DOI 10.34019/1980-8518.2023.v23.41517  
Condições para a emergência do neofascismo no  
Brasil: da crise política ao governo Bolsonaro  
Conditions for the emergence of neo-fascism in Brazil: from the political  
crisis to the Bolsonaro government  
Liana França Dourado Barradas*  
Gabriel Magalhães Beltrão**  
Resumo: O capitalismo em crise aprofunda o  
neoliberalismo e o corolário tem sido o avanço  
da extrema direita em muitos países, com  
variados traços de fascistização. Há entre o  
neoliberalismo e o neofascismo uma afinidade  
eletiva. No Brasil, a crise política iniciada em  
2013 e radicalizada em 2015 com a crise  
Abstract: Capitalism in crisis deepens  
neoliberalism and the corollary has been the  
advance of the extreme right in many countries,  
with various traces of fascistization. There is an  
elective affinity between neoliberalism and  
neofascism. In Brazil, the political crisis started  
in 2013 and radicalized in 2015 with the  
economic crisis has triggered the process of  
fascistization. Based on the interpretation of  
Nicos Poulantzas, we will seek to present the  
peculiarity of a political crisis that creates the  
enabling environment for the emergence of the  
fascist movement from the mass activism of the  
radicalized middle classes. The political  
weakness of the working class coupled with the  
acute political dispute within the dominant  
classes has engendered a serious political and  
institutional crisis, allowing the rise of the  
middle classes that, in 2018, reach the Federal  
Executive with the election of Jair Bolsonaro,  
but not to have their real interests represented.  
econômica deflagrou  
o
processo de  
fascistização. Alicerçado na interpretação de  
Nicos Poulantzas, buscar-se-á apresentar a  
peculiaridade de uma crise política que cria o  
ambiente propício para o surgimento do  
movimento fascista a partir do ativismo de  
massas das classes médias radicalizadas. A  
debilidade política da classe trabalhadora aliada  
à aguda disputa política no seio das classes  
dominantes engendrou uma grave crise política  
e institucional, permitindo o ascenso das classes  
médias que, em 2018, chegam ao Executivo  
Federal com a eleição de Jair Bolsonaro, mas  
não para terem os seus reais interesses  
representados.  
Palavras-chaves:  
Neoliberalismo;  
Keywords:  
Neoliberalism;  
Neo-fascism;  
Neofascismo; Crise política.  
Political crisis.  
Recebido em: 16/08/2023  
Aprovado em: 30/10/2023  
*
Assistente social, mestre em Serviço Social pela UFAL, doutora em Serviço Social pela UFRJ. Professora  
Adjunta de Serviço Social da Universidade de Pernambuco/UPE. Pesquisadora e líder do Grupo de Estudos e  
Pesquisas sobre Trabalho, Estado, Políticas Sociais e Movimentos Sociais. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-  
**  
Bacharel em Ciências Sociais/ICS/UFAL, mestre em Sociologia/ICS/UFAL, doutorando de Serviço Social  
PPGSS/FSSO/UFAL. Professor de Sociologia do Instituto Federal de Alagoas/IFAL. Pesquisador do Grupo de  
Pesquisa Estado, Direito e Capitalismo Dependente. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8002-1589  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 453-476, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Liana França Dourado Barradas; Gabriel Magalhães Beltrão  
Introdução  
A vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 reativou o debate acerca do fascismo nos  
meios acadêmicos e nas organizações da esquerda brasileira e latino-americana. Soma-se, desta  
forma, às reflexões já existentes na Europa e nos EUA acerca dos variados movimentos,  
partidos, líderes e governos de cariz de extrema direita ou (neo)fascista que emergiram nas  
últimas décadas. Segundo Löwy (2019, n.p), a despeito da heterogeneidade apresentada nos  
diversos países, o neofascismo é hoje um fenômeno planetário.  
O escopo deste artigo se restringe à análise das condições que têm ensejado a  
emergência da extrema direita, especialmente a neofascista, no mundo hoje e em particular no  
Brasil. Não trataremos, portanto, da análise do governo Jair Bolsonaro (2019-2022), apenas das  
condições econômicas e políticas que resultaram na sua vitória eleitoral em 2018.  
No primeiro item – O neoliberalismo e a emergência do neofascismo - apresentaremos  
a hipótese de que há entre o neoliberalismo e o neofascismo uma “afinidade eletiva”, seguindo  
Filgueiras e Druck. O neoliberalismo como expressão político-ideológica do capitalismo em  
crise corroeu progressivamente a legitimidade da democracia liberal, mesmo naqueles países  
considerados socialdemocratas. Hoje, o “novo-neoliberalismo” (Dardot; Laval, 2019, n.p)  
despe-se de sua aura ideológica que o apresentava como sinônimo de democracia e valores  
individuais, exigindo cada vez mais o desmantelamento dos direitos de bem-estar social e o  
recrudescimento do autoritarismo inerente ao Estado capitalista. O desfalecimento da  
legitimidade da democracia liberal pelo neoliberalismo tem resultado, como efeito colateral, no  
surgimento de variados movimentos de extrema direita na Europa, EUA e na América Latina,  
os quais buscam superar esta crise da democracia liberal não com a superação do capitalismo,  
mas da própria democracia em favor de um Estado de Exceção de tipo fascista.  
