O debate da cultura na formação em Serviço  
Social nas universidades públicas em  
Minas Gerais  
The debate on culture in Social Work training at  
public universities in Minas Gerais  
Fernanda Correa Almeida Rodrigues Penido*  
Leonardo Nogueira**  
Resumo: O presente artigo objetiva analisar o  
tema da cultura na formação profissional em  
Serviço Social nas universidades públicas de  
Minas Gerais. A investigação se deu a partir do  
uso de distintas metodologias de pesquisa, a  
saber, pesquisa bibliográfica, estado da arte da  
produção sobre cultura em periódicos  
previamente selecionadas no período de 2013 a  
2023, e pesquisa documental nos projetos  
pedagógicos de instituições de ensino públicas  
mineiras. O artigo apresenta duas seções, a  
primeira destinada ao estudo da dimensão  
cultural na formação social brasileira e a  
segunda detalha os achados da pesquisa sobre o  
modo como o tema da cultura é tratado nos  
cursos de graduação em Serviço Social em  
Minas Gerais. Por fim, as considerações finais  
indicam que a cultura não foi devidamente  
incorporada à formação profissional após a  
implementação das Diretrizes Curriculares da  
ABEPSS de 1996, evidenciando o parco  
tratamento da temática nos cursos de graduação  
e na produção do conhecimento na referida área.  
Abstract: This article aims to analyze the theme  
of culture in professional training in Social  
Work at public universities in Minas Gerais. The  
investigation was conducted using different  
research methodologies, namely, bibliographic  
research, a state-of-the-art review of production  
on culture in previously selected journals from  
2013 to 2023, and documentary research on the  
pedagogical projects of public educational  
institutions in Minas Gerais. The article is  
structured in two sections: the first specifically  
focused on the study of the cultural dimension  
in Brazilian social formation, and the second  
detailing the research results on how the theme  
of culture is addressed in undergraduate Social  
Work courses in Minas Gerais. Finally, the  
concluding remarks indicate that culture has not  
been adequately incorporated into professional  
training after the implementation of the  
ABEPSS Curriculum Guidelines of 1996,  
highlighting the treatment of the theme in  
undergraduate courses and in the production of  
knowledge in this area.  
Palavras-chave: Cultura; Serviço Social;  
Keywords: Culture; Social Work; Minas  
Gerais; Professional qualification; Brazilian  
cultural qualification.  
Minas  
Gerais;  
Formação  
profissional;  
Formação cultural brasileira.  
* Universidade Federal de Ouro Preto. E-mail: fernanda.penido@aluno.ufop.edu.br  
** Universidade Federal de Ouro Preto. E-mail: leonardonogueira@ufop.edu.br  
DOI: 10.34019/1980-8518.2026.v26.49018  
Esta obra está licenciada sob os termos  
Recebido em: 04/06/2025  
Aprovado em: 15/04/2026  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
Introdução  
O presente artigo é fruto do projeto de Iniciação Científica intitulado "Cultura e  
formação profissional em Serviço Social", que foi desenvolvido no âmbito da Universidade  
Federal de Ouro Preto, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento  
Científico e Tecnológico (CNPq). Ele surge a partir da necessidade de compreender o papel  
que a cultura desempenha tanto na formação quanto na prática do assistente social. O artigo  
examina a forma como as universidades públicas mineiras têm inserido o debate sobre a cultura  
em seus currículos, bem como as implicações dessa abordagem na produção acadêmica na área.  
A relevância do tema está diretamente relacionada à compreensão de que o Serviço Social,  
sendo uma profissão que intervém em realidades marcadas pelas múltiplas expressões da  
questão social, necessita apreender o modo como a dimensão cultural atravessa sua prática  
profissional e a realidade social.  
A metodologia utilizada no presente trabalho debruçou-se sobre uma perspectiva  
crítico-dialética de investigação, orientada pela compreensão de que o conhecimento do objeto  
exige a apreensão de seu movimento real para além da aparência imediata, conforme indica  
Netto (2011). Para tanto, articularam-se três procedimentos metodológicos principais: a  
pesquisa bibliográfica, o estado da arte e a pesquisa documental. A pesquisa bibliográfica foi  
concebida como um processo teórico-prático fundamentado em procedimentos que permitiram  
aproximações com a realidade investigada, a saber dos sucessivos encontros do grupo de  
pesquisa “Trem da História”, para debater temas relacionados à formação social brasileira.  
Complementarmente, a técnica de estado da arte possibilitou o levantamento, a organização e  
a análise da produção acadêmica sobre a temática da cultura no âmbito do Serviço Social,  
destacando alguns periódicos com incidência nacional e estadual, permitindo a identificação  
das abordagens predominantes e das lacunas existentes no campo. Por fim, a pesquisa  
documental concentrou-se na análise de documentos oficiais e projetos pedagógicos dos cursos  
de graduação em Serviço Social das universidades públicas mineiras, entendidos como fontes  
primárias fundamentais para a compreensão da formação profissional. A articulação dessas  
metodologias assegurou rigor teórico e metodológico à análise desenvolvida, possibilitando  
uma abordagem crítica e sistemática do objeto de estudo.  
258  
No âmbito deste trabalho, a cultura é compreendida como dimensão constitutiva da vida  
social, materializada nas práticas cotidianas, nas formas de sociabilidade, nos valores e em seu  
percurso histórico. Ela integra o processo de organização da experiência coletiva, incidindo  
diretamente sobre os modos de vida, as relações de poder e as estratégias de resistência  
construídas pelos sujeitos sociais. Assim, a apreensão da cultura de maneira isolada das outras  
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dimensões da vida social (economia e política) não é possível (Williams, 1979) visto que sua  
análise requer a consideração das relações produtivas e sociais que sustentam a formação social  
e se estabelecem em um determinado momento histórico (Bezerra, 2006).  
Quanto à inserção da temática na formação profissional em Serviço Social, observa-se  
que a ABEPSS (1996) recomenda o estudo da temática como elemento indissociável da  
formação. Bezerra e Bruziguessi (2019) chamam a atenção para a necessidade de se aprofundar  
o debate cultural no Serviço Social, considerando sua particularidade na formação social  
brasileira, não apenas no campo das elaborações teóricas, mas também no que se refere aos  
fundamentos da profissão.  
Diante desse panorama, o presente artigo visa contribuir para o aprofundamento do  
debate acerca da inserção da dimensão cultural na formação de assistentes sociais. Ao examinar  
como a cultura tem sido abordada nos currículos e as implicações dessa abordagem na produção  
acadêmica e nas práticas profissionais, esta pesquisa evidencia a necessidade de uma integração  
mais efetiva da cultura como elemento constitutivo e necessário à formação em Serviço Social,  
reforçando a importância de uma análise cultural crítica, a fim de que os profissionais formados  
na área sejam capazes de intervir de maneira qualificada e contextualizada nas diversas  
expressões da questão social.  
