Estrutura patriarcal e institucionalização de  
crianças e adolescentes  
Patriarchal structure and institutionalization of children and adolescents  
Larissa de Souza Alves Mapa*  
Rita de Cássia Pereira Farias**  
Resumo: O artigo analisa como a estrutura  
patriarcal, articulada a políticas familistas,  
potencializa a responsabilização das genitoras  
pelo “fracasso” na tarefa do cuidado,  
acarretando a institucionalização de crianças e  
adolescentes. A pesquisa tem uma abordagem  
qualitativa, exploratória e bibliográfica com  
realização de entrevistas semiestruturadas junto  
a psicólogos e assistentes sociais que atuam nas  
unidades de acolhimento institucional estatal  
dos municípios mineiros de Ponte Nova,  
Manhuaçu, Muriaé e Ubá. Os dados submetidos  
à análise de conteúdo por meio do software  
Iramuteq evidenciam que, apesar de avanços  
legislativos, o patriarcado reverbera fortemente  
Abstract: The article analyzes how the  
patriarchal structure, linked to familial policies,  
increases the responsibility of mothers for  
“failure” in the task of care, leading to the  
institutionalization of children and adolescents.  
The research has a qualitative, exploratory and  
bibliographical approach with semi-structured  
interviews carried out with psychologists and  
social workers who work in state institutional  
reception units in the Minas Gerais  
municipalities of Ponte Nova, Manhuaçu,  
Muriaé and Ubá. The data submitted to content  
analysis using the Iramuteq software shows  
that, despite legislative advances, patriarchy  
strongly reverberates in the institutionalization  
of children and adolescents, reflecting on the  
dynamics of institutions and family support  
during the period of shelter.  
na institucionalização de crianças  
e
adolescentes, refletindo na dinâmica das  
instituições e nos acompanhamentos familiares  
durante o período do abrigamento.  
Palavras-chave: Criança  
e
adolescente;  
Keywords:  
Children  
and  
adolescents;  
Institucionalização; Violência; Patriarcado.  
Institutionalization; Violence; Patriarchy.  
Introdução  
Esta pesquisa, resultado de uma dissertação de mestrado, analisa a relação entre a  
estrutura patriarcal e a institucionalização de crianças e adolescentes em decorrência da perda  
do poder familiar. Esse debate se justifica porque acredita-se que o sistema patriarcal moldou  
historicamente a estrutura familiar que atribui às mulheres a responsabilidade primordial pelos  
* Universidade Federal de Viçosa. E-mail: larissamapa.as@gmail.com  
** Universidade Federal de Viçosa. E-mail: rcfarias@ufv.br  
DOI: 10.34019/1980-8518.2026.v26.47415  
Esta obra está licenciada sob os termos  
Recebido em: 12/02/2025  
Aprovado em: 21/05/2025  
Larissa de Souza Alves Mapa; Rita de Cássia Pereira Farias  
cuidados, enquanto dos homens é esperado a provisão, o domínio e o poder familiar. Essa  
construção social se perpetua com o avanço da sociedade capitalista, trazendo implicações na  
vida familiar de diversas crianças e adolescentes.  
A relação de superioridade masculina e inferioridade feminina, construída  
historicamente e socialmente, imprime a imagem ou a ideia dos homens enquanto  
“proprietários” das mulheres, podendo ocasionar diversos casos de violência e opressão, não só  
sobre as mulheres, mas em relação aos filhos também, tornando-os ainda mais vulneráveis.  
Quando essa estrutura é questionada, e mulheres e filhos negam os mandos masculinos ou  
deixam de atender às expectativas que recaem sobre eles, acontece uma ameaça ao poder  
masculino, o que, frequentemente, é respondido com violência e tentativas de fazer calar a voz  
daqueles e refrear seu comportamento.  
Constantemente o abuso de autoridade familiar se expressa no controle abusivo sobre  
esposas, reverberando em situações de abuso, violência doméstica e exploração sexual. Diante  
da violência sofrida, em decorrência do medo do agressor ou dependência financeira e  
emocional, muitas mulheres acabam se retraindo e se silenciando, mantendo a estrutura  
patriarcal de poder.  
Na reprodução da estrutura patriarcal, na qual é esperado que as mulheres sejam as  
responsáveis pelo cuidado, além de presenciarem e sofrerem violência, frequentemente elas são  
ameaçadas, responsabilizadas e culpabilizadas pela “falha” no cuidado e na proteção dos filhos,  
o que culmina na perda do poder familiar. Essa situação de desproteção social muitas vezes  
acontece porque a mulher está envolvida em outros cuidados (com a casa, idosos, deficientes),  
está realizando atividades profissionais ou é acometida pelo uso de substâncias psicoativas. Tal  
ocorrência reflete um quadro no qual as principais expressões da questão social que justificam  
o abrigamento infantojuvenil são a de negligência (com a maior responsabilidade das mulheres)  
e a violência intrafamiliar. Assim, as denúncias de violência física e psicológica, praticadas por  
membros da família, acabam encaminhando crianças e adolescentes para abrigos, a fim de  
serem protegidos.  
87  
Ainda em decorrência da estrutura patriarcal, o acompanhamento familiar dentro dos  
abrigos e os pedidos para reaver a guarda familiar frequentemente são feitos pelas mulheres  
(mães, tias e avós), e não pelos homens (pais, tios e avós). Esse processo mostra que há uma  
correlação entre a estrutura patriarcal e a institucionalização das crianças e adolescentes,  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
atrelada a políticas familistas1, que têm implicações no processo de violação de direito das  
crianças e adolescentes e na institucionalização desses sujeitos.  
Deste modo, este artigo tem como objetivo analisar como a estrutura patriarcal  
potencializa a responsabilização das genitoras, acarretando a institucionalização de crianças e  
adolescentes na mesorregião da Zona da Mata Mineira. A pesquisa, de natureza qualitativa e  
exploratória, foi desenvolvida na mesorregião da Zona da Mata Mineira, que possui sete  
municípios: Ponte Nova, Muriaé, Manhuaçu, Viçosa, Ubá, Juiz de Fora e Cataguases.  
Entretanto, participaram da pesquisa quatro municípios - Ponte Nova, Muriaé, Manhuaçu e Ubá  
- pois Juiz de Fora e Viçosa não possuem unidades estatais de acolhimento de crianças e  
adolescentes (Casa Lar e Abrigo)2, e a gestão do município de Cataguases não autorizou a  
realização das entrevistas. Como o município de Muriaé possui duas unidades de acolhimento,  
a pesquisa contou com a participação de cinco instituições.  
Após a autorização das unidades de acolhimento, foi realizado o contato com os  
assistentes sociais e psicólogos que compõem a equipe técnica de nível superior dessas  
instituições, para dar início às entrevistas semiestruturadas. Participaram das entrevistas oito  
técnicos de nível superior (assistentes sociais e psicólogos) que atuam nas cinco unidades de  
acolhimento. As entrevistas realizadas de forma online, via Google Meet, foram gravadas e  
posteriormente transcritas. Todos os participantes foram informados sobre os objetivos da  
pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Além disso, a pesquisa  
foi aprovada pelo Comitê de Ética por meio da Plataforma Brasil.  
88  
Os dados foram trabalhados pela análise de conteúdo que contou com a utilização do  
software de análise de textos Iramuteq, utilizando as ferramentas Nuvem de Palavras, Análise  
de Similitude e Análise Fatorial de Correspondência. O Iramuteq apresenta os resultados da  
análise em mapas de similaridade, em que palavras ou termos que compartilham contextos  
similares são agrupados ou visualizados próximos uns dos outros, possibilitando observar as  
estruturas semânticas do texto.  
