DOI 10.34019/1980-8518.2023.v23.41360  
Educação Popular no Brasil: uma  
sistematização de processos e experiências  
desenvolvidas nos anos 1940 a 1964  
Popular Education in Brazil: a systematization of processes and experiences  
developed from 1940 to 1964  
Juliano Zancanelo Rezende*  
Maria Lúcia Duriguetto**  
Resumo: Tratamos, neste artigo, de evidenciar  
sistematizações analíticas sobre práticas e  
Abstract: In this article, we try to show  
analytical systematizations about practices and  
experiences of popular education developed in  
Brazil by the Popular Democratic Committees  
(1945-1947) and Universidade do Povo (1946-  
1957), and by the Movements of Education and  
Popular Culture (1958-1964). In these historical  
contexts, popular education practices are  
created or converted to pedagogical  
perspectives linked to the wishes of the  
subaltern classes, empowering them to build  
mobilization, organization and awareness  
around the struggle and defense of rights and a  
process of democratization in the country.  
experiências  
desenvolvidas no Brasil pelos Comitês  
Populares Democráticos (1945-1947),  
de  
educação  
popular  
Universidade do Povo (1946-1957) e pelos  
Movimentos de Educação e Cultura Popular  
(1958-1964). Nestas conjunturas históricas,  
práticas de educação e cultura popular são  
criadas ou convertidas para perspectivas  
pedagógicas vinculadas aos anseios das classes  
subalternas, potencializando-as na construção  
da mobilização, organização e conscientização  
em torno da luta e defesa de direitos e de um  
processo de democratização do país.  
Palavras-chaves:  
Realidade  
brasileira;  
Keywords: Brazilian reality; Education and  
Educação  
e
cultura popular; Projetos  
popular culture; Societal project.  
societários.  
Recebido em: 03/06/2023  
Aprovado em: 30/08/2023  
*
Assistente Social; Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Doutorando em  
Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora  
(PPGSS/UFJF); Membro do Grupo de Pesquisa Serviço Social, Movimentos Sociais e Políticas Públicas. ORCID:  
** Assistente Social; Mestre e Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);  
Pós-doutora pela Universidade da Calábria - Itália; Professora Titular da Faculdade de Serviço Social da  
Universidade Federal de Juiz de Fora (FSS/UFJF); Membro do Grupo de Pesquisa Serviço Social, Movimentos  
Sociais e Políticas Públicas. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5800-7289  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 436-452, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Educação Popular no Brasil: uma sistematização de processos e experiências desenvolvidas nos anos  
1940 a 1964  
Introdução  
Neste artigo, compartilhamos do entendimento de que experiências de educação e  
cultura popular, fortemente desenvolvidas entre o final de 1950 e os primeiros anos da década  
seguinte nos Movimentos de Educação e Cultura Popular, embora tenham enorme relevância  
sócio-histórica, não protagonizaram, na realidade brasileira, o florescimento de práticas  
educativas vinculadas aos interesses e lutas das classes subalternas1. Pinheiro (2014) analisa  
que a atuação dos Comitês Populares Democráticos (1945-1947) e da Universidade do Povo  
(1946-1957) constituíram uma antecipação, em vários aspectos, dos movimentos de cultura e  
educação popular do período 1958-19642. Essas experiências que tiveram uma intensa  
atuação de militantes comunistas foram relevantes tentativas de mobilização e capacitação  
dos setores populares e de potencialização das formas de organização voltadas para a  
conscientização política de direitos e da luta geral pela consolidação de um regime democrático  
no Brasil3.  
Os processos que permitem aos indivíduos experienciar de forma coletiva as  
contradições da realidade social possibilitam a elevação do nível de consciência e podem abrir  
caminhos para a formação do pertencimento de classe. No momento de grupalização, que pode  
ocorrer de forma mais imediata em relação a um grupo específico ou de maneira mais ampla  
envolvendo uma classe social, sucede a “descoberta de uma força coletiva e da vivência de sua  
potencialidade, de crítica dos limites de uma dada realidade e de busca de alternativas, de  
descoberta de limites e de exigências, reivindicações” (Iasi, 2020, p. 40-41). Entretanto,  
somente a experimentação dos processos coletivos, por mais intensos que sejam e que teçam  
certas críticas à realidade, não desnudam a complexidade das contradições da realidade vivida.  
Inclusive, as novas formas de consciência derivadas de experiências coletivas, mesmo  
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1 Tendo em vista a exígua investigação sobre o tema, nos baseamos em Pinheiro (2014) sobre os Comitês Populares  
Democráticos, que resultou em ineditismo acadêmico. Para estudos mais regionalizados e sobre locais particulares,  
indicamos: Silva (2012); Amaral (2013); Monteiro (2015); e Pinheiro e Rodrigues (2018).  
2 Conforme já fora sugerido, de acordo com Pinheiro (2014, p. 222), por Vanilda Paiva, no livro Educação Popular  
e Educação de Adultos, publicado em 1973. Outra hipótese construída pelo autor é que “os chamados Movimentos  
de Educação e Cultura Popular foram um acirramento da experiência de educação popular dos Comitês Populares.  
Para além do período em si e da violenta repressão sofrida, essa experiência, de alguma forma, sobreviveu através  
da prática acumulada pelos atores que a vivenciaram, particularmente os comunistas, consubstanciada, por  
exemplo, nas Associações de Bairro, ativos nos anos 1950 e base de mobilização da educação popular que a seguiu.  