259  
A cultura na formação social do Brasil  
Compreender a cultura a partir da ótica marxista exige uma análise que integre, de  
maneira coerente, os aspectos materiais e sociais que estruturam e transformam a sociedade.  
Conforme Teixeira (2019) o método, na teoria social de Marx, é baseado na compreensão da  
realidade em sua totalidade dinâmica, histórica e contraditória, logo toda e qualquer  
investigação deve partir do real para o concreto pensado1, da aparência para a essência, de modo  
a compreender que a teoria resultante traduz a particularidade da realidade objetiva. Assim, a  
cultura emerge dessas relações materiais e historicamente constituídas, sendo moldada pela  
maneira como o trabalho2, enquanto categoria central, organiza a vida dos indivíduos e da  
1
De acordo com Marx (1986), o método de ascender do abstrato ao concreto é um processo mental pelo qual o  
pensamento sistematiza e reconstrói a realidade concreta. Esse procedimento permite que o pensamento não apenas  
compreenda, mas também recrie a complexidade do real em sua forma conceitual, ou seja, como um concreto  
pensado.  
2
Cabe sinalizar que a ressignificação do trabalho, quando inserido no modo de produção capitalista, altera toda  
sua concepção enquanto categoria do ser social. Nesse contexto, o trabalhador não se reconhece e nem se identifica  
no produto do seu trabalho visto que ele se transforma em mercadoria de modo a gerar certo estranhamento. Assim,  
o trabalho deixa de ser apenas um pôr teleológico e passa a ser uma atividade de exploração subordinada ao lucro.  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
sociedade. O trabalho, entendido como a atividade humana fundamental, não apenas transforma  
a natureza, mas também define as relações sociais e, consequentemente, reverbera na cultura.  
Como aponta Netto e Braz (2006), o “modo de ser dos homens e da sociedade” está  
fortemente ligado à forma como o trabalho se estrutura. A categoria trabalho, portanto, vai além  
da interação física entre o ser humano e a natureza; envolvendo as variadas relações sociais que  
definem as estruturas de poder, dominação e resistência. O trabalho, nesse sentido, não só  
satisfaz necessidades imediatas como, por exemplo, a sobrevivência material, mas também  
necessidades mediatas, como a construção de valores, tradições e práticas culturais. É a partir  
dessa interação dialética entre o trabalho e as relações sociais que a cultura se forma, como uma  
síntese das condições objetivas e subjetivas de existência. Bezerra (2006) destaca que a cultura  
é um desdobramento do trabalho capaz de refletir como as pessoas produzem, reproduzem e  
transformam suas condições de vida, sendo uma esfera constitutiva do ser social e da vida  
social.3  
Assim, é certo dizer que a manifestação cultural não ocorre no vácuo, ela está enraizada  
na realidade objetiva das condições de produção e reprodução da vida social. Essa realidade,  
para que seja melhor compreendida, exige que a ideia de sociedade civil, enquanto espaço onde  
se travam disputas ideológicas e políticas, seja delineada. Segundo Coutinho (2011), a  
sociedade civil emerge como um espaço onde se formam ideologias, práticas culturais e opinião  
pública, com diferentes grupos sociais disputando o direcionamento da sociedade e a influência  
nas instituições do Estado Ampliado4. Nesse cenário, se faz presente uma certa autonomia das  
organizações da sociedade civil, em relação ao Estado, que propicia uma nova dinâmica na  
organização da cultura (Coutinho, 2011), transformando-a em um campo de batalha que disputa  
a hegemonia política e ideológica. É importante enunciar que a organização da cultura consiste  
em um “sistema das instituições da sociedade civil cuja função dominante é a de concretizar o  
papel da cultura na reprodução ou na transformação da sociedade como um todo” (Coutinho,  
260  
3 Também é importante observar que no contexto capitalista, o trabalho ultrapassa seu papel na produção de valores  
de uso, visando atender necessidades individuais e sociais previamente planejadas, assumindo um valor de troca,  
indispensável à produção de excedente e à reprodução do capital. Quando essa nova concepção de trabalho atinge  
centralidade nas relações sociais ocorrem impactos drásticos traduzidos na ocorrência crescente de fenômenos  
como individualização, fetichização, estranhamento, alienação e exploração, que fragilizam e tornam superficial  
as interações sociais.  
4
A noção de Estado Ampliado compreende o Estado como uma realidade duplo-dimensional, resultante da  
articulação entre sociedade política e sociedade civil (Coutinho, 1992). A sociedade política corresponde ao  
conjunto de aparelhos estatais responsáveis pelo exercício direto da dominação, isto é, pelas funções jurídico-  
administrativa e coercitivas (ex.: governo, forças armadas, sistema jurídico, aparato policial e etc.), que garantem  
a manutenção da ordem e a aplicação das leis. Já a sociedade civil é composta pelo conjunto de organismos  
responsáveis pela produção e difusão de consensos, como escolas, igrejas, meios de comunicação, partidos,  
sindicatos e associações diversas. Nessa dimensão, a dominação se realiza predominantemente pela direção moral  
e intelectual, isto é, pela construção da hegemonia.  
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2011, p. 17). Assim, pode-se dizer que o sistema de organização da cultura é atravessado pela  
luta de distintas camadas sociais, fundamentada por batalhas de ideias que destacam a cultura  
como um espaço de disputa, a qual não pode existir, de maneira autônoma e pluralista, sem uma  
extensa rede de organismos culturais (Coutinho, 2011).  
Diante dessas considerações acerca da compreensão de cultura, toma-se como  
referência para o debate os estudos sobre aspectos particulares da formação cultural brasileira  
marcada pelo encontro e pelo confronto entre diferentes matrizes étnicas e culturais. Ribeiro  
(2015) propõe uma abordagem que destaca o impacto do cruzamento entre as matrizes  
indígenas, africanas e portuguesas na constituição do povo brasileiro, resultando em uma  
cultura particular ante a formação cultural de cada uma delas:  
Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais  
díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se  
enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo (Ribeiro 1970), num  
novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia  
nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente  
mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela  
redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo porque se vê a si  
mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de  
quantos existam (Ribeiro, 2015, p. 10).  
Contudo, esse processo não foi isento de violência e dominação. Sodré (1980) enfatiza  
que a aculturação5 forçada, operada durante o período colonial, submeteu as populações  
indígenas e africanas aos valores culturais europeus, com o objetivo de suprimir suas tradições  
e identidades. Isso é retratado por Gruzinski (2001) ao afirmar que as mestiçagens, responsáveis  
pela formação do “povo novo” (Ribeiro, 2015), se consolidaram a partir de dois marcos  
ocorridos na América Latina durante o século XV, sendo o primeiro o “choque da conquista”,  
referente à invasão portuguesa, e o segundo a ocidentalização, que diz respeito a transplantação  
cultural (Sodré, 1980).  
