DOI 10.34019/1980-8518.2023.v23.41377  
Estado capitalista e democracia: disputa de  
projetos político-ideológicos  
Capitalist state and democracy: dispute over political-ideological projects  
Paula Raquel da Silva Jales*  
Solange Maria Teixeira**  
Resumo: Ao partir do pressuposto de que a  
democracia burguesa um conceito  
Abstract: Based on the assumption that  
bourgeois democracy is contradictory  
é
a
contraditório, servindo às práticas de  
manutenção do status quo, aos processos de  
dominação na sociedade capitalista, bem como  
às práticas de resistências, de participação e de  
poder de decisão nas decisões governamentais,  
o objetivo deste artigo foi, a partir de uma  
revisão intencional de literatura sobre Estado  
concept, serving the practices of maintaining  
the status quo, processes of domination in  
capitalist society, as well as practices of  
resistance, participation and decision-making  
power in government decisions, the objective of  
this article was based on an intentional review  
of literature on the capitalist state and  
democracy, unveiling the contradictions and  
meanings of democracy and pointing out its  
restrictive uses and practices of dismantling the  
deliberative participation of an extreme right-  
wing government in Brazil. The research  
capitalista  
contradições e sentidos da democracia e apontar  
seus usos restritivos práticas de  
e
democracia, desvendar as  
e
desmantelamento da participação deliberativa  
de um governo de extrema direita no Brasil. A  
pesquisa realizada foi do tipo teórica de base  
bibliográfica, com metodologia qualitativa com  
escolha intencional da literatura. Conclui-se que  
a democracia participativa foi afetada e  
desmantelada pelo governo de Jair Bolsonaro,  
ainda que dissesse defender a democracia.  
carried  
out  
was  
theoretical  
and  
bibliographically based, with qualitative  
methodology with an intentional choice of  
literature. It is concluded that participatory  
democracy was affected and dismantled by Jair  
Bolsonaro's government, even though he  
claimed to defend democracy.  
Palavras-chaves:  
Democracia; Projetos político-ideológicos;  
Participação; Deliberação.  
Estado  
capitalista;  
Keywords: Capitalist state; Democracy;  
Political-ideological projects; Participation;  
Deliberation.  
Recebido em: 07/06/2023  
Aprovado em: 25/10/2023  
*
Assistente Social. Doutora em Políticas Públicas, Universidade Federal do Piauí (UFPI). Professora e  
pesquisadora do Curso de Graduação em Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Foi bolsista  
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). ORCID: https://orcid.org/0000-  
** Assistente Social. Pós-Doutoramento em Serviço Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-  
SP). Doutorado em Políticas Públicas, Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Professora e pesquisadora  
dos Cursos de Graduação em Serviço Social e de Pós-Graduação em Políticas Públicas em nível de Doutorado e  
Mestrado da Universidade Federal do Piauí (UFPI). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8570-5311  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 286-306, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Estado capitalista e democracia: disputa de projetos político-ideológicos  
Introdução  
Para se distanciar e se distinguir de regimes totalitários e autoritários, dentre eles o  
nazismo, o fascismo e a ditatura, bem como do socialismo e do comunismo, governos, de  
diferentes correntes político-ideológicas, têm a necessidade de afirmar em seus programas e  
discursos oficiais que compartilham da ideia e defendem um Estado democrático. A questão  
é saber o direcionamento e o sentido atribuído à democracia, no âmbito dos projetos político-  
ideológicos em disputa no Estado capitalista. Em outras palavras, a que espécie e/ou formato  
de democracia estão se referindo estes governos que se autointitulam democráticos.  
Ao partir do pressuposto da existência de projetos político-ideológicos que orientam a  
ação política dos sujeitos, através da articulação de concepções de mundo, de representações  
da vida em sociedade e de um conjunto de crenças, valores, princípios e interesses (Dagnino,  
2004; Dagnino; Olvera; Panfichi, 2006) que disputam a hegemonia no Estado contemporâneo,  
objetivou-se, neste artigo, a partir dos conceitos de Estado burguês e democracia, analisar seus  
usos históricos, seja para reproduzir a ordem com base em processos de dominação ancorados  
em um suposto consenso e consentimento dos dominados, seja para criar contra-hegemonias,  
que emergem favorecidas pelos processos democráticos burgueses e geram lutas,  
reivindicações, resistências e propostas alternativas, como nas democracias deliberativas, e  
fazer uma análise das mudanças, via decretos, resoluções e outros, realizadas pelo governo de  
Jair Bolsonaro no período de 2019 a 2021, sobre as práticas democráticas institucionalizadas.  
O artigo é decorrente de pesquisa teórica do tipo bibliográfica, de escolha intencional  
das referências para atender ao objetivo da investigação. Para dar conta do objetivo proposto e  
expor os resultados da pesquisa, o artigo foi dividido em quatro seções: a primeira fundamenta  
em Poulantzas (1985) a concepção de Estado capitalista; já a segunda apresenta a noção de  
democracia que emerge no capitalismo, as tendências na Teoria democrática e algumas  
experiências brasileiras; a terceira discorre sobre as mudanças nas práticas democráticas no  
governo de Jair Bolsonaro; e a última apresenta algumas considerações sobre essas mudanças.  