A Nuvem de Palavras no Iramuteq é uma representação visual que exibe as palavras  
mais frequentes em um corpus de texto. Cada palavra aparece em tamanhos diferentes,  
dependendo de sua frequência no conjunto de dados analisado. As palavras mais frequentes  
1 As políticas familistas são um conjunto de políticas públicas e sociais que consideraram a família como instituição  
central da sociedade, enfatizando o papel da família na organização social e econômica. Essas políticas se amparam  
em modelos familiares convencionais relacionados ao casamento, à parentalidade e à divisão de papéis entre os  
membros da família. As políticas familistas também estão associadas a valores conservadores que reforçam papéis  
tradicionais, nutrindo a ideia de que a mulher é a principal responsável pelos cuidados familiares.  
2
Em Juiz de Fora, as unidades de acolhimento são municipais. Em Viçosa, o acolhimento de crianças e  
adolescentes é feito por meio de um consórcio intermunicipal que atende 8 municípios.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 86-109, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Larissa de Souza Alves Mapa; Rita de Cássia Pereira Farias  
aparecem com maior destaque, em tamanho maior, enquanto as menos frequentes são  
representadas de forma menor. Essa nuvem ajuda a identificar rapidamente os termos mais  
recorrentes em um texto ou conjunto de textos, oferecendo uma visão geral do conteúdo central  
e dos temas predominantes. Nesta pesquisa foram consideradas as palavras com frequência  
igual ou superior a três ocorrências.  
A Análise de Similaridade no Iramuteq é utilizada para mapear como as palavras se  
associam entre si dentro de um texto, revelando padrões de significado e relações contextuais  
de maneira visual e interpretativa. A ferramenta é útil para identificar temas centrais, explorar  
associações semânticas e examinar como diferentes tópicos ou conceitos se interrelacionam em  
um corpus.  
A Análise Fatorial de Correspondência (AFC) permite identificar padrões de  
coocorrência e proximidade semântica, revelando a estrutura implícita do texto, organizando  
dados complexos de maneira visual e interpretável. O resultado da análise é apresentado em  
gráficos bidimensionais ou tridimensionais, em que as palavras ou categorias são representadas  
como pontos. As distâncias entre esses pontos indicam a proximidade semântica entre as  
palavras ou temas. As palavras ou categorias próximas no gráfico indicam que elas têm uma  
coocorrência mais forte ou aparecem em contextos semelhantes. Já as palavras distantes  
indicam que suas coocorrências são mais fracas ou que pertencem a contextos diferentes.  
Na construção do artigo, discutiu-se o lugar do feminino na sociedade patriarcal,  
examinando os reflexos da violência intrafamiliar na institucionalização de crianças e  
adolescentes, a responsabilização feminina pelo cuidado de crianças e adolescentes, e a  
importância do trabalho intersetorial na rede protetiva.  
89  
O lugar do feminino na sociedade patriarcal  
Nessa discussão, parte-se da compreensão de que a família não é uma instituição natural,  
mas uma construção histórica, social e política, sustentada por ideologias que reforçam as  
opressões de gênero, com fortes impactos na vida das mulheres, como destacaram Fraser (2023)  
e Saffioti (2015).  
Segundo Saffioti (1987), a propriedade privada e a divisão sexual do trabalho foram  
decisivos para consolidar a opressão feminina e a estrutura patriarcal. A autora afirma que a  
opressão às mulheres é uma construção histórica, negando então o patriarcado enquanto uma  
estrutura natural e biologicista; afirmando seu caráter social e histórico. Ainda segundo a  
socióloga, a propriedade privada marca o controle da herança e da reprodução biológica,  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
impulsionando o sistema patriarcal e a divisão sexual do trabalho, relegando às mulheres ao  
espaço doméstico, no qual cabe à mulher exercer o cuidado com a casa e com seus membros.  
Para Saffioti (1987) o patriarcado antecede ao capitalismo, enquanto um sistema de  
dominação masculina historicamente estruturado; que que é amplamente conveniente e  
apropriado pela sociedade capitalista para a manutenção dos privilégios de classe e da  
propriedade privada, perpetuando a opressão às mulheres.  
Desde a Revolução Industrial, a participação das mulheres no mercado de trabalho  
esteve vinculada a uma exploração intensificada. Profissões predominantemente femininas,  
como cuidados de saúde, educação infantil e serviços domésticos, refletem a extensão das  
atividades domésticas para o mercado formal, mantendo baixos salários e condições precárias.  
Essas atividades formam “a base das condições de existência do capitalismo”, mas são  
constantemente negligenciadas pelo sistema econômico.  
Com o desenvolvimento do capitalismo, o papel das mulheres foi ajustado para atender  
às demandas de produção e reprodução social. A Teoria da Reprodução Social (TRS), discutida  
por Lise Vogel (2022) e Tithi Bhattacharya (2017), destaca que a divisão sexual do trabalho e  
a responsabilização das mulheres pelo cuidado são ferramentas estruturais para a manutenção  
do capitalismo. O capitalismo depende das atividades socioreprodutivas realizadas  
majoritariamente por mulheres, como cuidado com os filhos, manutenção do lar e suporte  
emocional. O processo reprodutivo e biológico de gerar e garantir a continuidade da mão de  
obra e a produção social possibilita a perpetuação da exploração da força de trabalho capitalista.  
Embora as mulheres sejam incorporadas ao mercado de trabalho formal, elas continuam  
sobrecarregadas pelo trabalho doméstico e de cuidado, resultando em uma “dupla jornada” de  
trabalho. Bhattacharya (2023, p. 634) argumenta que essa dinâmica reflete a exploração da força  
de trabalho feminina, perpetuando a ideia de que o cuidado é uma responsabilidade individual  
atribuída às mulheres.  
90  
Saffioti (1987, p. 18) destaca que a inferiorização das mulheres não é um fenômeno  
biológico ou natural, mas socialmente construído. Na visão da autora, a opressão feminina está  
relacionada à marginalização das mulheres no sistema produtivo, reforçada por uma ideologia  
patriarcal que naturaliza os papéis de gênero. Fraser (2023, p. 50) complementa que a separação  
estrutural entre produção econômica e reprodução social, baseada em gênero, reforça a  
subordinação feminina e a exploração do trabalho não remunerado.  
Embora as atividades socioreprodutivas e do cuidado sejam fundamentais para a  
sobrevivência humana e a base da reprodução social e, consequentemente, do capitalismo, sua  
desvalorização e invisibilidade reforçam as desigualdades de gênero e a exploração econômica.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 86-109, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Larissa de Souza Alves Mapa; Rita de Cássia Pereira Farias  
Como resultado, a exploração feminina no trabalho formal e doméstico é intensificada. Nesse  
sentido, Fraser (2023, p. 46) argumenta que o sistema capitalista apresenta uma “contradição  
sociorreprodutiva”, uma vez que a lógica de acumulação ilimitada desestabiliza os próprios  
processos de reprodução social dos quais o sistema capitalista depende.  
Fraser (2023, p. 48) destaca que a produção econômica capitalista não é  
autossustentável, pois depende da reprodução social. No entanto, o impulso da acumulação  
ilimitada no capitalismo contemporâneo ameaça desestabilizar os processos reprodutivos  
essenciais. Além disso, o capitalismo financeirizado, caracterizado pelo desinvestimento estatal  
em políticas de bem-estar social e pela mercantilização do cuidado, agrava essa situação,  
institucionalizando a divisão entre produção e reprodução baseada em gênero, apresentando-se  
como um sistema que perpetua a opressão das mulheres. Assim, o trabalho do cuidado é  
mercantilizado para quem pode pagar e privatizado para os mais pobres (Fraser, 2023, p. 62).  
