Rualização em debate: vozes resistentes aos  
desafios da vida na rua e para além dela  
Homeless under debate: voices resisting the challenges of life  
on the streets and beyond  
Verônica Martins Tiengo*  
Resumo: O artigo responde à seguinte questão  
norteadora: quais são as propostas dos sujeitos  
em situação de rua entrevistados acerca do  
rompimento com o processo de rualização?  
Objetiva apresentar a voz de sujeitos em  
situação de rua a respeito do que pode ser feito  
no sentido de mitigar essa multifacetada  
expressão da questão social. Trata-se de  
pesquisa qualitativa, bibliográfica e de campo.  
Como resultado, aponta-se a necessidade do fim  
do recolhimento compulsório de pertences  
pessoais; a inserção de pessoas que vivenciaram  
a rualização nos serviços socioassistenciais  
voltados para esse público; o aumento no  
número de vagas nos serviços de acolhimento  
institucional; e a oferta de moradias e trabalho.  
Abstract: The article answers the following  
guiding question: what are the proposals of the  
homeless individuals interviewed regarding  
breaking with the process of homelessness? The  
goal is to present the voices of homeless  
individuals regarding what can be done to  
mitigate this multifaceted expression of the  
social issue. This is qualitative, bibliographic,  
and field research. As a result, it points to the  
need to end the compulsory collection of  
personal belongings; the inclusion of people  
who have experienced homelessness in social  
assistance services aimed at this population; an  
increase in the number of places in institutional  
shelters; and the provision of housing and work.  
Palavras-chave: População em situação de rua;  
Políticas sociais; Trabalho; Direitos sociais;  
Moradia.  
Keywords: Homeless; Social policies; Work;  
Social rights; Housing.  
Introdução  
O artigo responde à seguinte questão norteadora: quais são as propostas dos sujeitos em  
situação de rua entrevistados acerca do rompimento com o processo de rualização? Objetiva  
apresentar a voz de sujeitos em situação de rua a respeito do que pode ser feito no sentido de  
mitigar essa multifacetada expressão da questão social. No primeiro ponto, apresentamos  
conceitos de população em situação de rua de diversos locais do globo, percebendo como os  
* Universidade Federal do Espírito Santo. E-mail: veronicatiengo@outlook.com  
DOI: 10.34019/1980-8518.2026.v26.49889  
Esta obra está licenciada sob os termos  
Recebido em: 19/08/2025  
Aprovado em: 14/01/2026  
Verônica Martins Tiengo  
países europeus possuem um olhar mais profundo sobre o desabrigo, enquanto países latino-  
americanos voltam-se mais especificamente para quem dorme efetivamente na rua e em  
abrigos. No segundo ponto, apresentamos a voz dos sujeitos, com destaque para sua opinião  
sobre o que pode ser feito para lidar com a rualização.  
Como resultado, eles apontam a necessidade do fim do recolhimento compulsório de  
pertences pessoais; inserção de pessoas que vivenciaram a rualização nos serviços  
socioassistenciais voltados para esse público; aumento no número de vagas nos serviços de  
acolhimento institucional; e a oferta de moradias e trabalho.  
Trata-se de pesquisa qualitativa1, bibliográfica e de campo. Para a pesquisa  
bibliográfica, trabalhamos com dados do Brasil, Bogotá, Córdoba, México, Chile, Bolívia,  
Canadá, Estados Unidos e Europa. A seleção dos dados desses locais ocorreu tendo como  
critério a presença de uma política voltada para a população em situação de rua e/ou um censo  
que identifique seu perfil, tendo sido publicados em português, inglês ou espanhol. Fizemos um  
roteiro de análise e montamos um mapa de análise para nortear os dados a serem destacados no  
trabalho.  
Foram realizadas seis entrevistas2. Para a definição dos entrevistados, usamos a técnica  
da bola de neve, iniciada com o líder do Movimento Nacional da População em Situação de  
rua, que indicou duas pessoas para as entrevistas. O número de entrevistados foi definido pela  
saturação dos dados. Com vistas a garantir o anonimato do líder entrevistado, não informamos  
o local de realização das entrevistas. Utilizamos análise de conteúdo, usamos o software  
Iramuteq, e as entrevistas foram semiestruturadas3. Todas as entrevistas foram gravadas e  
transcritas, aplicadas em 2020, após a devida autorização do comitê de ética. Fizemos a  
codificação do corpus de análise por cores, escolhidas para indicar temas específicos presentes  
nas entrevistas, com o intuito de nortear a escolha daquelas que vão compor o trabalho.  
Optamos por trabalhar com dois corpus nas análises em que percebemos uma maior  
relevância da frequência de palavras.4 O motivo foi o fato de uma das entrevistas ter sido mais  
longa que as demais, logo as palavras presentes nela teriam mais repetições se optássemos por  
um único corpus. Mantivemos um único corpus na análise de similitude, pois ela evidenciou  
63  
1 O artigo é uma versão modificada de parte do debate realizado na tese doutoral da autora (cf. Tiengo, 2023a).  
2 No presente artigo, apresentamos falas de cinco dos seis entrevistados. A ausência da fala de um deles ocorreu  
porque ele não opinou no que diz respeito às questões debatidas no presente trabalho. Porém, nas figuras referentes  
às análises das entrevistas, o corpus de análise incluiu todas as falas, de todos os participantes.  
3 As entrevistas foram aprovadas pelo comitê de ética, por meio do Parecer Consubstanciado nº 3.703.908.  
4 Lembramos que, para fazermos tal escolha, rodamos no Iramuteq todas as análises presentes no texto três vezes,  
sendo uma para o corpus com todas as entrevistas, uma para a Entrevista 1 e a outra para as demais entrevistas. E  
analisamos qual fazia mais sentido e seria mais próxima do real.  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
bem as histórias trabalhadas, apresentando as divisões de acordo com os temas presentes nos  
discursos.  
Quem é a população em situação de rua?  
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,  
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de  
arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer  
natural nada deve parecer impossível de mudar (Brecht, 1982).  
Consideramos pessoas em situação de rua aquelas que pernoitam em vias públicas e  
também aquelas que utilizam instituições de acolhimento, tais como abrigos e albergues. Segue  
a concepção adotada pelo Governo Federal Brasileiro, no parágrafo único do artigo 1º da  
Política Nacional para inclusão da população em situação de rua5:  
Para fins deste Decreto, considera-se população em situação de rua o grupo  
populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os  
vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia  
convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas  
degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou  
permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário  
ou como moradia provisória (Brasil, 2009b).  