Ressalta-se que, por serem assistentes sociais, as autoras reiteram, através da  
socialização desta pesquisa, o compromisso da profissão com o projeto ético-político do  
Serviço Social, que expressa no quarto princípio de seu Código de Ética a “[...] defesa do  
aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza  
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Paula Raquel da Silva Jales; Solange Maria Teixeira  
socialmente produzida” (Brasil, 2012, p. 23). Nesse sentido, a diferenciação dos projetos  
político-ideológicos que disputam a democracia no Estado capitalista mostra uma entre as  
diversas contribuições do Serviço Social como área do conhecimento para pensar criticamente  
a realidade brasileira e possibilitar a opção por concepções e estratégias que ampliem a  
democracia participativa.  
Por uma teoria do Estado capitalista: contribuições de Poulantzas  
Para Gramsci, as superestruturas do bloco histórico, ou seja, o complexo das relações  
ideológicas, estão divididas em duas esferas: a sociedade civil, constituída por um conjunto de  
instituições e organismos vulgarmente denominados de privados , que corresponde à função  
hegemônica do grupo dominante sobre a sociedade; e a sociedade política ou Estado restrito,  
que é um prolongamento da sociedade civil, formada por membros desta, porém com função  
de coerção e manutenção do direcionamento econômico e ideológico do poder hegemônico  
(Portelli, 1977). Ambas (sociedade civil e sociedade política) formam o Estado ampliado1, que  
exerce a hegemonia, entendida como direção cultural (política ideológica) da classe dominante,  
articulando consenso e coerção (Portelli, 1977).  
Nesse sentido, nenhuma classe se mantém no poder apenas com processos de violência  
e coerção, típicos de uma ditadura, mas igualmente com consenso ativo das classes sociais que  
constituem a sociedade civil (Portelli, 1977). Segundo Miguel (2018), a palavra “ativo”, junto  
ao vocábulo “consenso”, traz nova compreensão para o lugar assumido pelos sujeitos nas  
relações sociais, pois, em vez de se subjugarem apaticamente à ordem dominante, assimilam  
um conjunto de crenças e incentivos em suas práticas, reproduzindo constantemente as relações  
de dominação; eles agora são ativos, pois envolvem consentimento. Por isso, uma das  
preocupações da classe dominante é sempre se apresentar como representante de interesses  
universais que abranjam a todos, ou pelo menos a maioria dos membros da sociedade. Nas  
palavras do autor, “[...] uma hegemonia nunca é ‘dada’: mesmo que permaneça por longo  
tempo, ela precisa ser permanentemente mantida (contra adversários) e constantemente  
atualizada” (Miguel, 2018, p. 73).  
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A revalorização do momento da política feita por Gramsci, por meio da teoria do Estado  
ampliado e da reflexão sobre necessidade de produção da hegemonia, possibilita fugir ao  
determinismo, uma vez que ela é percebida como espaço de expressão das contradições sociais e  
da busca de soluções transitórias (Miguel, 2018). Dessa forma, a categoria hegemonia elucida a  
1
Para Gramsci, a sociedade civil e política e a relação orgânica que estabelecem entre si conformam o Estado  
ampliado (Portelli, 1977).  
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Estado capitalista e democracia: disputa de projetos político-ideológicos  
direção política e ideológica exercida pela classe dominante e a possibilidade de reforma  
intelectual e moral a ser construída pelas classes trabalhadoras denominada de contra-hegemonia.  
Apesar de Gramsci afirmar a relação orgânica entre estrutura (relações de produção)  
e superestrutura (complexo das relações políticas ideológicas), é Poulantzas (1985) que dá  
densidade a essa discussão, mostrando a existência de poderes de classe nas relações de  
produção organicamente articuladas, bem como nas relações políticas e ideológicas que  
consolidam e legitimam a produção e a reprodução dessas relações sociais. Dessa forma,  
embora o Estado concentre e materialize o poder político, a sua atuação não fica restrita ao  
binômio repressão-reprodução de ideologia, na análise feita por Poulantzas (1985). A  
atuação primeira do Estado está na produção e reprodução das classes sociais, ou seja, na  
luta de classe. Nas palavras do autor:  
[...] No caso, poderes de classe que nos levam à relação fundamental da  
exploração: a propriedade econômica espelha notoriamente a capacidade (o  
poder) de destinar os meios de produção a determinadas utilizações e de,  
assim, dispor dos produtos obtidos da posse, da capacidade de ativar os meios  
de produção e de comandar o processo de trabalho. Estes poderes situam-se  
na rede de relações entre exploradores e explorados, nas oposições entre  
práticas de classes diferentes; em suma, na luta de classe, pois esses poderes  
inscrevem-se num sistema de relações de classes. Porque é precisamente  
considerando o processo econômico e as relações de produção como rede de  
poderes, que se pode compreender que as relações de produção, como poderes,  
estão ligadas constitutivamente às relações políticas e ideológicas que as  
consagram e que estão presentes nas relações econômicas (Poulantzas, 1985,  
p. 41).  