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No segundo item – As condições de emergência do neofascismo no Brasil –  
reforçaremos que há uma “afinidade eletiva” entre o neoliberalismo e o neofascismo, mas não  
uma relação de necessidade. Ainda que esse vínculo entre crise do capitalismo, neoliberalismo  
e extrema direitização possa ser identificado como um movimento tendencial, o  
desenvolvimento do processo de fascistização não é visto como uma consequência necessária  
da acumulação de capital, pois apenas um tipo particular de crise política pode dar origem ao  
referido processo (Poulantzas, 2021). Ancorado em Boito Jr. (2019), mostraremos que desde os  
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idos de 2013 o Brasil adentrou num agudo conflito entre as classes burguesas pela direção da  
orientação estratégica do Estado, o que, somado à incapacidade de defesa das instituições  
democráticas por parte dos trabalhadores, conduziu o país a uma profunda crise política,  
elevada ao paroxismo em 2015 com a crise econômica e a queda brusca da taxa de lucro das  
classes dominantes (Pinto et al, 2019).  
No terceiro item – Crise política e o processo de fascistização – daremos  
prosseguimento aos argumentos tangenciados no item anterior, de modo a tornar cristalina a  
interpretação de natureza poulantzasiana segunda a qual somente uma crise política específica  
é capaz de dar origem ao processo de fascistização. Longe de ser resultado de uma ofensiva dos  
trabalhadores, o fascismo se converte em movimento de relevo justamente em razão da sua  
debilidade, com o processo de fascistização colocando os trabalhadores na defensiva.  
No quarto e último item – O papel na Lava-Jato no processo de fascistização –  
apresentaremos a Operação Lava-Jato como um reflexo da crise política, que, por sua vez, a  
aprofundou significativamente. De “bactéria” (Pinto et al, 2019, p. 129) inoculada pelo campo  
neoliberal ortodoxo a fim de resolver seus conflitos no bloco no poder, a operação adquiriu  
autonomia e produziu profunda destruição política e institucional, da qual brotou o  
bolsonarismo – o neofascismo tupiniquim em estado pleno, que foi capaz de desbaratar outros  
“concorrentes” como o próprio lava-jatismo.  
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No quinto e último item teceremos as considerações finais, que será seguida pelas  
referências bibliográficas.  
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O neoliberalismo e a emergência do neofascismo  
As condições globais têm fomentado uma tendência à extrema direitização – quiçá  
fascistização - do cenário político tanto nos países centrais/imperialistas quanto nos países  
periféricos/dependentes, incluindo formações sociais que gozam de larga experiência  
democrático-liberal com traço socialdemocrata. Trata-se das marcas da crise global do  
capitalismo. Esta crise deflagrada a partir da década de 1970 e agudizada em 2008 tem  
provocado fraturas econômicas, sociais e ideo-culturais no capitalismo, com impactos  
generalizados, ainda que desiguais entre os países.  
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A crise capitalista erodiu o consenso fordista-keynesiano do pós-guerra e o  
desenvolvimentismo latino-americano. Os Estados imperialistas introduziram o neoliberalismo  
como “vanguarda político-ideológica do capitalismo financeirizado”, “produzindo implicações  
gravíssimas para as condições de vida e trabalho da maioria da população mundial” (Druck;  
Filgueiras, 2018, n.p). Muito mais do que uma mera política econômica de natureza conjuntural,  
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erige-se, segundo a terminologia dos autores, um novo padrão de desenvolvimento capitalista  
(estrutural) (Druck; Filgueiras, 2018, n.p). O neoliberalismo constituiu uma nova hegemonia,  
uma nova racionalidade, estimulando o individualismo e a concorrência, fomentando um senso  
comum embebido pela ideologia do empreendedorismo, a “ditadura do sucesso”, a qual pode  
se expressar em modalidades laicas ou religiosas – vide a teologia da prosperidade típica do  
neopentecostalismo. Nos termos de Dardot e Laval,  
Não se trata somente de políticas econômicas monetaristas ou de austeridade,  
de mercantilização das relações sociais ou de ditadura dos mercados  
financeiros. Trata-se mais fundamentalmente de uma racionalidade política  
que se tornou mundial e que consiste em impor por parte dos governos, na  
economia, na sociedade e no próprio Estado, a lógica do capital até a  
converter na forma das subjetividades e na norma das existências (Dardot;  
Laval, 2019, n.p, grifo nosso).  