Em certa medida, o ‘caldo de cultura', montado anteriormente, gestou e gerou as condições para que a partir de  
1958 as coisas pupulassem”.  
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3 “Existiram diferenças, porém, ousaria afirmar que são mais ‘quantitativasdo que ‘qualitativas’, se considerarmos  
como aspectos condensatórios de uma educação popular emancipadora: a interpretação crítica da realidade  
(ideologia nacional-libertadora), posicionamento e opção alternativos frente a essa realidade (democracia de  
participação ampliada) e orientação das ações individuais e coletivas voltadas à transformação da realidade  
(organização popular). Tanto os Comitês Populares Democráticos quanto os Movimentos de Educação e Cultura  
Popular representaram, cada um em seu momento histórico, uma alternativa emancipatória e progressista face aos  
processos educativos predominantes na época”. (Pinheiro, 2014, p. 222-223).  
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recusando em “um primeiro momento aquilo que está estabelecido, podem encontrar um novo  
ponto de amoldamento, mudando a forma do discurso para manter a substância da dominação”  
(Iasi, 2020, p. 42).  
Embora seja característica histórica das experiências de educação popular a articulação  
com os movimentos sociais e as diversas organizações das camadas trabalhadoras e populares,  
existem situações em que as práticas de educação popular são “instrumentalizadas como meros  
meios de agitação e mobilização eleitoral, formação de bases de massa e distanciamse da  
intencionalidade de ser uma função orgânica da constituição da classe e sua perspectiva  
revolucionária” (Iasi, 2020, p. 48).  
Estamos convencidos de que não existe uma única e exclusiva perspectiva de educação  
popular. Ao mesmo tempo em que ela, enquanto ferramenta educativa, tem o potencial de  
assumir uma pedagogia crítica e própria das classes subalternas, um instrumento privilegiado  
de “mobilização, formação e mediação importante no processo de constituição da classe como  
classe” (Iasi, 2020, p. 50), também, pode assumir formas compensatórias e de adaptação à  
perspectivas que não objetivam o processo transformador da realidade, servindo de mediação  
para o ajustamento à ordem estabelecida.  
Para que as práticas de educação popular possam estar a serviço dos interesses históricos  
da classe trabalhadora, independe de exclusiva criatividade e inovação pedagógica. O caminho  
está na capacidade coletiva de condução estratégica e ampliação das indignações e revoltas  
sociais, na habilidade de articular e condensar a fragmentação organizativa da classe  
trabalhadora, na qualidade e no potencial do conjunto das lutas sociais, na competência de  
realizar uma fecunda tarefa intelectual de pensar teoricamente as determinações mais profundas  
da realidade, de rever e reavaliar, permanentemente, os rumos empreendidos historicamente,  
cujo objetivo elementar é a transformação da realidade.  
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Assim, situamos o papel da educação popular como auxiliar na dinâmica de formação  
da classe, pois ela pode colaborar educativamente para “as tarefas organizativas e práticas,  
contribuindo com a qualidade desejada da ação, mas não define nem o resultado nem a  
qualidade final da prática política da classe” (Iasi, 2020, p. 44), tendo em vista que isso  
extrapola a esfera educativa e corresponde ao âmbito mais geral da luta de classes. Como os  
indivíduos da classe trabalhadora, mesmo atuando nas lutas sociais e se rebelando  
coletivamente contra as contradições da realidade, ainda pensam “o mundo e a si mesmos com  
os valores, ideias e representações que colheu do mundo no qual se socializou” (Iasi, 2020, p.  
45), a educação popular pode colaborar para que haja uma mediação entre “as ações particulares  
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e a dimensão geral da luta, desvelando determinações históricas, fundamentos estruturais de  
nossa sociedade” (Iasi, 2020, p. 48).  
Nesse sentido, explicitaremos a intervenção dos Comitês Populares Democráticos,  
Universidade do Povo e dos Movimentos de Educação e Cultura Popular no sentido de  
evidenciar suas ações em torno do fomento e indução das reivindicações em relação às  
condições de vida e trabalho das classes subalternas e de práticas pedagógicas e culturais que  
intencionavam a elevação do senso comum ao bom senso, no sentido gramsciano4. Nesse  
sentido, as reivindicações econômico-imediatas ecoavam em uma luta unitária entre os  
segmentos democráticos da sociedade por amplos direitos de cidadania. Ou seja, as ações  
populares e democráticas não se limitavam ao circuito restrito de pautas meramente econômicas  
como melhores condições de infraestrutura dos bairros ou melhores condições imediatas de  
trabalho, se expressavam, substancialmente, em potencialidade política de democratização  
efetiva das relações sociais. Além do desenvolvimento da mobilização organizada das classes  
subalternas por melhores condições de vida e trabalho, viabilizaram um ascenso de ativa  
participação política dos estratos sociais até então marginalizados no cenário cívico-político  
do país culminando em um processo curto, porém ascendente, de politização da vida urbana  
e rural. Essas experiências de educação e cultura popular mediaram o desenvolvimento da  
mobilização e organização das classes subalternas para a formação de uma consciência-em-si  
em níveis reivindicatórios elevados. É com a intenção de explicitar esse processo nesses dois  
marcos históricos de práticas e de experiências de movimentos e organizações de educação e  
cultura popular que este artigo se atém.  