289  
Nesse sentido, o autor propõe uma teorização do Estado capitalista capaz de explicar  
suas formas diversas e metamorfoses históricas, em contraposição a uma teoria geral do Estado  
que apresentaria um objeto de estudo invariante em diferentes modos de produção. Assim,  
segundo Poulantzas (1985), as modificações no Estado capitalista revelam sua vinculação  
orgânica tanto com as transformações nas relações de produção e na divisão social do trabalho  
(fases ou estágios do capitalismo) como com a formação e reprodução das classes sociais, das  
suas lutas e da dominação política (formas e regimes assumidos pelo Estado em determinada  
fase do capitalismo).  
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É a compreensão de que a luta de classe se estabelece desde as relações de produção,  
constituindo e reproduzindo relações políticas ideológicas que conformam a ossatura  
institucional do Estado capitalista, que nos faz percebê-lo como condensação material e  
específica de uma correlação de forças entre classes e frações de classes, na análise de  
Poulantzas (1985). Nessa perspectiva, as lutas de classe não perpassam pelo Estado como se  
lhe fossem exteriores visões reiteradas nas compreensões do Estado como Coisa-instrumento  
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ou Sujeito; elas se encarnam nele, evidenciando suas contradições internas. Nas palavras do  
autor:  
[...] O estabelecimento da política do Estado deve ser considerado como a  
resultante das contradições de classe inseridas na própria estrutura do Estado  
(o Estado-relação). Compreender o Estado como a condensação de uma  
relação de forças entre classes e frações de classe tais como elas se expressam,  
sempre de maneira específica, no seio do Estado, significa que o Estado é  
constituído-dividido de lado a lado pelas contradições de classe. Isso significa  
que uma instituição, o Estado, destinado a reproduzir as divisões de classe,  
não é, não pode ser jamais, como nas concepções do Estado-Coisa ou Sujeito,  
um bloco monolítico sem fissuras, cuja política se instaura de qualquer  
maneira a despeito de suas contradições e as lutas atravessam o Estado, como  
se se tratasse de manifestar uma substância já constituída ou percorrer um  
terreno vazio. As contradições de classe constituem o Estado, presente na sua  
ossatura material, e armam assim sua organização: a política do Estado é o  
efeito de seu funcionamento no seio do Estado (Poulantzas, 1985, p. 152).  
Entretanto, o Estado capitalista tem funções diferentes em relação às classes sociais que  
o conformam, quais sejam: classes dominantes e classes dominadas. No que tange às primeiras,  
seu papel é organizar os interesses políticos das frações das classes dominantes do bloco no  
poder, no sentido de garantir unidade conflitual da aliança e do equilíbrio instável dos  
compromissos assumidos entre seus membros (Poulantzas, 1985). Já em relação às classes  
dominadas, age na sua desorganização, divisão, polarização quanto ao bloco no poder e colapso  
de suas organizações políticas (Poulantzas, 1985).  
290  
O fato de trabalhar na organização da classe dominante não quer dizer que todas as  
frações dessa classe tenham seus interesses atendidos nem que todas sejam hegemônicas, ou  
seja, não torna o Estado capitalista homogêneo em relação a essa classe. Para Poulantzas  
(1985), a autonomia relativa do Estado capitalista em relação a algumas frações das classes  
dominantes e seus interesses particulares permite que ele coordene o interesse político da  
burguesia sob a hegemonia de uma de suas frações, que, apesar de garantir a unidade, disputa  
com as outras frações de classe o poder de direção dos diferentes aparelhos e setores do Estado  
capitalista. Dessa forma, a dominação burguesa concentra-se e cristaliza-se nos aparelhos do  
Estado através de linhas de direção horizontais e verticais e das disputas entre as frações de  
classe que têm poderes próprios, como mostra a citação à frente:  
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As contradições de classe, examinadas momentaneamente apenas as que  
existem entre as frações do bloco do poder, assumem no seio do Estado a  
forma de contradições internas entre os diversos ramos e aparelhos do Estado,  
e no seio de cada um deles, conforme as linhas de direção ao mesmo tempo  
horizontais e verticais. Se isso acontece dessa maneira, é porque as diversas  
classes e frações do bloco no poder só participam da dominação política na  
medida em que estão presentes no Estado. Cada ramo ou aparelho do Estado,  
cada face, de alto a baixo, de cada um deles (pois eles são muitas vezes, sob  
sua unidade centralizada, desdobrados e obscurecidos), cada patamar de cada  
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Estado capitalista e democracia: disputa de projetos político-ideológicos  
um deles constituem muitas vezes a sede do poder, e o representante  
privilegiado, desta ou daquela fração do bloco no poder, ou de uma aliança  
conflitual de algumas dessas frações contra as outras, em suma a  
concentração-cristalização específica de tal ou qual interesse ou aliança de  
interesses particulares (Poulantzas, 1985, p. 152-153).  