261  
Nesse sentido, o processo de gestação étnica do povo brasileiro, conforme descrito por  
Ribeiro (2015), foi inicialmente caracterizado pelas práticas do chamado “cunhadismo”. Os  
europeus, ao se integrarem às comunidades indígenas por meio de casamentos forçados com  
mulheres locais, usavam a tradição indígena, que conferia a eles o status de membros das tribos  
após o casamento, para se apropriar das terras e recrutar mão de obra. Neste quadro, opera-se o  
5 A aculturação se fundamentou a partir da “transplantação” de elementos que eram convenientes aos organismos  
metropolitanos portugueses, no organismo colonial (Sodré, 1961). É importante ressaltar que segundo Gruzinski  
(2001), as mestiçagens não podem ser reduzidas a um fenômeno cultural sem que seja considerado seus laços com  
a conquista e a ocidentalização, e evidenciado a natureza desses laços. “Se nem todas as mestiçagens nascem  
necessariamente de uma de uma Conquista, as desencadeadas pela expansão colonial na América iniciam-se  
invariavelmente sobre os escombros de uma derrota” (Gruzinski, 2001, p. 64).  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
que Ribeiro (2015) denominou como “desindianização”, uma tentativa de erradicação,  
marginalização da identidade indígena podendo resultar em perda cultural, escravização,  
guerras de extermínio, enfermidades, entre outras formas de violência.  
No contexto da invasão colonial, se pode afirmar que o chamado processo de  
transplantação da cultura da metrópole portuguesa para o Brasil (Sodré, 1980) ocorreu, também,  
na esteira do que Ribeiro (2015) caracterizou como “deculturação” dos povos nativos e  
subjugados. Essa dinâmica teve como objetivo a imposição de uma cultura dominante,  
exterminando modos de vida, idiomas, territórios e povos. Portanto, a formação do povo  
brasileiro, e suas características sócio-históricas “novas”, ocorreu de modo complexo,  
envolvendo o apagamento de tradições culturais dos povos subjugados pelo colonizador, ao  
passo que também expressou um profundo processo de reelaboração da cultura, dado que o  
resultado deste processo não se deu de modo meramente refletido da matriz cultural lusitana.  
Quanto ao papel decisivo de negros e negras escravizados no Brasil na constituição da  
cultura nacional, Ribeiro (2015, p. 100) ressalta que  
[...] a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi,  
ainda é, a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na  
sociedade nacional. Nela se viu incorporado à força. Ajudou a construí-la e,  
nesse esforço, se desfez, mas, ao fim, só nela sabia viver, em razão de sua total  
desafricanização. A primeira tarefa cultural do negro brasileiro foi a de  
aprender a falar o português que ouvia nos berros do capataz. Teve de fazê-lo  
para comunicar-se com seus companheiros de desterro, oriundos de diferentes  
povos. Fazendo-o, se reumanizou, começando a sair da condição de bem  
semovente, mero animal ou força energética para o trabalho. Conseguindo  
miraculosamente dominar a nova língua, não só a refez, emprestando  
singularidade ao português do Brasil, mas também possibilitou sua difusão  
por todo o território, uma vez que nas outras áreas se falava principalmente a  
língua dos índios, o tupi-guarani.  
262  
Prado Jr. (2011) argumenta que o verdadeiro sentido da colonização era econômico,  
voltado para a extração de riquezas e para o comércio internacional, o que moldou toda a  
estrutura social e econômica do Brasil colonial. O processo de colonização, como observa Prado  
Jr. (2011, p. 16), foi fundamental para consolidar um “conjunto que não é senão um capítulo da  
história do comércio europeu”. Nesse sentido, a integração subordinada do Brasil à economia  
mundial foi exercida dentro de uma estrutura social marcada pela relação de dependência. A  
formação de uma economia atada ao trio monocultura-escravismo-latifúndio (Prado Jr., 2011;  
Moura, 2014) não apenas atendeu aos interesses dos mercados europeus, mas também  
consolidou um modelo de desenvolvimento que perpetuou a subordinação do Brasil no sistema  
capitalista global. Assim, o colonialismo brasileiro pode ser compreendido como um processo  
que colaborou com o desenvolvimento da acumulação primitiva de capital europeia, visto que  
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a “descoberta das terras do ouro e da prata, na América, o extermínio, a escravização [...] a  
transformação da África em um cercado para a caça comercial às peles negras marcam a aurora  
da era de produção capitalista” (Marx, 1996, p. 370).  
Gorender (2016), por sua vez, analisou esse período e concluiu que se constituiu no  
Brasil um modo de produção escravista colonial. Este sistema, diferente do escravismo clássico  
ou do feudalismo europeu, adaptou-se às necessidades do colonialismo e à lógica mercantilista,  
consolidando um regime de exploração que integrava o Brasil ao circuito global de acumulação  
de capital. A escravização, inicialmente da força de trabalho indígena e, posteriormente,  
africana foi a base desse modelo econômico, que se sustentava na exploração intensiva e  
extensiva dos recursos naturais e na subordinação completa das populações locais aos interesses  
mercantis dos colonizadores.  
Para uma compreensão mais particular desse contexto colonial, o cenário de Minas  
Gerais se torna um referencial significativo, em especial neste trabalho que aborda a formação  
profissional de assistentes sociais neste estado. De acordo com Paula (2020), Minas Gerais  
podia ser vista como uma síntese do que ocorria no Brasil, ao mesmo tempo que era referência  
para as inovações que surgiam na época. Um exemplo disso é o processo de descoberta do ouro  
na região, no final do século XVII, que gerou profundas implicações econômicas, sociais e  
políticas tanto para Minas quanto para a Metrópole Portuguesa.  
263  
Esse processo, devido à facilidade de acesso ao chamado ouro de aluvião, encontrado  
nos rios, atraiu um crescente número de pessoas de diversas partes do Brasil e do mundo para  
ocupação do território mineiro. Com uma maior circulação na região, e a migração na área, o  
processo de urbanização emerge, acompanhado da diversificação econômica que incluía a  
expansão da agropecuária, atividades manufatureiras e de serviços, além da própria mineração  
(Paula, 2020). No século XVIII, a produção de ouro em Minas Gerais superou toda a produção  
mundial anterior, dinamizando a economia europeia durante a Revolução Industrial (Paula,  
2020). Esses movimentos, ao acompanharem o crescimento da região, possibilitaram a  
permanência de distintos grupos, e consequentemente, promoveram uma interação cultural que  
contribuiu para a formação de uma identidade própria e única. Noutros termos, “Minas Gerais,  
no período colonial, constituiu-se em um sistema cultural, isto é, uma estrutura tripartite  
composta por produtores de bens simbólicos, consumidores desses bens e veículos que  
permitem a circulação desses bens” (Cândido, 1964 apud Paula, 2020, p. 75).  