Enquanto países latino-americanos percebem população em situação de rua de maneira  
similar ao brasileiro, países europeus consideram, para além desses, os que vivem em  
habitações inadequadas para a moradia humana. Ora, se essa fosse a definição usada no Brasil,  
o número de pessoas em situação de rua seria bem maior do que os 100 mil levantados em 2015,  
do que os 220 mil em 2020 e do que os 281 mil em 2022. Ao invés de milhares, seriam milhões.6  
Vejamos um conceito amplo de abrigo adequado:  
64  
Um abrigo adequado e acessível com serviços básicos é um direito  
fundamental de todas as pessoas. Os governos devem respeitar o direito de  
todas as pessoas a um abrigo, livre do medo de despejo ou remoção forçada,  
ou da ameaça de sua casa ser demolida. Um abrigo adequado inclui não apenas  
proteção contra os fenômenos da natureza, mas também fontes de água potável  
dentro ou perto da casa, provisão para remoção de resíduos domésticos e  
humanos líquidos e sólidos, drenagem do local, serviços de emergência que  
salvam vidas e fácil acesso aos cuidados com a saúde. Nos centros urbanos,  
um local de moradia ao fácil alcance das oportunidades sociais e econômicas  
também é parte integrante de um abrigo adequado7 (Turner apud Levinson;  
5
Presente na Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua (2008) e no Decreto nº  
7.053, de dezembro de 2009, que institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua, e também na  
Resolução nº 40 do Conselho Nacional de Direitos Humanos, de 2020.  
6 O censo do IBGE (2010) identificou 11,4 milhões de pessoas vivendo em favelas.  
7
Original: “Adequate, affordable shelter with basic services is a fundamental right of all people. Governments  
should respect the right of all people to shelter, free from the fear of forced eviction or removal, or the threat of  
their home being demolished. […] Adequate shelter includes not only protection from the elements, but also  
sources of potable water in or close to the house, provision for the removal of household and human liquid and  
solid wastes, site drainage, emergency lifesaving services, and easy access to health care. In urban centers, a house  
site within easy reach of social and economic opportunities is also an integral part of an adequate shelter”.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Verônica Martins Tiengo  
Ross, 2007, p. 369).  
Para Levinson e Ross (2007), caso essa visão ampliada fosse usada em todo o mundo, a  
maioria da população mundial seria homeless. Tal amplitude envolve a segurança da moradia,  
espaço suficiente para satisfação em nível físico, psicológico, social e cultural. Locais com  
excesso de barulho e poluição não são considerados adequados para moradia.  
Nesse contexto, habitantes de favelas seriam considerados homeless. Reitero que no  
Brasil aqueles que vivem em prédios abandonados há mais de cinco anos, que possuam divisões  
dos cômodos e eletrodomésticos, não são contados entre a população em situação de rua (Brasil,  
2009a).  
Bogotá (2018) usa o termo “habitantes de la calle” e considera todos os cidadãos ou  
cidadãs que estão nas ruas ou em instituições de acolhimento há pelo menos 30 dias. Córdoba  
(2018) vê como “personas em situación de calle” os que pernoitam nas ruas e em instituições  
de acolhimento, e faz uma separação entre situação de rua, que remete a um momento, uma  
passagem, e condição de rua, indicando um estado, consolidado com o passar do tempo. São  
contados aqueles cuja vida nas ruas se prolonga por mais de cinco anos.  
México (2018) considera os que vivem temporária ou regularmente nas ruas como  
poblaciones callejeras”. Inclui os que utilizam moradias inadequadas, tais como embaixo de  
viadutos, praças, carros, pontos de ônibus, acampamentos e os albergados.  
65  
Chile (2012) usa o termo “personas em situación de calle”, e Brasil (2008) “população  
em situação de rua”. Para ambos, esse grupo é composto pelos que pernoitam nas ruas e em  
instituições de acolhimento. As demais pesquisas brasileiras seguem essa mesma linha.  
A Bolívia (2015) considera como “personas em situación de calle” aquelas que  
passavam mais de 13 horas nas ruas. Pessoas que “transitan desde el ámbito familiar, ambientes  
em alquier. Albergues temporales hacia la calle y vice-versa; son personas que hacen de la vida  
em la calle un espacio vital de desarrollo de la identidad” (Bolívia, 2015, p. 183).  
A pesquisa europeia de Baptista e Marllier (2019) traz informações de diversos países.  
Cada um apresenta diferentes concepções para definir quem é o homeless. A Áustria refere-se  
a pessoas sem-teto e àqueles que dormem em instituições voltadas para população em situação  
de rua. Para a Bélgica, pessoas que não possuem uma moradia nem condições de obtê-la. A  
Alemanha não apresenta definição oficial. A Dinamarca segue o conceito presente na lei de  
Serviços Sociais, o qual aponta como população em situação de rua as pessoas que por  
problemas especiais não conseguem se manter em uma moradia, ou não possuem uma casa. A  
Grécia inclui, além dos que não possuem moradia, os residentes de habitações precárias e os  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
acolhidos em instituições. A Espanha considera as categorias da tipologia “ETHOS-Light”8, a  
qual envolve as seguintes categorias operacionais:  
Quadro 1 ETHOS-Light.  
1
2
3
4
5
6
Pessoas vivendo em condições difíceis, nos espaços públicos;  
Pessoas em situação de emergência de alojamento;  
Pessoas vivendo em alojamentos para população em situação de rua;  
Pessoas vivendo em instituições;  
Pessoas que vivem em acomodações não convencionais por causa da falta de moradia;  
Pessoas que moram temporariamente com a família por causa da falta de habitação.  
Fonte: Elaboração própria.  
O último quadro demonstra como há uma concepção ampla de quem é considerada  
pessoa em situação de rua na Europa. Enquanto no Brasil e em outros países latino-americanos  
é somente quem efetivamente dorme na rua ou em instituições de acolhimento, na Europa  
abrange um contingente bem maior, envolvendo os que moram com a família e os que vivem  
em acomodações não convencionais.  
Na França, são considerados homeless os que na noite anterior à pesquisa dormiram nas  
ruas, parques, estacionamentos, praças, enfim, locais impróprios para a habitação; além disso,  
estão incluídos os locais onde há uma área para proteção do frio e onde é possível se alimentar,  
porém não são próprios para a moradia, e também os que dormiram em hotéis ou alojamentos  
pagos por associações, alojamentos coletivos e dormitórios (Baptista; Marlier, 2019).  
Na Itália, somente os desabrigados e sem-teto são considerados população em situação  
de rua. Assim, não insere os habitantes de moradias inadequadas. Em Portugal, são  
considerados os que vivem nos espaços públicos, abrigos emergenciais, locais inseguros para  
moradia e instituições temporárias de acolhimento para população em situação de rua. A Suécia  
considera os que moram nas ruas, vivem nos abrigos de emergência, instituições de acolhimento  
para população em situação de rua, em locais não convencionais e temporariamente na casa de  
amigos e familiares (Baptista; Marlier, 2019).  
66  
Dito isso, cerca de 2% da população mundial, 150 milhões de pessoas, encontra-se  
desabrigada, e 1,6 bilhão vive em habitações inadequadas. Entre os fatores que contribuem com  
o processo de rualização, estão a escassez de moradias populares, especulação imobiliária,  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Verônica Martins Tiengo  
pobreza, desemprego, problemas familiares, ausência de serviços para pessoas com doenças  
mentais e que consomem álcool e outras drogas (Chamie, 2017).  