No que se refere às classes dominadas, a sua desorganização não torna o Estado  
capitalista impermeável às demandas e aos interesses destas ou de suas frações, posto também  
sua heterogeneidade. Na verdade, as contradições internas entre frações das classes dominantes  
e sua relação de forças com as classes dominadas possibilitam o Estado agir no compromisso  
entre as classes, na geração do substrato material que cria o consenso nas massas na relação  
estabelecida com o poder político. Incumbe-se, portanto, “[...] de uma série de medidas materiais  
positivas para as massas populares, mesmo quando estas medidas refletem concessões impostas  
pela luta das classes dominadas” (Poulantzas, 1985, p. 36).  
Isso explica a materialização de políticas ou de ações favoráveis às classes populares  
pelo Estado, mesmo que elas desagradem frações da classe dominante não hegemônica.  
Afinal, o papel do Estado capitalista é, além de organizar os interesses das classes dominantes  
sobre a hegemonia de uma de suas frações, o de reproduzir a relação de dominação-  
subordinação das classes dominadas (Poulantzas, 1985).  
Mesmo assim, Poulantzas (1985) afirma que as lutas populares no Estado capitalista  
dividem as posições e opções políticas das frações das classes dominantes embora  
concordem com a reprodução da dominação e das relações de exploração , intensificando as  
contradições internas e fissuras dos aparelhos estatais. As classes dominadas, diferentemente  
das classes dominantes que constituem os aparelhos do Estado, são focos de oposição ao  
poder cristalizado nessas instituições (Poulantzas, 1985), revelando, ao mesmo tempo, sua  
capacidade de resistência e fragilidade perante a dominação burguesa. Por isso, o autor  
adverte que a fatual presença das classes dominadas na condensação de forças que constituem  
o Estado capitalista não garante necessariamente a sua transformação, reiterando a sua  
complexidade, especialmente quando se trata de regimes democráticos.  
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Estes se tornam hegemônicos na sociabilidade do capital, especialmente, quando o  
Estado se amplia e assume funções de reprodução das condições gerais do capital e das  
integradoras, ou seja, funções econômicas, sociais e políticas, numa perspectiva de  
manutenção e reprodução da ordem por via do consenso e do consentimento. Contudo, ao  
abrir espaço para atender às demandas populares, acirra disputas e se abre para participações  
diversificadas, podendo gerar antagonismo na direção e entendimento dos processos  
democráticos, como será abordado no próximo item.  
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Paula Raquel da Silva Jales; Solange Maria Teixeira  
Democracia como regime no Estado capitalista: poder do povo, poder das elites ou  
disputa pelo poder?  
Análises progressistas da democracia normalmente explanam concepções e/ou  
vivências gregas como processos que permitiram a interferência de sujeitos comuns na vida  
política das cidades-Estado, mesmo que na Grécia Antiga a participação fosse restrita àqueles  
considerados cidadãos, os homens livres, excluindo desse conceito mulheres, escravos e  
estrangeiros. A própria etimologia da palavra tem origem na língua grega, em que “demos”  
significa “povo” e “kratía”, “força”, “poder”; dito de outra forma, poder do povo. Wood (2007,  
p. 420) faz a seguinte reflexão sobre a sociedade ateniense:  
É óbvio, nesta trama, que devemos dizer que é complexo aplicar a palavra  
democracia a uma sociedade com escravidão em grande escala e na qual as  
mulheres não tinham direitos políticos. Mas é importante compreender que a  
maioria dos cidadãos atenienses trabalhava para viver; e trabalhavam em  
ocupações que os críticos da democracia consideravam como vulgares e  
servis. A idéia [sic] de que a democracia consistiu no império de uma classe  
ociosa dominando uma população de escravos é simplesmente errônea. Esse  
foi o ponto central da oposição antidemocrática. Os inimigos da democracia  
odiavam este regime sobretudo porque outorgava poder político ao povo  
formado por trabalhadores pobres.  
A referência à democracia como poder do povo ou soberania popular passou a ser temida  
pela burguesia desde que esta ascendeu como classe dominante no modo de produção  
capitalista. Para Netto (2001), os eventos da Revolução Francesa de 1848 encerraram o ciclo  
progressista da burguesia, que passou a defender, apoiada em pensadores e intelectuais, a  
manutenção da nova ordem instaurada, ao mesmo tempo que evidenciou o antagonismo entre  
as classes sociais fundamentais, a organização do proletariado e a tomada de consciência  
política pelas vanguardas trabalhadoras.  