O neoliberalismo é essencialmente autofágico, “se nutre das crises econômicas e sociais  
que gera” (Idem), pregando a intensificação da sua própria lógica como única saída cabível para  
“superação” das crises (“Não há alternativas”, de Margaret Thatcher). Desta maneira, o  
neoliberalismo tem se nutrido da revolta por ele produzida em amplas parcelas da população  
contra a democracia liberal, visto que esta, mediante os partidos tradicionais da direita e da  
esquerda, operacionalizou a modernização neoliberal e sua contraface, qual seja, a ampliação  
da desigualdade social em patamares inauditos. Tem-se produzido, segundo Dardot e Laval,  
uma metamorfose no neoliberalismo na última década: despe-se de sua hipócrita imagem inicial  
de politicamente liberal e democrático, cioso do Estado de direito, conjugando-se ao  
“fechamento de fronteiras, a construção de muros, o culto à nação e à soberania do Estado, a  
ofensiva declarada contra os direitos humanos, acusados de colocar em perigo a segurança”  
(2019, n.p).  
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Filgueiras e Druck sintetizam o presente nos seguintes termos:  
Para além das aparências e da retórica, há uma clara convergência política,  
uma afinidade eletiva, entre o neoliberalismo, enquanto expressão dos  
interesses do capital financeiro - doutrina/ideologia, política econômica e tipo  
de racionalidade -, e a atual ascensão da extrema-direita (no limite, o  
neofascismo) (Filgueiras; Druck, 2019, n.p, grifo nosso).  
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A natureza antidemocrática do neoliberalismo, exposta já nos seus principais teóricos,  
como Friedrich Hayek, e na sua primeira experiência histórica no Chile de Pinochet e de Milton  
Friedman e seus “Chicago Boys”, vem se explicitando atualmente, com sua atuação destinada  
a recrudescer o autoritarismo estatal. O neoliberalismo contemporâneo, alavancado após a crise  
de 2008, aproveita-se da corrosão que produziu na legitimidade das democracias liberais para  
mobilizar o ressentimento dos derrotados, das suas próprias vítimas, em torno do  
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aprofundamento do domínio do capital sobre a sociedade. Vale-se, desta forma, de uma aura  
plebeia, “revolucionária”, anti-establishment, capaz de edulcorar o avanço da racionalidade  
capitalista, à qual já não consegue mais produzir doses mínimas de legitimidade para a classe  
política tradicional – os partidos tradicionais da direita liberal e a socialdemocracia.  
A “globalização capitalista – que é também um processo de brutal homogeneização  
cultural – produz e reproduz, em escala mundial, formas de ‘pânico identitário’” (Löwy, 2019,  
n.p) que, somado à deterioração econômica e social dos trabalhadores e dos setores médios,  
alimentam expressões chauvinistas e de variadas formas de intolerância (religiosa, étnico-  
racial, nacional). Estas expressões de medo do “outro”, um concorrente num mercado de  
trabalho “flexível” e precarizado, têm sido habilmente manipuladas pela extrema direita a fim  
de mobilizar a insatisfação de amplos setores da sociedade diante de uma democracia liberal  
plenamente comprometida com os preceitos neoliberais típicos da financeirização. Por sinal,  
ainda que de forma díspar, o uso do medo não é uma exclusividade da extrema direita. O caso  
francês é eloquente: Macron se utiliza do medo provocado pela extrema direita de Le Pen para  
sagrar-se vitorioso nas urnas e, daí, governar a serviço do aprofundamento do neoliberalismo  
no país. Não se trata, entretanto, de uma governança qualquer, linear com a etapa anterior do  
neoliberalismo, mas de uma expressão do “novo neoliberalismo”: Macron leva “mais longe  
ainda a identificação do Estado com a empresa privada”, “não para de centralizar o poder em  
suas mãos e chega, inclusive, a promover uma mudança constitucional que convalidará a  
fragilização do Parlamento em nome da eficácia” (Dardot; Laval, 2019, n.p). O equilíbrio de  
poderes entre as instituições da democracia liberal é rompido em benefício do Poder Executivo,  
que, sob a hegemonia do capital financeiro, conduz o aparelho estatal a uma verdadeira guerra  
civil contra os defensores dos direitos sociais e econômicos num modelo de governança que  
Dardot e Laval caracterizam como “bonapartismo empresarial”1.  