A cultura que floresceu em Minas Gerais durante o século XVIII foi marcada por uma  
intensa produção artística e literária. Em um contexto de economia dinâmica e diversificada,  
onde a urbanização avançava e a diversidade do trabalho se ampliava, um sistema cultural  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
substancial emergiu. Consoante a Paula (2020), esse sistema não se limitava aos grandes nomes  
da época, mas incluía uma vasta rede de artistas anônimos que, embora menos reconhecidos,  
desempenharam papéis essenciais na formação e circulação dos bens culturais. Esse ambiente  
criativo deu origem a obras de notável alcance, posicionando Minas Gerais como um polo  
cultural de relevância dentro do cenário colonial, como pode ser constatado no âmbito da  
arquitetura, da pintura, escultura, música e das letras, influenciadas pelo que se pode denominar  
de barroco mineiro.  
Neste exercício de argumentação aqui proposto, é certo dizer que a colonização não se  
limitou ao povoamento ou à exploração econômica das terras invadidas; ela envolveu um  
projeto de dominação cultural e ideológica que buscou anular as identidades dos povos  
originários e africanos para consolidar o controle sobre eles. A adaptação forçada dos  
escravizados aos valores e às práticas do sistema escravista criou zonas de estabilidade relativa,  
mas também alimentou processos de resistência cultural. Essa submissão cultural era  
extremamente violenta, onde os portugueses ocupavam a terra e subjugavam os habitantes,  
impedindo o desenvolvimento autônomo dessas culturas a partir de ferramentas de dominação  
das quais não era possível os escravizados superarem (Moura, 2014).  
Dessa forma, a imposição dos valores portugueses sobre a população escravizada  
resultava na submissão às normas dos colonizadores e na supressão de suas próprias tradições  
culturais, onde muitos aspectos da cultura indígena e africana eram proibidos, desde línguas  
nativas até rituais religiosos. Esse processo refletia as tentativas de erradicação das identidades  
culturais dos escravizados que tinham o intuito de desumanizá-los e facilitar seu controle.  
Contudo, a despeito de toda violência e arbítrio, os povos indígenas e africanos conseguiram  
preservar e ressignificar muitos de seus elementos culturais. Ribeiro (2015) aponta que, mesmo  
sob intensa pressão assimilacionista, as populações subjugadas mantiveram vivas suas  
tradições, adaptando-as e recriando-as em novos contextos. A cultura, nesse sentido, se revela  
como uma esfera dinâmica e transformadora, capaz de resistir à tentativa de apagamento e de  
emergir de formas reinventadas. Essa capacidade de reinvenção é uma característica central da  
cultura, que, ao mesmo tempo em que expressa as condições materiais de existência, também  
carrega a potencialidade de subverter e transformar essas condições.  
264  
Além dos elementos aqui trabalhados, também é possível acrescentar que as  
especificidades da colonização portuguesa no Brasil foram imprescindíveis ao desenvolvimento  
e a consolidação capitalista na Europa. Quanto à realidade brasileira, Fernandes (2020)  
argumenta que a dependência econômica e a ausência de uma ruptura com o estatuto colonial  
moldaram uma sociedade brasileira marcada pela exclusão social e pela ausência de projetos  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 257-277, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Fernanda Correa Almeida Rodrigues Penido; Leonardo Nogueira Alves  
nacionais autônomos, de modo a reafirmar a situação de dependência e constituir uma sociedade  
desigual definida por uma “particularidade” que caracteriza o país como um lugar  
heteronômico, sem desenvolvimento de projetos de Nação e contra a emersão de agências  
portadoras de interesses coletivos na sociedade civil (Netto, 2005).6  
Nesta direção, deve-se considerar que a dependência econômica enfrentada pelo Brasil  
é amplamente atribuída à sua incorporação subordinada ao espaço econômico, cultural e  
político das nações capitalistas hegemônicas. Fernandes (1973) acrescenta que essa situação  
era decorrente da incapacidade estrutural dos países latino-americanos em resistir a esse  
processo de subordinação, decorrente do atraso7 histórico enfrentado pela região em relação aos  
países de capitalismo central. O ritmo acelerado de transformações, provenientes desse modo  
de produção, supera as potencialidades de desenvolvimento das nações latino-americanas  
(Fernandes, 1973). Esse descompasso, entre as dinâmicas do capitalismo global e as condições  
históricas desses países, refletia na condição de dependência.  
Portanto, “as alterações políticas condicionaram a reorganização da sociedade e da  
economia, inserindo as estruturas econômicas coloniais dentro de um mercado interno”  
(Fernandes, 2020, p. 115). O amadurecimento da sociedade capitalista provocou a emergência  
de novos parâmetros no âmbito da cultura. No campo das artes, por exemplo, ocorre uma  
prevalência dos produtos artísticos como expressão exclusiva do entretenimento e do lazer  
(Scherer, 2016). A indústria cultural, controlada pelos interesses do capitalismo, desempenha  
um papel crucial nesse processo, promovendo uma simplificação e mercantilização das  
expressões culturais que, a serviço do mercado capitalista, oblitera sua relevância como  
importante expressão da vida humana.  
265  
Os marcos teóricos sinalizados até aqui proporcionam uma apreensão introdutória das  
particularidades que envolvem a formação social do Brasil no campo da cultura, um verdadeiro  
solo fértil para compreensão da realidade brasileira e dos desafios que atravessam a formação  
e o trabalho de assistentes sociais. Isto posto, acredita-se que é possível adentrar nos achados  
da pesquisa no que tange à temática da cultura na formação de assistentes sociais. Trata-se de  
uma área com inúmeras possibilidades de investigação, reflexão e práxis na direção do  
fortalecimento do Serviço Social brasileiro.  
6 Nas palavras de Fernandes (2020, p. 111), “embora organizada através de uma ordem legal e política controlada  
de dentro e para dentro, a economia brasileira produzia para fora e consumia para fora”.  
7 Um exemplo concreto desse atraso pode ser observado na infraestrutura e no desenvolvimento tecnológico das  
demais regiões. Enquanto países europeus desfrutavam de extensas redes ferroviárias e avanços tecnológicos, no  
século XIX, o Brasil e outros países latino-americanos enfrentavam sérias limitações nesses aspectos até o século  
XX. Essa defasagem estrutural dificultou os esforços desses países em industrializar e modernizar suas economias,  
de modo a conservar sua dependência em relação aos países de capitalismo central.  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
Cultura e formação em Serviço Social  
A cultura configura-se a partir de múltiplas determinações que caracterizam distintos  
grupos, sociabilidades, modos de vida e expressões sociais. Nesse sentido, ela desenvolve a  
capacidade de fazer com que as pessoas enxerguem umas às outras, enquanto indivíduos  
inseridos em uma totalidade, e comuniquem-se através de suas diferenças, de modo a compor  
uma categoria plural, que revela a diversidade. A cultura, portanto, é um fenômeno inacabado,  
em constante movimento e elaboração, em consonância com a própria dinâmica da realidade  
histórica-social.  