Chamie (2017) destaca que o preço alto das habitações chama atenção em alguns locais  
do mundo, como os Estados Unidos. Os preços são tão altos que nem mesmo os empregados  
conseguem pagar pela moradia, pois ela ultrapassa 30% da renda de um trabalhador cujo salário  
seja mínimo e trabalhe 40 horas por semana.  
Na América Latina, temos especificidades tão profundas que os motivos da rualização  
apontados pela população em situação de rua são múltiplos. A questão habitacional, apesar de  
estar presente, aparece como se fosse uma consequência das demais, combinada a outras. Na  
Europa e nos Estados Unidos, a questão habitacional é o grande motivador ao qual outros  
fatores se vinculam (Baptista; Marlier, 2019; Chamie, 2017; Chile, 2012; México, 2018;  
Bogotá, 2018; Bolívia, 2018; Brasil, 2009).  
As políticas sociais latino-americanas seguem a matriz residual. São seletivas,  
focalizadas nos extremamente pobres. Há prioridade para programas de transferência de renda,  
que devem ser para um grupo específico, extremamente pobres, e, seguindo o princípio da  
menor elegibilidade, precisa ser inferior ao pior trabalho. Especificamente para a população em  
situação de rua, temos abrigos, albergues, centros de referência especializados e consultório na  
rua. Seguem modelos de escada, sob a ideia de redes de proteção (Pereira, 2016; Tiengo, 2025).  
Apesar de ainda serem predominantes os modelos de escada nas respostas à rualização,  
na Europa há uma tendência de alteração para o Housing First. Uma questão diferencial ao  
olharmos as transferências de renda é que os homeless vivem basicamente dos benefícios de  
transferência de renda, enquanto na América Latina, mesmo acessando a transferência  
monetária, é o trabalho informal uma constante, sua principal fonte de renda. O Housing First  
difere da oferta de vagas em abrigos e albergues, pois promove uma moradia permanente. Além  
de pensar também em outras especificidades segundo a necessidade de cada pessoa. Ele parte  
da moradia permanente, mas oferece também acesso a áreas como saúde e assistência social.  
De modo geral, os países europeus que adotaram o Housing First perceberam que, além de ter  
melhores respostas, o custo é menor do que o modelo tradicional, de escada. Segue figura que  
evidencia pontos importantes para as políticas e serviços voltados para o grupo aqui estudado.  
67  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
Figura 1 Perspectivas das políticas e serviços de respostas à rualização.  
Reino Unido e  
Alemanha  
Holanda, Escócia e  
Áustria  
Canadá  
Trabalho  
interdisciplinar é  
fundamental;  
Estudos identificaram a  
economia de recursos  
ao investir na  
A prevenção é uma  
linha de ação  
fundamental. Cozinhas  
populares e abrigos  
possuem a sua  
importância, porém,  
para eles, não trazem  
redução de pessoas sem  
abrigo. Assim, pautam  
as ações na prevenção,  
e resposta rápida nos  
casos em que há  
prevenção da  
As redes são tidas  
como importantes,  
todavia não substitui os  
serviços públicos  
destinados à população  
em situação de rua  
(European  
rualização (European  
Comisison, 2013).  
Commission, 2013).  
chegada nas ruas (The  
Homeless Hub, 2021).  
Fonte: Elaboração própria.  
Destacamos dois elementos da figura anterior: o reconhecimento da responsabilidade  
do Estado em responder à expressão da questão social aqui estudada e o foco na prevenção,  
pois houve a constatação de que é menos oneroso investir em ações preventivas do que ações  
após a concretização da rualização.  
68  
Uma concepção mais restrita de população em situação de rua parece9 fazer com que a  
intervenção ocorra quando já está em vigor uma série de expressões da questão social que se  
entrelaçam e dificultam a efetividade de serviços e programas. A concepção mais ampla dos  
europeus parece permitir uma intervenção antecipada, de forma a prevenir situações mais  
complexas, contribuindo para a uma maior efetividade do acesso a programas, políticas e  
projetos. Segue um quadro que evidencia tempo de rua mais elevados na América Latina e  
menores na Europa.  
9 Trazemos aqui apenas uma indicação. A questão pode ser aprofundada em uma próxima pesquisa, pois aqui não  
há espaço suficiente para adensar o debate sobre o assunto.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Verônica Martins Tiengo  
Quadro 2 Tempo de rua.  
LOCAL  
TEMPO DE RUA  
FONTE  
Chile  
26,9% menos de 1 ano  
28,5% mais de um ano  
31.9% 5 anos ou mais  
(Chile, 2012)  
Cochabamba10  
El Alto  
40% há mais de sete anos  
26,4% menos de três anos  
23,3% entre 1 e 3 anos  
16,7% entre 4 e 6 anos  
24% há mais de 7 anos  
68% estão há mais de seis anos.  
54,6% estão a mais de 9 meses nas ruas  
25,4% há mais de 5 anos  
28,2% entre 9 meses e quatro anos  
37,32% menos de 1 ano;  
41,69% de um a 3 anos  
20,99% 4 anos ou mais  
55,5% há mais de um ano  
23,5% entre 1 e 6 meses  
48% menos de 6 meses  
11% entre 6 e 12 meses  
36% mais de 12 meses  
26,4% há mais de 5 anos  
31,2% entre 1 e 5 anos  
23% menos de 3 meses  
34% entre 4 e 11 meses  
21% entre 1 e 2 anos  
(Bolívia, 2015)  
(Bolívia, 2015)  
Bogotá  
(Bogotá, 2018)  
(Córdoba, 2019)  
Córdoba  
México  
(México, 2018)  
Abbotsford  
Toronto  
(Abbotsford, 2018)  
(Toronto, 2018)  
São Paulo  
Dinamarca  
(São Paulo, 2019)  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
69  
22% há mais de 2 anos  
30% menos de 3 meses  
59% menos de 1 ano  
Itália  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
15% mais de 4 anos  
França  
22% menos de três meses  
36% entre 1 e 3 anos  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
15% mais de 3 anos  
Hungria  
Polônia  
34% há mais de 10 anos  
31% viviam há mais de 8 anos  
50% entre 2 e 8 anos  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
19% há menos de um ano  
48% há mais de um ano  
25% menos de 3 meses  
25% entre 3 meses e 1 ano  
10% há mais de 10 anos  
Portugal  
Suécia  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
(Busch-Geertsema et al., 2014)  
Fonte: Elaboração própria.  
