DOI 10.34019/1980-8518.2023.v23.40649  
Democracia com desigualdades: sinais da  
vulnerabilidade social em ambientes  
politicamente ideologizados  
Democracy with inequalities: signs of social vulnerability in politically  
ideologized environments  
Jairo de Carvalho Guimarães*  
Resumo: Este estudo pretende ampliar as  
discussões quanto aos sinais de vulnerabilidade  
social que há na sociedade brasileira –  
notadamente no período que envolveu a  
pandemia da COVID-19 – a partir de uma  
análise orientada pela convicção de que a  
proteção social está aos poucos sendo desfeita,  
com perdas significativas para considerável  
parcela da população, tendo como pano de  
fundo as estruturas ideológicas implementadas  
por agentes políticos que detêm o poder  
decisório, especialmente aquelas deliberações  
relacionadas às políticas públicas voltadas para  
os coletivos fragilizados. Em sistemas  
democráticos não amadurecidos – em razão das  
recorrentes posturas autocráticas com forte  
vocação para o dissenso – invariavelmente os  
coletivos sociais sofrem reveses, especialmente  
diante de modelo capitalista, o qual impõe  
regramentos puramente cartesianos, sublevando  
os indicadores de desigualdades, agudizados  
pelos devaneios contidos nos discursos  
políticos.  
Abstract: This study intends to broaden  
discussions regarding the signs of social  
vulnerability that exist in Brazilian society –  
notably in the period surrounding the COVID-  
19 pandemic – based on an analysis guided by  
the conviction that social protection is gradually  
being undone, with significant losses for a  
considerable portion of the population, against  
the background of ideological structures  
implemented by political agents who hold  
decision-making power, especially those  
deliberations related to public policies aimed at  
fragile collectives. In immature democratic  
systems – due to recurrent autocratic postures  
with a strong vocation for dissent – social  
collectives  
invariably  
suffer  
setbacks,  
especially in the face of the capitalist model,  
which imposes purely Cartesian rules, raising  
the indicators of inequalities, heightened by the  
daydreams contained in the political speeches.  
Palavras-chaves: Democracia; Ideologia;  
Keywords: Democracy; Ideology; Speeches;  
Discursos; Proteção social; Insuficiências.  
Social protection; Shortcomings.  
Recebido em: 24/03/2023  
Aprovado em: 17/08/2023  
*
Doutor em Educação (UFRJ). Docente permanente e Subcoordenador do Programa de Pós-Graduação em  
Políticas Públicas (PPGPP/UFPI). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5901-5026  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 354-374, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Democracia com desigualdades: sinais da vulnerabilidade social em ambientes politicamente  
ideologizados  
Introdução  
Este estudo tem como proposta ampliar a discussões sobre as relações estabelecidas –  
mesmo que sob uma condição compulsória e contingencial entre o sistema democrático e as  
desigualdades sociais, apontando indicadores que concebem contornos da realidade brasileira,  
buscando discorrer sobre os efeitos da postura política orientada por decisões ideológicas,  
muitas vezes categoricamente enviesadas sob um ponto de vista do interesse prevalente dos  
coletivos fragilizados as quais naturalmente contribuem para a ampliação da fissura social  
que se constata na atualidade brasileira, desconstruindo o verdadeiro conceito de cidadania  
(Singer, 2021; Demant, 2021).  
Decisões tomadas por agentes públicos instituídos de poder podem apresentar  
encaminhamentos de gênese democrática ou autocrática, conforme estudo conduzido por  
Silagadze et al. (2022) com 1.673 finlandeses, no qual ficou comprovado que “[…] diferentes  
tipos de percepções subjetivas de desigualdade social afetam comportamento político dos  
cidadãos”. Neste estudo, os autores (2022) atestam que o envolvimento das pessoas no processo  
político denominado de associação, a partir de sua concepção crítica com o tratamento das  
desigualdades sociais indica dois tipos de categoria: sociotrópica e egocêntrica. A vertente  
sociotrópica contempla eleitores com afinidade pela ideologia esquerda, enquanto os eleitores  
de direita são mais propensos à associação por preocupações egocêntricas.  