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A centralidade das ações de educação e cultura popular nos Comitês Populares  
Democráticos  
Na formação social brasileira, o processo de desenvolvimento capitalista pode ser  
compreendido e caracterizado pela presença de dois traços típicos: uma modernização que não  
eliminou de forma “revolucionária” as relações sociais herdadas do passado; e no plano  
imediatamente político, uma recorrente exclusão da participação popular nos processos de  
decisão política. Dois traços assim que expressam uma modernização capitalista claramente  
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O “senso comum” para o marxista italiano é “a concepção do mundo absorvida acriticamente pelos vários  
ambientes sociais e culturais nos quais se desenvolve a individualidade moral do homem médio”. O senso comum  
não é uma concepção única, idêntica no tempo e no espaço “mas é um produto e um devir histórico”. O senso  
comum “apresenta-se em inumeráveis formas; seu traço fundamental e mais característico é o de ser uma  
concepção [...] desagregada, incoerente, inconsequente, conforme a posição social e cultural das multidões das  
quais ele é a filosofia. Quando na história se elabora um grupo social homogêneo, elabora-se também, contra o  
senso comum, uma filosofia homogênea, isto é, coerente e sistemática”. O uso que Gramsci faz do termo bom  
senso é em modo alternativo ao senso comum” (Gramsci, 2001 apud Duriguetto, 2014, p. 274).  
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conservadora5 (Fernandes, 1975, p. 210). Constantes e variados processos, que materializam  
essa assertiva, foram postos no período histórico aqui elucidado (1930-1964). Nos ateremos em  
alguns daqueles que visaram obliterar a autonomia e a liberdade de organização do movimento  
operário sindical, da organização partidária do Partido Comunista do Brasil (PCB) e das  
experiências de mobilização e organização popular das quais o Partido protagonizou seu  
fomento e indução.  
Com a revolução de 1930 e o primeiro período varguista (1930-1945), a blindagem do  
regime político ao processo de ascensão das classes “perigosas” se inicia com a criação do  
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (MTIC), o qual visa o enquadramento oficial do  
movimento sindical operário pelo, entre outras medidas, cerceamento de suas atividades  
político-ideológicas direcionadas por perspectivas nacional-democráticas, anarquistas e  
comunistas. O intento é imputar aos sindicatos uma postura colaborativa dada pela coibição de  
sua natureza conflitiva, apassivando-os e aparelhando-os ao Estado. A acentuação das  
atividades político-ideológicas direcionadas por aquelas perspectivas, mas protagonizada pelos  
militantes comunistas do PCB, se efetiva na organização de uma frente popular em oposição ao  
que representava o governo Vargas, a denominada Aliança Nacional Libertadora (ANL)6. Sob  
o alarde do anticomunismo, a frente e os movimentos de esquerda foram brutalmente  
reprimidos, seja pela eliminação, pela clandestinidade ou as prisões ações coercitivas que se  
legitimam no regime ditatorial do Estado Novo.  
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Com o novo regime que emergiu com a queda da ditadura getulista e com a saída do PCB  
da ilegalidade, as aspirações populares e democratizantes tiveram uma singular vazão através  
dos comunistas, especialmente sob a liderança do então preso político Luís Carlos Prestes.  
Conforme Pinheiro (2014), este período é de intenso crescimento do PCB, de recrudescimento  
do movimento grevista e sindical7 e marcado pelo incremento da imprensa popular com a  
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5 Nesta direção, Coutinho utiliza os conceitos de “via prussiana” formulado por Lênin − para caracterizar o modo  
pelo qual a “passagem” para o capitalismo no Brasil operou e adequou a estrutura e a modernização agrária às suas  
necessidades − e o de “revolução passiva” formulado por Gramsci − para determinar processos sociais e políticos  
de ‘transformação pelo alto’, promovidos pelas classes dominantes, como forma de evitar a “transformação de  
baixo para cima” − caracterizando assim os processos de modernização econômico-social ocorridos na  
constituição do capitalismo no país (ver Coutinho, 1991).  
6 "Mais de 1.600 sedes locais da ANL haviam brotado até fins de maio de 1935. Os elementos progressistas dentro  
da classe média estavam finalmente se unindo aos sindicatos trabalhistas militantes para apoiar um programa  
radical. A plataforma da ANL [...], pedia o cancelamento das dívidas imperialistas, a nacionalização das empresas  
estrangeiras e a liquidação dos latifúndios” (Skidmore, 1982, p.41).  
7
Segundo Mattos (2009, p. 79), neste período temos a criação de novas entidades sindicais e aumento de  
trabalhadores sindicalizados, que entre 1945-1946, quase dobrou de tamanho. Esse ascenso do movimento sindical  
resultou na necessidade de uma organização que pudesse direcionar, de forma articulada, o processo de luta no  
mundo do trabalho. Em 1945, surge o Movimento de Unificação dos Trabalhadores (MUT), embrião da  
organização da Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), ambas hegemonicamente dirigidas pelos  
comunistas.  
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1940 a 1964  
criação de jornais comunistas em vários estados e, como órgão oficial, reaparece A Classe  
Operária.  