No Chile, 66,4% estão há mais de um ano nas ruas. Na Bolívia, em El Alto, são 64%, e  
em Cochabamba, 40%. Em Córdoba, na Argentina, 25,4% vivem há mais de cinco anos nas  
10 A pesquisa boliviana foi feita em dez cidades. Encontramos o dado tempo de rua em Cochabamba e El Alto, que  
são as duas com maior número de pessoas em situação de rua do país, respectivamente 977 e 1.071.  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
ruas. E no México, são 21% os que vivem há quatro anos ou mais. A Colômbia é o local que  
mais nos chama atenção, visto que em Bogotá 68% vivem há mais de seis anos em situação de  
rua. Por outro lado, na Dinamarca, 57% estão há menos de um ano desabrigados. Na Itália, 59%  
há menos de um ano, assim como em Toronto. Na França, somente 15% estão com período  
superior a 3 anos. Na Europa, os dados se invertem, ao apresentarem tempos de rua inferiores.  
Na Suécia, 50% estão nas ruas há até 1 ano. Na França 58% contabilizam até 3 anos. Em  
Portugal, menos da metade está há mais de um ano.  
No ponto seguinte, analisaremos os dados da pesquisa de campo, apresentando figuras  
geradas pelo software Iramuteq com nosso debate sobre os elementos discutidos, e  
evidenciando a análise de conteúdo. Além disso, indicaremos questões gerais mencionadas  
pelos entrevistados como fatores importantes para lidar com essa multifacetada expressão da  
questão social.  
Rualização em perspectiva: uma análise qualitativa das entrevistas  
Trata-se de um resgate geral da fala dos sujeitos entrevistados em nossa pesquisa de  
campo, apresentando diversas questões sobre a vida nas ruas, que serão aqui apontadas e podem  
ser aprofundadas em artigos posteriores.  
Seguem duas imagens: a primeira referente a uma das entrevistas, a mais longa; e na  
segunda, as demais entrevistas. Ao longo de todo o ponto, referimo-nos à Entrevista 1,  
indicando a mais longa, e Entrevistas 2, para o conjunto das demais.11  
70  
Figura 2 Nuvem de palavras Entrevista 1.  
Fonte: Elaboração própria.  
11  
Com isso, nosso intuito não é identificar a ordem das entrevistas, e sim fazer a separação entre as menores e  
uma maior, na qual o sujeito falou por mais tempo.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Verônica Martins Tiengo  
Figura 3 Nuvem de palavras Entrevistas 2.  
Fonte: Elaboração própria.  
Observando as figuras, percebemos que a entrevista que numeramos aqui como 1  
evidencia o sujeito no centro do debate, com destaque para as palavras pessoa e gente, como  
uma forma de apontar para a inaceitável condição de um ser humano viver de modo tão  
degradante quanto a vida nas ruas.  
E a respeito da segunda figura, nomeada como Entrevistas 2, vemos a palavra gente  
também presente, porém com menor frequência, sendo o foco querer, trabalhar, ficar, estar,  
rua e falar. Percebemos o fato de os verbos indicarem ações dos sujeitos, que desejam sair das  
ruas, trabalhar com o intuito de cumprir seu objetivo, porém, ainda que trabalhem, permanecem  
nas ruas.  
71  
A nuvem de palavras é um dos tratamentos dos dados mais simples, pois considera  
somente a frequência das palavras no texto. Seguem as figuras referentes à análise de similitude,  
dividida em comunidades e com halo12, onde é possível ver a relação entre as palavras no  
discurso e a sua divisão em temas.  
12 Palavra usada pelo software para chamar as linhas que partem das palavras do meio para a extremidade.  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
Figura 4 Análise de similitude de todas as entrevistas.  
72  
Fonte: Elaboração própria a partir do software Iramuteq.  
A figura apresenta as palavras do discurso separadas em temas pelo Iramuteq, vistas em  
cores diferentes, e cada cor é chamada pelo software de comunidade e mostra um tema  
diferente. As linhas cinzas são chamados de halos, e quanto mais nítidas, maior a relação entre  
as palavras centrais a que se vinculam e elas.  
Olhando para as comunidades em volta da central, vemos em verde-água perder e mãe.  
Isso aponta a importância das mulheres na vida da população em situação de rua, formada  
majoritariamente por homens. A perda é algo preponderante na história de cada sujeito em  
situação de rua. Duas figuras importantes nesse processo de sucessivos infortúnios são a mãe e  
a companheira.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Verônica Martins Tiengo  
Na comunidade laranja, temos maior frequência da palavra rua com alguns motivos  
envolvidos no processo de rualização, especialmente econômicos, como a perda do emprego,  
gerando ausência de condição de pagar o aluguel (sem dinheiro), ficando sem lugar para morar,  
momento em que passaram a viver nas ruas.  
A comunidade azul-claro parte do centro com a palavra querer, que está relacionada  
com pedir, ajuda, contar, voltar, ganhar e colocar. As palavras remetem a ações individuais,  
associadas à ajuda de políticas públicas, legalmente constituídas.  
Na comunidade amarela, relacionada à palavra gente, temos população de rua, bom,  
Brasil, chegar, tentar, acabar, entender, luta, movimento, público, companheiro, ver, vender,  
carro e jogar. Gente vinculada a carro e vender aponta para duas atividades informais, duas  
formas de trabalho desenvolvidas em situação de rua por esses sujeitos.  
As palavras movimento e luta, vinculadas entre si, apontam para uma forma de  
resistência dessas pessoas, a luta por melhores condições de vida em um país tão desigual  
quanto o Brasil.  
Ignorar o sofrimento da parcela da superpopulação relativa13 componentes dos mais  
pauperizados, permitir que pessoas vivam em condições sub-humanas, sem acesso ao básico  
para sua sobrevivência, é desumano. Então, o que pode ser feito? Em nível imediato, com vistas  
a mitigar o sofrimento da população em situação de rua, quais são as ações que poderiam reduzir  
a barbárie em que vivem? Destacaremos a seguir a voz dos sujeitos que vivenciam a rualização  
sobre o que pode ser feito com relação à vida nas ruas, como mitigar essa multifacetada  
expressão da questão social.  
73  
Salientamos que falamos aqui em mitigar por entendermos que a supressão das  
expressões da questão social vividas pelos que passam pelo processo de rualização só é possível  
em uma outra sociedade, na qual a exploração não esteja no cerne. Com isso em mente,  
apresentamos questões levantadas pelos entrevistados quanto à sua forma de ver suas próprias  
necessidades e de como o Estado poderia contribuir para sua saída das ruas, no nível de políticas  
sociais. Não é nosso objetivo aprofundar os cinco pontos apresentados, apenas indicá-los.  
O primeiro é acabar com o recolhimento compulsório dos pertences pessoais. Esse é um  
assunto presente em nossas pesquisas de campo e bibliográfica. É tema presente em várias  
13  
Entendemos a superpopulação relativa conforme explicitado por Marx (2023), no capítulo XXIII do Capital,  
como aquele grupo parcial ou inteiramente desocupado, composto pelos que flutuam entre emprego e desemprego,  
migram em busca de emprego, e aqueles inseridos em atividades irregulares (respectivamente formas flutuante,  
latente e estagnada). Além dessas formas básicas, há o seu sedimento mais baixo, composto por aqueles em uma  
condição de vida inferior, no pauperismo. Consideramos a população em situação de rua integrante da  
superpopulação relativa. Ver mais em Tiengo (2023b).  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
pesquisas sobre população em situação de rua e também em jornais da população em situação  
de rua, tais como o jornal O Trecheiro e o jornal Boca de Rua.  