Essa compreensão do caráter dinâmico e historicamente situado da cultura preside e  
inspira o tratamento da relação entre o Serviço Social e a cultura. Tendo em vista a necessidade  
de compreender a maneira como essa temática está presente na formação profissional em  
Serviço Social, foi necessário lançar mão de metodologias variadas, observando a diversidade  
de fontes acessadas na fase da pesquisa exploratória. Valendo-se da pesquisa bibliográfica, do  
estado da arte e da pesquisa documental nos Projetos Político Pedagógicos de instituições de  
ensino públicas de Minas Gerais, foi possível evidenciar alguns traços do modo como o tema  
da cultura compareceu na formação profissional.  
O primeiro elemento apresentado neste artigo se refere aos achados na investigação  
sobre o panorama da produção acadêmica do Serviço Social sobre cultura. Para isso, foram  
selecionadas quatro revistas, sendo duas de referência e notabilidade nacional (Serviço Social  
e Sociedade e Temporalis) e duas revistas de relevância destacada para a profissão em Minas  
Gerais (Libertas e Serviço Social em Perspectiva). As buscas foram realizadas nos sites das  
próprias revistas, sendo identificados 809 publicações nas mesmas entre 2013 e 2023,  
totalizando um período de 11 anos. Foram identificados apenas 13 artigos sobre a temática da  
cultura, totalizando 1,6% dos trabalhos mapeados.  
266  
Dentre os 13 artigos identificados, 5 (38,4%) exploraram a cultura em uma relação  
direta com o Serviço Social, abordando tópicos como a atuação profissional, as diretrizes  
curriculares para a formação, as lutas sociais e a militância, temas que refletem uma  
preocupação em situar a cultura como um componente importante no desenvolvimento de uma  
prática profissional crítica e alinhada com a classe trabalhadora. Já os outros 08 (61,5%)  
ampliaram o foco para temas mais genéricos afeitos à relação cultura e sociedade, com algumas  
menções à profissão.  
A revista com maior quantidade de trabalhos publicados sobre a temática cultural é a  
Temporalis, com o total de 06 publicações; em seguida tem-se a revista Libertas, com 03  
artigos, e depois, as revistas Serviço Social e Sociedade; e Serviço Social em Perspectiva com  
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Fernanda Correa Almeida Rodrigues Penido; Leonardo Nogueira Alves  
o total de 02 publicações cada. Esses dados, portanto, revelam o pouco tratamento teórico do  
tema no âmbito do Serviço Social. Ademais, observa-se um ritmo de publicação inconstante,  
dado que ao longo da década, dois anos concentraram o maior número de trabalho, sendo 2017  
(com 5 artigos) e 2023 (com 4 artigos). A predominância das revistas Temporalis e Libertas na  
produção sobre cultura pode indicar, também, maior abertura editorial à publicação de  
pesquisas com o tema da cultura. Em suma, esse panorama revela a baixa aderência da temática  
nas revistas especializadas da área, chamando atenção para o fato de que a discussão sobre  
cultura não é nova e nem lateral na formação em Serviço Social, muito menos no campo das  
ciências sociais.  
A revista Temporalis se destaca tanto pela quantidade de artigos sobre a temática  
cultural quanto pela profundidade da análise crítica empregada. Os trabalhos publicados, que  
totalizam seis, adotam um enfoque predominantemente marxista-crítico, que reflete sobre a  
cultura no Serviço Social com base em conceitos e autores como Karl Marx, Antonio Gramsci,  
Carlos Nelson Coutinho e Raymond Williams, com maior frequência. Nesse contexto,  
apresentam-se como alguns exemplos marcantes de conteúdos inseridos nos artigos: a discussão  
sobre a cultura popular enquanto elemento de resistência a exploração capitalista no cenário  
dependente (Borja, 2023); a importância das diretrizes curriculares no processo de  
reconhecimento da cultura enquanto elemento constitutivo da formação e da prática profissional  
(Kropf, 2020); a análise crítica da cultura pós-moderna e suas implicações ideológicas na  
profissão em contexto de crise capitalista (Junior, 2016); o debate do conceito de arte, e as suas  
potencialidades como um meio de expressão e resistência das classes subalternas nas lutas  
sociais (Castro, 2017), bem como sua compreensão enquanto ferramenta educativa essencial  
para a emancipação política e humana (Lopes, 2017); e, por fim, a reflexão sobre as formas  
dentre as quais o assistente social pode utilizar a mediação cultural e artística para promover  
uma prática profissional alinhada com o compromisso ético-político da profissão (Ford;  
Pedroso, 2023).  
267  
Na revista Libertas, foram identificados três artigos que abordam a cultura em estreita  
relação às determinações do capitalismo e às possibilidades de resistência no âmbito das  
práticas socioculturais. O artigo de Santos (2021), analisa o projeto “Funkeiros Cults” (Santos,  
2021), uma iniciativa desenvolvida por jovens da periferia que promovem a popularização do  
conhecimento acadêmico por meio do funk. Esse projeto foi utilizado como metodologia  
alternativa que discutia a ideia de "intelectual orgânico" de Gramsci, demonstrando como as  
práticas culturais populares podem contribuir para a conscientização política da classe  
trabalhadora (Santos, 2021). Já a produção de Kropf (2018) discute a cultura na periferia do  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
capitalismo, a partir dos estudos de Raymond Williams, problematizando suas possibilidades e  
limites enquanto prática social atravessada pela lógica da valorização do valor, mas também  
potencialmente configurada como elemento de resistência à barbárie capitalista. No que se  
refere ao terceiro artigo, tem-se o trabalho de Vasconcellos (2016), que, ao retomar o conceito  
de indústria cultural desenvolvido por Theodor Adorno, analisa o papel do rádio e da música  
popular na sociedade capitalista monopolista, enfatizando os mecanismos de manipulação  
ideológica e de integração das massas promovidos pela cultura mercantilizada.  
Observa-se, portanto, que os artigos publicados na revista Libertas, mantém, portanto,  
uma abordagem teórica centrada no pensamento gramsciano e marxista, empregando a cultura  
em seu caráter revolucionário e de resistência à hegemonia. Diferentemente de abordagens  
centradas na formação profissional em Serviço Social, as publicações estendem suas reflexões  
para experiências concretas situadas na periferia do capitalismo, como iniciativas culturais  
autônomas, expressões musicais populares e processos de difusão crítica do conhecimento, de  
modo a ressaltar a relevância da cultura no processo de construção de uma consciência crítica,  
alinhada à luta de classes, à democratização do conhecimento e à militância social.  
