DOI 10.34019/1980-8518.2023.v23.41745  
O problema da emancipação humana na obra  
de Marx de 1843-1844: atualidade e desafios  
The problem of human emancipation in the work of Marx from 1843 to  
1844: actuality and challenges  
João Paulo Galhardo Brun*  
Luiza Miranda Furtuoso**  
Resumo: Três obras de Marx, escritas entre  
1843 e 1844, separadas por um curto período de  
Abstract: Three works by Marx, written  
between 1843 and 1844, separated by a short  
period of time, demonstrate the central role of  
human emancipation as the ultimate goal of the  
proletarian revolution. To follow the theoretical  
evolution of Marx of that time is to better  
understand contemporary issues such as the  
struggle for democracy and the real role of  
tempo, evidenciam  
o
papel central da  
emancipação humana como objetivo final da  
revolução proletária. Acompanhar a evolução  
teórica de Marx nessa época nos ajuda a  
compreender questões contemporâneas como a  
luta pela democracia e o real papel da  
emancipação política nas transformações  
sociais almejadas. O presente artigo busca  
contribuir no entendimento dos limites das lutas  
sociais contemporâneas sob à luz de Marx no  
período de 1843/1844.  
political  
emancipation in the  
social  
transformations we desire. This article seeks to  
contribute to the understanding of the limits of  
contemporary social struggles in the light of  
Marx in the years of 1843/1844.  
Palavras-chaves:  
Marx;  
Emancipação  
Keywords Marx; Human emancipation;  
humana; Emancipação política; Estado;  
Democracia.  
Political emancipation; State; Democracy.  
Recebido em: 01/08/2023  
Aprovado em: 27/09/2023  
*
Psicólogo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestrando no Programa de Pós-graduação em  
Serviço Social pela UFJF. E-mail: jpgbrum@gmail.com  
** Psicóloga pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestranda no Programa de Pós-graduação em  
Serviço Social pela UFJF. E-mail: mirandafurtuoso@gmail.com  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 375-388, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
João Paulo Galhardo Brun; Luiza Miranda Furtuoso  
Introdução  
O presente artigo tem como objetivo evidenciar que os problemas anunciados por Marx  
acerca da emancipação humana e da emancipação política no período de 1843 e 1844, assim  
como suas possíveis soluções, ainda são em grande parte ignoradas, mesmo sendo essenciais e  
relevantes para o momento presente. Isso se justifica na medida em que se faz evidente que  
vivemos um período de agravamento da questão social, com a desumanização do humano sendo  
refletida em diferentes esferas da vida em sociedade. Tal realidade parece esgotar as  
possibilidades de mudança e de esperança. O que resta é a luta pela inclusão pela via do  
consumo, a luta pela democracia liberal e pelo direito à diversidade. Porém, o que se buscará  
mostrar nesse estudo, à luz de Marx, é a limitação de tais objetivos, já que a emancipação  
política pretendida é muito diferente da emancipação humana necessária.  
A escolha das três obras de Marx, Sobre a questão judaica, Crítica da Filosofia do  
Direito de Hegel - Introdução e Manuscritos econômico-filosóficos, como foco principal nesse  
artigo se justifica pois acreditamos ser possível encontrar nelas semelhanças que enriquecem a  
compreensão do pensamento do autor quando trabalhadas em conjunto. Além disso, as três  
obras evidenciam o avanço teórico neste período, mais precisamente, o advento de uma crítica  
ontológica materialista, uma profunda inflexão não apenas para o pensamento de Marx, mas  
para toda a tradição filosófica, uma vez que o pensador alemão rompe de forma clara com a  
trajetória milenar da história da filosofia.  
376  
É importante também ressaltar que a seleção foi feita para cumprir os objetivos do  
estudo, mas que, no entanto, o problema se estende ao longo da obra marxiana e é um  
componente central de toda a sua obra. O recorte feito aqui se deu a propósito do diálogo  
possível entre as três obras selecionadas, que mesmo se avizinhando ao estarem circunscritas  
em um período temporal muito próximo, possuem cada qual marcas da originalidade do  
pensamento de Marx e pontos de contato entre elas os quais buscamos apresentar no presente  
estudo.  
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Apesar de se tratarem de textos redigidos por Marx no início de sua vida intelectual, o  
resgate das obras se justifica, além dos pontos já ressaltados, pela atualidade dos fenômenos e  
categorias nelas destacadas, principalmente o do estranhamento. O estranhamento, fenômeno  
que alcança substrato fértil no interior da sociabilidade do capital, ao ser recuperado junto ao  
problema da emancipação humana, permite deslindar um dos principais impasses para a  
produção do horizonte que contemple a multilateralidade do ser, e a alta capacidade de  
produção não apenas material, mas também da genuína, consciente e autêntica produção do  
humano.  