Vieira et al. (2004) falam sobre a contradição vivida pelo poder público, entre a pressão  
da população domiciliada que os pressiona a retirar pessoas em situação de rua de certos pontos  
da cidade e a assistência, que flutua entre o direito e o dever.  
Porém o estar em situação de rua demonstra o descumprimento do Estado em suas  
funções protetivas. Ter uma moradia é um direito social previsto constitucionalmente. E tanto  
a retirada das pessoas quanto o recolhimento compulsório de seus pertences são violações de  
direitos. Jorge falou sobre o “furto” dos objetos pessoais de pessoas em situação de rua durante  
ações de “limpeza” do poder público.  
Conforme as palavras de Jorge, há uma subjetividade inerente à retirada compulsória de  
seus pertences. Não é meramente a perda, ou um roubo de coisas, mas essas coisas fazem parte  
de sua história, são o pouco que conseguiram manter mesmo passando pelo processo de  
rualização, e quando eles perdem suas mochilas, seus objetos pessoais, eles perdem também  
parte de sua história. Logo, quando o poder público faz ações justificadas pela “limpeza  
urbana”, eles estão roubando parte da vida da população em situação de rua, tomando parte de  
sua história.  
Lembramos que a Resolução nº 40, de outubro de 2020, traz no capítulo II, sobre os  
direitos humanos da população em situação de rua, a equiparação dos domicílios improvisados  
à casa, com garantia de sua inviolabilidade, e segundo o artigo 25: O recolhimento de qualquer  
documento e objetos pessoais das pessoas em situação de rua, por agentes públicos e privados,  
configura violação aos direitos dessa população, infringindo os direitos fundamentais da  
igualdade e propriedade(Brasil, 2020).  
74  
Vejamos que as pessoas em situação de rua são vistas como sujas, porém são impedidas  
de lavar e estender suas roupas para secar, conforme relatado a seguir:  
O único cobertor que a gente tem pra dormir, se você num vigiar, eles pega e  
joga fora. Eles não tem coração.  
O encarregado manda e os gari faiz. Aí a gente tem que ficar com forro sujo,  
porque você não pode lavar, se você ficar vigiando secar, mas se eles chegar,  
mesmo assim... Eles te trata como animal (Mara, 2020, grifo nosso).  
Há a urgente necessidade de oferecer espaços públicos para que eles possam lavar  
roupas e secá-las, instalados nos locais com maior trânsito de pessoas em situação de rua e que  
passem por manutenções sempre que necessário. Ademais, é fundamental a conscientização  
dos funcionários públicos que lidam direta ou indiretamente com a população em situação de  
rua, de forma a contribuir para que os que passam pela rualização possam ser vistos como  
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sujeitos de direitos, pois, além dos direitos comuns a qualquer brasileiro, regidos pela  
Constituição Federal de 1988, possuem uma série de direitos específicos presentes na Política  
Nacional para a População em Situação de Rua, sendo um dos direitos a acolhida nas cidades.  
Por fim, é imprescindível a existência de uma política pública intersetorial que contribua com  
a saída da situação de rua.  
O segundo ponto é a inserção de pessoas que viveram o processo de rualização para  
compor os grupos de trabalho nos abrigos. Jorge sugeriu que pessoas que viveram em  
situação de rua passassem a compor as equipes de trabalho junto à população em situação de  
rua. Tal inserção contribuiria para reduzir o estigma social inerente à situação de rua e traria  
uma perspectiva de que eles podem sair das ruas.  
A intervenção de pares é você colocar dentro dos abrigos, dentro dos  
albergues, pessoas que saíram das ruas e dar autonomia a ele para ele ter uma  
casa, um emprego, para ele mostrar praqueles outros que ele também pode.  
Para ele transmitir aquilo que ele viveu que ele será uma pessoa muito mais  
amorosa, do que certas pessoas que estão ali, só fez academia, mas que não  
sabe a realidade, não viveu na pele, não vivenciou aquela realidade.  
Eu não digo botar só pessoa em situação de rua que também pode se tornar  
um gueto, mas mesclar, de uma equipe de dez, vamos botar cinco da rua e  
cinco não rua, que nunca passaram pela experiência mas que luta pela causa.  
Poxa cara, isso ajudaria tanto, porque o recurso já vem para cuidar dessa  
pessoa. Porque não elas também não receber pelo trabalho, para trabalhar  
nessas áreas? Porque elas também não pegar um pouco desse recurso para seu  
bem próprio? E para o bem próprio dos outros que ali estão? Isso com certeza,  
eu falo firmemente que essas pessoas que sairiam dali, que quando ela  
conseguir outra coisa ela vai procurar ir embora e daria a vaga para outros e  
outros e outros. E, a pessoa ouve mais uma pessoa que já passou, que já esteve,  
não tem tipo de abordagem nenhuma (Jorge, 2020).  
75  
“As intervenções mediadas por pares são aquelas cujo treinamento se destina a ensinar  
pares a atuarem como agentes de intervenção” (Vieira, 2017, p. 3). As pesquisas que trabalham  
com a intervenção por pares, usada pela Psicologia e pela Pedagogia,14 identificam resultados  
positivos. Há melhora em relação ao sentimento de pertencimento e combate ao estigma, e os  
que vivenciam a intervenção por pares sentem-se mais confortáveis para interagir com seus  
pares (Ribeiro, 2018; Vieira, 2017; Brito et al., 2019).  
Acreditamos que a presença de pessoas que viveram em situação de rua pode contribuir  
com os serviços e programas voltados para esse público. O vínculo com alguém que já passou  
pela mesma situação ocorrerá de forma mais rápida e contribuirá também com a aproximação  
aos demais profissionais da equipe.  
14 Até o momento, não encontramos pesquisa na área do Serviço Social que utilizasse a intervenção por pares e  
também não encontramos trabalhos que envolvessem a população em situação de rua. As pesquisas encontradas  
foram no âmbito do trabalho com crianças, adolescentes e jovens adultos, em relação ao autismo e ao tabagismo.  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
Lembramos que para isso é importante a realização de treinamentos, especialmente  
sobre o funcionamento da rede de atendimento à população em situação de rua quanto aos  
objetivos dos programas e serviços a que estiverem vinculados.  
O terceiro ponto é o aumento no número de vagas e tempo de acolhimento segundo as  
necessidades de cada pessoa que usará o serviço. É recorrente a veiculação de notícias  
jornalísticas que mostram as prefeituras trabalhando, oferecendo abrigamento à população em  
situação de rua, que recusa a ida ao abrigo ou ao albergue.  
Aí eles vem também em muitos lugares éh, vários municípios [...] falam: Ah,  
a gente trabalha no convencimento, eu não posso obrigar a pessoa a sair da  
rua. Eles vão pra frente da mídia falar isso, que a mídia envenena toda a  
sociedade.  