Essa lógica gera cadeias globais com terceirização do cuidado, em que mulheres pobres,  
negras, imigrantes ou de regiões periféricas realizam o trabalho anteriormente desempenhado  
por mulheres de classes privilegiadas. Esse ciclo evidencia uma contradição estrutural entre  
produção e reprodução, reforçando as desigualdades de gênero, classe e raça.  
A simbiose entre patriarcado, capitalismo e racismo cria um sistema complexo de  
opressão, especialmente para mulheres negras e de classes subalternas. No Brasil, essas  
desigualdades são intensificadas desde os primórdios do processo de colonização, quando as  
mulheres negras assumiram funções de cuidado de suas próprias famílias e a de seus patrões,  
refletindo uma hierarquia de raça e gênero profundamente enraizada (Saffioti, 2004, p. 52).  
A ideologia patriarcal, sustentada por instituições sociais e religiosas, naturaliza a  
responsabilidade pelo cuidado como algo inerente às mulheres, especialmente no âmbito  
familiar. Segundo Saraceno e Keck (2010), as políticas públicas familistas3 reforçam esse papel,  
ao transferir a responsabilidade social do Estado para as famílias, concentrando-a nas mulheres.  
Arantes (2024) afirma que a responsabilização pela proteção social para a família  
acontece especialmente entre as mulheres cujos filhos (crianças e adolescentes) dependem de  
cuidados básicos, tais como banho, alimentação, locomoção, troca de fraldas etc., o que  
acontece, principalmente, no caso de crianças pequenas ou de pessoas com deficiências.  
91  
3
Segundo Esping-Andersen (1989), Estado familista é aquele cujas políticas públicas de proteção social são  
fundadas na transferência de responsabilidades do Estado para a família. Ao contrário, existe a categoria  
desfamilista que, segundo o autor, se refere àqueles Estados que assumem a responsabilidade pela proteção social  
por meio de políticas públicas universais, políticas para o cuidado e para a família.  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
A visão de que as mães são as responsáveis pelo cuidado dos filhos e a acusação de que  
elas fracassaram em sua “missão”, acrescido de políticas familistas que nutrem essa  
representação, levam as mulheres a, frequentemente, não conseguirem cumprir com as  
expectativas que recaem sobre elas, principalmente quando convivem com tantas  
vulnerabilidades e desproteção social. Essa situação impulsiona a institucionalização de  
crianças e adolescentes, enquanto medida protetiva expressa pelo Estatuto da Criança e do  
Adolescente (ECA).  
Reflexos da violência intrafamiliar na institucionalização de crianças e  
adolescentes  
Os dados fornecidos pelas participantes da pesquisa indicam que, entre os meses de  
junho/agosto de 2024, nas 5 unidades de acolhimento dos 4 municípios da mesorregião da Zona  
da Mata Mineira, havia 78 crianças e adolescentes acolhidos, sendo 41 (52,6%) do sexo  
feminino e 37 (47,4%) do sexo masculino. Esses dados se apresentam condizentes com o  
cenário nacional de acolhidos em unidades de acolhimento e no programa Família Acolhedora,  
nos quais 51% também são crianças e adolescentes do sexo feminino no mesmo período acima  
mencionado, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ, 2024).  
Entre as crianças institucionalizadas nos municípios em estudo, havia uma prevalência  
de adolescentes em detrimento do número de crianças, também em consonância à realidade  
brasileira mais ampla. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no dia 22 de  
novembro de 2024 havia maior número de crianças até os dois anos de idade, porém, acima  
dessa idade, o número decaia, voltando a aumentar na faixa dos 08 anos, e crescendo de maneira  
mais acentuada após a idade de 14 anos.  
92  
As principais causas da institucionalização nas cinco unidades de acolhimento foram:  
negligência (8), abandono dos pais ou responsáveis (8), dependência química dos pais ou  
responsáveis (8), orfandade por morte dos pais ou responsáveis (3), violência doméstica (3),  
exploração sexual de crianças e adolescentes (3), abuso sexual praticado pelos pais ou  
responsáveis (3), transtorno mental (problemas psiquiátricos/psicológicos) dos pais ou  
responsáveis (2), vivência em situação de rua (2), pais ou responsáveis portadores de deficiência  
(1) e adoção ilegal (1), dentre outras4.  
As causas mais citadas por todos os informantes de todas as instituições foram a  
negligência familiar, abandono dos pais ou responsáveis e a dependência química dos pais ou  
4 As instituições mencionaram mais de uma causa para a institucionalização das crianças e adolescentes.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 86-109, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Larissa de Souza Alves Mapa; Rita de Cássia Pereira Farias  
responsáveis. Acerca da negligência, Ferreira (2014) menciona que essa é uma das principais  
causas de institucionalização de crianças e adolescentes no estado de Minas Gerais. O Tribunal  
de Justiça do Mato Grosso (TJMT) considera como negligência familiar as situações em que os  
pais e ou responsáveis não atendem às necessidades físicas, emocionais, educacionais ou  
médicas de crianças e adolescentes. Entretanto, é necessário problematizar esse termo “guarda-  
chuva” que abarca diversos tipos de violação e desproteção social. Berberian (2015, p. 50)  
observa que, no âmbito da política social, várias “situações são entendidas como negligência  
sem qualquer recorrência à totalidade desses sujeitos, desconsiderando sua concreta inserção  
em uma sociedade que é real e se configura de maneira objetiva, com rebatimentos objetivos.”  
Essa visão pode levar a uma moralização e culpabilização da família que está em situação de  
desproteção social, sem considerar o papel do Estado como provedor de um sistema de garantia  
de direitos. A autora menciona ainda que, como não há critérios objetivos para definir que  
alguém é negligente, tal enquadramento corresponde a uma avaliação negativa em relação ao  
não cumprimento de alguma de suas responsabilidades, frequentemente envolvendo uma  
avaliação moral, com julgamento de valor, que inviabiliza que as famílias consigam superar o  
fator gerador de violência.  
Em relação à violência como causa de destituição de poder familiar e/ou acolhimento  
de crianças e adolescentes nas cinco instituições analisadas, Farias (2022) menciona que a  
violência na sociedade capitalista é resultado das desigualdades sociais e da luta pela  
sobrevivência, que compõem a “questão social”5. Sem ter meios de subsistência nesse sistema  
contraditório e excludente, e recebendo as influências de estrutura patriarcal e dominadora, a  
violência se constitui como uma forte expressão da “questão social” e que geralmente acontece  
no recinto privado da vida familiar. Na estrutura da sociedade patriarcal, a violência  
intrafamiliar se manifesta quando a autoridade do patriarca é confrontada e diante das respostas  
negativas que ameaçam o poder patriarcal.  
93  
Considera-se como violência intrafamiliar os tipos de violência que ocorrem dentro do  
ambiente doméstico, entre marido e mulher, entre os genitores e filhos e entre outros membros  
da família. Dessa forma, quando a violência tende a ser reproduzida sobre as crianças ou na  
presença destas, pode ocorrer o acolhimento das crianças e adolescentes, e a possível destituição  
do poder familiar.  