Já os dois artigos identificados na revista Serviço Social e Sociedade, tematizam a  
cultura em articulação com a questão social e a história do Serviço Social no Brasil. Maranhão  
(2014), destaca como o samba, enquanto prática cultural popular, funciona como ponto de  
encontro entre as lutas sociais e as definições de identidade, revelando os conflitos estruturais  
entre dominação cultural e resistência das classes trabalhadoras diante dos mecanismos de  
exclusão social e marginalização. Mota (2017), por sua vez, analisa o processo histórico de  
formação do Serviço Social brasileiro a partir de uma perspectiva crítica que reconhece a  
construção de uma cultura profissional voltada para o rompimento com práticas conservadoras,  
situando a cultura profissional como expressão de um projeto ético-político que busca vincular  
a práxis profissional às transformações sociais em direção à emancipação da classe  
trabalhadora.  
268  
Por fim, na revista Serviço Social em Perspectiva, foram identificados dois artigos que  
abordam dimensões socioculturais articuladas às condições objetivas e subjetivas da vida social  
contemporânea. Um dos estudos analisa o impacto do projeto sociocultural Tambolelê  
(Bevacqua; Patrocino, 2023), voltado para a formação artística e identitária da juventude no  
município de Belo Horizonte, Minas Gerais. Esse projeto utiliza a música percussiva e os ritmos  
afromineiros para promover a educação e democratização cultural, e fortalecer a identidade  
racial e política dos participantes, contribuindo para a construção de uma consciência crítica  
(Bevacqua; Patrocino, 2023). Já Silva (2023), ao discutir os limites e possibilidades da  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 257-277, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
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diversidade humana no Estado democrático burguês, fundamenta-se na ontologia do ser social  
e na crítica da economia política para analisar as determinações estruturais que condicionam a  
vivência da diversidade. Embora o artigo não tenha como foco central a cultura, ele dialoga  
com dimensões culturais ao problematizar como o Estado e as relações sociais capitalistas  
moldam subjetividades, restringem experiências sociais e reproduzem formas de violência e  
exclusão. Assim, o debate sobre diversidade humana incorpora mediações que atravessam a  
cultura enquanto dimensão constitutiva da sociabilidade.  
Esse panorama evidencia que a abordagem da cultura, embora restrita do ponto de vista  
quantitativo, revela que existe um esforço de pesquisa na categoria que precisa de maior  
investimento teórico, que começa da graduação e se estende à pós-graduação, assegurando  
continuidades em trajetórias investigativas. Não à toa, se percebe que esses trabalhos  
publicados nas revistas acadêmicas não se tornam, por exemplo, bibliografia obrigatória nas  
disciplinas de graduação que tematizam a cultura.  
Considerando esse esforço analítico empreendido na pesquisa de articular dados do  
levantamento de estado da arte e na pesquisa documental, apresenta-se os resultados da  
investigação em Projetos Pedagógicos dos Cursos de Serviço Social de instituições de ensino  
públicas de Minas Gerais. Foram analisados as versões mais recentes do seguintes projetos  
pedagógicos: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal de  
Uberlândia (UFU), Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) considerando todos os  
campi de Abaeté, Barbacena, Carangola, Cláudio, Divinópolis, Passos e Poços de Caldas —  
Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Universidade Federal do Vale do  
Jequitinhonha (UFVJM), Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Estadual de  
Montes Claros (UNIMONTES) e Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).  
269  
Através da pesquisa documental, foram localizadas 28 disciplinas, em todos os 14  
projetos pedagógicos, que possuíam o termo cultura em sua descrição, onde 12 eram  
obrigatórias, 10 eletivas e 06 optativas/facultativas. Cabe estabelecer certa distinção entre as  
disciplinas, no que tange às obrigatórias, por exemplo, refletem uma preocupação institucional  
com os requisitos mínimos para formação de um profissional, conforme expressa o currículo  
mínimo do Ministério da Educação. Por outro lado, a oferta de disciplinas eletivas e optativas  
permite certa flexibilidade para os professores/as e estudantes aprofundarem temas específicos,  
mas pode indicar que, em algumas universidades, a abordagem da cultura não possui espaço de  
relevância no corpo de disciplinas obrigatórias.  
Essa diversidade entre os tipos e o caráter dessas disciplinas sugere que, apesar do  
reconhecimento da importância da cultura, as universidades mineiras ainda divergem quanto à  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
profundidade e à obrigatoriedade com que tratam o tema, o que pode resultar em variações no  
preparo dos futuros assistentes sociais para lidar com a análise da realidade social quando se  
inserirem nos diversos espaços sócio-ocupacionais que atuam os/as assistentes sociais.  
Considera-se que apenas três cursos apresentam disciplinas obrigatórias sobre a temática da  
cultura, sendo a UFJF e a UEMG (cursos de Barbacena e Poços de Caldas). Os demais cursos  
inseriram a disciplina “Antropologia” ora como componente obrigatório ora como  
eletivo/optativo.  
A disciplina “Subjetividade e cultura”, nos três cursos, possuem a mesma nomenclatura,  
aborda o mesmo conteúdo e utilizam algumas bibliografias básicas em comum para  
compreender como as dinâmicas culturais contemporâneas influenciam a construção das  
identidades individuais e coletivas, utilizando uma perspectiva crítica fundamentada no  
pensamento marxista. Essas bibliografias se expressam através das seguintes obras como “Os  
sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação no trabalho” (Antunes, 2000),  
“Globalização e cultura: caminhos e descaminhos para o nacional popular na era da  
globalização” (Bezerra, 2006) e “Cultura e Sociedade no Brasil” (Coutinho, 2011). Essas  
bibliografias, quando integradas à abordagem da disciplina “Subjetividade e Cultura”, tendem  
a proporcionar o desenvolvimento da ideia de que a cultura não se trata somente de um conjunto  
de práticas e valores, mas também um campo de batalha onde identidades são afirmadas ou  
negadas, e onde as estruturas de poder e as condições materiais de existência desempenham um  
papel crucial.  
270  
Além disso, pontuada sua presença em todas as instituições pesquisadas, é de suma  
importância enfatizar a disciplina Antropologia. Ela se manifesta como obrigatória nos cursos  
de Serviço Social da UEMG (Abaeté, Divinópolis, Cláudio, Barbacena, Poços de Caldas,  
Carangola e Passos), UFTM, UFVJM, UNIMONTES, UFV e UFU enquanto na UFJF e na  
UFOP é oferecida como disciplina eletiva. No entanto, ao contrário da disciplina “Subjetividade  
e Cultura”, a “Antropologia” apresenta variações significativas em termos de nomenclatura,  
ementa e, consequentemente, bibliografia básica entre as diferentes instituições, a variação nos  
enfoques referentes a disciplina tanto em conteúdo quanto em carga horária, refletindo as  
diferentes perspectivas institucionais sobre a importância dessa área para a formação em  
Serviço Social.  