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O problema da emancipação humana na obra de Marx de 1843-1844: atualidade e desafios  
A inflexão dos anos 1840 no pensamento de Marx: gênese e contextualização do  
problema da emancipação humana a partir de seus elementos fundamentais  
Na forma sumária que aqui nos cabe, é peremptório apresentar que, desde a década de  
1840 até seus últimos escritos econômicos, operando uma profunda e fecunda inflexão em  
relação à toda trajetória da filosofia e da economia política clássica precedente, Marx investiga  
o que existe realmente, o “de onde” e “para onde” do gênero humano, pondo como centro da  
reflexão o modo de produção da vida, a totalidade complexa em seu sentido mais amplo, desde  
o ponto de vista ontológico. Essa constatação enfática está presente nos constituintes nucleares  
de sua reflexão até os últimos dias, como na afirmação de que “um ser não-objetivo é um não-  
ser” (Marx, 2010a, p. 199, tradução nossa), destacando de maneira explícita o caráter sensível  
e relacional de todo ser; ou, ao apresentar a sociedade como “o produto da ação recíproca dos  
homens” (Marx, 2017a, p. 188), apontando o caráter ativo do ser, onde a individualidade se  
forja simultaneamente à produção do próprio mundo, distante de quaisquer sociologismos à  
moda durkheimiana.  
A esse respeito, o filósofo húngaro György Lukács auxilia a iluminar essa questão,  
sendo o responsável por apresentar de forma inédita esse caráter ontológico no pensamento de  
Marx. Trata-se de uma difícil tarefa, uma vez que a ontologia historicamente esteve atrelada ao  
pensamento metafísico, o qual sempre foi visto com desapreço (com razão) pelo pensamento  
materialista. A partir de uma exegese dos textos de Marx, o filósofo húngaro desvenda que, o  
pensador alemão, na verdade, recoloca o problema da ontologia sobre uma base  
fundamentalmente materialista. Para Lukács, “a crítica de Marx é uma crítica ontológica” ao  
criticar o modo de sociabilidade inerente ao próprio ser da sociedade classista (Lukács, 2010,  
p. 71).  
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Retirando as deformidades em torno da obra marxiana, a exemplo da tese tão propalada  
do “corte epistemológico”, que cinde um “jovem” Marx de um Marx “maduro”, este último  
como se fosse o “verdadeiro Marx”, o que trata da economia e que merece ser estudado, Lukács  
traz de forma brilhante que, no pensador alemão, as categorias econômicas só comparecem a  
propósito de uma reflexão sobre o modo de produção da vida, não se tratando de um  
economicismo. E, ao contrário das formulações ainda difundidas, o “jovem” Marx não é um  
Marx imaturo, que em dado momento abandona suas formulações juvenis (como sinônimo de  
pueris, para alguns) para redigir suas obras econômicas1. Já na década de 1840 encontramos  
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1
Concordamos com Chasin (2009) que, se tratando da década de 1840, é possível dizer que até 1843 cabe a  
designação de uma obra juvenil nos termos tratados. Segundo o autor: “Já foi dito que o intervalo entre 1841 e  
meados de 1843, ao qual pertencem a tese doutoral e os artigos da Gazeta Renana, compreende o período inicial  
e não marxiano da elaboração teórica de Marx. Numa identificação menos genérica, o vínculo a ressaltar é com o  
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textos de grande vigor que expressam uma linha de continuidade na descontinuidade no  
pensamento do autor. Conforme observado por Lukács:  
Essas tendências encontram sua primeira expressão adequada nos  
Manuscritos econômico-filosóficos, cuja originalidade inovadora reside, não  
menos importante, no fato de que, pela primeira vez na história da filosofia,  
as categorias econômicas aparecem como as categorias da produção e da  
reprodução da vida humana, tornando assim possível uma exposição  
ontológica do ser social sobre bases materialistas (Lukács, 2018, p. 284-285).  
Além do texto seminal de 1844, os Manuscritos econômico-filosóficos, é possível  
rastrear os fundamentos dessa inflexão um pouco antes. Em Crítica da filosofia do direito de  
Hegel, sobretudo em sua introdução, revelam-se aspectos de um pensamento em trânsito.  
Embora a crítica à política ainda não estivesse pronta, nem a da economia política,2 há uma  
viragem ontológica nesse momento. Ao invés de assumir a ideia de Estado como ponto de  
partida, hipostasiando-a e convertendo-a em sujeito, conforme a inversão hegeliana de sujeito  
e predicado, Marx assume o Estado na forma como ele aparece. Para ele, Hegel concentra-se  
na coisa da lógica e não na lógica da coisa, uma vez que apresenta os “sujeitos reais”, família  
e sociedade civil como predicados do Estado, ao passo que este é elevado à posição de sujeito.  