Mas na verdade, se você for lá e ver a fila de espera na vaga, são sessenta  
pessoas que atende e tem duzentas, trezentas pessoas na fila. Como é que  
pode? Como é que essas pessoas não querem? Na chuva vai pessoas implorar,  
aí fica ratificando, escolhendo aquelas que está mais mal, aquelas, dá  
prioridade pra uma grávida, pra um senhor idoso, pra uma pessoa que toma  
remédio controlado. Então assim, as pessoas preferindo se machucar, ser  
atropelada para conseguir vaga em abrigo.  
É lamentável, num lugar onde era para ser um direito. Era pra ser exclusivo  
daquela pessoa né? Aí tem pessoas que fica doido pra quebrar um braço, uma  
perna para conseguir a vaga no abrigo. Isso é lamentável num Brasil que a  
gente vive. Né? Onde a pobreza só tem aumentado e a riqueza se concentrado  
nas mãos de poucas pessoas. A gente tá adoecendo né? (Jorge, 2020).  
A Pesquisa Nacional Brasileira sobre a população em situação de rua ao mesmo tempo  
apontou para uma suposta preferência das ruas ao albergue: 46,5% “prefere dormir nas ruas”  
(Brasil, 2009a). Todavia 20,7% gostariam de dormir em albergues e não o fazem pela ausência  
de vagas. Seria de fato uma escolha pelas ruas quando não há oferta de vagas suficientes?  
Quantas vezes essas pessoas que supostamente “preferem as ruas” tentaram vagas em albergues  
ou abrigos e não conseguiram? Quantas vezes foram desligados desses espaços por não se  
adequarem às normas?  
76  
Mara e Gabriel (2020) dizem o seguinte:  
Mara: Menina, só que desde que eu tô na rua não vi uma abordagem, ainda.  
[...] Nada.  
Gabriel: Agora sumiu.  
Mara: Nem de médico, nem pra levar a gente prum abrigo. Por isso que eu  
falei pra você, que eu não posso ficar nessa condição. Eu tinha que ir pra um  
abrigo, mas não passa ninguém. E, olha que eu já andei [...], eu já andei isso  
tudo, e até hoje, nada.  
Além do número de vagas de acordo com a demanda, são necessários abrigos e  
albergues que busquem de fato atender às necessidades dos que passam pelo processo de  
rualização, oferecendo os meios necessários para que consigam sair da situação de rua.  
Vinculada a isso está a possibilidade de utilizar o serviço de acolhimento por todo o tempo que  
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necessitar. Afinal, segundo o artigo 203 de nossa Constituição Federal, a assistência social deve  
ser prestada “a quem dela necessitar”. Segue uma denúncia de Jorge revelando que há abrigo  
que permite um tempo insuficiente para romper com o processo de rualização.  
Então, assim, sete dias não dá para pessoa nem tirar a lama debaixo da unha.  
É, quem tá muito tempo na rua aí, um ano, dois anos, não dá pra nem tomando  
banho todo dia, escovando, o pé não sai nem a lama debaixo da unha, quanto  
mais a pessoa... Como você vai resolver a sua vida em sete dias? Eu queria  
saber quem é esse que inventou essa regra. Só pode ficar sete dias, então,  
assim, é adoecedor, é melhor ele pegar, tipo assim, é 14 pratos de comida, 7  
dormidas, 7 banhos, uns 14 cafés e tchau. Tá resolvido o seu problema. Fosse  
fácil assim, não tinha nenhum na rua mais.  
Então, essa é uma política higienista, ela enfraquece a vontade de vencer das  
pessoas, porque quando a pessoa tem esse hábito de... Ele fica desacreditado  
dentro da assistência, fica uma assistência mal falada, entre a rua, porque a rua  
tem, não tem telefone, não tem internet, mas tem a rádio cipó, que é o boca a  
boca, que vai longe. Porque são pessoas transitórias, que a gente tem o  
linguajar que a gente chama rádio cipó, é onde as pessoas fala aos pés do  
ouvido, mas cê fala aqui, daqui a pouco tá na Serra, Guarapari, então esses  
serviços ficam desacreditados. Ai cê, quando você vai abordar a pessoa, a  
pessoa não quer o atendimento, porque sabe que são sete dias. Sete míseros  
dias (Jorge, 2020).  
De acordo com o relato de Jorge, um dos motivos de uma boa parcela da população em  
situação de rua dormir nas ruas e não em instituições de acolhimento está vinculado às regras  
desses locais, tais como essa dos sete dias. Não existe na legislação sobre população em situação  
de rua nada que delimite um tempo tão pequeno de utilização do serviço. Seria essa uma forma  
de maquiagem de números, retratando uma rotatividade alta no serviço, que não condiz com o  
número daqueles que saíram das ruas, visto que parte deles volta para as ruas ao fim do seu  
tempo no abrigo, o que contribui para que eles não aceitem acolhimento posteriormente,  
sabendo do tempo tão limitado que o serviço oferece?  
77  
Além da necessidade de vaga em abrigo, Mara e Gabriel (2020) salientam a necessidade  
de um acolhimento no qual ambos poderiam entrar, para que não fossem separados em abrigos  
diferentes, conforme fala a seguir:  
Gabriel  
Mais ela ia querer um lugar pra nóis ficar junto.  
Mara  
Porque eu não posso ficar também num lugar e ele ficar na rua.  
Lá, lá na cidade, têm. Não junto, na hora de dormir, ele num quarto e eu no  
outro. Mais eu ia saber que ele tá ali também. Ele taria guardado. É, sabe que  
ele está ali.  
Para além do exposto, práticas de expulsão da população em situação de rua dos serviços  
socioassistenciais são consideradas violação de direitos com responsabilização ao violador,  
conforme garante o artigo 56 da Resolução nº 40, de 2020 (Brasil, 2020).  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
O quarto ponto remete à moradia. Entre as multifacetadas expressões da questão social  
vivenciadas pela população em situação de rua, a falta de moradia é uma delas. Mara, Gabriel  
e Jorge apontaram a questão da moradia como uma das demandas para trabalhar com a  
população em situação de rua. Uma delas propôs até mesmo uma forma de pagamento,  
conforme segue: “Nem que seja que era pra pagar com o bolsa família. Mas eu preferia ter a  
casa. Pegava o bolsa e pagava, mas a casa é a casa né” (Mara, 2020). Segue fala de Gabriel  
sobre o assunto:  
Mais em, agora, eu vou falar, de tanto negócio, de tanto lote que tem aí, vazio  
aí, espalhado por aí, tanta pessoa que tá na rua, necessitando de uma casa, e as  
vezes a pessoa nem é usuária de droga e tá necessitando de uma casa. Aí, tanta  
pessoa com lote aí, aí abre uma coisa, abre outra, e a pessoa tem que ficar na  
rua, aí o povo, a comunidade, ainda reclama. Se eles pudessem comprar uma  
casa pra nóis, ou um lote, pelo menos, pra nóis construir, tava bom. Mais eles  
não faiz. Entendeu? [...] Tanto lote vazio aí, ninguém dá uma casa pro ser  
humano (Gabriel, 2020).  
