Na contramão do amanhã: o cenário neoconservador e os rumos do Serviço Social brasileiro
Insta sinalizarmos que neste cenário, muito embora haja linhas de continuidade no que
se refere à feição conservadora historicamente constituída na profissão, há, indiscutivelmente,
um conteúdo qualitativamente distinto, que se distancia do anticapitalismo inconsistente de
outrora e se aproxima, cada vez mais, do pensamento reacionário e neofascista que, por sua
vez, postula uma abordagem (ultra)neoliberal. Esse conteúdo, mediado pelas tecnologias
informacionais, encontra terreno fértil na fluidez das redes sociais, permitindo, como já
apontado, a partir de 2014, mas com maior significância a partir de 2016, a emergência de uma
movimentação e aglutinação de sujeitos profissionais em grupos com evidente silhueta
conservadora, autodenominados “Assistentes Sociais liberais”, “Serviço Social e Pluralismo”,
“Assistente Social de Direita” e “Serviço Social Libertário”.16
Ainda que tenhamos plena compreensão de que a realidade é dinâmica e que se constitui
a partir da permanente disputa de classes sociais e de seus projetos sociais, profissionais e suas
representações, causa perplexidade observar, no campo do Serviço Social, a pública
reivindicação de um projeto profissional supostamente neutro, apolítico e até, por vezes, a
explícita defesa de uma vertente político-econômica liberal e de direita, profundamente avessa
à direção social arduamente constituída e hoje perseguida pelos profissionais reconhecidamente
mais dotados da nossa área.
Indubitavelmente, essa aglutinação pública e progressiva ecoa o processo de ascensão
conservador experimentado nos últimos anos na sociedade brasileira, processo esse que parece
ter atingido seu clímax com a emergência do bolsonarismo, no bojo do processo progressivo
de fascistização das relações sociais. É neste cenário que ocorre, também, a propagação, por
parte do grupo “Serviço Social Libertário”, de uma plataforma denominada “23 teses para
reformar o Serviço Social”, elaboradas pelo professor Edson Marques Oliveira, graduado em
Serviço Social e coaching,17 que apregoa o “resgate da identidade e de uma cultura
202
16 A página da rede social Facebook autointitulada “Serviço Social Libertário” congrega estudantes, professores/as
e profissionais e é o grupo mais expressivo dessa tendência conservadora e reacionária. Criada em maio de 2016,
conta, até julho de 2025, com 6.200 seguidores que, aparentemente, se identificam com a seguinte apresentação:
“Serviço Social Libertário propõe difundir as ideias liberais, a partir dos principais temas discutidos nas áreas
sociais, econômicas, políticas e culturais”. A página difunde conteúdos de think tanks e plataformas de direita,
como o Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp) e o Instituto Von Mises Brasil (Silveira, 2022). Além disso, se
posicionou em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa eleitoral de 2018, assim como reproduziu seus
conteúdos negacionistas durante a pandemia da Covid-19. Nos últimos quase dois anos, a página não apresentou
movimentação pública (Serviço Social Libertário, 2016).
17 Em consonância com sua autodeclaração na Plataforma Lattes, Edson Marques Oliveira é graduado em Serviço
Social pela instituição privada Faculdade Paulista de Serviço Social e doutor pela Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho. Atualmente é professor associado do curso de Serviço Social da Universidade Estadual
do Oeste do Paraná – Unioeste, do campus de Toledo-PR. Entre os temas que tem debatido, destacamos:
empreendedorismo social, responsabilidade social empresarial, formação em Serviço Social EaD, coaching
executivo – de vida, carreira e social (Oliveira, 2025).
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 190-210, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518