O propósito do fortalecimento da representatividade do partido nos sindicatos juntamente  
com as investidas no campo das disputas eleitorais fizeram os comunistas se debruçarem na  
mobilização e organização popular das massas trabalhadoras por meio de um instrumento  
inédito em potencialidade no que se diz respeito a história das lutas populares no Brasil os  
Comitês Populares Democráticos (CPDs), lançados oficialmente por Luiz Carlos Prestes em  
comício no Estádio do São Januário, no Rio de Janeiro, no segundo dia do mês de junho de  
1945.  
Os CPDs colocaram-se em ação nos bairros e favelas os comitês de bairros e junto  
aos sindicatos, principalmente naqueles nos quais o partido não compunha as instâncias de  
direção, destacando-se como representações por categoria voltadas para os problemas nos  
locais de trabalho, os chamados comitês democráticos profissionais. Essas células se  
constituíam de vários subcomitês que funcionavam nos locais de trabalho, e procuravam  
visibilizar as faltas e falhas das ações das diretorias sindicais, visando propagar o MUT e seus  
indicados para assumirem a liderança política nos sindicatos. A atividade interventiva dos  
comitês profissionais em processos de negociação com as instâncias governamentais e o  
patronato, “tanto nos momentos em que estiveram alinhados à ação dos sindicatos, quanto às  
vezes que agiram em rota de colisão com eles, foi um meio eficiente para que o PCB ganhasse  
penetração no meio operário” (Pinheiro, 2014, p.38).  
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A intervenção dos Comitês nos bairros e favelas girava em torno de reivindicações  
locais das camadas subalternas, buscando respostas às suas necessidades tanto pela mobilização  
coletiva como pela denúncia pública e política de suas condições de vida, direcionando essas  
reivindicações para o âmbito do Estado.  
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A organização do comitê de bairro partia da formação de um grupo de  
interessados que se transformaria numa comissão provisória constituída de  
presidente, secretário e tesoureiro. Esta comissão organizaria um plano de  
reivindicações locais; arrecadação de recursos para publicização das ações  
(boletins, transporte, etc.) e visitas aos moradores influentes a fim de obter o  
apoio e a adesão. Os CDPs tiveram acentuada presença em algumas cidades  
brasileiras, com destaque para a cidade do Rio de Janeiro, São Paulo e na  
região do ABC paulista. As pautas de reivindicações incluíam educação,  
saúde, habitação, transporte, lazer, luta contra a carestia de vida, estudos e  
palestras sobre questões de ordem política, social e econômica de âmbito  
nacional como internacional; questões referentes à cultura popular: atividades  
culturais e educacionais (teatro amador, sessões de cinema, exposições,  
passeios culturais entre outras atividades) (Pinheiro, 2014, p. 40-43; 49).  
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Pela situação de alto índice de analfabetismo nacional e como os analfabetos não tinham  
direito ao voto, a alfabetização de adultos ganhou centralidade nas tarefas político-pedagógicas  
dos CPDs como tática para as classes subalternas participarem da vida político-eleitoral. Os  
cursos eram realizados nas sedes dos Comitês ou, em grande parte, nos cômodos cedidos pelos  
moradores. O desenvolvimento do trabalho nos Comitês de alfabetização de adultos pela via da  
educação popular teve como referência o estudo ‘A situação do ensino no Brasil’ (1945), de  
autoria de Paschoal Lemme, a pedido de Luiz Carlos Prestes, como sinaliza Pinheiro (2014, p.  
43). Tal estudo demonstrou além do alto índice de analfabetismo nacional, sua presença  
desigual nas distintas regiões do país, tendo destaque para a região nordeste por exemplo do  
estado de Alagoas, que contava com 77,40% de sua população em condição de analfabetismo.  
Também, a partir do estudo de Lemme, Pinheiro (2014), consultando a imprensa comunista da  
época, retrata que em Pernambuco, particularmente na região de Recife, foi elaborado pelos  
Comitês um plano de alfabetização de adultos, com projeção de cerca de 200 escolas populares.  
Em Fortaleza, no Ceará, os Comitês planejavam estabelecer escolas noturnas de alfabetização  
em diversos bairros populares.  
Uma outra importante organização criada em 1946, na então Capital Federal, foi a  
Universidade do Povo (UP), concebida pela Comissão de Divulgação, Propaganda e Cultura do  
MUT Nacional, articulada com os Comitês Populares, trabalhadores, intelectuais e artistas,  
“que se aglutinaram em torno do programa mínimo lançado pelo PCB – o que não  
necessariamente significava uma adesão ao partido”. De acordo com seus estatutos, tinha como  
objetivo “elevar o nível cultural e desenvolver a educação do povo através do ensino, da  
preparação técnica e do alargamento da cultura de todas as camadas populares e especialmente  
da classe trabalhadora” (Pinheiro, 2014, p. 51). A UP oferecia suporte técnico-pedagógico aos  
cursos de qualificação profissional e aos de desenvolvimento intelectual e político oferecidos  
pelos comitês de bairros e pelos comitês profissionais. Os cursos eram oferecidos na sede e nos  
locais disponibilizados pelos Comitês, formando “núcleos universitários”, que contavam com  
a atuação de professores sócios da UP no oferecimento de aulas gratuitas. Mesmo cujo objetivo  
central era viabilizar cursos de alfabetização de adultos, também eram desenvolvidos cursos  
“artísticos, culturais e profissionais”, com duração flexível entre um mês a um ano, além da  
promoção de “seminários e conferências sobre assuntos de interesse nacional; criação de  
bibliotecas nos bairros, sindicatos e demais organizações populares; e outras atividades  
culturais e educacionais” (Pinheiro, 2014, p. 52-53).  
