Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 21, n.1, p. 357-362, jan. / jun. 2021 ISSN 1980-8518
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DOI 10.34019/1980-8518.2021.v21.34470
Filantropia, Boa vontade e Organização
ANTONIO GRAMSCI
Avanti! - Edição Piemontesa, 24 de dezembro de 1917 (artigo não assinado)
Tradução: Cristina Simões Bezerra
Esta resposta ao artigo assinado "Most humbly"
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e chamado "Tra la cultura e
l'ignoranza" pretende ser uma ilustração prática de um dos principais objetivos que a associação
cultural proposta deve se colocar.
"Most humbly" é um organizador. Penso, assim, como ele deve ter clareza e critérios
precisos na organização, mais que qualquer militante no movimento socialista: se é verdade que
o conceito de organização é básico no pensamento socialista, também é verdade que a profissão,
a atividade específica do organizador, carrega consigo uma maior quantidade de
responsabilidade.
Digo isso porque "Most Humbly" escreve e levanta objeções como uma pessoa
"desorganizada" pode. Em outras palavras, ele falha ao transferir os conceitos que informa sua
atividade específica a outra atividade. Ele nem se incomoda em considerar se suas objeções
poderiam se aplicar a sua atividade. Nem se incomoda em considerar se aqueles que pertencem
a sua federação, quando refletem sobre o que ele escreveu, poderiam não generalizar e dissolver
a organização, porque a oficina é suficiente para criar a alma proletária - apenas a chance de
comprar livros e rever é suficiente para a pessoa que quer se tornar "educada", porque a
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‘Most humbly’ (l’Umilissimo) era Mario Guarnieri (1886-1974), um dos três secretários nacionais da Federação
Italiana de Metalurgicos, que contribuiu com um artigo ao Avanti!, de 20 de dezembro de 1917, opondo-se à
proposta gramsciana para uma associação cultural: "Quem deseja ser culto, seja um socialista ou trabalhador,
tem a oportunidade, embora nenhum órgão de cultura popular exista. De acordo com seus gostos e inclinações, ele
pode encontrar livros, jornais, revistas. Participar do nosso movimento contribui enormemente para o
desenvolvimento de sua inteligência. . . Se alguém tem os requisitos necessários para desenvolver sua própria
cultura, não existe razão para que ele permaneça ignorante. Mas devemos evitar querer tornar todos cultos porque,
em muitos casos, uma falsa cultura recheada de um pouco de tudo pode ser mais prejudicial do que simples
ignorância "(citado em CF, p. 520).
---------- Tradução dos Clássicos ----------
Antônio Gramsci
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sociedade capitalista naturalmente engendra a luta de classes, assim como isso naturalmente
engendra o pensamento de classe e o choque entre duas maneiras de pensamento, dois conjuntos
de ideais.
Em razão de sua atividade, "Most Humbly" está convencido de que a oficina não é
suficiente, que a solidariedade de classe (se ela tem efeito ativo e triunfa) deve ser organizada,
disciplinada e limitada. Em outras palavras, ele está convencido de que a natureza, a
necessidade, é apenas na medida em que é transformada, através do pensamento, em uma exata
consciência dos fins e dos meios. Portanto, ele propaga a necessidade de criar órgãos específicos
das lutas econômicas, capazes de articular esta necessidade, de purificá-la de toda obstrução
sentimental e individualista e de formar "proletários" no sentido socialista.
Por que não transferir estes conceitos para a atividade cultural? Porque a "Most
Humbly", assim como a outros neste bom país, falta o hábito de generalização, de síntese, que
é necessário se alguém quer pessoas completas, e não pessoas que tome cada instância
isoladamente, de "agora eu vejo, você agora não", de "amanhã sim, hoje o", de "se" e "mas",
etc. etc.
"Most humbly" tem um conceito de cultura impreciso também. Ele acredita que cultura
é sinônimo de conhecer um pouco de todas as coisas, que é sinônimo de Universidade Popular.