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Verifica-se nas últimas décadas uma corrosão progressiva do Estado democrático de  
direito, fenômeno que ocorre por dentro da institucionalidade e que engendra, pari passu, seus  
opositores viscerais e adeptos, de forma mais ou menos explícita, da ruptura institucional em  
benefício de um pleno Estado de exceção. Para estes não bastam o ambiente persecutório e a  
remodelagem da democracia liberal para algo bastante aproximado ao Estado de exceção  
almejado, obra dos liberais de variadas linhagens (de direita e de esquerda). Trata-se de romper  
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1 Com rejeição popular da ordem de 70% da população e com sérios riscos de derrota legislativa, Macron impôs  
por decreto uma (contra)reforma previdenciária na França, que, dentre outros pontos, ampliou a idade mínima e o  
tempo de contribuição dos trabalhadores franceses. Cf.: https://www.cartacapital.com.br/mundo/conselho-  
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Liana França Dourado Barradas; Gabriel Magalhães Beltrão  
definitivamente com qualquer prurido liberal-democrático. Para isso, a extrema direita  
contemporânea, neofascista, de caráter mobilizador, arregimenta sua base de massas em torno  
da defesa de valores culturais e morais retrógrados, prometendo resgatar um passado mítico que  
haveria sido maculado pela democracia liberal e sua elite política corrupta e antinacional.  
O conservadorismo doentio e embebido nas mais variadas teorias da conspiração,  
entretanto, não passa de um estratagema absolutamente funcional à marcha modernizadora do  
capital financeiro e de sua expressão político-ideológica: o neoliberalismo. Dado o ocaso da  
legitimidade da “democracia de mercado” (Dardot; Laval, 2019, n.p) – que fora funcional, pois  
gozava de hegemonia nos anos 1990 e na primeira década do século XXI - , hoje o  
neoliberalismo aproxima-se do neofascismo, travando com ele uma relação ambígua,  
simbiótica e oportunista: ora se utilizando dele para pressionar o sistema político dos países  
democráticos ao recrudescimento do autoritarismo e ao avanço da sua agenda (vide o caso do  
“macronismo” francês); ora aquiescendo, quando não apoiando despudoradamente forças  
políticas neofascistas, como no caso brasileiro, sacramentando a simbiose entre ambos.  
As condições de emergência do neofascismo no Brasil  
Antes de prosseguirmos é importante deixar evidente que não consideramos o fascismo  
como um fenômeno político derivado diretamente de um determinado estágio do  
desenvolvimento capitalista ou de um cenário de crise econômica. As considerações expostas  
acima, pautada em intérpretes de variadas abordagens no seio do pensamento histórico-crítico,  
servem apenas para ilustrar que na quadra histórica atual do capitalismo há uma tendência, não  
uma necessidade, à emergência de movimentos de extrema direita - os quais podem assumir  
características fascistas – e ao recrudescimento do autoritarismo inerente ao Estado capitalista,  
mesmo que no interior da sua forma democrático-liberal2. Não há a pretensão, portanto, de  
reduzir a análise política às considerações de ordem econômicas que produziriam, enquanto  
epifenômeno, o fascismo. Ponderação semelhante fez Palmiro Togliatti nos idos de 1935:  
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É preciso ter cuidado pra não cometer o erro de considerar como fatal,  
inevitável, a passagem da democracia burguesa ao fascismo. Por que? Porque  
o imperialismo [hoje a crise capitalista e o neoliberalismo] não deve  
necessariamente dar lugar ao regime da ditadura fascista. (...) a Inglaterra (...)  
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2
Concordando com Poulantzas, não entendemos o fascismo como um “simples autodesenvolvimento linear e  
necessário desses ‘germes’ [de autoritarismo no seio do regime democrático-liberal] até seu amadurecimento”  
(Poulantzas, 2021, p. 66) definitivo. Não há processo orgânico entre a democracia liberal e o fascismo, visto se  
tratarem de formas de Estado capitalista distintas. Crise política específica e fissuras profundas no sistema  
institucional (aparelhos de Estado) podem produzir a emergência do Estado de exceção fascista em ruptura com a  
forma liberal-democrática, ainda que esta última esteja já marcada por traços salientes de autoritarismo. A  
banalização de noções com tom de denúncia como “Estado de exceção permanente” pode prejudicar a análise das  
formas de Estado e, pior, surtir efeitos políticos prejudiciais aos trabalhadores em termos estratégicos e táticos.  
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Condições para a emergência do neofascismo no Brasil: da crise política ao governo Bolsonaro  
possui um regime democrático parlamentar (embora não se possa afirmar que  
aí não existam traços reacionários). (...) Essa tendência à forma fascista de  
governo existe em toda parte. Mas isto não quer dizer ainda que em toda parte  
se deva chegar necessariamente ao fascismo (Togliatti, 1978, p. 4).  
Na esteira de Nicos Poulantzas, também consideramos que o fascismo não é, de forma  
alguma, um fenômeno exclusivamente ligado a um “período” determinado do desenvolvimento  
capitalista, não é, portanto, uma “categoria histórica”3, irreptível. Para o marxista grego, o  
“fascismo corresponde a uma conjuntura específica da luta de classes” (Poulantzas, 2021, p.  
65), uma forma que o Estado pode assumir “devida a uma conjuntura muito particular da luta  
de classes” (Idem), luta esta que não é “exaustivamente determinada pelo período de  
desenvolvimento do capitalismo no qual se situa essa luta de classes” (Idem, p. 66).  