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A efervescência social nas cidades encontrou correspondência no meio rural onde ainda  
se encontrava a maioria da população brasileira, oprimida pelo latifúndio e suas oligarquias.  
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1940 a 1964  
Devido às severas limitações colocadas pelo Ministério do Trabalho para o sindicalismo rural,  
as forças democráticas, sob hegemonia comunista, conseguiram promover um instrumento de  
organização camponesa capaz, mesmo que momentaneamente, de ultrapassar as restrições de  
mobilização campesina impostas pelos interesses das frações latifundiárias. Criadas pelos  
comunistas em várias cidades do país, as Ligas Camponesas, faziam analogia aos CPDs que se  
desenvolviam no perímetro urbano, numa tentativa de realizar a intenção que vinha desde a  
rápida existência do Bloco Operário Camponês (1928-1930) a coalizão entre camponeses e  
operários.  
A ascensão política do PCB entre 1945 e 1947, tanto pela via eleitoral8 como pela  
organização popular através dos Comitês colidiu com os interesses conservadores e autoritários  
das classes dominantes. Contudo, essa potencialidade política edificada em torno dos  
movimentos sociais de base popular e sindical no início de retomada do regime democrático-  
liberal no país não poderia ser posta em perspectiva de processo. Em 1947, as frações das  
classes dominantes internas, anexadas de aptidão autoritária e antipopular enoveladas com o  
governo “democrático” do General Dutra, sob os ventos internacionais da Guerra Fria, não  
admitiram passivamente o desencadeamento de uma generalização democrático-nacional no  
país. A repressão e a perseguição ao PCB, após ter obtido uma significativa participação nos  
resultados eleitorais de 1947, foram intensificadas, culminado, mais uma vez, na ilegalidade do  
partido9, suas sedes foram invadidas, depredadas e lacradas, seus dirigentes perseguidos e  
presos e seus jornais proibidos de circular. É novamente posta em ação uma repressão aberta  
ao sindicalismo mais combativo e ao trabalho realizado pela CTB, que é fechada pelo governo  
Dutra. E os ventos coercitivos também se voltam para os instrumentos de organização e  
mobilização democrático-popular, especialmente os ancorados nas experiências dos CPDs e  
das Ligas Camponesas.  
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Já em 1946, os Comitês Populares Democráticos começaram a ganhar forma de  
associações de moradores para tentar ludibriar a perseguição política. No meio rural, eram  
poucas as organizações campesinas que mantiveram o nome de Ligas Camponesas, como  
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8 A partir de Braga (2003), Pinheiro (2014, p. 92) ilustra que a rápida e significativa conquista eleitoral do campo  
comunista em 1945 e 1947 foi acompanhada pela defesa de propostas parlamentares como: “a autonomia sindical,  
o direito de voto aos analfabetos, soldados, marinheiros e sargentos, a implantação do parlamentarismo, [...] a  
laicidade do ensino nas escolas públicas, a ampla liberdade de crença e o livre exercício de cultos, a instituição do  
divórcio, a reforma agrária, a participação dos trabalhadores no lucro e na gestão das empresas, a proibição do  
trabalho a menores de 14 anos e do trabalho noturno em indústrias insalubres a menores de 18 anos, a extensão da  
legislação trabalhista aos trabalhadores do campo, a concessão do direito de greve aos funcionários públicos [...].  
9 Na Constituição de 1946 incluía-se um dispositivo no qual os partidos ‘antidemocráticospoderiam ser impedidos  
de participação na política, e o PCB foi declarado fora da lei, por decisão judicial em 1947. Em janeiro de 1948,  
os parlamentares comunistas, em âmbito federal, estadual e municipal, tiveram seus mandatos cassados, sendo  
jogados na clandestinidade (Skidmore, 1982, p. 93).  
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medida de proteção contra a repressão policial. Mas apesar das dificuldades de atuação política  
nesse cenário de perseguição e repressão, a militância comunista permanecia ativa em  
comunidades rurais e em bairros de diversas cidades pelo país. Na demonstração da presença  
da militância comunista nos anos seguintes, lembramos da criação da Fundação Leão XIII, no  
Rio de Janeiro, em 1947, por iniciativa da hierarquia católica, que objetivava enfrentar o que  
consideravam como uma “esquerdização” das camadas subalternas, influenciadas pelos  
comunistas. Inclusive, as ações dessa instituição socioassistencial eram norteadas pela  
compreensão de que “era necessário subir o morro, antes que dele descessem os comunistas"  
(O Estado de S. Paulo, 10/4/1960, p. 38, col. 4, supl. especial, apud Pinheiro, 2014, p. 145).  
Portanto, o que se processou até o final do governo Dutra foi a inviabilidade de  
radicalização política pelas forças democráticas e populares, o que se estendeu durante os  
próximos governos até o final da década de 1950. Por mais que a década de 1950 contasse com  
um significativo reaparecimento político do movimento operário10 em um cenário de repressão  
e controle pelo Estado11, somente a partir de 1958 que as lutas sociais ganharam um novo fôlego  
político diante a retomada expressiva dos movimentos sociais populares que canalizaram suas  
ações principalmente em torno da educação popular.  