A disciplina antropologia possui 07 denominações distintas (Antropologia,  
Antropologia Cultural, Antropologia Social, Antropologia cultural e Serviço Social, Introdução  
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a Antropologia, Tópicos em Antropologia e Antropologia brasileira) e 09 ementas variadas.8  
Do ponto de vista da análise do ementário, nota-se convergência com os elementos que  
comparecem nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS, abordando, em geral, à compreensão das  
expressões culturais de diferentes grupos sociais e às particularidades regionais brasileiras e “a  
relação dialética entre o material e o simbólico na construção das identidades sociais e da  
subjetividade” (Abepss, 1996, p. 16). No que se refere à bibliografia básica, possuem cerca de  
15 variações de autores, sendo François Laplantine e Roque Laraia os mais recorrentes,  
sobretudo por meio das obras “Aprender antropologia” (Laplantine, 2005) e “Cultura: um  
conceito antropológico” (Laraia, 2003), indicando a predominância de referenciais clássicos da  
antropologia na sustentação teórica das disciplinas, em contraste com as disciplinas  
denominadas “Subjetividade e cultura”.  
Tanto Laraia (2003) quanto Laplantine (2005) se aproximam do ponto de vista dos  
estudos antropológicos sobre cultura. Laraia (2003) destaca a cultura como uma construção  
social aprendida e transmitida, sublinhando que o comportamento humano é moldado pelas  
interações sociais, e não por determinismos biológicos ou ambientais. Para ele, a cultura  
abrange todo o conjunto de práticas, crenças e valores que os seres humanos adquirem ao longo  
de suas vidas, sendo esse aprendizado que diferencia a espécie humana. A diversidade cultural,  
portanto, surge dessa capacidade humana de criar soluções culturais adaptativas para diferentes  
contextos, resultando em uma variedade de modos de vida ao redor do mundo (Laraia, 2003).  
Laplantine (2005), por sua vez, aborda a cultura a partir de uma perspectiva antropológica que  
a enaltece como resultado de processos históricos e sociais contínuos, sendo atravessada por  
elementos dinâmicos e contraditórios enfatizando que a cultura deve ser entendida em sua  
totalidade, sem desconsiderar as tensões internas e as relações de poder que a atravessam.  
Fica evidente que existe uma diferenciação estabelecida no tratamento da cultura nos  
cursos de graduação, onde três cursos expressam uma prevalência de uma interpretação  
marxista e o restante trabalha com recurso ao viés antropológico. Embora esta pesquisa não  
tenha se debruçado sobre os impactos destas duas perspectivas, é possível afirmar que a  
primeira abordagem encontra maior compatibilidade com as Diretrizes Curriculares da  
ABEPSS, ao passo que possibilita maior interação com outros conteúdos e disciplinas  
trabalhados ao longo do curso de graduação. Pode, também, contribuir no esforço de qualificar  
a relação entre os núcleos de fundamentos teórico-metodológicos da vida social, do núcleo de  
271  
8
É importante pontuar que foram mencionadas apenas 09 variações de ementa em decorrência da ausência do  
ementário das disciplinas eletivas na UFJF e na UFV.  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
fundamentos da formação sócio-histórica da sociedade brasileira e do núcleo de fundamentos  
do trabalho profissional.  
Consoante com o percurso investigativo empreendido, em especial no quanto à revisão  
bibliográfica, também salienta-se a relevância do estudo da cultura a partir da perspectiva  
materialista histórica e dialética com a finalidade de estabelecer pontes entre o pensamento  
social brasileiro e a interpretação da cultura. Assim, o estudo da cultura, especialmente com  
ênfase nas particularidades da formação brasileira, permite a captura das contradições, tensões  
e potencialidades que particularizam o Brasil. Nesse sentido, é importante destacar que a cultura  
não apenas reflete os mecanismos de dominação, que se manifestaram ao longo dos distintos  
cenários sociais brasileiros, mas também reflete as estratégias de resistência dos diferentes  
grupos sociais presentes em cada período.  
A partir dessa compreensão teórica, foi possível articular os dados coletados com os  
referenciais estudados sobre a formação cultural brasileira, evidenciando como os processos  
culturais se manifestam e se transformam à medida que as relações sociais se modificam. Dado  
a dinâmica da própria realidade social, no qual a cultura não é elemento dispensável, trata-se  
de um assunto relevante para a formação e o trabalho do assistente social.  
O esforço de apreensão da cultura, em suas múltiplas expressões, pode oferecer ao  
profissional do Serviço Social a possibilidade de suspender a imediaticidade do cotidiano,  
criando espaço para o exercício de uma reflexão crítica. Esse distanciamento do imediato é  
essencial para o desenvolvimento de uma perspectiva que transcende a rotina e permite uma  
análise conjuntural das dinâmicas sociais. Ao refletir através das diversas manifestações  
culturais, por exemplo, o assistente social não apenas enriquece sua compreensão da realidade  
social, mas também se reconhece como parte de uma categoria humana genérica. Essa auto  
identificação é fundamental para uma atuação profissional que busca integrar o particular ao  
universal, promovendo uma prática que compreende as especificidades individuais e coletivas  
dentro de um contexto sócio histórico mais amplo.  
272  
Assim sendo, refletir sobre cultura, bem como conhecer os bens culturais e suas  
manifestações nos territórios e espaços que o profissional atua, contribui para que o assistente  
social compreenda de modo mais amplo as demandas, as características da população usuária  
e do território.  
Buscando estimular o debate na profissão, este artigo também contribui para estimular  
a produção na área, reconhecendo que a profissão pode e deve enfrentar o défice que vigora no  
âmbito da produção acadêmica e, também, no tratamento da temática nos cursos de graduação.  
É notório que esta profissão, por se defrontar com inúmeras expressões da questão social e por  
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atuar em incontáveis espaços sócio-ocupacionais, tem o desafio de lidar com pesquisas e  
investigações que respondam mais objetivamente os desafios da intervenção, em especial a  
partir das demandas dos usuários no conjunto de políticas sociais. Esse aspecto pode impactar  
a escolha de determinados temas e, consequentemente, na exclusão de outros. Nesse contexto,  
a cultura, muitas vezes vista como algo intangível ou menos urgente, acaba sendo secundarizada  
tanto na formação quanto na produção acadêmica, de modo a contribuir com a baixa produção  
de estudos voltados à compreensão mais ampla das relações culturais nas práticas profissionais.  