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Não resta dúvida de que a emergência da COVID-19, surgida em Wuhan, na China,  
ainda no final de 2019, cuja explosão de casos se constatou no início de 2020 (Shaaban;  
Moneim, 2020; Platto et al., 2020; Who, 2020), repercute até os dias atuais sobre os desígnios  
do Poder Público no que remete à tomada de decisão com vistas a prover a população e, com  
destaque, aos grupos em desvantagem de bens e serviços públicos, além de implementar  
programas que possam suprir as necessidades iminentes destes coletivos. Em estudo  
desenvolvido por Saldanha et al. (2021), foram evidenciados os problemas envolvendo o aporte  
estatal para as pessoas com deficiência, restando comprovado o abandono, quase que integral,  
deste grupo reconhecidamente fragilizado. Para os autores,  
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No contexto de emergência em saúde pública, comunidades historicamente  
marginalizadas, como as pessoas com deficiência, correm o risco de se  
sentirem mais vulneráveis, bem como sofrerem privações e discriminação nos  
planos de triagem de atendimento, além de preconceitos e estigmas que  
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influenciam nas tomadas de decisão na assistência em saúde e intensificam  
desigualdades preexistentes, tornando esse grupo mais suscetível ao  
adoecimento e à desproteção social. Embora as pessoas com deficiência  
tenham sido reconhecidas como grupo de risco para COVID-19, houve um  
atraso, por parte dos governos, na construção de planos de enfrentamento à  
doença para essa população" (Saldanha et al., 2021, p. 1).  
Neste período (2020-2021), a condução das medidas para a contenção da pandemia da  
COVID-19, de repercussões avassaladoras, estava sob a responsabilidade do Governo Federal,  
e o que se viu foram ações confusas, baixas taxas de testagem, discursos desalinhados, medidas  
extemporâneas e com baixa efetividade quanto à mitigação das consequências e quanto à  
prevenção (vacinas, por exemplo) relacionadas à emergência sanitária. Já fragilizados, este  
grupo, em especial, tornou-se alvo fácil das falácias ideológicas, do tipo argumentum ad  
hominem.  
Do mesmo modo, grupos como os negros tiveram baixa aderência quanto às ações  
“organizadas” pelo Governo Federal, ainda no âmbito da COVID-19, amplificando a  
vulnerabilidades desta maioria que compõe a população brasileira (Santos et al., 2020). Para  
estes autores, um legado que poderia ser consignado ao Governo Federal seria o  
reconhecimento das especificidades das populações em estágio de vulnerabilidade e o  
centralismo na saúde, por meio do SUS, mas isto foi renegado a plano secundário.  
Outros estudos aprofundam as discussões acerca das medidas que foram (ou não)  
tomadas para, minimamente, passar uma sensação de altruísmo em relação aos grupos sociais,  
como as pessoas privadas de liberdade (Sánchez et al., 2020), na dificuldade de matrícula dos  
estudantes (Souza; Ferreira, 2021), nas dificuldades com a estruturação para a realização do  
ensino remoto (Arruda, 2020), no campo da Assistência Social em geral (Boschetti; Behring,  
2021), na área do trabalho (Raichelis; Arregui, 2021), dentre outros. Sob este forte descompasso  
entre a ação governamental e as políticas públicas substantivas com vistas a prover a sociedade  
de soluções concretas, a cidadania elemento basilar na consolidação da democracia resta  
atingida.  
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Diante desta realidade, propugna-se que o enfraquecimento da democracia, que  
naturalmente ocorre de maneira quase imperceptível, pode ter relação direta com os devaneios  
ideológicos, contidos em discursos, decisões, políticas públicas, acordos, alinhamentos e  
encaminhamentos pautados por sentimentos despossuídos de estadismo e com expressa  
ausência de sensibilidade política em situações de convulsão socioeconômica, cujos reflexos  
adversos são apontados por estudiosos do campo, notadamente no que se refere ao emprego e  
à renda (Mattei; Heinen, 2020; Paiva; Paiva, 2021).  
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ideologizados  
A democracia acompanha, pari passu, as desigualdades sociais na medida em que os  
anseios dos grupos fragilizados são postos à margem das ações políticas que deveriam priorizar  
as demandas. A democracia nem sempre representa um sistema que acolhe os mais frágeis e os  
protege socialmente, garantindo pauta política e suporte aos que melhor se organizam  
(Pateman, 1992; Schumpeter, 2008; Dahl, 2012), com a disponibilização de produtos e de bens  
públicos capazes de mitigar os desequilíbrios de renda, promovendo uma distribuição de  
recursos e das riquezas de forma mais justa (Ross, 2006; Atkinson, 2015; Kalyvas, 2019).  