5
Na visão de Iamamoto (2001), a “questão social” é resultado da produção coletiva e apropriação privada dos  
bens. Enquanto os detentores dos meios de produção acumulam riquezas, os trabalhadores ficam submetidos à  
pauperização, que se desdobra em diversas expressões da “questão social”, como a fome, o desemprego, a  
submoradia, a pobreza, o analfabetismo e a violência.  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
As crianças e adolescentes que vivem em ambiente de violência familiar, muitas vezes  
reproduzem esse comportamento em suas ações, principalmente quando não estão dispostas a  
cumprir regras ou receber palavras negativas das oito entrevistadas, sete mencionaram que as  
crianças e adolescentes vítimas de violências intrafamiliares, acolhidas nas instituições,  
demonstram agressividade em suas palavras e ações. Como destacou a entrevistada 5, as  
práticas de violências vividas por essas crianças e adolescentes são reproduzidas “de forma  
involuntária e inconsciente” entre as próprias crianças e adolescentes, e destas com a equipe  
dentro das instituições, em especial com as cuidadoras sociais. Na percepção da entrevistada,  
“algumas atitudes da criança ou adolescente são espelho do que ela vivenciou. E aí, a gente  
trabalha com a temática da não violência.”  
Dentre os desafios postos nesse trabalho está o de romper com a reprodução da violência  
e ressignificar as práticas cotidianas de sociabilidade que exigem lidar com regras e o  
recebimento de respostas negativas. Essa situação reverbera no comprometimento da saúde  
mental, no autocuidado e na higiene pessoal, além da baixa autoestima e as dificuldades dos  
adolescentes criarem vínculos de confiança, como evidenciou a entrevistada 3:  
Olha, elas reagem da mesma forma com o que elas aprenderam dentro de casa.  
A gente tem um caso de irmãos que sofreram violência física, que eles  
reproduzem [esses comportamentos] dentro da instituição, agindo de forma  
violenta, com agressividade. Eles mordem, chutam, têm dificuldades para se  
relacionar e de criar vínculo com outras crianças e até mesmo com a gente  
[equipe da instituição]. E também para obedecer a regras e seguir ordens. A  
gente pede, mas eles fazem ao contrário do que a gente pede. É claro que isso  
também vem de alguns transtornos que a criança desenvolve, né? Mas elas  
têm muita dificuldade. [...] Tem que fazer um trabalho bem intenso junto com  
o grupo, órgãos, para conseguir estabilizar uma convivência adequada  
(Entrevistada 3, 2024).  
94  
Ao abordar o ciclo de repetição de violências, Saffioti (2015) utiliza o termo “síndrome  
do pequeno poder” para se referir a pessoas que possuem um certo poder e adotam um  
comportamento autoritário e opressivo para fazer valer as suas ideias e vontades, sem se  
importar com as consequências e problemas que pode causar. A pessoa que tem essa síndrome  
não se contenta com a sua parcela de poder e assume uma posição superior, exorbitando a sua  
autoridade. Esse comportamento pode se expressar entre pessoas que foram oprimidas ao longo  
de várias gerações e, por isso, não conseguem romper com a violência, a naturaliza e a reproduz,  
se tornando também um opressor, perpetuando a violência intrafamiliar. Na visão da autora,  
essa síndrome é um problema social e não individual, pois se manifesta em ambientes  
hierárquicos onde estão presentes o patriarcalismo, o adultocentrismo e a submissão das  
relações de gênero.  
Libertas, Juiz de Fora, v. 26, n. 1, p. 86-109, jan./jun. 2026. ISSN 1980-8518  
Larissa de Souza Alves Mapa; Rita de Cássia Pereira Farias  
No que se refere ao acompanhamento de genitoras vítimas de violência e da reprodução  
da violência intrafamiliar com os filhos, sete entrevistadas (87,5%) afirmaram que percebem  
que há uma reprodução da violência, o que reflete negativamente na vida das crianças e  
adolescentes institucionalizados, podendo comprometer o seu desenvolvimento físico e mental  
e na sua sociabilidade. Esses dados confirma as análises de Saffioti (2015) quanto a perpetuação  
do ciclo da violência, situação na qual um oprimido se torna opressor, o que foi evidenciado na  
fala da entrevistada 8:  
[...] o adolescente reproduz aquilo que ele aprendeu. E, nesse contexto  
familiar, foi aprendido ser agressivo, porque o pai era agressivo ou vive em  
uma comunidade agressiva. Então, para ele, aquilo é normal, ele cresceu  
naquele meio que ele percebe que está certo. Então, [ao ser confrontado] ele  
considera que nós estamos errados! Então, eles chegam aqui com a ideia de  
que o que estamos ensinando para eles não existe [na sua realidade]. E aí, a  
gente tem que trabalhar esse adolescente para mostrar que aquela vivência que  
ele teve não é a certa [que há outras formas de reação possíveis]. E é desafiador  
mexer na mentalidade de um adolescente que tem essa informação. [...] Então,  
para resolver os conflitos dele, ele vai ser violento dentro da instituição ou na  
escola. Vai ter problemas mentais, vai ter problemas com traumas, ansiedade.  
Tem adolescente que, às vezes, se automutila, tem depressão. [...] Então, já  
mexe também com a saúde mental desses adolescentes. São adolescentes que  
têm baixa autoestima, tem isolamento social, comportamentos atípicos,  
dificuldades na escola. Então, são vários desafios que esses adolescentes  
trazem para a gente (Entrevistada 8, 2024).  
Diferentemente dos demais participantes da pesquisa, a entrevistada 5 apontou que nos  
casos em que as genitoras são vítimas de violência e reproduzem a violência intrafamiliar com  
os filhos, ela não acompanha tais casos, mas direciona esse trabalho para a rede  
socioassistencial. “Quando tem presença de violência, dificilmente essa criança vai ser  
reinserida [...]. Existem históricos sim, mas a gente não acompanha. Porque aí acaba sendo um  
acompanhamento da assistência social”. Embora essa profissional mencione que não  
acompanha os casos de violência, direcionando para outros serviços, discorda-se desse  
posicionamento. Mesmo quando a equipe técnica de nível superior não atua diretamente com  
as violações de direitos que acomete os genitores, de maneira transversal, trabalha-se com a  
violência que se faz presente no cotidiano das famílias cujas crianças e adolescentes se  
encontram institucionalizados. Conforme as atribuições mínimas da equipe de nível superior,  
tanto em Casa Lar como em Abrigo, previstas nas Orientações Técnicas para Serviços de  
Acolhimento de Crianças e Adolescentes (CMDCA/CNAS, 2009), esses profissionais devem  
realizar acompanhamento psicossocial dos usuários e suas respectivas famílias, com vistas à  
reintegração familiar. Ou seja, durante o acompanhamento familiar, se faz necessário a  
95  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
realização de orientações acerca das violações de direitos que envolvem, por vezes, a violência  
intrafamiliar.  
Acerca do trabalho da equipe técnica com as crianças e adolescentes e suas respectivas  
famílias, as maiores vítimas de violência apontadas nas entrevistas são as genitoras, e as  
crianças e adolescentes. Todas as entrevistadas sinalizam que o trabalho em casos de violência  
é direcionado para a rede, mas destacam a naturalização da violência, por circunstâncias  
culturais, históricas ou sociais.  
A entrevistada 4 destacou a importância de se fazer um trabalho de educação e  
prevenção com os homens, visando discutir aspectos ligados ao comportamento violento. A  
profissional acredita que, assim como há equipamentos voltados para o atendimento de  
mulheres vítimas de violência, deveria haver dispositivos e equipamentos que realizam um  
trabalho com os homens contra a violência doméstica, demonstrando o reflexo da violência na  
vida familiar, principalmente sobre as crianças e adolescentes. “A gente recebe muitos casos de  
situações de violência e maus-tratos físicos com as crianças e adolescentes. [...] E não temos  
para onde enviar essas pessoas.”  