Nesse sentido, podemos dizer que a crise capitalista que deflagra o neoliberalismo se  
constitui num período histórico que apresenta contradições particulares que nos ajudam a  
entender a emergência da extrema direita e do neofascismo como movimentos políticos em boa  
parte dos países capitalistas, contudo, apenas a análise particular de cada formação social com  
suas contradições próprias nos permite elucidar as razões profundas para a emergência do  
neofascismo e o seu fortalecimento, de modo a se converter em movimentos de relevo, governos  
ou mesmo regimes políticos de exceção (este último ainda uma mera possibilidade histórica).  
O hodierno engendra contradições que criam movimentos tendenciais de extrema direitização,  
seja no interior da própria democracia liberal – cada vez mais reacionária – ou da conformação  
de movimentos políticos de massa, fascistas, que vislumbram uma mudança na forma do Estado  
capitalista. Entretanto, apenas a dinâmica específica da luta de classes permite o evolver do  
fascismo à condição de governo ou, no limite, à condição de um regime político do Estado  
capitalista de exceção.  
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Um tipo de crise política muito particular cria as condições para a emergência do  
fascismo como movimento político relevante e para o processo de fascistização4, o qual é  
resistível e evitável até determinado ponto. Nos termos de Poulantzas,  
O processo de fascistização e o advento do fascismo correspondem a uma  
situação de aprofundamento e exacerbação aguda das contradições internas  
entre as classes e frações de classes dominantes: trata-se aqui de um elemento  
importante da crise política em questão (Poulantzas, 2021, p. 77).  
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3
Cf. artigo do politólogo argentino Atílio Borón: https://www.brasildefato.com.br/2019/01/02/artigo-or-  
4
“(...) o processo de fascistização corresponde a uma viragem decisiva na relação das forças em presença;  
corresponde muito exatamente a uma etapa e a uma estratégia ofensivas da burguesia e a uma etapa defensiva da  
classe operária” (Poulantzas, 2021, p. 85).  
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A crise política que deflagra o processo de fascistização não é aquela advinda da  
ofensiva das classes dominadas sobre as classes dominantes, ao contrário, o traço peculiar da  
crise política que pode desaguar em um regime fascista é a posição defensiva do proletariado e  
a intensa crise política no seio do bloco no poder5, que se manifesta em crise de representação  
partidária e em crise ideológica. Há, segundo Poulantzas, um “processo de politização  
declarada da luta de classes”: com a fascistização as classes dominantes, a despeito de sua  
profunda crise política interna (crise de hegemonia), avançam sobre as classes dominadas não  
apenas em termos econômicos (ampliação da taxa de exploração), mas também e  
principalmente em termos políticos, atacando por todos os meios, inclusive físicos, a  
organização do operariado a fim de fragmentá-lo ao máximo. Não se trata, portanto, de uma  
crise política oriunda de um equilíbrio de forças entre as classes antagônicas, muito menos de  
uma crise política resultante de uma ofensiva do proletariado. É justamente essa debilidade da  
classe antagônica que permite essa situação aparentemente paradoxal em que a ofensiva  
burguesa ocorre pari passu à politização das contradições internas ao próprio bloco no poder,  
sem que exista, portanto, o efeito de “‘ressoldagem’ interna ao bloco face ao inimigo comum”  
(Poulantzas, 2021, p. 78)6.  
Feitas estas considerações, passemos à análise das condições que permitiram o  
surgimento e fortalecimento do bolsonarismo, expressão mais acabada do neofascismo no  
Brasil.  
460  
Partimos da premissa de que entre 2003 e 2014 esteve no governo brasileiro uma frente  
política neodesenvolvimentista liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Tratava-se de  
uma frente ampla e heterogênea, policlassista, que, apesar da liderança do PT, era dirigida pela  
grande burguesia interna brasileira7, envolvendo de forma subordinada seguimentos da classe  
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“Em uma formação social, composta de numerosas classes sociais, e em particular em uma formação social  
capitalista, onde a classe burguesa é constitutivamente dividida em frações de classe, o terreno da dominação  
política não é ocupado por uma única classe ou fração. Trata-se de uma aliança específica de muitas classes ou  
frações de classes, aliança que eu, aliás, designei com o termo de bloco no poder. Assim, as contradições entre as  
classes e frações de classe dominantes assumem uma importância bastante determinante, no que concerne às  
formas de Estado e regime” (Poulantzas, 2021, p. 78).  