Conforme Miguel (2018), a dominação2 é conceito-chave para a compreensão da  
democracia, haja vista que toda institucionalidade constitui regimes de dominação, ou seja,  
estabelece relações de poder3 que precisam ser continuamente (re)criadas. Nesse sentido,  
relações democráticas são relações de poder que legitimam e enfrentam a dominação, como  
mostra o autor a seguir:  
292  
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[...] Se a democracia também se define como o enfrentamento da dominação  
2 Segundo Miguel (2018, p. 15), a dominação “[...] é o exercício assimétrico da autoridade ensejado pelo controle  
de recursos materiais e simbólicos, compelindo aqueles que estão submetidos a comportamentos que beneficiam  
os que detêm o poder: se a dominação é compreendida dessa maneira sucinta, mas reconhecível, a dominação é,  
sem dúvida, um fenômeno recorrente”.  
3 Consoante Poulantzas (1985, p. 168), “[...] por poder se deve entender a capacidade, aplicada às classes sociais,  
de uma ou de determinadas classes sociais em conquistar seus interesses específicos. [...] A capacidade de uma  
classe em realizar seus interesses está em oposição à capacidade (e interesses) de outras classes: o campo do poder  
é, portanto, estritamente relacional”.  
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e da opressão no campo da distribuição do poder político e do processo de  
tomada coletiva de decisões, formulação que vou reter apenas de maneira  
provisória, então a dominação entra duplamente como categoria central no  
esforço de compreensão da democracia, que se mede tanto pelas formas de  
dominação que ela produz, como institucionalidade, quando por aquelas que  
ela combate, como prática emancipatória (Miguel, 2018, p. 17).  
Desse ponto de vista, a democracia não pode ser simplesmente associada ao governo  
que elimina, combate a dominação, na verdade, a contradição que perpassa pelas relações  
sociais de produção na sociedade capitalista também alcança a superestrutura, o Estado  
ampliado e suas formas de governo, revelando que a busca pela hegemonia é central para a  
dominação burguesa, por isso a disputa é uma constante nos processos democráticos. Nas  
palavras de Miguel (2018, p. 23-24), o conceito de hegemonia de Gramsci:  
[...] enfatiza a vinculação entre a dominação e a organização do mundo social  
em benefício de determinados interesses, o que já estava presente na  
compreensão de Marx. Por isso, a dominação na sociedade está em  
permanente disputa – a hegemonia é sempre confrontada por estratégias  
contra-hegemônicas de grupos dominados, que buscam inverter a situação. E,  
por fim, essa disputa leva a que a hegemonia apresente um caráter muito mais  
dinâmico que a legitimidade weberiana: ela precisa ser reconstruída a cada  
momento, diante dos desafios postos pelo conflito social.  
Mas o sistema capitalista estabeleceu, segundo Wood (2007), uma relação diferenciada  
entre a economia e a política, que teve consequências diretas no desenvolvimento das  
democracias modernas. Nos modos de produção precedentes, a classe proprietária se utilizava de  
meios extraeconômicos para explorar os produtores diretos. O uso do poder militar, político e  
jurídico fazia-se necessário para coagir uma população que detinha a posse dos meios de produção  
ao pagamento de impostos, bem como à condição de sujeitos escravizados. Nesse sentido, a  
economia dependia da política para funcionar, ocasionando uma fusão dessas áreas no mundo  
antigo e uma divisão explícita entre as classes fundamentais (Wood, 2007).  
293  
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A autora chama a atenção para a influência que os produtores diretos, participantes da  
vida política em Atenas, tiveram sobre o poder de exploração das classes apropriadoras. A  
classe produtora gozava de direitos políticos e uma liberdade sem antecedentes, revelando a  
importância política e econômica da democracia nas cidades-Estado (Wood, 2007).  
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No capitalismo, a exploração passou a ser puramente econômica (Wood, 2007), uma  
vez que, livres das amarras da escravidão e da servidão, os indivíduos poderiam escolher como,  
onde e quando trabalhar, ideia promissora do novo modo de produção que se consolidava. O  
que não foi dito para a população e Marx evidenciou posteriormente é que, desprovidos dos  
meios de produção, pois estes se tornaram obsoletos após o cercamento das terras comunais e  
das revoluções industrial e tecnológica, os trabalhadores só tinham a propriedade da sua força  
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Paula Raquel da Silva Jales; Solange Maria Teixeira  
de trabalho, que deveria concorrer com muitas outras para ocupar um lugar no mercado de  
trabalho e garantir o recebimento de um salário para a manutenção da subsistência da família  
(Netto; Braz, 2012).  
