais e dessas com o Estado, a profissão, seu corpo de profissionais e as demandas  
que lhe são apresentadas, o que traz à luz disputas em torno de seu arcabouço ideopolítico,  
teórico-metodológico e interventivo vis-à-vis à realidade social que vivencia a profissão no bojo  
da reconfiguração do capitalismo na cena contemporânea.  
Recuperar os elementos aqui tratados permite apreender as bases históricas das disputas  
que precedem e dão significado ao esforço coletivo da categoria para revisões curriculares de  
1982 e 1996, com suas respectivas atualizações, culminando numa proposta de ensino norteada  
e consolidada pela perspectiva da intenção de ruptura, mas prenhe de disputas no quadro de  
aprofundamento do conservadorismo no Brasil e no mundo diante da maior crise de acumulação  
do capital desde seu surgimento, cenário que demanda de todos os profissionais recuperar a  
trajetória histórica da profissão e as disputas ideopolíticas abertas em torno da direção social do  
projeto profissional nas dimensões do ensino e intervenção para, assim, seguir na construção  
de nosso Projeto Ético-Político.  
229  
Referências  
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Cortez Editora, 2003.  
ABEPSS/CEDEPSS. CADERNOS ABESS nº 6. São Paulo: Cortez, 1993.  
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aprovado em assembleia em novembro de 1996). Rio de Janeiro: 1996.  
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complemento aos Pareceres n. 286/1962 e n. 33/1964 ao Parecer n. 286/1962, 1964.  
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CARDOSO, P. F. G. 80 anos de formação em Serviço Social: uma trajetória de ruptura ao  
conservadorismo. Serviço Social e Sociedade, São Paulo, n. 127, p. 430- 455, set./dez. 2016.  
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