Para que se possa trabalhar a demanda identificada, o encaminhamento acontece de  
acordo com os tipos de dispositivos e regulamentação existentes no município. A entrevista 6  
menciona que há “muitos casos de violência psicológica e da violência sexual” que exigem um  
trabalho em rede: “A gente encaminha para o CREAS, que faz o atendimento diretamente com  
a família. E também fazemos encaminhamentos para a saúde, para um atendimento clínico,  
psicológico e psiquiátrico.”  
96  
Contudo, nem todos os municípios possuem o Centro de Referência Especializado de  
Assistência Social (CREAS), haja vista que, segundo a Tipificação dos Serviços  
Socioassistenciais (CNAS, 2008), só há financiamento para o CREAS nos municípios de  
Pequeno Porte II, Médio Porte, Grande Porte e Metrópole. Desta forma, os municípios de  
Pequeno Porte I, que possuem menos de 20.000 habitantes, não possuem o CREAS, exceto se  
for criado e custeado pelo ente municipal. Nos municípios que não possuem CREAS, o  
atendimento e acompanhamento das famílias cujos direitos foram violados, como as mulheres  
vítimas de violência doméstica, tende a ser realizado no Centro de Referência de Assistência  
Social (CRAS).  
Todas as entrevistadas apontaram uma correlação entre a estrutura patriarcal, violação  
de direitos e institucionalização das crianças e adolescentes. Os dados mostram que a estrutura  
patriarcal se expressa na vida dessas mulheres na dependência dos companheiros, na  
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culpabilização e responsabilização pela falha na proteção dos filhos e na ruptura com a  
centralidade da família.  
A entrevistada 8 mencionou que, frequentemente, as figuras de autoridade nas famílias  
exercem controle abusivo sobre as crianças e adolescentes que chegam ao abrigo, tais como,  
abuso sexual, violência doméstica, abuso físico e até exploração sexual. Embora a sociedade  
tenha mudado em diversos aspectos, o poder concentrado nas mãos dos homens permanece  
como realidade vivenciada por muitas famílias, resultando em dominação, opressão e violência.  
A entrevistada 8 também mencionou que, em muitos casos, as mães acabam se  
silenciando diante da violência, por medo ou dependência, permitindo que os abusos  
continuem. Destacou que são frequentes as situações em que adolescentes chegam ao abrigo  
após serem vítimas de violência ou abuso, com o conhecimento da mãe que se cala por medo  
do agressor. Há casos em que as denúncias de violência física envolvem toda a família, levando  
crianças e adolescentes a buscarem proteção nas instituições.  
Na reprodução da estrutura patriarcal, além das mulheres presenciarem a violência, elas  
são ameaçadas, responsabilizadas e culpabilizadas pela “falha” no cuidado com as crianças e  
adolescentes, como será discutido a seguir.  
Responsabilização feminina pelo cuidado de crianças e adolescentes  
Das oito profissionais entrevistadas, seis (75%) afirmaram que prevalece nas unidades  
de acolhimento as famílias monoparentais referenciadas por mulheres (mãe, tias e avós).  
97  
A maioria aqui é família monoparental e extensa, formada apenas pela  
genitora e é a que mais acompanha os atendimentos realizados na casa.  
Geralmente, é avó ou tia que procura. Tia, tio, a gente tem até casos em que  
tem um tio paterno que tem a guarda, mas a maioria é a mulher (Entrevistada  
3, 2024).  
Essa informação dialoga com os dados do DIEESE (2023) e do IBGE que apontam o  
crescimento do número de famílias monoparentais referenciadas por mulheres no Brasil,  
embora não tenha se superado o número de famílias nucleares. Contudo, Moreira (2013)  
menciona que há um maior número de famílias monoparentais femininas e reconstruídas  
recebendo medidas protetivas, dentre estas, a institucionalização de crianças e adolescentes.  
Uma entrevistada mencionou que, apesar de haver os progenitores, a responsabilização  
pelos cuidados, acompanhamentos e responsabilização pela proteção recai majoritariamente  
sobre as mulheres, especialmente as genitoras.  
Nos meus atendimentos sociais individuais com a família, sem sombra de  
dúvida, a participação feminina é bem maior. Temos sim algumas exceções  
que têm mais a ver com questões de conflitos familiares e questões  
financeiras, do que o próprio cuidado. Dois casos que eu tenho lá na  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
instituição, de uma presença masculina no cuidado, mas são os avós que estão  
por trás do cuidado com as crianças adolescentes. Tenho muitas crianças que  
não têm o registro da paternidade, então, sem sombra de dúvida, o fator  
feminino sobressai (Entrevistada 4, 2024).  
As mulheres não só são responsabilizadas pelo cuidado, como também pelo “não  
cuidado” que gerou a perda do poder familiar. Das oito entrevistadas, cinco apontam que as  
genitoras são as mais responsabilizadas, e três afirmam que são os dois. Cabe destacar que não  
houve respostas em que o genitor sozinho foi o principal responsável no processo de  
acompanhamento. A ausência dos genitores é citada nas entrevistas em relação aos casos em  
que não há registro paterno e que não conhecem o genitor, conforme apontado pela entrevistada  
4.  
A figura feminina é sempre a mais responsável pela falta de cuidado, e isso  
não só vem da família, é todo um histórico familiar que considera a mulher  
sempre como a culpada, a que faltou com o cuidado. Tem um caso que atendo  
que o pai está em cena, mais do que a mãe. Só que o pai sempre entra em cena  
culpando a mãe e quando eu atendo uma mãe, ela não culpa o pai, ela tenta de  
todas as formas tirar a criança da instituição, então ela arruma o emprego, ela  
mantém os horários, agora o pai não, ele tem essa questão de culpar  
(Entrevistada 4, 2024).  
Como o acolhimento institucional tem o caráter provisório, sendo uma medida de  
proteção no momento em que crianças e adolescentes se encontram em risco físico/psicológico,  
os técnicos devem buscar o retorno para a família nuclear, extensa ou substituta. O trabalho  
com as famílias das crianças e adolescentes institucionalizados é realizado com os dois  
genitores, mesmo que não estejam juntos, avaliando o vínculo e o comprometimento, buscando  
fazer a reaproximação das crianças e adolescentes. Nesse processo de tentativa de  
reaproximação com os genitores, cinco das entrevistadas apontam o predomínio da participação  
feminina, na condição de mães, avós e tias.  
98  
A maior reaproximação geralmente é com as mães. Tem situações que o pai  
realmente não quer o compromisso, ele já não tem vínculo com o filho, ele já  
não tem vínculo mais com a mãe. Há aquele que vive dominado pelo  
machismo, tem uma dificuldade maior em aderir às direções, então ele não é  
tão presente nos chamamentos. As mulheres, por outro lado, vão abraçando  
mais e acabam sendo mais próximas e mais frequentes (Entrevistada 7, 2024).  
A mãe, com certeza, é muito mais presente. Quando não a mãe, a avó ou a tia.  
Sempre a figura feminina. [Há casos em que] o convívio com a genitora não  
ocorreu ou foi só na primeira infância. Mas as mulheres da família, seja na  
família extensa, seja uma madrinha, [quem faz a aproximação] sempre são as  
mulheres (Entrevistada 1, 2024).  