Hegel, ao iniciar pelo absoluto, toma como ponto de partida de sua filosofia o ser  
apartado de qualquer determinação. Sua lógica é fundada em categorias que são consideradas  
e analisadas em um estado puro, privadas de suporte efetivo. Assim, na acepção hegeliana o  
ponto de partida não é o ser, mas o pensamento do ser. Contudo, para Marx, e aqui reside um  
marco importante em seu pensamento, o problema não reside no “uso” incorreto da lógica e na  
necessidade de sua retificação. Não há uma preocupação no terreno da lógica e da gnosiologia,  
ao contrário, ele levanta o problema da determinação do ser, da natureza mais essencial de suas  
categorias constitutivas. Reside, então, nesse texto as bases de um estatuto ontológico e de um  
trabalho investigativo que deve primar pela determinação da lógica da coisa, pela primazia do  
ente real sobre a ideia.  
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idealismo ativo, próprio dos neo-hegelianos; aos escritos dessa fase é que cabe, exclusivamente, numa periodização  
fundamentada, a designação de obra juvenil. Nesta, a rigor, não se encontram vestígios do pensamento  
feuerbachiano; em contrapartida, Bruno Bauer é uma presença inegável” (Chasin, 2009, p. 45, grifos do autor).  
2
Como descrito, nos Manuscritos de 1844 Marx se ocupa da economia, porém, a partir de categorias ainda em  
germe. Segundo o próprio autor, mais precisamente no prefácio de Contribuição à crítica da economia política de  
1859, data de um pouco antes, entre 1842-1843, enquanto ainda era redator na Gazeta Renana, o momento em que  
ele se vê diante da obrigação de voltar-se para os interesses materiais, um projeto que se impôs frente a si mesmo  
como investigador. O primeiro produto desse período é precisamente o texto Crítica da filosofia do direito de  
Hegel - introdução, publicado em 1844, e anterior aos Manuscritos econômico-filosóficos. A partir desse texto,  
chega “à conclusão de que a anatomia da sociedade burguesa deve ser procurada na Economia Política”, tarefa da  
qual irá se ocupar posteriormente (Marx, 2008, p. 47).  
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O problema da emancipação humana na obra de Marx de 1843-1844: atualidade e desafios  
Esse é o contexto que marca o período no qual buscamos analisar a problemática da  
emancipação humana, o momento em que, segundo Chasin (2009, p. 63), coincide com a  
conformação do Marx marxiano. Esses elementos contribuem para aferir a importância desses  
trabalhos no advento do pensamento de nosso autor. Não por acaso é nesse contexto que a  
crítica da política é inaugurada, ao ser explicitado o caráter determinante da sociedade civil,  
assim como é recusada a filosofia da especulação de Hegel em prol de uma, então, crítica  
ontológica. Ainda conforme Chasin:  
Não é casual a sequência dos textos então produzidos - "Crítica de  
Kreuznach"; Sobre a questão judaica; "Crítica da filosofia do direito de Hegel:  
Introdução" e as Glosas de 1844, que perfizeram, à época, as duas referidas  
aquisições - alçando o curso analítico à temática dos Manuscritos econômico-  
filosóficos, cuja relevância agora é clarificada (Chasin, 2009, p. 75).  
De modo geral, esses são elementos fundamentais para que seja compreendido o  
contexto no qual se inserem as obras selecionadas, no qual emerge, não por acaso, o problema  
da emancipação humana. Sem nos atermos a uma sequencialidade temporal, dado o momento  
de redação bastante próximo das obras, no texto Sobre a questão judaica é possível localizar  
elementos flagrantes que permitem posicionar a questão da emancipação humana, e a partir  
dele começaremos.  
O artigo de Marx, escrito em 1843 e publicado nos Anais Franco-Alemães em 1844, se  
inicia da seguinte maneira: “Os judeus alemães almejam a emancipação. Que emancipação  
almejam? A emancipação cidadã, a emancipação política.” (Marx, 2010b, p. 33). De forma  
clara e direta, o autor já deixa estabelecido que existem formas variadas de emancipação,  
demarcando sobre qual delas se está tratando ao mencionar a luta dos judeus de sua época na  
Alemanha. O artigo serviu de resposta às ideias de Bruno Bauer, interlocutor de Marx em  
diferentes momentos de sua juventude, sobre a condição dos judeus na Alemanha e sua desejada  
ascensão ao status de cidadãos alemães. Nesse mesmo texto são expostas as contradições de  
Bauer, desatando os nós teóricos que o mesmo cria sem perceber. Bauer argumentava que os  
judeus deveriam abrir mão da própria religião para que pudessem alcançar a emancipação na  
Alemanha. De forma lúcida, Marx explica: “de modo algum bastava analisar as questões: quem  
deve emancipar? Quem deve ser emancipado? A crítica tinha uma terceira coisa a fazer. Ela  
devia perguntar: de que tipo de emancipação se trata?” (Marx, 2010b, p. 36). E ainda:  
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[...] vemos o erro de Bauer no fato de submeter à crítica tão somente o “Estado  
cristão”, mas não o “Estado como tal”, no fato de não investigar a relação  
entre emancipação política e emancipação humana e, em consequência, de  
impor condições que só se explicam a partir da confusão acrítica da  
emancipação política com a emancipação humana geral (Marx, 2010b, p. 36).  