Em relação à participação dos trabalhadores nos assuntos políticos, só depois de muita  
organização, reivindicação e luta é que foram garantidos direitos políticos, que, juntamente com  
os direitos civis, não estão em desacordo com o capitalismo. É nesse sentido que Wood (2007)  
afirma a constituição de uma esfera econômica distinta da política no capitalismo, em que a  
primeira dificilmente se submete ao controle democrático e a prestações de contas. Nas palavras  
da autora:  
Após e até agora existe uma esfera econômica distintiva, com seu próprio  
sistema de compulsão e coerção, suas próprias formas de dominação, suas  
próprias hierarquias. O capital, por exemplo, controla o lugar do trabalho, e  
tem um manejo sem precedentes do processo de trabalho. E, é obvio, existem  
as forças de mercado, mediante as quais o capital localiza o trabalho e os  
recursos. Nenhum destes elementos está sujeito ao controle democrático ou  
rendição de contas. Aesfera política concebida como o espaço onde as pessoas  
se comportam em seu caráter de cidadão – antes que como trabalhadores ou  
capitalistas – está separada do âmbito econômico. As pessoas podem exercitar  
seus direitos como cidadãos sem afetar muito o poder do capital no âmbito  
econômico. Ainda em sociedades capitalistas com uma forte tradição  
intervencionista do Estado, os poderes de exploração do capital costumam  
ficar intactos pela ampliação dos direitos políticos (Wood, 2007, p. 6).  
294  
Para Wood (2006), o sistema capitalista, pela sua própria essência, construiu  
paulatinamente outra forma de regime democrático, a designada democracia formal, que,  
circunscrita à esfera política e jurídica, mais legitima do que afronta o poder da classe  
dominante. Nesse sentido, o processo da vida e dos corpos humanos fica sujeito à  
mercantilização e, por consequência, distante do alcance da responsabilidade democrática, o  
que leva a autora a concluir que o capitalismo é basilarmente antidemocrático, se por  
democracia entendermos o poder popular desafiando a dominação de classe.  
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Não há dúvida de que o poder das companhias transnacionais, que não  
respondem perante nenhum eleitorado, é um ataque massivo contra a  
democracia qualquer que seja a definição que se adote. Também é verdade que  
organizações, tais como o FMI, usurparam certas funções de governos eleitos  
(embora em proveito de outros governos nacionais mais fortes). Mas o mais  
sério desafio à democracia no sentido de ‘governo do povo’ está na natureza  
da economia capitalista. Nem é preciso dizer que o sistema de dominação de  
classe, as iniqüidades [sic] geradas pelo capitalismo e a relação entre riqueza  
e acesso ao poder são incompatíveis com a democracia nesse sentido. A  
democracia estadunidense, por exemplo, onde a política é bastante dependente  
do dinheiro grosso, é obviamente algo muito diferente de ‘democracia’ no seu  
sentido literal (Wood, 2006, p. 45).  
A autora também destaca que foram os pais fundadores dos Estados Unidos da América  
(EUA), com a colaboração de conceituados intelectuais, que redefiniram o significado da  
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Estado capitalista e democracia: disputa de projetos político-ideológicos  
palavra “democracia”. A estratégia ideológica e constitucional utilizada para afiançar direitos  
políticos sem garantir soberania popular foi transformar o povo em um conjunto amorfo de  
cidadãos com direitos civis comuns e o poder na capacidade de voto individual, de escolha de  
representantes para assumir cargos políticos (Wood, 2007). Na análise de Wood (2007), a  
“República”, termo utilizado pelos americanos para se diferenciar da “democracia” como poder  
popular, que posteriormente, por pressão, teve que ser substituída pela terminologia  
democracia representativa”, afastou a gente comum do poder político e identificou mais ainda  
a democracia com o governo dos ricos, reiterando concepções de que estes seriam os mais  
qualificados para representar os trabalhadores.  
A cidadania passiva divorcia, segundo Wood (2007), os sujeitos de suas condições  
sociais, de seu pertencimento de classe, para lhes atribuir uma identidade de cidadãos  
despolitizada, alienada, uma vez que o voto individual substitui qualquer poder coletivo. A  
democracia foi reduzida à universalização de direitos políticos, que ocorreu por meio de muita  
luta, e a processos eleitorais, em que a renúncia de poder para delegá-lo a alguém vinha com  
a certeza de desfrutar de direitos civis e certas liberdades básicas (Wood, 2007).  
O fato de as relações de produção capitalista terem possibilitado a criação de outro tipo  
de democracia não ausenta a existência de outras concepções, propostas e experiências  
democráticas que enfatizem o poder popular e o confronto à dominação de classe. A democracia  
fruto do Estado capitalista, ou seja, de uma condensação material e específica de uma correlação  
de forças entre classes e frações de classes (Poulantzas, 1985), é espaço de disputas de projetos  
político-ideológicos que lhe atribuem significados e sentidos diferentes no processo de  
reconstrução cotidiana da dominação, de busca pela hegemonia.  