Aqui acompanhamos apenas uma família em que os dois genitores são  
presentes. E aí conseguimos cobrar mais dos dois de forma igual, apesar do  
genitor ser pai só de uma filha e a mãe ter mais duas crianças aqui na  
instituição. Nos demais casos, a gente acompanha mais a mãe. Os pais são  
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bem mais ausentes. Tem uma outra família que a gente acompanha só o  
genitor, que é o que tem interesse na guarda, e as outras é só a genitora, sem a  
presença do pai. Geralmente a gente não sabe nem quem são os pais  
(Entrevistada 3, 2024).  
Percebe-se que, mesmo quando é possível identificar o acompanhamento dos dois  
genitores, a maior responsabilização pela criança recai sobre a mulher, independentemente de  
ser a genitora ou não. Moreira (2013) menciona que mesmo nos casos de famílias reconstituídas  
há uma maior responsabilização das mulheres.  
A entrevistada 7 narra a sua percepção sobre o sistema patriarcal, com uma análise sob  
o viés da centralidade da família e o seu papel, e destaca que essa desigualdade entre homens e  
mulheres compromete a dinâmica familiar e a vida das mulheres. Segundo essa entrevistada, o  
sistema patriarcal, ainda presente, deixa marcas ao perpetuar a subjugação feminina, muitas  
vezes por meio da dependência emocional, física e financeira. Ainda pela percepção da referida  
entrevistada, a ausência do homem como provedor desestrutura o núcleo familiar,  
sobrecarregando a mulher com responsabilidades que podem gerar problemas de saúde mental.  
Essa sobrecarga, por vezes, leva ao uso de álcool ou drogas, criando um ciclo de  
autodesvalorização que afeta também os filhos. A ruptura em qualquer modelo familiar abala  
sua estabilidade, destacando a importância da coesão para o bem-estar de todos os membros.  
Contudo, cabe pontuar, que a percepção da entrevistada 7 reforça a ideia de que a  
presença do homem é que garante uma dada estabilidade familiar, seja financeira ou emocional,  
ou seja, reforçando a imagem do homem enquanto provedor do lar, da moralidade e símbolo da  
dita estrutura familiar. Perspectiva essa, como anteriormente já exposto, construída histórica e  
socialmente do papel da mulher e do homem no espaço doméstico, reforçado pelo sistema  
patriarcal.  
99  
A entrevistada 7 também mencionou que, além da ausência paterna, há uma sobrecarga  
sobre as mulheres, especialmente para as mães, quando assumem o papel de provedoras do lar:  
[...]aí ela acaba não dando conta, o que vai sobrecarregando física e  
emocionalmente, o que tem sido um grande gerador de problemas mentais, da  
saúde mental, levando-a a buscar refúgios em álcool e drogas. Aí ela se vê  
incapaz, porque não consegue mais gerir a sua casa. Aí vem os ciclos, pois ela  
já se sente incapaz, desconta em si mesma e nos filhos. Então a questão [...]  
de não ter um lar estruturado, não que seja necessária a figura do homem na  
casa, mas quando há essa quebra, desestrutura sim a família. Hoje a gente sabe  
que existem vários modelos de família, mas quando elas já nascem nessa  
estrutura, então ela vai ser gerada dentro dessa estrutura (Entrevistada 7,  
2024).  
A entrevistada 4 também menciona que a estrutura patriarcal gera maior pressão nas  
genitoras sobre o cuidado e a responsabilização da ausência dele. As próprias crianças e  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
adolescentes as culpabilizam por estarem acolhidos, e eximem o genitor - em alguns casos eles  
nem conhecem o genitor.  
Sem sombra de dúvida, eu vejo ausência de proteção e também a questão da  
dominação. Hoje a gente tem muitas crianças e adolescentes que a figura  
paterna não existe, ela é só de papel, e as crianças reproduzem uma  
culpabilidade da mãe, da genitora. Eles pensam: “eu estou aqui por causa dela,  
ela falhou, ela não cumpriu o papel dela. Estou aqui por ela não ter cuidado,  
não ter me dado a proteção.” Dificilmente as crianças perguntam pela figura  
masculina, perguntam se vão vir, mas quando eles aparecem, tem alguns que  
ficam mais agressivos. Então, eles reproduzem [a violência] na forma de  
agressão, às vezes de uma forma grosseira, quando tem poucos contatos com  
a figura masculina. Então, eu vejo que a estrutura patriarcal é bem presente na  
instituição, até no comportamento das crianças (Entrevistada 4, 2024).  
Esses dados dialogam com as análises de Machado e Moura (2023) ao apresentarem que  
os ciclos de violência, o histórico de vulnerabilidade das famílias, especialmente das mulheres,  
são questões estruturais advindas da sociedade capitalista e patriarcal que influem na  
desigualdade de gênero. Quando os homens entendem que as mulheres não cumprem com os  
papéis que lhes são socialmente construídos, elas passam a ser responsabilizadas e perdem a  
guarda de seus filhos, bem como são as responsáveis pelo acompanhamento e pedido para  
reaver a guarda.  
A importância do trabalho intersetorial na rede protetiva  
100  
Ao retratar a experiência de trabalho junto às famílias de crianças e adolescentes  
institucionalizados, as entrevistadas apontam as expressões da questão social como o fator  
preponderante nos relatos. Afirmaram que, para iniciar o trabalho com as famílias, é preciso  
conhecer a realidade social a fim de identificar os fatores que levaram ao processo de  
acolhimento institucional, identificando quais as violações de direitos estão presentes, para que  
possam intervir.  
Se é uma falta de dinheiro, a gente vai recorrer aos benefícios, aos programas  
sociais. Se é evasão escolar, a gente vai recorrer às escolas, saber quais são os  
motivos. Então, a gente começa a trabalhar e a buscar os direitos e,  
principalmente, o direito à restauração da identidade. A maioria chega sem ter  
esse conhecimento de quem são, alguns deles chegam sem documento. Então,  
primeiro a gente faz esse trabalho com eles, a restauração da identidade e  
depois vai trabalhar a busca de direitos para a família, no contexto geral  
(Entrevistada 7, 2024).  
Ao discorrer sobre as intervenções técnicas no cotidiano profissional, todas as  
entrevistadas sinalizam a centralidade do trabalho com a rede intersetorial para fazer os  
encaminhamentos. Demonstram que, no cotidiano profissional, o quão importante é o trabalho  
em rede para a proteção integral e garantia dos direitos das crianças e adolescentes  
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institucionalizados, conforme preconiza o ECA. As famílias cujas crianças e/ou adolescentes  
se encontram institucionalizados também são acompanhados pela rede de proteção social da  
Política de Assistência Social, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o  
Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). A restauração do vínculo  
comunitário e familiar é trabalhado pela equipe técnica que compõe o CRAS e a violação dos  
direitos que envolvem a família pela equipe técnica do CREAS.  
Das oito entrevistadas, três enfatizaram como é desafiador o trabalho realizado com as  
famílias:  
Agente observa quais são as violações de direitos que foram acontecendo com  
a criança, faz contato com a rede. Se a família não é acompanhada, a gente  
pede para inserir no CRAS ou CREAS. Se já é acompanhada, a gente pede  
para dar continuidade com o envio de relatórios (Entrevistada 5, 2024).  
Os fatores socioeconômicos, questão de violência, saúde mental, a gente vai  
encaminhar para a rede, para que essas famílias possam ter uma melhora  
significativa e esses adolescentes possam retornar para o seio familiar, porém  
não voltar como estava, mas com mudança, né? Porque algum familiar pode  
ter algum problema de saúde, que possa estar interferindo na negligência  
familiar, impedindo-o de conseguir gerir essa família, de ter violência física.  