Sobre a questão da moradia, a Resolução nº 40, de 2020, traz elementos sobre o assunto,  
no artigo 28: “O direito humano à moradia deve ser prioritário na elaboração e na  
implementação das políticas públicas, garantindo o acesso imediato à moradia segura, dispersa  
no território e integrada à comunidade” (Brasil, 2020).  
Santos e Medeiros (2016) indicam que no Brasil o aluguel social normalmente é  
associado a algo emergencial, temporário, e defendem a sua utilização de forma permanente,  
como ocorre em outros países, como França, Inglaterra e Estados Unidos. E nesses países existe  
um programa que visa à saída das pessoas em situação de rua oferecendo primeiro uma moradia  
e depois outros serviços. Jorge expõe a necessidade de sua concretização no Brasil:  
78  
Como a pessoa vai trabalhar, dormindo nas ruas, é, de carteira assinada, ou  
um trabalho por dia mais aí é, faz outros tipos de serviço, mesmo não sendo  
carteira assinada, como a pessoa vai conseguir tomar um banho, se tiver  
alguma doença, algum problema, como, se tiver um problema de uso abusivo  
de alguma substância, como o conceito do programa da Europa Moradia  
primeiro, que é o Housing First, eu não sei o nome mas depois você vai  
escrever certo, lá, é que fala que a maioria das pessoas que estão em  
dependência de álcool e outras drogas, são as que mais tiveram melhora ao  
dar a moradia, então lá, essa pessoa está na rua, o problema é que ele não tem  
casa, primeiro se dá a casa. Depois começa a se tratar os outros problemas por  
trás desse indivíduo que está nessa casa. Mas o primeiro é o teto. Então assim,  
isso valoriza a pessoa como ser humano. É, traz uma perspectiva de melhora  
na vida dessa pessoa (Jorge, 2020).  
O Housing First falado por Jorge é uma realidade em países europeus. A questão  
habitacional é um dos determinantes centrais no processo de rualização dos países centrais, e,  
ainda que esteja presente em países dependentes, a questão do trabalho possui uma centralidade  
maior. Nos dependentes, as pessoas costumam associar a falta de acesso à moradia à ausência  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
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de trabalho e acreditam que o trabalho mudará sua condição de vida, conforme evidenciado nos  
relatos.  
A ideia fulcral do Housing First é que a “solução” para os homeless é a moradia. Não  
simplesmente alojamento, abrigo, mas sim um local permanente para viver. E, além da moradia,  
oferece uma rede de serviços que envolve diversos profissionais, como psicólogos, assistentes  
sociais, médicos, com apoio para os que estão em sofrimento psíquico e os que consomem  
álcool e outras drogas, e a sua utilização não é obrigatória, mas uma escolha dos que utilizam  
o serviço de moradia (Naeh, 2019).  
Parte do princípio que a primeira questão a ser trabalhada é a moradia, e a partir dela os  
demais serviços necessários devem ser ofertados. Assim sendo, qualquer pessoa pode ser  
atendida pelo Housing First, inclusive os que vivem em sofrimento psíquico e os que  
consomem álcool e outras drogas. Tanto na Europa quanto no Canadá e nos Estados Unidos,  
pesquisas indicam que o programa funciona e demonstra bons resultados. Entre elas,  
destacamos a National At Home/Chez Soi, a qual contou com a participação de mil pessoas em  
situação de rua que usaram o programa. Mais de 80% delas permaneceram alojadas após um  
ano, e a maioria teve melhora em sua saúde, o que contribuiu para que usassem menos os  
serviços de saúde (Homelesshub, 2021).  
Um estudo feito nos EUA com 225 pessoas descobriu que 88% permaneceram por dois  
anos em moradias, quase o dobro quando comparado aos 47% atendidos por outros programas.  
No Reino Unido, perceberam, por meio de dados do programa Housing First, que o  
investimento público anual por pessoa em abrigos era superior ao investimento no supracitado  
programa.  
79  
O livro Housing First in Canada: Supporting Communities to End Homelessness,  
publicado em 2013, apresenta oito casos que defendem a eficácia do Housing First, em  
comparação a outras formas de lidar com a população em situação de rua, como o treatment  
first. Na Austrália, também foi constado o mesmo, e a pesquisa do local indicou que isso  
ocorreu porque os gastos com a saúde diminuíram (Ahuri, 2018).  
Normalmente, no Brasil15 e em demais países latino-americanos está presente a  
condicionalidade em políticas sociais que seguem a matriz residual16. Para acesso à política da  
15 O Brasil conta com projetos-piloto de Moradia Primeiro em Curitiba-PR e PortoAlegre-RS, conforme informado  
pelo Governo Federal. Ver mais em Brasil (2018).  
16  
A matriz residual, influenciada pela Teoria Funcionalista e pela Ideologia da Nova Direita, afasta-se da  
perspectiva do direito ao pautar-se pela focalização na extrema pobreza e condicionalidades em sua proteção  
social. Estão presentes como forma de organização dos Programas e Serviços as Redes, sob o mote da parceria  
público-privada. As políticas sociais são voltadas para aqueles que estão em risco ou vulnerabilidade. Marcam  
forte presença os programas de transferência de renda, com benefícios mínimos, pois, segundo o princípio da  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
habitação, por exemplo, é necessário cumprir uma série de critérios, o que impede uma pessoa  
que consome drogas de acessar o direito à moradia. Isso é o contrário do que preconiza o  
Housing First, e, conforme demonstrado pelos dados expostos, é um programa que obtém  
sucesso em contribuir com o combate à falta de moradia.  
Sem dúvida é uma proposta interessante, com resultados que chamam atenção, e os  
países latino-americanos carecem de um programa semelhante a esse, porém, diante da  
realidade brasileira enquanto país dependente, o qual possui uma superpopulação relativa ampla  
e cujas contradições do capital são ainda mais latentes, para um programa como esse trazer  
bons resultados em nossa realidade, a questão do trabalho precisa estar presente, assim como a  
renda básica. A moradia associada ao trabalho e à instituição de uma renda universal de  
cidadania traria um resultado significativo.  
O quinto ponto, com o qual encerraremos o debate do presente artigo, é o trabalho.  
“Souber de alguém que tem alguém pra trabalhar, tem um ali, ele trabalha. Vamos dar um voto  
de confiança. Né? Se é isso mesmo que a pessoa quer” (Mara, 2020).  
A demanda por trabalho apareceu repetidas vezes nas entrevistas, conforme segue: “Eu  
gostaria de dizer sabe o que? Esse, esse, esse tal governo que diz que tá pra entrar aí, alembrar  
das pessoas que tá na rua, arrumasse um lugar pra pessoa trabalhar” (Jair, 2020).  