Dou à cultura este significado: exercício de pensamento, aquisição de ideias gerais, hábito de
conectar causas e efeitos. Para mim, todos já são cultos, porque todos pensam, todos conectam
causas e efeitos. Mas o são empiricamente, primordialmente cultos, não organicamente. Eles,
portanto, oscilam, dissolvem, suavizam, ou tornam-se violentos, intolerantes, briguentos, de
acordo com a ocasião e as circunstâncias. Vou me fazer mais claro: tenho uma ideia socrática
de cultura, acredito que significa pensar bem, em tudo que se pensa, e, portanto, fazer bem, tudo
que se faz. E desde que sei que cultura também é um conceito básico do socialismo, porque
integra e torna concreta a vaga concepção de liberdade de pensamento, gostaria de ser animado
pelo outro conceito, aquele da organização. Deixe-nos organizar a cultura da mesma forma que
procuramos organizar qualquer atividade prática. Filantropicamente, a burguesia decidiu
oferecer ao proletariado as Universidades populares. Como uma contraposta à filantropia,
deixe-nos oferecer solidariedade, organização. Deixe-nos dar o sentido de boa vontade, sem o
qual sempre se permanecerá estéril. Não é a leitura que deve nos interessar, mas o trabalho
minucioso de discutir e investigar problemas, trabalho do qual todos participam, para o qual
todos contribuem, no qual todos são, ao mesmo tempo, mestre e discípulo. Naturalmente, para
que isso seja organização e não uma confusão, isso deve representar uma necessidade. Esta
necessidade é generalizada ou apenas de alguns? Os poucos podem começar: nada é mais
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efetivo pedagogicamente que um exemplo ativo para revelar necessidades aos outros, para faze-
los sentir de forma aguda. Um pode prescindir do buffet para poucos e amanhã para muitos.
Cultura compreendida, no sentido humanista, é, ela mesma, uma profissão e uma
intrínseca satisfação. Os clubes, os grupos, não podem ser suficientes. Eles têm necessidades
práticas e são, eles mesmos, apanhados na correria dos eventos corriqueiros. E também tem
outra razão. Além de não ter a habilidade de generalizar, muitos italianos têm outra dificuldade,
que se deve historicamente à ausência de qualquer tradição de vida democrática em nosso país:
eles são despreparados para realizar diferentes atividades em um mesmo lugar. A maioria são
pessoas de uma atividade. A separação externa de organizações servirá para desenvolver
melhor as capacidades individuais, para uma síntese maior e mais perfeita.
E não faltarão problemas para discutir, até porque os problemas não devem contar em e
para si, mas pela forma como são tratados. Mas isso pode ser resolvido com outra possibilidade
se a proposta tem realmente eco entre os camaradas ou se a necessidade proclamada de
associação não é apenas o desejo de pensamento de alguém.
Cultura e luta de classes
ANTONIO GRAMSCI
“Il Grido del Popolo”, 25 de maio de 1918
Tradução: Cristina Simões Bezerra
A Giustizia, de Camilo Prampolini
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, oferece a seus leitores uma resenha das opiniões
expressas pelos semanários socialistas sobre a polêmica entre a direção do Avanti! e o grupo
parlamentar. O último capítulo desta resenha se intitula "Os intérpretes do proletariado" e
explica:
A Difesa de Florença e Il Grido del Popolo de Turim, os dois órgãos mais
rígidos e culturais da cultura intransigente, desenvolvem largas considerações
teóricas que nos é impossível resumir e que, em qualquer caso, não seria muito
útil reproduzir, porque ainda que esses dois períodicos afirmem ser
intérpretes genuínos do proletariado e ter a grande massa com eles –, nossos
2
Político (Reggio nell'Emilia 1859 - 1930). Socialista de orientação reformista, desenvolveu intensa atividade
sindical e contribuiu para o desenvolvimento do movimento cooperativo em sua cidade. Propagandista político
incansável, em 1886 fundou o periódico La Giustizia, em defesa dos explorados, da qual dirigiu até o seu
fechamento (1925). Deputado desde 1890, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores Italianos (1892),
então PSI (1895), ao qual aderiu até 1922, quando, com F. Turati e G. Matteotti, fundou o PSU. Durante o fascismo,
ele se retirou da vida política assumindo uma atitude de expectativa passiva. (Extraído de “Enciclopedia Treccani”,
< https://www.treccani.it/enciclopedia/camillo-prampolini/>.
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leitores não seriam suficientemente cultos para entender sua linguagem.
E a implacável Giustizia, para que não se diga que "faz uma maldosa ironia" reproduz
a continuação dos fragmentos isolados de um artigo do Grido para concluir: "Mais
proletariamente claros que isso não se pode ser."
O companheiro Prampolini nos oferece com isso uma ocasião de tratar um problema de
não pouca importância, referente a propaganda socialista.
Admitimos que o artigo do Grido foi o "não mais além" da dificuldade e da obscuridade
proletária. Poderíamos tê-lo escrito de outra forma? Era uma resposta a um artigo da Stampa, e
no artigo da Stampa se utilizava uma linguagem filosófica precisa que não era nem supérflua
nem dissimulada, posto que toda corrente de pensamento tem sua linguagem e seu vocabulário
próprios. Na resposta, teríamos que nos manter dentro do domínio do pensamento do
adversário, provar que inclusive e precisamente dentro desta corrente de pensamento (que é a
nossa, que é a corrente de pensamento do socialismo, nem boba nem adolescentemente pueril)
a tese colaboracionista é um erro. Para sermos "fáceis", teríamos que desnaturalizar e
empobrecer uma discussão que se referia a conceitos da maior importância, à substância mais
íntima e preciosa do nosso espírito. Fazer isso não é ser fácil: é ser desonesto, como o taberneiro
que vende água como se fosse barolo ou lambrusco. Um conceito difícil, em si mesmo, o
pode se tornar fácil pela expressão sem converter-se em torpe caricatura. E, além do mais, fingir
que a estupidez rasa segue sendo o conceito é próprio de demagogos baixos, de desonestos da
lógica e da propaganda.