De acordo com Skidmore (1982), no meio rural, principalmente na região nordeste do  
país, viu-se uma nova eclosão das Ligas Camponesas e do sindicalismo rural sob o estímulo da  
União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB), que havia sido criada no  
ano de 1954 e que, posteriormente, foi decisiva para a fundação da Confederação Nacional  
dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), em 1963, como nos elucida Netto (2014). Sob  
significativa direção dos comunistas, os movimentos de camponeses potencializaram suas  
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10 “Levantamentos de militantes da época dão conta de 173 greves em todo o país, já em 1951, e 264, em 1952.  
Em destaque nesses anos, as lutas dos têxteis. Em Pernambuco e na Paraíba, em 1952; no Rio de Janeiro da virada  
de 1952 para 1953; e em São Paulo em 1953 (em meio a uma greve que atingiu também metalúrgicos, gráficos,  
marceneiros e pedreiros...), os têxteis, numericamente ainda a maior categoria do operariado industrial,  
enfrentaram o patronato, as decisões contrárias da Justiça do Trabalho e a repressão violenta das autoridades  
policiais. Entre esses movimentos, o de maior repercussão da conjuntura foi a chamada greve dos 300 mil em São  
Paulo” (Mattos, 2009, p.87).  
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Numa clara demonstração de anticomunismo, o governo de Juscelino Kubischek ordenou o fechamento de  
organizações sindicais e populares sob influência dos comunistas: o Sindicato dos Trabalhadores Portuários, da  
Liga de Emancipação Nacional, da “Federação de Mulheres, as Associações Femininas (originadas, em grande  
parte, dos CPDs), a União dos Portuários, a Associação de Defesa dos Direitos do Homem e várias outras  
entidades” (Imprensa Popular, 23/5/1957, p. 6 apud Pinheiro, 2014, p.57), como diversas sedes da União dos  
Trabalhadores Favelados, no Rio de Janeiro, conforme Costa (2015). Segundo Pinheiro (2014, p. 55-57), em 1957,  
a Escola do Povo, anteriormente fundada como Universidade do Povo pela ambiência dos CPDs e que resistiu à  
onda repressiva do governo Dutra, foi fechada e alguns meses depois seu fechamento foi referendado por decreto  
presidencial: “Em maio, o Procurador da República propôs a ação de dissolução da Escola do Povo, que no final  
de fevereiro já havia sido arbitrariamente invadida e fechada pela polícia. O pretexto da ação centrou-se nas  
ligações mantidas entre a Escola do Povo e o PCB, além de que seus professores estariam fichados no DOPS como  
perigosos militantes comunistas. [...] Nos seus onze anos de existência, a Escola do Povo ofereceu diversos cursos  
gratuitos a cerca de 10 mil pessoas, conforme seus fichários apreendidos pela polícia no ano de 1957”.  
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Educação Popular no Brasil: uma sistematização de processos e experiências desenvolvidas nos anos  
1940 a 1964  
reivindicações por terra pela via da reforma agrária, e nesse contexto de crescimento dos  
sindicatos rurais foram empunhadas diversas reivindicações dos trabalhadores do campo por  
melhores condições de trabalho. Em relação às bandeiras de luta camponesa, Pinheiro (2014)  
cita uma análise do histórico comunista Gregório Bezerra sobre a intervenção do PCB no meio  
rural neste momento de efervescência campesina:  
A luta que tratávamos no campo não objetivava somente a sindicalização, mas  
incluía salário mínimo, reformas de base (principalmente a reforma agrária  
radical), aplicação da legislação trabalhista na zona rural e outras  
reivindicações imediatas que sempre tinham prioridade, tais como salário  
igual para trabalho igual, pagamento em dinheiro, abolição do vale para o  
barracão, jornada de trabalho de oito horas, pagamento de horas extras,  
assistência médica, hospitalar e dentária (pois, para esse fim, era descontada  
uma taxa da folha de pagamento do trabalhador, sem que este usufruísse de  
tais benefícios), aviso-prévio no caso de despejo, indenização por tempo de  
serviço prestado ao patrão, pagamento na boca do cofre pelas benfeitorias  
realizadas pelo trabalhador e por seus familiares na propriedade patronal.  
Todos esses direitos eram burlados pelos empregadores rurais. (...) Essas  
vítimas da burguesia rural não tinham a quem apelar. Estavam amordaçadas e  
atoladas até a garganta nos feudos dos engenhos, das usinas e dos latifúndios.  
Tinham medo dos capatazes, dos feitores, dos gerentes e dos patrões, dos  
soldados da polícia, do delegado, do promotor, do juiz, etc. Era necessário  
despertá-los, encorajá-los, esclarecê-los, uni-los e organizá-los nos sindicatos  
ou em qualquer organização de massa. E foi o que fizemos, apoiados no  
ascenso democrático do país (Bezerra apud Pinheiro, 2014, p. 109).  
Junto da crescente mobilização camponesa que, inclusive, se entendeu para os primeiros  
anos da década de 1960, com a radicalização de suas lutas através de inúmeras ocupações de  
terras passíveis de reforma agrária, acontecia também uma ascendente dos movimentos  
populares e sindicais nas cidades. Conforme Mattos (2009), por mais que os primeiros anos do  
governo Kubitschek contasse com uma grande alta no poder de compra do salário mínimo  
devido a aceleração do crescimento industrial, no final da década e na entrada dos anos de 1960  
era latente o aumento do custo de vida e as perdas salariais dos trabalhadores urbanos. O que  
ocasionou uma nova ebulição do movimento operário e a mobilização das massas  
trabalhadoras.  