O trabalho é visto como o caminho para conseguirem sair das ruas, permitindo-lhes  
alcançar os meios básicos de subsistência. E, conforme evidenciado por Mara e Marcos (2020)  
nas falas que seguem, o próprio trabalho informal pode ser esse elemento central para a saída  
das ruas.  
80  
Marcos: Armava uma barraca na Costa Pereira, Aí óh. Óh! (expressão de  
felicidade).  
Mara: Até numa barraca ele, pra ele já tava bom. Já estava debaixo de um  
teto.  
Marcos: Ah. Uma barraca éhhhhh. De roupa masculina, roupa feminina.  
Mara: Ah, você tá falando pra trabalhar?  
Marcos: É, pra trabalhar rapaiz.  
Identificamos nas entrevistas que, de forma geral, em todos os momentos da vida da  
população em situação de rua, o trabalho está presente. Em sua história passada, há trajetórias  
de inserção em diversos trabalhos, os quais possuem em comum a exigência de força física e a  
má remuneração.  
A questão do trabalho, indicando sua imprescindibilidade para a saída das ruas, foi um  
elemento fulcral em todas as entrevistas realizadas. Percebemos como um elemento marcante  
menor elegibilidade, precisa ser menor do que o pior salário. Ver mais em Pereira (2016) e Tiengo (2025).  
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para a ida para as ruas, e há uma ênfase associativa entre o trabalho assalariado17 e a estabilidade  
financeira suficiente para sanar suas necessidades básicas, pagar por alimentos, pelas contas de  
água, luz e telefone e pela moradia. Mesmo tendo passado por muitas dificuldades e inúmeras  
perdas, e inseridos em diversos trabalhos informais em situação de rua, a esperança de uma vida  
melhor, fora das ruas, está atrelada ao trabalho.  
A Resolução nº 40, de 2020, destaca no artigo 136:  
Os entes federados devem garantir às pessoas em situação de rua o direito  
humano ao trabalho, através de políticas públicas que promovam o acesso  
amplo, simplificado e seguro ao mundo do trabalho, de acordo com suas  
especificidades (Brasil, 2020).  
Sobre o acesso ao trabalho, a entrevistada conta: “todos que vêm falar com nóis, nóis  
pede emprego” (Mara, 2020). Quando perguntado sobre sua maior necessidade, ela respondeu:  
“É o trabalho. Se não eu não taria aqui não” (Mara, 2020).  
A resposta de Gabriel, que já foi acolhido em abrigos sobre o que ele poderia sugerir  
para a melhoria das instituições de acolhimento, foi a seguinte: “Ah, se pudesse oferecer  
serviço, trabalho pra nóis né? Trabalhar. Que aí nóis podia mudar de vida. Né? Sair, dar lugar  
praqueles os outros que precisam né” (Gabriel, 2020). A mesma pergunta feita a Marcos teve  
uma resposta bem parecida: “Rapaiz, arrumar pra um, como fala, éh éh, necessitaria seria  
emprego” (Marcos, 2020).  
81  
Embora conheçamos os problemas inerentes ao trabalho no capitalismo, com todas as  
suas contradições, trabalho assalariado, explorado, que serve ao enriquecimento alheio, ele é a  
fonte de sobrevivência daqueles que possuem somente sua própria força de trabalho para trocar  
no mercado de coisas, e passa por formas ainda mais precarizadas, como a informal. Diante  
disso, é inegável a fulcralidade do trabalho.  
Assim, indicamos que o trabalho com a população em situação de rua passa pelo  
trabalho, segundo as habilidades dos que vivem nas ruas, em diferentes áreas, em um contexto  
de um amplo plano elaborado, tendo em vista a melhoria dos serviços e programas voltados  
para os que passaram pelo processo de rualização. Para isso, é importante fazer pesquisas,  
entender quais foram os trabalhos anteriores à vida nas ruas, em quais áreas eles possuem  
experiência e quais os seus desejos profissionais. A partir daí, pensar estratégias de como podem  
ser não somente encaminhados a trabalhos, mas contratados.  
Considerando o baixo nível instrucional, é preciso pensar também sobre a questão  
educacional, proporcionando os meios necessários para aqueles que desejarem continuar os  
17 Ou mesmo informal, porém não no contexto daqueles tradicionais mais precários desenvolvidos nas ruas.  
Rualização em debate: vozes resistentes aos desafios da vida na rua e para além dela  
estudos. Para esse objetivo, é fundamental a colaboração intersetorial da política de educação,  
oferecendo cursos profissionalizantes; e a garantia de vagas em alguma forma de acolhimento  
durante o tempo que necessitarem para estudar, inclusive aos que passarem em faculdades,  
avaliando posteriormente como eles poderão ser contratados em algum trabalho segundo sua  
nova formação profissional.  
Considerações finais  
Conforme o primeiro ponto, observamos que o Brasil e outros países latino-americanos  
trabalham com uma concepção mais restrita de população em situação de rua do que os países  
europeus. Enquanto no primeiro há vinculação à utilização das ruas, praças, marquises e  
instituições de acolhimento para considerar a pessoa em situação de rua, o segundo, além  
desses, considera também os que vivem em moradias inadequadas, que não ofereçam segurança  
adequada e aqueles que vivem com familiares. No artigo, seguimos o conceito do governo  
brasileiro, considerando população em situação de rua como aqueles que utilizam efetivamente  
as ruas e instituições de acolhimento para pernoite.  
Com base na análise de conteúdo das entrevistas, observamos a necessidade de os  
entrevistados serem tratados como pessoas, reafirmando sua existência enquanto sujeitos de  
direitos. No tocante aos determinantes da situação de rua, os participantes da pesquisa  
expressam viver nas ruas por elementos motivadores diversos, tais como a perda do emprego,  
perda das relações familiares, perda da moradia, perda da capacidade laborativa. Nas ruas  
sofrem violências de todo tipo e apresentam projetos de vida associados ao trabalho, que lhes  
permita manter uma moradia e demais gastos que lhes mantenham o sustento.  
82  
A questão do trabalho é fundamental. É uma demanda das pessoas que vivem em  
situação de rua, e, ainda que tenhamos levantado questões relacionadas à exploração associada  
ao trabalho assalariado, representa a sobrevivência da classe trabalhadora, e é necessário pensar  
em estratégias que proporcionem trabalho para as pessoas em situação de rua.  
Outro fator importante é a moradia. A oferta de moradia no programa Housing First  
teve ótimos resultados nos países centrais em que foi implantado, e nos países dependentes é  
uma necessidade pensar em algo semelhante e que seja interligado com o trabalho.  
Referências  
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Conclusions and Recommendations. MCC Community Enterprise, 2018. Disponível em:  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 62-85, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Verônica Martins Tiengo  
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BAPTISTA, Isabel; MARLIER, Eric. Fighting homelessness and housing exclusion in Europe:  
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Acesso  
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População em Situação de Rua e seu Comitê Intersetorial de Acompanhamento e  
Monitoramento,  
e
dá  
outras  
providências.  
Disponível  
em:  
em: 10 maio 2024. 2009b.  
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