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Enquanto as classes dominantes buscam consenso ativo da sociedade civil em sua  
heterogeneidade para a representação ou a delegação da tomada de decisões, a democracia  
participativa, como alguns denominam, é proposta contra-hegemônica que visa trazer o povo  
para o centro dos espaços de discussão e de disputa do poder, no sentido de constituição e  
valorização de sujeitos e decisões coletivas. Campos (2012, p. 252) apresenta algumas reflexões  
sobre democracia participativa e representativa que se coadunam com essas análises:  
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A democracia participativa funda-se em critérios e valores ideopolíticos  
distintos da democracia representativa. Nessa modalidade de representação  
política, o indivíduo atomizado constitui-se no seu fundamento e objetivo. O  
cidadão é dotado de um conjunto de direitos civis, políticos e sociais. Em tese,  
é dotado de autoridade para realizar escolhas e eleger governantes. Todavia,  
na prática, o experimento democrático representativo estimula e cultiva o  
afastamento do cidadão comum das arenas que tratam do negócio público [...].  
A democracia participativa, ao contrário, valoriza, apoia-se e nutre-se nos  
atores coletivos, ou seja, nos cidadãos organizados. Nessa perspectiva de  
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Paula Raquel da Silva Jales; Solange Maria Teixeira  
democracia, o povo pode se constituir efetivamente em fonte de poder, em  
autoridade, nos termos trabalhados por Arendt (1983), para quem a autoridade  
originada das bases não significa a ficção de um povo absoluto, pois se trata  
da articulação desses corpos constituídos em convenções e assembleias. Nesse  
caso, o povo significa um conjunto de cidadãos organizados segundo leis  
reconhecidas por todos.  
No âmbito da teoria democrática, Pateman (1992) identificou duas correntes antagônicas  
a direcionar a relação da sociedade com o Estado e seus governos, que se vinculam geralmente,  
dependendo dos autores de referência, às noções de democracia representativa e democracia  
participativa, são elas: a teoria contemporânea da democracia e a teoria da democracia  
participativa. Sendo a mais disseminada na produção teórica e influente nas experiências  
republicanas, tornando-se hegemônica no primeiro semestre do século XX, a teoria  
contemporânea da democracia tem em Joseph Schumpeter, economista e cientista político  
austríaco, a sua maior referência intelectual, por sua crítica à teoria clássica4 e consequentemente  
pela construção de uma nova concepção da democracia como método político fundamentado na  
competição pela liderança nas eleições.  
Além dele, a autora analisa as produções de Bernard Berelson, Robert Dahl, Giovanni  
Sartori e Harry Eckstein para traçar linhas gerais dessa teoria de legitimação dos governos  
representativos, dentre elas destacam-se: o caráter empírico ou descritivo, com foco no  
funcionamento do sistema político; a democracia compreendida como método político ou  
arranjos institucionais nacionais; a competição entre os líderes, membros da elite, pelos votos da  
população é o elemento democrático por excelência; as eleições são a forma privilegiada de  
controle das ações dos representantes, pela possibilidade de não recondução de seus mandatos; a  
igualdade política é sinônimo de sufrágio universal e acesso aos canais que interferem nas  
decisões dos líderes; e a participação é o direito de escolher aqueles que integrarão a esfera  
política e terão o poder para tomar decisões, nesse sentido sua função é proteger as pessoas contra  
as decisões autoritárias dos representantes e os interesses individuais. Com uma visão tão  
minimalista e procedimental da democracia, da igualdade, da participação e de outros vocábulos  
que contribuem para a manutenção do status quo e da hegemonia das classes dominantes, não é  
difícil entender sua compatibilidade com o projeto político-ideológico neoliberal.  
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A corrente decisionística de deliberação, elucidada por Avritzer (2000) na teoria  
democrática, também defende elementos da democracia representativa, ao significar a  
deliberação como momento em que se tomam as decisões, articulando-se ao projeto político-  
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Pateman (1992) afirma que o autor e seus sucessores constroem um mito em torno da teoria clássica da  
democracia, pois a maioria deles não expõe os autores de referência de suas críticas, além de negar seu caráter  
normativo.  
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Estado capitalista e democracia: disputa de projetos político-ideológicos  
-ideológico supramencionado. Conforme o autor, teóricos do elitismo democrático que se  
inicia com Max Weber, é aprimorado por Joseph Schumpeter e tem Anthony Downs, Giovanni  
Sartori e Norberto Bobbio como representantes contemporâneos justificam uma certa  
homogeneidade cultural, a racionalidade administrativa e o processo eleitoral como aspectos  
que assegurariam o funcionamento efetivo das democracias modernas, já que não é possível  
resolver cientificamente os conflitos resultantes das diferenças culturais. Questiona-se, no  
entanto, efetividade para quem, para qual classe social ou para que tipo de sociabilidade?  
Na teoria da democracia participativa, Pateman (1992) recorre às obras de Jean-Jacques  
Rousseau e de John Stuart Mill, intelectuais clássicos, e de George Cole, teórico político do  
socialismo de guildas do século passado. Apesar dos paradoxos que atravessam a produção de  
John Mill, especialmente nas propostas práticas às democracias de massa, por não romper com a  
visão utilitarista da participação e reforçar a representação política através de membros instruídos  
com formação acadêmica da elite, Pateman (1992, p. 51) o inclui nessa teoria pela ênfase na  
função educativa da participação no governo local e nos espaços de trabalho, o que poderia ser  
ampliado a “[...] todas as estruturas de autoridade ou sistemas políticos das ‘esferas inferiores’”.  