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A principal causa das perdas salariais era a inflação decorrente do aumento  
das emissões e do endividamento do Estado (interno e externo) necessário à  
sustentação dos altos investimentos públicos previstos pelo Plano de Metas do  
governo Juscelino. [...] Os dados da época demonstram também que  
crescimento econômico e superação das desigualdades não eram sinônimos,  
pois, em 1960, os 70% mais pobres da população brasileira detinham 20% da  
renda nacional, contra os 40% apropriados pelos 6% mais ricos (Mattos, 2009,  
p. 90-91).  
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No desenrolar dessa ascendente sindical, Netto (2014) nos lembra que tal conjuntura  
também foi singularizada pela criação de organizações de trabalhadores não reconhecidas pela  
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Juliano Zancanelo Rezende; Maria Lúcia Duriguetto  
estrutura sindical oficial do Estado, como foi o caso exemplar do Comando Geral dos  
Trabalhadores (CGT), em 1962. Além de ter sua política centrada na organização operária e  
incidir fortemente nas lutas sociais do campo, nesse ínterim de agitação popular do final de  
1950, o PCB também empenhou esforços na organização de associações de bairros pelo país,  
que reativaram reivindicações importantes dos históricos Comitês Populares Democráticos.  
Final dos anos 1950 e início da década de 1960: tempos de efervescência, de  
mobilização e organização popular  
Os anos 1961-64 foram marcantes na expressividade de um conjunto de forças políticas  
de caráter nacional-democrático ou nacional-reformista (Netto, 2014), que articularam suas  
reivindicações sob a bandeira das reformas de base portada pelo governo de João Goulart, que  
aliada a outros fatores internos e externos, constituíram determinações centrais para o golpe  
civil-militar de 1964.  
Nesse conjunto de forças políticas, se destacam organizações e movimentos de cultura e  
educação popular que se desenvolviam desde 1958, no compasso da atuação dos comunistas  
nas experiências dos CPDs na segunda metade de 1940. A partir de então, objetivando a  
conscientização da classe trabalhadora sobre suas condições de vida e pela primazia da  
divulgação da cultura popular, novas e extensivas experiências de alfabetização de adultos,  
cultura e educação popular foram construídas pelos comunistas, por segmentos nacionalistas,  
alguns liberais e os católicos “influídos pelos novos rumos abertos pela reflexão de filósofos  
cristãos europeus e pelas transformações que se anunciavam na doutrina social da Igreja”  
(Paiva, 2003, p. 258 apud Pinheiro, 2014, p.150). Inclusive, segundo Netto (2014), o baixo  
clero da Igreja Católica e parte do apostolado leigo tiveram importante participação em tal  
tendência reformista e progressista da conjuntura, “visíveis principalmente na Juventude  
Universitária Católica (JUC), que, em 1962/1963, deu origem à Ação Popular (AP)” (p.52) –  
organizações destacadamente presentes em processos de educação popular e difusão da cultura  
popular.  
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Organizados pelos setores heterogêneos de veio nacional-democrático e popular acima  
comentados, e assumindo o protagonismo de construção e difusão da cultura e educação popular  
na ambiência de um “momento de renovação e de mobilização do mundo da cultura” (Netto,  
2014, p.46), mencionamos: o precursor Movimento de Cultura Popular (MCP), criado em  
Recife, em 1960; o Movimento de Educação de Base (MEB), desenvolvido na região Nordeste  
e em vários outros estados do país a partir de 1961; a campanha de alfabetização e educação  
popular “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”, formulada em Natal, também em 1961  
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Educação Popular no Brasil: uma sistematização de processos e experiências desenvolvidas nos anos  
1940 a 1964  
sob influência do MCP; o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, que teve seu crescimento  
pelo país através das experiências da UNE Volante; e a Campanha de Educação Popular da  
Paraíba (Ceplar), criada em João Pessoa, em 1962.  
Tais movimentos e organizações possuíam diferentes clivagens ideo-políticas, mas  
convergiam na percepção da centralidade da alfabetização de adultos para o alargamento dos  
contingentes eleitorais (a região nordeste concentrava 59,8% de analfabetos e estes estavam  
constitucionalmente impedidos de votar), para a construção de uma nova ordem social ou de  
uma menos injusta. Fávero (2013, p. 49) ressalta  
como elementos de impulsão destes movimentos, o contexto conjuntural da  
composição do poder na esfera federal e a programática das “reformas de  
base”; a centralidade da educação, que se expressou em linhas de  
financiamento que favoreceram um campo de experimentações educativo-  
culturais e, nas esferas municipais e estaduais, especialmente no Nordeste, à  
eleição de governantes eleitos por “frentes políticas” compostas por forças  
populares e democráticas, que se comprometeram com a alfabetização de  
adultos. Nestes movimentos, foi protagônica a participação do movimento  
estudantil – mediados pela UNE – e suas militâncias na Juventude  
Universidade Católica (JUC) e, posteriormente, na Ação Popular (AP); no  
Partido Comunista, bem como a participação de intelectuais e artistas.  