Então, a gente precisa encaminhar para a saúde, ou mesmo para o CRAS ou  
para o CREAS e, junto à rede, a gente vai trabalhar com essas famílias  
(Entrevistada 8, 2024).  
A fala das técnicas evidencia a desproteção social que as famílias se encontram e que  
podem ocasionar a institucionalização de crianças e adolescentes. Mostra que, diante de um  
cenário cada vez mais precário, com desmonte de políticas públicas e direitos sociais, o Estado  
familista responsabiliza as famílias pela proteção social, deixando-as cada vez mais  
desprotegidas, conforme apontado por Arantes (2024). Essa situação ocasiona uma maior  
responsabilização da família pelo cuidado na expectativa de garantir a proteção social, sem que  
o Estado garanta a proteção ou as condições mínimas para que a família exerça o “papel  
ideologicamente esperado” de proteção.  
101  
Diante do recuo do Estado, imputa-se uma maior responsabilização familiar. Quando  
essa família falha no seu papel protetivo esperado, o Estado intervém através da  
institucionalização (Machado; Moura, 2023). Após o abrigamento, as famílias passam a ser  
alvo de políticas públicas protetivas, o que implica no trabalho dos técnicos de nível superior  
em todas as esferas de proteção social da política de assistência social. Nesse sentido, torna-se  
um grande desafio proteger as crianças, adolescentes e suas famílias, sem responsabilizá-las ou  
culpabilizá-las pelas violações de direitos que as acometem, visando o desacolhimento  
enquanto objetivo central para a garantia do direito à convivência familiar. Por mais que seja  
muito difícil, a gente precisa acreditar que aquela família tem condições de superar a situação  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
que fez com que a criança viesse para o acolhimento, senão não faz sentido, senão a gente só  
acolhe e nunca vai haver a reintegração(Entrevistada 2, 2024).  
A fala dessa técnica remete ao que Iamamoto (2009) pontua ao afirmar que os assistentes  
sociais não podem ser fatalistas, ou seja, achar que a situação está dada e que não há nada que  
possa reverter o quadro frente às contradições próprias do sistema capitalista. É preciso  
compreender que a profissão se insere na divisão social e técnica do trabalho, atendendo tanto  
às demandas do capital, quanto às necessidades dos usuários. A partir da relativa autonomia  
profissional, é preciso atuar de maneira que possibilite romper com a visão unilateral das  
relações sociais frente ao conservadorismo, imprimir uma atitude investigativa que analise a  
totalidade dos fatos, visando romper com o fatalismo e com a culpabilização dos indivíduos  
frente às expressões da questão social.  
Refinando as análises por meio do software Iramuteq  
Os dados das entrevistas foram submetidos a análise pelo software Iramuteq, conforme  
proposto por Bardin (2011), utilizando as opções Nuvem de Palavras, Análise de Similitude e  
Análise Fatorial de Correspondência. Ao articular dados qualitativos, quantitativos e  
linguísticos, o Iramuteq corrobora com uma análise da influência do patriarcado na  
institucionalização de crianças e adolescentes.  
102  
A nuvem de palavras tem como destaque a palavra “família”. Ou seja, nas entrevistas,  
há uma ênfase, como anteriormente já pontuado, acerca do familismo, da maior  
responsabilização da família pela proteção social de crianças e adolescentes. A palavra família  
merece real destaque, haja vista que é constantemente responsabilizada pelos cuidados, bem  
como é por ela que ocorre o acompanhamento, pois é através da família que se requer a  
recuperação da guarda das crianças e adolescentes. Ou seja, a instituição família é  
constantemente levantada nas entrevistas, tanto ao abordarem o seu trabalho dentro da  
instituição, bem como o acompanhamento familiar e as repercussões na família da  
institucionalização de crianças e adolescentes.  
A nuvem de palavras também destaca a desigualdade entre os gêneros, reafirmando o  
quanto o sistema patriarcal impacta na institucionalização de crianças e adolescentes. Além do  
termo crianças e adolescentes serem constantemente apontados nas falas, segue-se por  
violência. Ou seja, reafirma-se os dados já apontados do quanto a violência de gênero e  
intrafamiliar gera o próprio abrigamento, bem como reflete no comportamento das crianças e  
adolescentes dentro das unidades de acolhimento. Ou seja, o sistema patriarcal, que gera  
opressão e desigualdade, atribui um status de inferioridade à mulher e um certo “poder” ao  
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homem sobre a mulher, impactando na institucionalização de crianças e adolescentes,  
confirmando as análises de Saffioti (2015) e Machado e Moura (2023).  
Pelo número de repetições ao longo das entrevistas, o termo “mãe” aparece 72 vezes,  
enquanto “pai”, 63 vezes. “Genitor” é verbalizado 8 vezes, em contrapartida, “genitora” é  
mencionado 27 vezes. O termo “feminino” aparece 12 vezes durante as entrevistas, ao passo  
que “masculino” aparece somente uma vez. Ou seja, as mulheres são cada vez mais chamadas  
sobre a responsabilidade no que tange às crianças e adolescentes, seja pela via do cuidado, da  
causa pela institucionalização, pelo acompanhamento, demonstrando o quão patriarcal a  
sociedade ainda se apresenta.  
Figura 1 Nuvem de Palavras.  
103  
Fonte: Iramuteq, 2024.  
Assim, a desigualdade de gênero também é nítida na repetição das palavras. Percebe-se  
um maior destaque da palavra mulher em detrimento do homem, do termo mãe mais que pai,  
da genitora mais que genitor, do feminino mais que o masculino, do materno mais que o  
paterno. Isso demonstra o quanto o gênero feminino é mais presente e mais responsabilizado  
quando se trata do cuidado de crianças e adolescentes, como apontado por Arantes (2024) e  
Passos (2018). Na nuvem de palavras também aparece os termos avós e tias, o que não ocorre  
com os termos avôs e tios.  
A nuvem de palavras também reafirma as principais motivações que geram o  
acolhimento de crianças e adolescentes na mesorregião da Zona da Mata Mineira, onde há um  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
enorme destaque para a violência, seguido por negligência, agressividade, dificuldade, abuso,  
agressão, álcool, drogas, apanhar, dentre outros relacionados à violência.  
Já a análise de similitude se aproxima muito dos dados relativos à nuvem de palavras,  
destacando que o termo família abrange todas as esferas apontadas pelas entrevistadas,  
confirmando o quanto a família é central tanto nos motivos que geram o abrigamento, quanto  
no acompanhamento da institucionalização e do processo de recuperação do poder familiar.  
Figura 2 Análise de similitude.  
104  
Fonte: Iramuteq, 2024.  
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No que tange ao acompanhamento, fica claro que o sexo feminino se sobressai ao  
masculino, evidenciando o quanto as mulheres são mais responsabilizadas pelo cuidado, bem  
como culpabilizadas pelo abrigamento, conforme exposto por Moreira (2013). Fica evidente a  
culpabilização das expressões da questão social vividas pelas famílias, especialmente sobre as  
mulheres, que acarretam o abrigamento e a perda do poder familiar de crianças e adolescentes.  
Quando se analisa o comportamento das crianças e adolescentes dentro das unidades de  
acolhimento, sobressai-se os termos casa (referindo-se à casa lar ou abrigo), ambiente,  
agressividade, comportamento, abusar, condição, dificuldade. Isso demonstra como os  
impactos negativos da vida pregressa dessas crianças e adolescentes incide sobre o  
comportamento deles dentro das instituições acolhedoras.  
