O legado da Reforma Urbana e sua incorporação nas agendas de lutas atuais (1980-2023)
A gente fez em São Paulo, [...] aquela Conferência Nacional pelo Direito à
Cidade. Foi uma forma, na verdade, dos movimentos continuarem vivos, se
mobilizando. [...] A gente tá dizendo que [...] nós não queremos o governo
[...]. Mas eu acho que a Conferência Nacional pelo Direito à Cidade que
aconteceu em São Paulo nos ajudou muito, [...] pra que a gente possa discutir
de forma autônoma [...]. Então, quanto mais autonomia o movimento tiver,
melhor. E isso fez com que a gente, na verdade, continuasse vivo (Militante
Paulo, 2025, grifo nosso).
Contudo, os/as entrevistados/as relatam também a importância do diálogo com o Estado,
em especial frente à necessidade de retomada dos conselhos gestores, que foram esvaziados por
Michel Temer e extintos por Jair Bolsonaro.
Outro elemento importante desse período conjuntural foi a chegada da pandemia de
COVID-19, em 2020. Nesse contexto de múltiplas crises, de agudização de desigualdades e
abandono do Estado, foi necessária a reformulação das lutas. As orientações diziam “fique em
casa, lave as mãos e os alimentos, e respeite o isolamento social”. Entretanto, o questionamento
dos movimentos girava em torno de “em que casa ficar?” Se as famílias estavam sendo
despejadas, entre outros questionamentos acentuados com a crise pandêmica.
Assim, os movimentos passaram a se organizar em redes de proteção, como a Campanha
Nacional Despejo Zero8, e solidariedade, por meio de campanhas para doações de alimentos,
produtos de limpeza destinadas às famílias da classe trabalhadoras, como citado pelos/as
entrevistados/as:
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Com a pandemia a gente viu a negação de direitos, que era o direito à vida,
com a negação da vacina, os deboches do presidente [...] enquanto várias
pessoas estavam morrendo. [...] pros movimentos sociais sobrou — de novo,
como sempre — essa trincheira de luta, de garantia de direitos, de garantia
de vida. E aí, enquanto todo o processo de saúde dizia ‘fique em casa’…e a
gente pensava: ‘e quem não tem casa, fica aonde?’. [...] pessoas em situação
de rua, [...] pessoas que pagavam aluguel e não tinham como se manter no
aluguel [...] pessoas que trabalham no mercado informal [...]. Então, [...] a
campanha Despejo Zero veio pra garantir o direito à vida de muita gente.
Fora outras garantias, como a distribuição de álcool, distribuição de alimento
[...] e dizendo contra o negacionismo, [...] que nós queríamos a vacina
(Militante Erika, 2025, grifo nosso).
A entrevistada Erika salienta que com o fim do período pandêmico, a campanha não se
desfez, tendo em vista, que com a contenção do vírus da COVID-19, foram retomadas as ações
8 A Campanha Nacional Despejo Zero foi lançada em julho de 2020 pelas redes sociais, sendo de caráter nacional
e composta por movimentos e organizações presentes na luta por moradia e direito a cidade. O objetivo da
campanha era a suspensão dos despejos e remoções forçadas durante a pandemia. Assim, ela foi responsável por
auxiliar juridicamente dezenas de famílias pelo Brasil. Além disso, a campanha foi essencial para a determinação
do Superior Tribunal Federal (STF) pela Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 828, que
impedia os processos de despejo e remoção forçada durante o período da pandemia. Sendo hoje uma campanha
que segue aglutinando forças em torno da luta por moradia e mapeando os conflitos fundiários no Brasil
(Campanha Nacional Despejo Zero, 2024).
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 410-433, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518