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João Paulo Galhardo Brun; Luiza Miranda Furtuoso  
Descobre-se, portanto, que em oposição à emancipação política, Marx defende a  
emancipação humana, direcionando o foco de toda luta social a esse objetivo final. Ao  
confundir essas duas formas de emancipação, ignoram-se que a libertação do homem pela  
emancipação política é uma libertação parcial, incompleta, pois é mediada pelo Estado:  
[...] o homem se liberta de uma limitação, valendo-se do meio chamado  
Estado, ou seja, ele se liberta politicamente, colocando-se em contradição  
consigo mesmo, alteando-se acima dessa limitação de maneira abstrata e  
limitada, ou seja, de maneira parcial. Decorre, ademais, que o homem, ao se  
libertar politicamente, liberta-se através de um desvio, isto é, de um meio,  
ainda que se trate de um meio necessário (Marx, 2010b, p. 38).  
A tentativa de libertar o homem através do Estado falha, portanto, justamente por  
depender do Estado como agente da libertação, e não se tratar do homem libertado pelo homem.  
Isso se justifica pois o homem dentro do Estado é um ser cindido, dividido entre o ser individual  
e o cidadão, entre uma vida falsamente classificada como universal e sua vida particular, entre  
o bourgeois e o citoyen. (Marx, 2010b). A vida comunitária e a vida burguesa são contradições  
que permeiam a vida no Estado burguês, fazendo do homem meio para obtenção de fins, ao  
mesmo tempo que sugere uma universalidade de direitos a todos os homens. Direito de comprar  
e de vender, nada mais. Torna-se clara, dessa maneira, a incompatibilidade dessa forma de vida  
com a verdadeira emancipação humana.  
Na sua realidade mais imediata, na sociedade burguesa, o homem é um ente  
profano. Nesta, onde constitui para si mesmo e para outros um indivíduo real,  
ele é um fenômeno inverídico. No Estado, em contrapartida, no qual o homem  
equivale a um ente genérico, ele é o membro imaginário de uma soberania  
fictícia, tendo sido privado de sua vida individual real e preenchido com uma  
universalidade irreal (Marx, 2010b, p. 40).  
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Marx entende e reconhece a importância da emancipação política como avanço  
civilizatório da sociedade até aquele momento, destacando a nítida superioridade política de  
um Estado democrático em comparação com um Estado cristão. Esse reconhecimento, contudo,  
não encerra na emancipação política o nível de alcance que a luta pela liberdade deve almejar.  
Já que a emancipação política, e no caso dos judeus, a luta pelos direitos humanos, pressupõem  
um direito à propriedade privada, um direito à separação dos homens, restritos à sua  
individualidade, pois é esse o limite da liberdade dentro do Estado burguês, que “faz com que  
cada homem veja no outro homem, não a realização, mas, ao contrário, a restrição de sua  
liberdade” (Marx, 2010b, p. 49).  
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Voltando ao debate com Bruno Bauer sobre o judaísmo, após esses esclarecimentos,  
Marx traça a linha divisória da contradição da reivindicação judaica por emancipação, já que  
os mesmos exigem uma libertação política apenas enquanto judeus, quando a lógica da  
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verdadeira emancipação seria a exigência de uma libertação humana enquanto seres humanos.  
Ao finalizar seu texto, Marx traz, novamente, de forma clara e direta, a evidente oposição dos  
dois tipos de emancipação por ele debatidos. Permita-nos, mais uma vez, destacar com as  
próprias palavras do autor tais esclarecimentos:  
A emancipação política é a redução do homem, por um lado, a membro da  
sociedade burguesa, a indivíduo egoísta independente, e, por outro, o cidadão,  
a pessoa moral.  
Mas a emancipação humana só estará plenamente realizada quando o homem  
individual real tiver recuperado para si o cidadão abstrato e se tornado ente  
genérico na qualidade de homem individual na sua vida empírica, no seu  
trabalho individual, nas suas relações individuais, quando o homem tiver  
reconhecido e organizado suas “forces propres” [forças próprias] como forças  
sociais e, em consequência, não mais separar de si mesmo a força social na  
forma da força política (Marx, 2010b, p. 54).  
Emancipação humana frente ao fenômeno do estranhamento  
A publicação do texto Sobre a questão judaica deu-se em conjunto com outro texto  
importante de Marx no mesmo volume dos Anais Franco-Alemães. Trata-se da chamada  
Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, escrito em 1844. Os poucos meses que  
separam a escrita dos dois textos guardam em si um crescimento e evolução substanciais do  
pensamento de Marx. No texto de 1844, o proletariado e a revolução ganham peso e clamam  
por seu papel de protagonistas no motor da história. A teoria marxiana avança, portanto, rumo  
a uma clareza sobre os passos concretos para se alcançar a emancipação de fato, a emancipação  
humana.  