O núcleo da violência aparenta estar diretamente associado à mulher, ao sistema  
patriarcal, apontando o lado psicológico dessa relação através das palavras sofrer, apanhar,  
fragilizar, psicológico, carinho, dentre outras.  
A análise de similitude também evidencia a importância da rede intersetorial no que  
tange aos cuidados com as crianças e adolescentes acolhidos, bem como com as respectivas  
famílias. Sobressai-se os termos problema, saúde, mental, encaminhamento, medo e CRAS.  
Cabe salientar que no CRAS não há acompanhamento em saúde, e sim em assistência social,  
visando a prevenção de violação de direitos sociais e o fortalecimento de vínculos com a família  
e a comunidade, mas demonstra o quão importante se faz o trabalho em rede entre a política de  
assistência social e de saúde, visando garantir a proteção integral das crianças e adolescentes, e  
suas famílias.  
105  
A importância do trabalho em rede intersetorial também é perceptível na análise fatorial  
de correspondência, que corresponde a 19,6% das respostas das entrevistadas. Esse instrumento  
de análise, por meio dos termos rede, CRAS, saúde, possibilidade, CREAS, destituição,  
encaminhamento, acompanhar e participar, demonstram a importância que a rede possui  
durante todo o processo, desde a institucionalização de crianças e adolescentes, como no  
processo de acompanhamento visando a desinstitucionalização e o acompanhamento posterior.  
Nesse processo, a equipe técnica de nível superior das unidades de acolhimento, além do  
acompanhamento durante o período de abrigamento, deve manter o acompanhamento da  
criança e/ou adolescente que retorna para a família de origem ou para a família extensa, pelo  
período mínimo de seis meses.  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
Figura 3 Análise Fatorial de Correspondência.  
Fonte: Iramuteq, 2024.  
Na classe 1 de palavras (letras vermelhas), que corresponde a 14,8%, é destacado o  
sistema de proteção das crianças e adolescentes. Os termos negligência, droga, álcool, sozinho,  
causa, acolhimento, dentre outros, revelam a desproteção social a que as crianças  
institucionalizadas estão submetidas, advinda da família ou do Estado.  
106  
A classe 2 (letras cinzas), que corresponde a 17,1% das entrevistas, relaciona  
diretamente às questões de gênero, tais como mãe, pai, genitor, feminino, sexo, genitoras,  
vínculo, acolher. Segundo a análise fatorial de correspondência, o sexo feminino se sobressai  
ao masculino, confirmando a desigualdade de gênero expressa na análise das entrevistas e  
destacada por Saffioti (2015) e Arruza (2015).  
A classe 4 (letras de cor ciana), que corresponde a 14,9%, retrata as principais causas  
da institucionalização de crianças e adolescentes. As palavras remetem à questão da violência  
como central do processo de institucionalização e da influência do patriarcado no processo de  
abrigamento de crianças e adolescentes. As palavras que sobressaem envolvem a relação entre  
homens e mulheres, apontando para a violência física, sexual, no ambiente doméstico,  
articulado a termos como abuso, reproduzir, dentre outros.  
A classe 3 (cor verde), que corresponde a 14,1%, por meio das palavras aqui, agora,  
hoje, realidade, difícil, guarda, reafirma que a estrutura patriarcal impacta no processo de  
guarda e perda do poder familiar, implicando na institucionalização de crianças e adolescentes.  
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Por fim, na classe 6 (cor rosa), que corresponde a 15,7% das informações, as palavras  
agressividade, dificuldade, desafio e violento confirmam o quanto a estrutura patriarcal  
influencia o comportamento das crianças e adolescentes abrigados nos municípios da  
mesorregião da Zona da Mata Mineira. Demonstram o quanto a reprodução do ciclo de  
violência está atrelada ao processo de institucionalização e refletem no comportamento das  
crianças e adolescentes dentro das unidades de acolhimento, como também na educação, na  
dificuldade de entendimento, de autorreconhecimento e de identidade.  
Considerações finais  
Cheney (2018) defende que os estudos da infância avançam como um campo  
interdisciplinar, focado na justiça social e na diversidade epistêmica, em um processo que prima  
pelo questionamento das suposições patriarcais, adultícias e coloniais, tanto na academia quanto  
nas políticas de desenvolvimento internacional. Entretanto, os dados revelam o quanto essa  
perspectiva emancipadora está distante da realidade estudada. A infância ainda precisa ser  
pensada associada às relações patriarcais e de gênero que levam à institucionalização de  
crianças e adolescentes.  
As reflexões realizadas ao longo deste estudo afirmam que o patriarcado influencia  
diretamente a institucionalização de crianças e adolescentes, na Zona da Mata Mineira. A  
estrutura patriarcal, sustentada por desigualdades de gênero e papéis historicamente atribuídos  
às mulheres, impõe a elas a responsabilidade predominante pelo cuidado familiar, incluindo o  
cuidado sobre crianças e adolescentes. Esse peso, combinado com as pressões econômicas,  
sociais e culturais, frequentemente resulta na culpabilização das genitoras pelos desafios  
enfrentados no seio familiar, culminando na aplicação da medida de proteção, sendo este o  
processo de acolhimento institucional.  
107  
Os dados coletados por meio das entrevistas revelaram que as mulheres, enquanto mães,  
avós ou tias, são quase sempre as principais responsáveis pelo acompanhamento das crianças  
acolhidas, além de serem as maiores vítimas de violências intrafamiliares e de processos de  
negligência. A ausência ou a pouca participação masculina nos processos de cuidado e  
responsabilização familiar reflete uma dinâmica enraizada na estrutura patriarcal, que perpetua  
desigualdades e limita avanços em direção a uma divisão equitativa de responsabilidades.  
As análises realizadas pelo software Iramuteq reforçaram a centralidade da família e a  
naturalização do papel feminino nos cuidados, evidenciando ainda como a violência de gênero  
e a reprodução de ciclos de violência impactam no comportamento de crianças e adolescentes  
acolhidos. O comportamento agressivo, a dificuldade em estabelecer vínculos e a reprodução  
Estrutura patriarcal e institucionalização de crianças e adolescentes  
de práticas violentas apontam para a necessidade de intervenções focadas não apenas nos  
acolhidos, mas também nas famílias, com um olhar que contemple as relações sociais e a  
dinâmica de gênero.  
O estudo também mostrou a relevância do trabalho intersetorial no acompanhamento  
das famílias e no processo de desinstitucionalização, ressaltando o papel das políticas públicas  
na garantia de proteção social. No entanto, o modelo de Estado familista, predominante no  
Brasil, transfere para as famílias, sobretudo para as mulheres, muitas das responsabilidades que  
deveriam ser assumidas pelo Estado, fragilizando ainda mais as redes de proteção e perpetuando  
o ciclo do desamparo social.  
Assim, conclui-se que é indispensável repensar as estruturas patriarcais e capitalistas  
que sustentam essas desigualdades. É necessário fortalecer as políticas públicas de proteção  
social, ampliar o acesso aos direitos e aos serviços, promovendo uma mudança cultural que  
redistribua as responsabilidades de cuidado entre homens e mulheres. Contudo, acredita-se que  
somente com a superação da ordem capitalista será possível romper com a estrutura patriarcal  
que potencializa a institucionalização de crianças e adolescentes.  
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prestação continuada: quem protege os cuidadores? Boletim de Conjuntura (BOCA), v. 19,  
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UFSCar, vol. 13, n. 2, 2023.  
BERBERIAN, Thais Peinado. Serviço Social e avaliações de negligência: debates no campo da  
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