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6 A título de exemplo poderíamos mencionar a crise política interna ao bloco no poder ocorrida no Brasil no início  
dos anos 1960. Em linhas gerais, opunham-se as frações da média e grande burguesias, estas últimas já possuindo  
vínculos orgânicos com o capital monopolista estrangeiro. Tal confronto de classes apresentava-se publicamente  
como disputa de projetos políticos entre os desenvolvimentistas nacionalistas (trabalhismo varguista) e os  
desenvolvimentistas adeptos da associação definitiva ao capital estrangeiro (UDN e o grosso do PSD). Tais  
projetos, por sua vez, firmavam alianças de classes distintas: os nacionalistas principalmente com o operariado  
urbano e os adeptos do desenvolvimento associado com as modernas classes médias urbanas e as oligarquias rurais.  
Entretanto, a progressiva autonomização política do operariado e a emergência das ligas camponesas operaram o  
efeito de “ressoldagem” do bloco no poder, secundarizando a luta interna ao bloco em relação à luta entre as classes  
antagônicas. A crise política específica ao fascismo, entretanto, não apresenta esse elemento coesionador das  
classes dominantes, o que intensifica a disputa política interna. O proletariado encontra-se na defensiva.  
7
Segundo Boito Jr.: “Não se trata da velha burguesia nacional, passível de assumir posições anti-imperialistas,  
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Condições para a emergência do neofascismo no Brasil: da crise política ao governo Bolsonaro  
trabalhadora excluídos do bloco no poder: baixa classe média, operariado, campesinato e  
trabalhadores da massa marginal (Boito Jr., 2018, p. 103). Essa frente política se “constituiu no  
principal recurso político do qual se valeu a grande burguesia interna para ascender  
politicamente no interior do bloco no poder” (Idem), convertendo-se na fração hegemônica do  
bloco ao deslocar a burguesia internacionalizada ou associada8 para uma posição subordinada  
e, por conseguinte, oposicionista (cuja principal expressão na cena política era o PSDB). O  
confronto entre essas duas frações das classes dominantes opunha dois projetos políticos: o  
neodesenvolvimentismo – o desenvolvimentismo possível dentro dos limites impostos pelo  
modelo capitalista neoliberal (estrutural) - e a política neoliberal ortodoxa.  
As contradições entre esses dois campos não impediram que a frente  
neodesenvolvimentista se sustentasse e lograsse êxito político, principalmente no período  
compreendido entre 2006 e 2010, quando as tensões foram dirimidas tanto no bloco no poder  
quanto no conjunto da formação social dado o crescimento generalizado das taxas de lucro e  
dos indicadores sociais favoráveis, o que impulsionou a aprovação e a reeleição de Lula e a  
eleição de Dilma Rousseff em 2010.O chamado “jogo de ganha-ganha” começou a se deteriorar,  
entretanto, progressivamente a partir de 2011. A partir deste ano,  
A piora do cenário externo após 2011 foi ainda reflexo dos efeitos da crise  
internacional de 2008, em virtude da desaceleração da China e do retorno das  
políticas de austeridade na Europa e nos países da periferia. Tal situação gerou  
dificuldades na realização das mercadorias no plano do mercado mundial,  
impactado na queda dos preços e das quantidades das commodities que o  
Brasil exporta. Isso provocou o balanço de pagamentos, o câmbio e os  
investimentos, sobretudo os da indústria de commodities intensivas em capital  
(petróleo, gás, siderurgia, papel e celulose, mineração, etc.), que possuem  
importante participação na economia brasileira (Pinto et al, 2019, p. 115).  
461  
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Ainda segundo os autores, a partir de 2011 a taxa de lucro dos setores mais relevantes  
da economia passou a declinar progressivamente, com a exceção do setor bancário-financeiro  
(Cf. gráfico). A chamada “Nova Matriz Econômica” do governo Dilma I buscava estimular o  
investimento privado, que deveria suplantar de forma progressiva o investimento público, que  
fora a locomotiva do crescimento a partir de 2006. Mecanismos como redução da Selic9, do  
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mas de uma fração burguesa que, embora dependente tecnológica e financeiramente do imperialismo, entretém  
com ele relações complexas de unidade, que é aspecto principal dessa relação, e de conflito, que é o aspecto  
secundário” (2018, p. 303). Os principais setores componentes da grande burguesia interna brasileira seriam a  
construção naval, a construção pesada, o agronegócio, a mineração e os bancos nacionais.  
8 “(...) essa fração é composta pelos grupos econômicos internacionais atuantes no Brasil (...) e também, convém  
destacar, por empresas de capital predominantemente nacional que, no entanto, entretêm uma relação de  
dependência direta para com o capital internacional (...)” (Boito Jr., 2018, p. 276). Boito Jr. ressalva: “O  
fracionamento da burguesia é portanto complexo. Não há uma linha reta e estável separando as frações burguesas”  
(Idem, p. 277).  