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Nesse sentido, a força material e o papel das massas ganham destaque, na medida em  
que Marx conclui que:  
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[...] o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria  
também se torna força material quando se apodera das massas. Ateoria é capaz  
de se apoderar das massas tão logo demonstra ad hominem, e demonstra ad  
hominem tão logo se torna radical. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas  
a raiz, para o homem, é o próprio homem (Marx, 2005, p. 151).  
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O materialismo de Marx ganha novo desenho ao se aproximar da revolução proletária,  
onde “as necessidades teóricas” devem ser simultaneamente “necessidades práticas” (Marx,  
2005). Um afastamento, portanto, ainda mais contundente em relação à emancipação política  
como ponto final da luta social. Como fica evidente no caso alemão: “o sonho utópico da  
Alemanha não é a revolução radical, a emancipação humana universal, mas a revolução parcial,  
meramente política, a revolução que deixa de pé os pilares do edifício” (Marx, 2005, p. 154).  
Em seu texto anterior, escrito em 1843, Sobre a questão judaica, Marx defende, de  
forma geral, a liberdade, o povo e a democracia. Em suma, é um apelo à liberdade humana. É  
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uma crítica ao individualismo e à cisão do homem entre cidadão e do homem burguês,  
bourgeois e citoyen. Contra os interesses particulares e à universalidade falsa do Estado  
burguês. Porém, como aludido, o protagonista de tal liberdade ainda, em 1843, é o ser abstrato,  
o ser genérico. O que muda poucos meses depois, na introdução da Crítica da filosofia do  
direito de Hegel, e tem impacto até hoje quando se pensa em emancipação, é o papel central do  
proletariado e a reivindicação da luta por direitos realmente universais a partir de uma classe  
específica. Isso fica explícito no trecho magistral reproduzido a seguir, no texto de 1844:  
Onde se encontra, então, a possibilidade positiva de emancipação alemã?  
Eis a nossa resposta: na formação de uma classe com grilhões radicais, de uma  
classe da sociedade civil que não seja uma classe da sociedade civil, de um  
estamento que seja a dissolução de todos os estamentos, de uma esfera que  
possua um caráter universal mediante seus sofrimentos universais e que não  
reivindique nenhum direito particular porque contra ela não se comete uma  
injustiça particular, mas a injustiça por excelência, que já não possa exigir um  
título histórico, mas apenas o título humano, que não se encontre numa  
oposição unilateral às consequências, mas numa oposição abrangente aos  
pressupostos do sistema político alemão; uma esfera, por fim, que não pode  
se emancipar sem se emancipar de todas as outras esferas da sociedade e, com  
isso, sem emancipar todas essas esferas – uma esfera que é, numa palavra, a  
perda total da humanidade e que, portanto, só pode ganhar a si mesma por um  
reganho total do homem. Tal dissolução da sociedade, como um estamento  
particular, é o proletariado (Marx, 2005, p. 156).  
Assim, fica evidente, novamente, a distância teórica entre o pensamento marxiano e os  
argumentos de Bruno Bauer, que falha em perceber a necessária unidade da luta humana pela  
emancipação. Fascinante é também a percepção que Marx ganha no texto escrito em 1844, em  
comparação com o de 1843, sobre as formas concretas de se alcançar a emancipação humana,  
através da revolução proletária personificando a luta do homem pela libertação do homem.  
O ano de 1844 se mostra fundamental para o pensamento marxiano ainda pela escrita  
de outro texto, os Manuscritos econômico-filosóficos, escritos em Paris e publicados  
postumamente apenas no início do século XX. Esse material possui uma riqueza filosófica  
extraordinária, evidenciando a fertilidade intelectual de Marx nesse período. Os três textos aqui  
citados, escritos em um curto espaço de tempo, trazem uma das bases principais da teoria  
marxiana, a saber, a questão da liberdade humana. A começar pela ideia de liberdade do povo  
pela emancipação humana, no texto de 1843, seguida pelo papel central do proletariado e da  
revolução na libertação do gênero humano, e, por fim, nos manuscritos de Paris, a categoria do  
estranhamento como consequência da subjetividade engendrada pelo modo de produção  
capitalista e sua conexão com as bases econômicas da sociedade. Sobre esse último ponto nos  
deteremos a seguir.  
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O problema da emancipação humana na obra de Marx de 1843-1844: atualidade e desafios  
A categoria do estranhamento é complexa e cercada por diferentes interpretações.  