Por que, então, Camillo Prampolini faz ironias fáceis sobre os "intérpretes" do
proletariado, incapazes de se fazer compreender pelos próprios proletários? Porque Prampolini,
com todo seu senso comum prático, é um escravo das abstrações. O proletariado é um esquema
prático; na realidade, o que existe são proletários individuais, mais ou menos cultos, mais ou
menos preparados para a luta de classe para compreender os mais puros conceitos socialistas.
Os semanários socialistas se adaptam ao nível médio das camadas regionais às quais se dirigem,
o tom dos escritos e da propaganda tem que ser sempre, contudo, um pouquinho superior a essa
média, para que haja um estímulo ao progresso intelectual, para que, ao menos, certo número
de trabalhadores saia da genérica distinção dos opúsculos reiteradamente ruminados e consolide
o espírito em uma visão crítica superior da história e do mundo em que se vive e luta.
Turim é uma cidade moderna. A atividade capitalista nela palpita com o enorme fragor
de conjuntos de ciclopes, que reúnem em poucos milhares de metros quadrados dezenas e
dezenas de milhares de proletários; Turim tem mais de meio milhão de habitantes; a
humanidade da cidade se divide em duas classes, com perfis distintos, que não existem no resto
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da Itália. Não temos democratas nem reformistas que nos perturbem. Temos uma burguesia
audaciosa, sem escrúpulos, temos organizações poderosas, temos um movimento socialista
complexo, variado, rico em impulsos e em necessidades intelectuais.
O companheiro Prampolini acredita que os socialistas têm que fazer propaganda em
Turim soprando a flauta pastoril, falando idilicamente de bondade, de justiça, de fraternidade
arcádica? Aqui a luta de classes vive com toda sua rude grandeza, não é uma ficção retórica,
não é uma ampliação dos conceitos científicos como antecipação de fenômenos sociais ainda
geminais e em amadurecimento.
É verdade que também em Turim a classe proletária absorve constantemente indivíduos
novos, não elaborados espiritualmente, ainda incapazes de compreender todo o alcance da
exploração de que são vítimas. Para eles, teria que começar sempre dos primeiros princípios,
pela propaganda elementar. Mas, e os outros? E os proletários adiantados intelectualmente,
já acostumados com a linguagem da crítica socialista? Quais havemos de sacrificar e a quais é
necessário dirigir-se? O proletariado é menos complexo do que pode parecer. Construiu-se
espontaneamente uma hierarquia espiritual e cultural, e a educação mútua atua onde não pode
chegar a atividade dos escritores e dos propagandistas. Nos círculos, nas ligas, nas conversas à
porta da oficina, se esmiuça, se propaga, de faz manejável e adequada para todos os cérebros e
todas as culturas a palavra da crítica socialista. Em um ambiente complexo e diverso como é o
de uma grande cidade industrial, se suscitam espontaneamente os órgãos de transmissão central
das opiniões, órgãos que a vontade dos dirigentes não conseguiria nunca constituir e criar.
E nós teríamos que nos ater sempre às geórgicas, ao socialismo agreste e idílico?
Teríamos que repetir sempre, com monótona insistência, a abecedário, uma vez que sempre há
alguém que não conhece o abecedário?
Recordamos, a este respeito, de um velho professor universitário que durante quarenta
anos tinha que desenvolver um curso de filosofia teórica sobre o "ser evolutivo final". Cada ano
começava um trajeto dos precursores do sistema e falava de Lao Tsé, o velho-menino, o homem
que nasceu com oitenta anos, da filosofia chinesa. E a cada ano voltava a falar de Lao Tsé,
porque se haviam somado ao curso estudantes novos, e também eles tinham que estar
consolidados sobre Lao Tpela boca do professor. E assim o "Ser evolutivo final" se converteu
em uma lenda, uma quimera em desagregação, e a única realidade viva foi pra os estudantes de
tantas gerações, Lao Tsé, o velho-menino, o garotinho nascido aos oitenta anos.
Assim ocorre, pelo que faz à luta de classes, na velha Giustizia, de Camillo Prampolini,
também ela é uma quimera volatilizada, e cada semana se escreve nela sobre o velho-menino
que nunca amadurece, que nunca evoluí, que nunca se converte no "Ser evolutivo final" a quem,
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todavia, alguém esperaria ver, por força, apontar, após tão lenta evolução, ao cabo de tão
perseverante obra de educação evangélica.