9 Entre junho de 2011 e outubro de 2012 a taxa básica de juros nominal despencou de 12,25% para 7,25%, o que  
representou uma taxa de juros real de 1,8% (11/2012) frente a taxa de 4,5% no ano anterior. Cf.: Breve histórico  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 453-476, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Liana França Dourado Barradas; Gabriel Magalhães Beltrão  
spread bancário, desvalorização cambial, amplas isenções fiscais, redução de tarifas de energia  
elétrica e dos derivados do petróleo e redução dos investimentos públicos - que deveriam dar  
lugar aos investimentos privados e às PPPs - acabaram não surtindo os efeitos esperados de  
dinamizar os investimentos privados, pois, na prática, essas reduções de custos com capital  
constante e da parcela da mais-valia destinada ao capital bancário e ao Fisco serviram para  
amortizar as quedas nas taxas de lucro do empresariado10.  
Gráfico 1 – Taxa de lucro e lucro líquido das 500 maiores empresas não financeiras.  
Fonte: Revista Exame (Maiores e Melhores) apud Pinto et al, 2019.  
De forma concomitante à tendencial queda das taxas de lucro, o mercado de trabalho se  
manteve favorável ao poder de barganha dos trabalhadores, com a taxa de desocupação  
chegando a 4,3% em 2014 (IBGE), com 50,3% da população ocupada com carteira assinada,  
crescimento de 59,6% em 11 anos (o percentual de ocupados com carteira assinada em 2003  
era de 39,7%)11. Estas condições permitiram um forte ativismo sindical com pautas econômicas  
(recorde de greves entre os anos de 2013/14) e ganhos salariais acima da inflação, cujo piso era  
garantido pela política de valorização do salário mínimo12. “A elevação dos rendimentos reais  
do trabalho, associada às quedas das taxas de lucro, reacendeu a luta entre capital e o trabalho”  
(Pinto et al, 2019, p. 117) e, concomitantemente, o conflito no interior do bloco no poder em  
torno das políticas econômica e social a serem adotadas. É dessa multiversa luta de classes que  
emergirá as condições para o nascimento e o fortalecimento do neofascismo brasileiro.  
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10 A economista Laura Carvalho intitula a política econômica levada a cabo pelo governo Dilma I de “Agenda  
FIESP”, pois foi elaborada em atendimento às demandas do setor industrial. Cf.: Valsa Brasileira, Todavia, 2018.  
Entre os economistas heterodoxos a política econômica do Dilma I é bastante controversa, indo das análises que a  
caracterizam como uma guinada do neodesenvolvimentismo àquelas que a enxergam como um recuo do projeto  
econômico iniciado no governo Lula II, cujo desfecho foi o esfriamento paulatino da economia até a crise de  
2014/2015.  
11  
12  
Cf.:  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 453-476, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Condições para a emergência do neofascismo no Brasil: da crise política ao governo Bolsonaro  
Crise política e o processo de fascistização  
Dilma Rousseff afirma que,  
Nos idos de 2013, já era claro que se avizinhava um enfrentamento de largas  
proporções, embora ele ainda parecesse limitado às normas constitucionais e  
democráticas. O campo conservador ensaiava uma ofensiva para desgastar a  
coalização democrático-popular e impor-lhe uma derrota frontal, retomando o  
governo nacional nas eleições seguintes, em 2014, ou se preparando para  
adotar o caminho golpista (Rousseff, 2023, n.p).  
Já estava prenunciado um agudo enfrentamento entre o que Rousseff define como o  
campo das “frações hegemônicas das elites internas e de seus sócios internacionais”, em prol  
de reformas liberais, e o campo que dera “início a um difícil processo de mudança do modelo  
econômico, no interior de um sistema político construído para impedir que as classes  
trabalhadoras e seus partidos formassem maioria no Parlamento e nas demais instituições”  
(Rousseff, 2023, n.p). As jornadas de junho de 2013 e as disputas por sua liderança e narrativa  
precipitaram este embate, que no primeiro semestre ainda estava submerso. A despeito da queda  
de popularidade da Presidente após as jornadas – queda de 65% para 30% segundo Datafolha  
entre o primeiro e o segundo semestre de 2013 – e de intensa campanha midiática  
antidesenvolvimentista e antipetista, ambos associados à inflação e à corrupção, a força da  
frente política neodesenvolvimentista junto ao eleitorado, especialmente entre os segmentos da  
base da pirâmide salarial, garantiu a vitória nas eleições de 2014, mesmo que por margem  
estreita de votos. Entretanto, como disse Rousseff, a ofensiva do campo opositor visava retomar  
o Executivo Federal a qualquer custo, não importando se pelas vias democráticas ou pelo  
caminho golpista, o que se impôs a partir de 2015.  
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Segundo Boito Jr., a crise política em gestação desde 2013 irrompe após as eleições de  
2014 como parte da “forte ofensiva restauradora do campo neoliberal ortodoxo” (2018, p. 211)  
para iniciar nova onda de reformas neoliberais no país. Em razão da degradação econômica e  
do “ensaio desenvolvimentista”13 de Dilma I, a burguesia associada ao capital estrangeiro teria  
logrado êxito em atrair o setor bancário nacional, deslocando-o da frente neodesenvolvimentista  
para as hostes oposicionistas do neoliberalismo ortodoxo.  