Porém, com o auxílio de György Lukács (2013), e partindo do próprio texto de Marx de 1844,  
é possível trabalhar com essa categoria para que ela nos auxilie na compreensão da emancipação  
humana. Segundo Lukács, é possível compreender o estranhamento como o momento em que  
indivíduo e gênero se desenvolvem em sentidos contrários. No modo de produção capitalista  
isso se dá de forma clara e abrangente, já que o trabalho, no capitalismo, perde seu caráter de  
autorrealização e de atividade autoprodutora do humano, ganhando um viés de mero  
instrumento da sobrevivência mediada pelo salário. Consequentemente, quanto mais o  
trabalhador se dedica na produção de um objeto que lhe é estranho, mais ele se afasta de si  
mesmo, se empobrecendo em uma proporção inversa ao enriquecimento da produção. O  
humano se torna, assim, cada vez menos livre, se aproximando, cada vez mais, de sua condição  
animal e perdendo seu caráter genérico. Marx pontua que:  
O homem é um ser genérico, não só porque prática e teoricamente faz do  
gênero, tanto do seu próprio quanto do restante das coisas, o seu objeto, mas  
também – e isto é somente uma outra expressão da mesma ideia – porque se  
relaciona consigo mesmo como gênero atual e vivo, porque se relaciona  
consigo mesmo como um ser universal, e por isso, livre (Marx, 2010a, p. 111,  
grifo do autor, tradução nossa).  
Portanto, para Marx a universalidade do homem aparece praticamente, no ato de criação  
do mundo objetivo e de elaboração da própria natureza. Embora os animais também sejam  
produtores, o são por meio de um elo inextricável com a naturalidade, com as necessidades  
mais imediatas. O humano produz ativamente a sua vida genérica, e por meio de tal atividade  
de produção, a natureza se coloca simultaneamente como obra e realidade do homem. O homem  
é um ser genérico ativo, de modo que “o objeto de trabalho é, portanto, a objetivação da vida  
genérica do homem: na medida em que este não apenas se duplica na consciência,  
intelectualmente, mas de modo ativo e real, e assim, o homem contempla a si mesmo no mundo  
que ele criou” (Marx, 2010a, p. 113-114, grifos do autor, tradução nossa). Por isso, enquanto o  
animal produz a partir das exigências de seu gênero natural, o homem enquanto ser social  
produz respondendo às exigências de seu gênero, mas vai além, pois ao homem cabe a dação  
de forma ao objeto. O ser social produz de acordo com a sua natureza eminentemente social,  
cuja inscrição escapa ao terreno da biologia, das necessidades fisiológicas e orgânicas. Ele  
produz de acordo com as leis da beleza, que para os animais não há e nunca haverá. Nos  
Manuscritos encontramos essa formulação quando Marx caracteriza o homem como ser  
genérico consciente e produtor de sua própria generidade:  
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A criação de um mundo objetivo através da prática, a elaboração da natureza  
inorgânica, é a prova de que o homem é um ser genérico consciente, ou seja,  
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um ser que se relaciona com o gênero como se relaciona com o seu próprio  
ser, ou consigo mesmo enquanto ser genérico. Sem dúvida o animal também  
produz. Ele constrói um ninho, habitações, como a abelha, o castor, a formiga,  
etc., só que unicamente produz o que necessita imediatamente para si ou para  
os seus descendentes; produz unilateralmente, enquanto o homem produz de  
modo universal, o animal só produz sob a coação da necessidade física  
imediata, enquanto o homem produz também livre da necessidade física e só  
produz verdadeiramente quando está livre dessa necessidade; o animal produz  
somente a si mesmo, enquanto o homem reproduz toda a natureza; o produto  
do animal pertence imediatamente ao seu corpo físico, enquanto o homem se  
enfrenta livremente com o seu produto. O animal forma-se somente de acordo  
com a medida e a necessidade da espécie a que pertence, enquanto o homem  
sabe produzir segundo a medida de toda espécie, e sabe aplicar em todos os  
casos a medida inerente ao objeto; o homem forma, portanto, de acordo com  
as leis da beleza (Marx, 2010a, p. 113, grifos do autor, tradução nossa).  
Contudo:  
Na medida em que estranha o homem 1) da natureza, 2) de si mesmo, de sua  
função ativa, de sua atividade vital, o trabalho estranhado também estranha o  
homem do gênero, uma vez que, para o homem, a vida genérica se converte  
em meio para a vida individual. Em primeiro lugar, estranha a vida genérica e  
a vida individual e, em segundo lugar, converte a segunda, em sua abstração,  
em um fim da primeira, também esta em sua forma abstrata e estranhada  
(Marx, 2010a, p. 112, grifos do autor, tradução nossa).  
Logo, é possível concluir que a única forma do sujeito se efetivar como um ser genérico  
é exercendo sua atividade vital como atividade autorrealizadora, alcançando conscientemente  
o desenvolvimento atingido pelo gênero humano. Dessa forma, evidencia-se a importância do  
caráter econômico, concreto, material nas reivindicações da revolução proletária, já que é pelo  
modo de produção que se engendra tais subjetividades estranhadas. Com isso, a noção de  
emancipação humana ganha nova complexidade, na medida em que:  
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Só quando o homem singular apreende a sua própria vida como um processo  
que faz parte desse desenvolvimento do gênero, só quando ele, por essa via,  
experimenta e busca realizar a sua própria conduta de vida, os  
autocomprometimentos daí decorrentes, como pertencentes a esse contexto  
dinâmico, só então ele terá alcançado uma ligação real e não mais muda com  
a sua própria generidade. Só quando tiver a intenção de almejar ao menos  
seriamente uma generidade desse tipo em sua própria vida o homem  
conseguirá apropriar-se de sua própria elevação acima de seu ser-homem  
meramente particular - pelo menos como obrigação perante si mesmo  
(Lukács, 2013, p. 601).  