Outro fator a ser considerado é a própria estrutura curricular dos cursos de Serviço  
Social das universidades públicas mineiras. Como evidenciado na análise das disciplinas  
ofertadas, poucas instituições dão ênfase à cultura nas disciplinas obrigatórias, por isso, a falta  
de uma incorporação robusta e transversal do debate cultural nos currículos do Serviço Social  
pode limitar a produção acadêmica nesse campo, visto que os futuros profissionais e  
pesquisadores desenvolvem pouco contato com as implicações teóricas e práticas da cultura  
para o exercício profissional.  
Considerações finais  
Em síntese, a análise empreendida neste estudo evidencia que a dimensão cultural ainda  
permanece como um aspecto com pouco tratamento no processo de formação profissional em  
Serviço Social nas universidades públicas de Minas Gerais, não obstante sua centralidade para  
a apreensão da totalidade da realidade social. Como demonstrado, apesar das recomendações  
explícitas contidas nas Diretrizes Curriculares da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa  
em Serviço Social (ABEPSS, 1999), a cultura ainda não figura como um eixo estruturante e  
transversal à formação, mas sim como um conteúdo periférico, ora fragmentado, ora restrito à  
disciplina de Antropologia ou a conteúdos optativos. Constata-se que, embora o ensino se  
oriente para o reconhecimento formal da relevância da cultura, ainda não ocorre a integração  
plena desta categoria, tomada como mediação imprescindível para a apreensão crítica da  
realidade social e do próprio conjunto de práticas sociais que incidem sobre o trabalho de  
assistentes sociais.  
273  
Tal constatação corrobora com a ideia de que a cultura precisa ser pensada para além  
de um objeto de estudo, se estendendo a um elemento constitutivo da prática profissional do  
assistente social e fazendo jus à práxis social. Assim, a ausência de uma abordagem robusta e  
crítica sobre a cultura nas matrizes curriculares impacta no desenvolvimento de um fazer  
profissional que inclua, de maneira articulada, as múltiplas determinações da vida social. Nesse  
sentido, o aprofundamento bibliográfico realizado no presente trabalho reafirma a importância  
O debate da cultura na formação em Serviço Social nas universidades públicas em Minas Gerais  
de se compreender a cultura sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, na esteira do  
que defendem Bezerra (2006) e Coutinho (2011), sendo, nessa perspectiva, concebida como  
expressão das relações materiais e das condições objetivas de existência, indissociável do  
processo de produção e reprodução da vida material. Portanto, uma categoria substancial para  
a formação crítica do assistente social, principalmente ao considerar as especificidades da  
formação social brasileira, marcada por um processo contraditório de miscigenação forçada,  
violência, aculturação e resistência, que conformou uma sociabilidade singular e complexa.  
Conforme já sinalizado, a pesquisa revelou que há um incipiente tratamento do tema da  
cultura na formação profissional, quando se observa tanto a produção do conhecimento quanto  
os conteúdos inseridos na formação em nível de graduação. Para além do pouco número de  
trabalho encontrados, os trabalhos identificados resgatam a cultura como dimensão relevante à  
práxis profissional crítica, sinalizando sua potencialidade como instrumento de resistência à  
lógica hegemônica, todavia, esse potencial encontra-se restrito, pouco desenvolvido, revelando  
um campo aberto para aprofundamentos. Quanto aos currículos analisados, embora a cultura  
esteja formalmente contemplada nas matrizes, essa presença é pontual e fragmentária. Das 28  
disciplinas que possuíam o termo “cultura” em sua descrição, apenas 12 eram de caráter  
obrigatório, e mesmo assim não trabalhavam a temática a fundo, apenas como item  
complementar. Tal configuração revela uma tendência à restrição do debate cultural a  
conteúdos acessórios, reforçando sua condição de tema secundário no processo formativo.  
Esses dados, portanto, confirmam a avaliação de Guimarães e Marques (2019) sobre a  
necessidade de um investimento teórico e metodológico consistente no enfrentamento das  
lacunas formativas que comprometem a apropriação crítica da cultura no Serviço Social.  
Diante desse panorama, é possível afirmar que a inserção da dimensão cultural no  
processo acadêmico-formativo do assistente social nas universidades públicas mineiras  
permanece insuficientemente articulada com as exigências de uma formação crítica, totalizante  
e comprometida com o projeto ético-político da profissão. O desnivelamento entre a posição  
que a cultura ocupa na aproximação da análise das relações sociais e sua efetiva apropriação  
nos processos formativos é evidente. Por um lado, as Diretrizes Curriculares da ABEPSS  
reafirmam a necessidade de integração da dimensão cultural como componente constitutivo da  
formação, por outro, as práticas curriculares das instituições analisadas revelam uma  
abordagem que, quando não relegada a conteúdos complementares, se limita a perspectivas  
antropológicas generalistas, desprovidas de uma articulação ontológica com a totalidade social.  
Portanto, diante dos achados desta pesquisa indica-se que a superação deste quadro  
exige um esforço consciente por parte das instituições formadoras, no sentido de integrar a  
274  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 257-277, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
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cultura como eixo transversal e estruturante dos projetos pedagógicos. Para isso, é necessário  
fomentar a produção acadêmica que articule criticamente cultura, formação e intervenção  
profissional e, simultaneamente, consolidar práticas pedagógicas que reconheçam a cultura não  
apenas como objeto de estudo, mas como mediação imprescindível à apreensão crítica das  
expressões da questão social. Dessa forma, o espaço destinado à cultura na formação  
profissional, deve ser repensado a fim de potencializar o desenvolvimento de competências  
analítico-críticas que possibilitem ao assistente social apreender e intervir nas expressões da  
questão social de forma mais qualificada. Como aponta Teixeira (2019), o compromisso da  
formação deve ser embasado na unidade dos núcleos de fundamentação do Serviço Social, isso  
significa que a não neutralidade profissional é legítima podendo ser melhor alcançada e  
protegida através da incorporação da cultura como dimensão constitutiva da competência  
profissional e ético-política.  
Por fim, reafirma-se que a cultura, na sua qualidade de mediação histórica e social,  
constitui uma ferramenta indispensável para que o Serviço Social resista à tendência de  
reproduzir práticas conservadoras, fragmentadas e irracionalistas, de modo a se afirmar como  
profissão explicitamente posicionada, crítica e articulada com os interesses da classe  
trabalhadora. Conforme assevera Netto (2005), cabe ao Serviço Social a defesa intransigente  
de uma práxis que supere o imediatismo e a superficialidade, orientando-se pela crítica radical  
da ordem social vigente e pela afirmação de projetos coletivos e emancipatórios, que sejam  
capazes de alcançarem a essência dos fenômenos.  
275  
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