História e memória da e na formação em Serviço Social na Universidade Federal do Piauí e sua interlocução com
o campo da saúde mental
proposições e concepções da formação profissional em Serviço Social” (Iamamoto; César;
Melo, 2023, p. 11).
Essa nova perspectiva buscava uma formação que proporcionasse bases com maior
densidade ao futuro assistente social, preparando-o para sua ação como um profissional mais
crítico, reflexivo e interventivo, tendo em vista que, como assinala Iamamoto (2014, p. 611),
“o exercício da profissão exige um sujeito profissional que tenha competência para propor e
negociar com a instituição os seus projetos, para defender o seu campo de trabalho, suas
qualificações e atribuições profissionais”. Derivado das formulações sobre a formação
profissional, em âmbito nacional, que já pautavam a necessária relação entre teoria, método e
história, o empreendimento coletivo e instituinte da construção do Currículo II de 1987, na
UFPI, e do Currículo III aprovado em 1994, com vigência até o ano de 2006, assumiu contornos
singulares nos quais se ancorava o Currículo Mínimo de 1982. Assinala Pereira (2024, p. 2018):
[...] com o novo currículo, o processo formativo da UFPI passava a romper
com uma perspectiva mais tradicional e conservadora da profissão e adotava
uma orientação crítica, que compreendia o Serviço Social inserido na
realidade sócio-histórica, claramente influenciada pela corrente de
pensamento marxista.
Essa direção7 na formação profissional dá-se principalmente com o Movimento de
Reconceituação. De acordo com Iamamoto (2015), este movimento é “dominado pela
contestação ao tradicionalismo profissional e implicou um questionamento global da profissão:
de seus fundamentos ídeo-teóricos, de suas raízes sociopolíticas, da direção social da prática
profissional e de seu modus operandi” (p. 205), momento esse em que a profissão buscava
fortalecer as dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa.
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Cumpre assinalar, a importância no que tange à articulação entre o Movimento de Reconceituação na América
Latina e a Renovação do Serviço Social no Brasil. Conforme assinalam Moljo, Silva e Zampani (2017, p. 120)
“não pode ser unicamente explicado a partir de um movimento interno à profissão (reeditando certo tipo de
endogenia), como um protagonismo exclusivo de seus profissionais e vanguardas empenhadas em reconceituar
teórica, prática e metodologicamente o Serviço Social em suas respectivas realidades”. Nessa perspectiva, o
Movimento de Reconceituação, como afirma Netto (1981, p. 60) foi “geograficamente bem definido e
historicamente datado: ocorreu no continente latino-americano em um período situado, no geral, entre 1965-1975”,
e tinha como proposta contestar as teses do Serviço Social tradicional, ou seja, aquele estruturalmente vinculado
às protoformas desta profissão. De acordo com Batistoni (2017, p. 137), “a compreensão do seu processo na
particularidade brasileira exige que o mesmo seja historicizado face ao significado econômico-social da Ditadura
Civil Militar (1964-1985), em sua constituição, crise e desdobramentos na ‘transição democrática’, bem como as
implicações da natureza do Estado autocrático, do novo padrão de acumulação e de dominação sobre as classes
trabalhadoras. No Brasil, a Reconceituação assumiu a perspectiva hegemônica de uma modernização conservadora
e tecnocrática, expressa nas sistematizações teóricas dos Documentos de Araxá e de Teresópolis, com traços de
funcionalidade com o regime autocrático”. Esse período representou um marco histórico significativo para o
Serviço Social brasileiro, uma vez que explicita a construção de um processo de ‘revisão profissional’, tanto no
âmbito da formação quanto do exercício profissional, entrelaçado à conjuntura socioeconômica e política
brasileira, que incide, diretamente, nos processos organizativos e formativos dos assistentes sociais, no contexto
de Ditadura Militar” (Portes; Portes, 2018, p. 216).
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 278-301, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518