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O resgate do problema da emancipação humana: atualidade e desafios  
Resta agora saber se, quase 200 anos após esses escritos de Marx, a luta por  
emancipação humana ganhou espaço nas reivindicações e no horizonte da classe trabalhadora,  
ou se, ao contrário, a emancipação política tornou-se hegemônica no debate sobre a busca pela  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 375-388, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
O problema da emancipação humana na obra de Marx de 1843-1844: atualidade e desafios  
liberdade. José Chasin (2013), em texto de 1984, já apontava para a segunda hipótese. O autor  
se pergunta:  
[...] estamos desistindo, nada mais nada menos, do que de nós mesmos,  
despejando, com alguma cerimônia, no latão dos detritos, a desafiadora e  
incontornável problemática da emancipação humana?  
Parece-me, de fato, que o trinado em fuga da democracia está substituindo a  
tônica da autolibertação dos homens.  
Relegamos a emancipação ou dela simplesmente deixamos de falar, por temor  
e descrença das palavras que “outrora” animavam, no ato e no verbo, esta  
máxima questão, esta verdadeira interrogação radical? (Chasin, 2013, p. 22).  
Os progressos atingidos no campo da luta social são inegáveis e devem ser  
comemorados. Lukács (2013) trata da questão da luta das mulheres, por exemplo, contra sua  
inferiorização, enfatizando como hoje é absurda a ideia de sua inferioridade intelectual em  
relação ao homem. Isso se deveu a períodos longos de reivindicação e luta. Assim como hoje  
se luta pela igualdade salarial no campo econômico, ou pela libertação sexual da mulher. Porém,  
isso não resolveu a questão do estranhamento da mulher, e nem do próprio homem que também  
se estranha ao gerar o estranhamento alheio. Talvez essa situação tenha até mesmo se agravado,  
substituindo formas antigas de estranhamento por outras modernas, como no caso da  
hipersexualização feminina. Isso ocorre pois o sentido da luta não contém em seu centro a  
questão do estranhamento, a luta pela conquista da generidade humana:  
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Portanto, é impossível que uma libertação sexual isolada por si só proporcione  
uma solução autêntica para a questão central da humanização das relações  
sexuais. Aqui existe o perigo de que tudo o que o desenvolvimento conquistou  
em termos de humanização social da pura sexualidade (erótica) seja  
novamente perdido. Somente quando os homens descobrirem relações mútuas  
que os unam inseparavelmente enquanto seres naturais (que se tornaram  
sociais) e simultaneamente enquanto personalidades sociais o estranhamento  
poderá realmente ser superado na vida sexual. Aênfase exclusiva no momento  
puramente sexual nessa luta - justificada e importante - por libertação pode  
muito facilmente substituir, ao menos temporariamente, os estranhamentos à  
moda antiga por estranhamentos à moda atual (Lukács, 2013, p. 612).  
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O que se vê hoje, então, são lutas isoladas, que falham em compreender o real sentido  
da emancipação humana, e nisso está incluída a luta pela democracia e pela emancipação  
política, nada mais. Chasin chama a atenção, a partir de Marx, para o fato de que o modus  
operandi da política é paralisante justamente por ser político, faz parte da lei natural da  
administração, que é a impotência. Segundo o autor, “à política só cabem as tarefas negativas  
ou preparatórias; a obra de “regeneração”, de que fala Marx, fica a cargo inteiramente da  
revolução social” (Chasin, 2013, p. 24). A luta hoje é, apenas, em defesa da emancipação  
política, tendo no Estado um papel ainda maior de mediador. Esse passou a ser o objetivo final,  
a representatividade, a inclusão pelo consumo e o respeito à diversidade e à democracia liberal.  
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Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 375-388, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
João Paulo Galhardo Brun; Luiza Miranda Furtuoso  
Diferente da defendida por Chasin, que parte da perspectiva do trabalho, que tem como base  
uma política econômica da perspectiva do trabalho, uma democracia, finalmente, dos  
trabalhadores.  
Nestas condições, diversamente dos países de capital avançado, onde se  
trataria de substituir a democracia de proprietários por uma democracia do  
trabalho, aqui a democracia da perspectiva do trabalho é a única factível, e  
com certeza a única que poderá vir a ser a responsável até mesmo pela  
implantação, de modo estável, das formas mais elementares da instituição  
democrática.  