O papel educativo no desenvolvimento de qualidades e atitudes psicológicas e  
democráticas é, portanto, a principal função da participação numa teoria que reconhece a  
inter-relação entre sujeitos e instituições (Pateman, 1992). A autossustentação do sistema está  
no próprio processo participativo, visto que o seu contínuo exercício é a garantia de maior  
aprendizado (Pateman, 1992). A participação também pode secundariamente ter um efeito  
integrativo e de aceitação das decisões coletivas (Pateman, 1992), por isso faz-se necessária a  
democratização tanto do sistema político como de todos os espaços onde a participação possa  
se realizar, incluindo o local de trabalho; dentre eles, a autora destaca a indústria. A igualdade  
econômica e a política tornam-se, assim, pressupostos para que as pessoas tenham  
independência e segurança para participar com poder de determinação das decisões (Pateman,  
1992). Democracia, política e igualdade ganham sentidos ampliados no contexto de uma  
sociedade participativa com máxima democratização das estruturas de autoridade e participação  
direta dos indivíduos (Pateman, 1992).  
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Diferentemente de alguns autores que propõem associar democracia representativa à  
participação indireta ou delegação de poder e democracia participativa à participação direta,  
Miguel (2017) afirma, a partir das análises de Carole Pateman, que a possibilidade de os sujeitos  
participarem da autogestão das empresas, o que a autora conceitua como democracia industrial,  
não inviabiliza a escolha de representantes articulados aos interesses e decisões da base. Na  
verdade, a concepção de democracia participativa está mais articulada à ampliação da  
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autonomia na vida cotidiana, à educação política, às relações horizontalizadas, à maior  
comunicação entre representantes e representados e a um processo contínuo de  
acompanhamento e fiscalização coletiva das ações econômicas, políticas e sociais do que à  
ausência de representação política. A função educativa da participação dos sujeitos no cotidiano  
de trabalho e outros espaços garantiria a qualificação da representação política de qualquer  
pessoa nas estruturas horizontais e verticais do sistema democrático (Miguel, 2017), o que  
diferencia sobremaneira a teoria da democracia participativa da teoria contemporânea e vincula  
aquela ao projeto político-ideológico democrático participativo.  
Outra corrente que influenciou as experiências democráticas participativas, a partir da  
década de 1970, quando a vertente decisionística entrou em crise, foi a argumentativa de  
deliberação (Avritzer, 2000). John Rawls5 e Jürgen Habermas foram, segundo Avritzer (2000),  
fundamentais na recuperação de uma dimensão de debate público que minou o consenso  
antiargumentativo. Apesar das diferenças teóricas e conceituais, das limitações dos dois autores  
em relação aos locais em que a deliberação argumentativa ocorreria na sociedade democrática  
e da existência de arranjos deliberativos no nível público, respectivamente, ambos admitem a  
pluralidade de pensamentos e opiniões que devem ser expressos na busca da construção de  
consensos, dando ênfase ao momento da discussão e da argumentação, opondo-se, em alguma  
medida, à decisão baseada na maioria:  
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[...] Nesse sentido, tanto a preocupação rawlsiana quanto a preocupação  
habermasiana parece estar contemplada, na medida em que se substitui a  
percepção da falta da legitimidade do processo de agregação de maiorias por  
um formato institucional no qual maiorias e minorias, ou interesses  
simplesmente distintos, podem argumentar sobre suas posições, algo que a  
teoria democrática convencional julgava desnecessário (Avritzer, 2000, p. 43).  
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Joshua Cohen e James Bohman partem das contribuições rawsianas e habermasianas  
no sentido de equacionar suas insuficiências em relação a um espaço de concretização da  
deliberação como argumentação (Avritzer, 2000). O primeiro dá caráter institucional à  
deliberação, alertando para a possibilidade de decisões legítimas, mesmo sem a concordância  
de ideias entre todos. Já “[...] Bohman faz uma tentativa de integrar elementos dialógicos com  
uma concepção de razão pública e, ao mesmo tempo, de integrar os públicos informais com  
algum elemento capaz de institucionalizar a deliberação pública” (Avritzer, 2000, p. 42).  
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5 Avritzer (2000, p. 32) considera Rawls um autor de transição entre os dois sentidos atribuídos à deliberação, “[...]  
na medida em que, em algumas das suas obras, especialmente em sua Uma teoria da justiça, ele opera com um  
consenso decisionístico (ainda que não sem algumas contradições) e, em outras, ele supõe que as diferenças  
culturais são parte de uma condição de pluralismo que supõe a argumentação e a deliberação”.  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 286-306, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518