O MCP atuou na educação fundamental, alfabetização de adultos e no fomento de ações  
culturais diversas que buscavam a valorização da cultura popular por meio de suas expressões  
nas artes plásticas, artesanato, cinema, música, teatro, folclore, entre outras12. O escopo era  
fomentar e induzir ações de elevação do nível cultural das classes subalternas, de  
conscientização e de leitura crítica da realidade. No MCP se realizou as primeiras experiências  
do sistema/método de alfabetização e conscientização de Paulo Freire, quando coordenava o  
projeto de Educação de Adultos do movimento. Em 1963, o MCP reunia em Recife 201 escolas,  
19.646 alunos/as de diferentes faixas etárias, uma rede de escolas radiofônicas com 452  
professores/as e 174 monitores/as, conforme Barbosa (2017, p. 84-88; 154-156) e Gomes  
(2020).  
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Foi no âmbito do MCP que se gestaram os esforços de construção de uma unidade  
nacional das experiências em desenvolvimento de educação e cultura popular, com a realização  
do I Encontro Nacional de Alfabetização e Cultura Popular, em 1963. Deste encontro  
participaram 74 movimentos, dos quais 44 trabalhavam com alfabetização de adultos,  
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12 Eram desenvolvidas ações para desenvolver nos setores populares uma apreciação crítica da realidade social por  
meio das Praças de Cultura (que abrigavam bibliotecas, apresentações teatrais, cineclube); criação do Centro de  
Artes Plásticas e Artesanato (em que diferentes cursos eram promovidos); o circo, que foi um projeto de Ariano  
Suassuna, que se estendia pelos interiores, passando para as crianças, através de estórias e brincadeiras,  
conhecimentos e noções de higiene e saúde; o Serviço de Radiodifusão da Cultura Popular, em que se fornecia  
informações culturais e científicas acessíveis à compreensão popular (Liana Coelho, 2006, apud Barbosa, 2017,  
p.140-142) e (Memorial do MCP, 1986 apud Barbosa, 2017, p.138).  
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Juliano Zancanelo Rezende; Maria Lúcia Duriguetto  
resultando, em final de 1963, na criação da Comissão Nacional de Cultura Popular e da  
Comissão Nacional de Alfabetização.  
O MEB foi criado por um convênio entre o governo federal e a Conferência Nacional  
dos Bispos do Brasil (CNBB), visando a alfabetização de trabalhadores/as rurais e  
camponeses/as por meio de redes de rádios e escolas radiofônicas. A partir do final de 196213,  
o movimento passa a fortalecer as relações entre agentes educadores com os grupos populares,  
incorporando suas demandas e expressões culturais; a desenvolver ações com os sindicatos  
rurais e com as Ligas Camponesas, com o desenvolvimento de cursos sobre a importância dos  
sindicatos e da sindicalização sob uma perspectiva de conscientização da necessidade da  
unidade do movimento camponês nesta direção, tem-se a fundação da Confederação  
Nacional dos Trabalhadores em Agricultura (CONTAG), em dezembro de 1963, coma já  
indicamos. O MEB também orienta a prática da alfabetização de adultos pelos ensinamentos de  
Paulo Freire. Neste contexto, se espraia para outros estados e regiões, atingindo seu auge entre  
janeiro de 1963 e março de 1964 (Pereira; Nobre; Duriguetto, 2022).  
Os idealizadores dos CPCs tiveram forte influência do MPC e tinham como proposta  
construir uma cultura “nacional, popular e democrática” como instrumentos de formação da  
consciência política operária e estudantil por meio de conteúdos sociais e políticos tratados no  
teatro de rua, música, cinema, entre outros e apresentados em sindicatos, ruas e praças das  
cidades e do interior do país. Alguns CPCs estaduais criaram núcleos de alfabetização através  
das práticas de educação popular em sindicatos, igrejas e salões comunitários. Em 1963,  
integrantes dos CPCs passaram a integrar o Programa Nacional de Alfabetização dirigido por  
Paulo Freire.  
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A Campanha educacional da prefeitura de Natal “De pé no chão também se aprende a  
ler” 14 se propunha, entre outros objetivos, a combater o analfabetismo com a criação do centro  
de capacitação de professores e a expansão das escolinhas (que funcionavam em locais cedidos  
por sindicatos, associações de moradores) e dos acampamentos escolares (barracões de  
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13 Neste período, se processam mudanças em suas concepções ideo-políticas (as quais passam de “progressistas”  
para uma perspectiva anticapitalista, devido, sobretudo, às divisões ocorridas no interior da JUC, cujas forças de  
esquerda formaram a AP) e pedagógicas (às ações de alfabetização são articuladas a valorização da cultura e das  
demandas populares) Wanderley (1984); Fávero (2013); Teixeira (2008).  
14 A concepção da Campanha está vinculada ao resultado das eleições municipais de 1960, cuja campanha eleitoral  
de um ex-militante comunista, participante do levante em 1935 e preso político durante o Estado Novo sustentou-  
se nos “Comandos Populares” (compostos por políticos, intelectuais, líderes sindicais e de bairros), que criaram  
os “Comitês Nacionalistas”. Organizados por rua ou bairro, nos Comitês se debatia o imperialismo, a dependência  
econômica, o latifúndio, a oligarquia, o colonialismo cultural e as demandas e necessidades locais. No total foram  
criados 240 Comitês que discutiram e aprovaram o “programa político-administrativo do futuro Prefeito”. Foi  
deste programa gestado a partir de um trabalho de politização e conscientização popular que a questão educacional  
foi destacada como prioridade, surgindo a Campanha (Teixeira, 2008, p. 54-55).  
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