O que implica se pôr imediatamente no terreno do próprio capital, ou seja,  
praticar desde logo um diapasão político negativo, vale dizer: fundir luta  
econômica com luta política. A não ser que se queira acreditar que seja  
possível fazer conviver instituições de tipo democrático com superexploração  
do trabalho, democracia com arrocho salarial (Chasin, 2013, p. 26).  
O perigo dessa democracia individualista é a ilusão de que a liberdade de um significa  
a liberdade de todos, mas como bem declara Marx: “mas se o indivíduo não é coagido pelas  
limitações do seu país, ainda menos a nação é libertada por meio da libertação de um indivíduo”  
(Marx, 2005, p. 149).  
É compreensível que, em 1984, qualquer sinal de enfraquecimento e iminente fim da  
ditadura militar no Brasil deveria soar como a consagração do Paraíso na Terra. Fato similar  
ocorre hoje, depois de quatro anos de um governo de extrema-direita e de sucessivos ataques à  
ordem democrática. Porém, não é possível perder de vista que a preconizada “democracia para  
sempre”, nos termos em que é colocada, significa também “capitalismo para sempre”. Nas  
palavras de Chasin: lamento que o itinerário de nossas oposições tenha seguido o que me  
parece ser o caminho inverso, na suposição de que primeiro se conquista a democracia, e depois  
se cuida da vida” (2013, p. 26).  
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Considerações finais  
Não é um objetivo do presente artigo tratar de uma periodização do problema da  
emancipação humana em todo o itinerário intelectual do autor, contudo, ainda que nem sempre  
de modo explícito, e tampouco a partir das mesmas palavras e termos, o tema comparecerá  
como um componente central até sua obra mais tardia. Para citar um exemplo, pode ser  
recuperada a passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade descrita no livro III  
d’O capital, onde a criação do reino da liberdade, a saber, aquele do desenvolvimento das forças  
humanas como um fim em si mesmo, que expressa a construção do mundo espiritual humano,  
só pode existir em íntima relação e a partir da construção do mundo material, isto é, a partir do  
reino da necessidade (cf. Marx, 2017b, p. 882-883). Nesse sentido, reino da necessidade e da  
liberdade são momentos distintos no interior de uma unidade e traduzem justamente o aspecto  
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Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 375-388, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
O problema da emancipação humana na obra de Marx de 1843-1844: atualidade e desafios  
fundamental da emancipação humana, a saber, de que não se trata de uma hipostasiação da  
economia, nem do reconhecimento de um desenvolvimento que ocorra de modo independente  
da prática social, econômica ou extra-econômica, mas de um desenvolvimento do humano em  
seu sentido mais amplo, abarcando necessariamente os indivíduos.  
Por isso, recuperar o problema da emancipação humana, de sua gênese, isto é, das  
primeiras aparições da temática, até o seu desdobramento mais posterior na obra de Marx, é  
urgente, sobretudo dada sua posição como constituinte nuclear da base e dos horizontes do  
pensamento marxiano. Trata-se de uma tarefa inconclusa não apenas a de investigar a  
ocorrência do problema em todo edifício da arquitetônica marxiana, em sua linha de  
continuidade na descontinuidade, mas também a de ler e reler o autor a partir desse vigamento  
fundamental.  
Ao trazer o recorte de um período específico, este estudo pretendeu elucidar a temática  
em seu momento de origem, na forma como ela aparece, e localizou que apesar da distância  
temporal dos temas e situações político-sociais retratadas nos textos de 1843 e 1844 de Karl  
Marx, a questão da emancipação política por mediação do Estado ainda é hegemônica no campo  
da luta social. Nesse sentido, afirmamos que compreender de forma séria, como buscaram fazer  
Lukács e Chasin, o real sentido da obra de Marx, é compreender também o caminho possível  
para a emancipação verdadeira, humana.  
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É fundamental, portanto, retomar o verdadeiro significado da emancipação humana  
defendido por Marx desde 1843, reconhecendo a importância da emancipação política como  
passo civilizatório, porém apenas como passo, trajeto, percurso para a construção do verdadeiro  
objetivo de devolver ao homem o que é humano.  
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Referências bibliográficas  
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2009.  
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LUKCS, Gyrgy. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios  
para uma ontologia hoje tornada possível. Trad. Lya Luft, Rodnei Nascimento. São Paulo:  
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LUKCS, Gyrgy. Para uma ontologia do ser social, tomo 2. Trad. Nélio Schneider, Ivo  
Tonet, Ronaldo Vielmi Fortes. São Paulo: Boitempo, 2013.  
LUKCS, Gyrgy. Para uma ontologia do ser social, tomo 1. Trad. Carlos Nelson Coutinho,  
Mario Duayer, Nélio Schneider. 2 ed. São Paulo: Boitempo, 2018.  
MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Trad. Rubens Enderle, Leonardo de  
Deus. São Paulo: Boitempo, 2005.  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 375-388, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518