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Na nossa leitura, a reeleição de Rousseff em 2014 aprofundou a já existente defasagem  
entre o ciclo de acumulação (em deterioração desde 2011) e as políticas econômica e social  
levadas a cabo pela frente neodesenvolvimentista liderada pelo PT14. O fato da Presidenta  
13  
Boito Jr. segue André Singer e sua leitura de que a “Nova Matriz Econômica” de Dilma/Mantega representou  
uma aceleração do neodesenvolvimentismo, uma ofensiva política que deslocou o lulismo um pouco mais para  
perto do reformismo forte, mas com isso “cutucou a onça com vara curta”. A onça neste caso é o setor bancário  
nacional, que rompe com a frente nacional desenvolvimentista e passa a reforçar a ofensiva neoliberal.  
14  
O projeto neodesenvolvimentista entrou em rota de colisão com a estrutura de acumulação que jamais tentou  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 453-476, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Liana França Dourado Barradas; Gabriel Magalhães Beltrão  
reeleita ainda em 2014 ter caminhado “numa direção oposta ao prometido, ao adotar políticas  
econômicas ortodoxas (austeridade) (...) e [ter ventilado] propostas de mudança nas leis  
trabalhistas e previdenciárias” (Pinto et al, 2019, p. 119) não foi suficiente para “ressoldar” o  
bloco no poder e, por conseguinte, estancar a crise política. Ao contrário do esperado, o  
governo liderado pelo PT não só não conseguiu reestabelecer a unidade do bloco, como corroeu  
sua legitimidade com sua base social – movimentos sociais e sindicais, trabalhadores mais  
pobres –, que vivenciou queda do emprego e da renda. O que se verificou durante o aguçamento  
das crises política e econômica (2015/16) foi a neutralização da classe trabalhadora em geral,  
fato que se explica tanto por este aspecto conjuntural (efeitos deletérios da austeridade) quanto  
por outros de ordem mais geral, diretamente ligados ao que Singer define como lulismo15.  
Importante frisar o seguinte: o fato de a ofensiva neoliberal ter conseguido erigir um  
relativo consenso no seio das classes dominantes quanto à necessidade de se implementar algum  
ajuste fiscal em 2015, perspectivando a retomada do crescimento das taxas de lucro, não  
significa que houvesse aí uma “ressoldagem” do bloco no poder. Como nos mostrou Poulantzas,  
a existência de um inimigo comum com capacidade política de fazer o enfrentamento em alto  
nível – elemento inexistente - é condição necessária para essa “ressoldagem” do bloco em  
tempos de forte crise política. Sem esse elemento o que imperou foi um conflito interburguês  
em torno da direção do processo político, uma disputa áspera pela definição das políticas  
econômica, social e externa, ainda que esse embate não se apresentasse na forma cristalina de  
dois campos opostos e bem delimitados.  
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Ahipótese aqui exposada é de que as convergências surgidas entre as classes dominantes  
nos idos de 2015/16, o que Pinto et al (2019, p. 120) define como o “‘consenso da insensatez’  
dos setores dominantes”, não dissolveram – pelo menos de imediato - as contradições entre os  
campos neodesenvolvimentista e neoliberal ortodoxo. Foi justamente a incapacidade de se  
erigir uma dominação particular de uma determinada fração burguesa sobre os demais membros  
da aliança no poder que produziu as condições necessárias para o processo de fascistização  
iniciado desde então. Pode-se dizer que a crise econômica – que expressou o êxito e os limites  
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subverter. Suas políticas econômica e social, apesar de tímidas, não se mostraram integráveis ao modelo neoliberal  
no longo prazo. A queda das taxas de lucro ocasionada pelos ganhos salariais - lentos, mas contínuos e cumulativo  
-, desnudou um capitalismo cujo cerne da acumulação é a superexploração da força de trabalho, não a deflagração  
de um ciclo duradouro e estável dinamizado pela mais-valia relativa. As crises econômica e política que explodem  
em 2015 dissiparam as ilusões surgidas na década anterior a respeito da natureza do capitalismo brasileiro e da  
democracia proveniente da redemocratização.  
15 Traços característicos do lulismo seriam o vínculo prioritário com os “pobres”, subordinando os trabalhadores  
vinculados aos movimentos sindical e social organizados, e um reformismo fraco operacionalizado pelo alto,  
evitando a mobilização da sociedade e a desestabilização da ordem. Segundo Singer, o lulismo teria se consolidado  
nas eleições de 2006. Cf.: SINGER, A. Raízes sociais e ideológicas do lulismo. Novos Estudos, nº 85, p. 83-102,  
nov. 2009.  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 453-476, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518