Como se posiciona Dye (2014), fazer ou não fazer representa uma prerrogativa política,  
isto é, trata-se de uma decisão de política pública e, portanto, sob o Estado Democrático de  
Direito, parece natural que a negligência e a omissão prevaleçam sobre as necessidades mais  
prementes das pessoas que habitam neste território de ampla extensão. Sob o cenário de crises  
econômicas, sanitárias, políticas etc. ao poder central, especificamente, caberia atuar com  
maior efetividade em defesa dos interesses da massa populacional, na condição de agente  
provedor das demandas societárias. Todavia, diante de situações do gênero, sobressaem-se os  
destemperos verborrágicos e os discursos aliciados de pobreza vocabular, quando não eivados  
de pornografia, além de intenções de propósito duvidoso, no que diz respeito ao bem-estar das  
pessoas que deveriam ser acolhidas pelo gestor público.  
A ideia de democracia pautada pela recorrente justificativa da liberdade do sujeito social  
no que remete ao sufrágio universal votar e poder ser votado implicando no direito político,  
está distante do que se constitui um conceito pleno de democracia. Para além desta convicção,  
pode-se aqui denominar de democracia inconclusa ou, como preferem Bittencourt e Pase  
(2015), “não amadurecida”, a qual se encontra atualmente ameaçada, tendo em vista que as  
condições para a participação efetiva dos arranjos sociais não estão sendo contempladas pelas  
ações do Poder Público.  
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Por outro lado, isto é resultado de uma construção histórica de elites governantes que –  
não eximindo a responsabilidade de quadros de esquerda quando estiveram no poder operam  
mecanismos muito bem alinhavados visando à perpetuação do poder e, portanto, das decisões  
estratégicas de dado governo. Nesta linha, o Estado se submete ao governo que se encontra no  
palácio. Como pontua Castells (2018, p. 12), “[…] a democracia se constrói em torno das  
relações de poder social que a fundaram e vai se adaptando à evolução dessas relações […]”,  
isto é, a ideia de democracia se consubstancia e evolui a partir de uma referência de poder  
social, o qual é orientado pelas relações que dele fazem parte os mais variados segmentos da  
sociedade.  
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Na medida em que setores da sociedade são excluídos do processo de formação deste  
poder, a fragilidade nestas relações na realidade, um fortíssimo embate entre detentores do  
poder político e os governados se mostra inelutável,, razão pela qual as mobilizações sociais  
e as resistências articuladas são fundamentais para frear o avanço das frentes que defendem as  
ideologias autoritárias e retrógradas, as quais naturalmente tendem a colapsar as conquistas  
sociais alcançadas (Cavalcante, 2020; Mungioli, 2021).  
Por outro lado, uma recorrente conduta antiética e autoritária pode se alinhar  
rapidamente com o autoritarismo e, neste aspecto, convém resgatar o que Arendt (2012)  
sinaliza, para quem esta é a forma mais extremada de autoritarismo. A concepção de Arendt  
(2012) se sustenta na tese de que os líderes autoritários se apoiam nas massas e, desta forma,  
restaria assegurada a legitimidade da representatividade dos governantes, fundamentando o  
estilo de conduzir as relações de poder. Mas, seria esta massa, real ou imaginária, a qual estaria  
submetida a uma suposta crença concebida como roteiro justo de ação? É um ponto a ser  
estudado. Neste instante, convém apresentar a ideia de Abbagnano (2012, p. 615), para quem  
“o que transforma uma crença em ideologia não é sua validade ou falta de validade, mas  
unicamente sua capacidade de controlar os comportamentos em determinada situação”, ou seja,  
a ideologia não prescinde da crença para conseguir se estabelecer como pressuposto fático do  
discurso anabolizante.  
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O presente ensaio tem como objetivo estender as discussões em torno dos sinais de  
vulnerabilidade social que se constatam na sociedade brasileira e, para tanto, apoia-se em uma  
revisão bibliográfica clássica e contemporânea a qual consigna suporte teórico às análises  
que são aqui desenvolvidas. Trata-se de uma pesquisa descritiva, de natureza qualitativa. Em  
termos temporais, o estudo contém uma abordagem atual, apontando como limite espacial o  
Brasil e a situação atual pautada em decisões ideológicas sem o devido entendimento com a  
sociedade, especialmente a mais fragilizada, socialmente falando. O estudo está dividido, além  
da parte Introdutória, em outras seções, as quais debatem, no capítulo destinado aos  
Fundamentos Teóricos, sobre 2.1 Pobreza, Democracia e Capitalismo, 2.2 Marcos autoritários  
do poder político e 2.3 A prepotência política e a formação dos cinturões de pobreza: sinais  
históricos. Por fim, apresenta as Considerações Finais.  
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Fundamentos teóricos  
Definir uma análise histórico-dialética do sujeito social requer, antes de qualquer  
capacidade conceitual, uma boa dose de zelo visando a demarcar coerentemente o território da  
investigação, buscando entendê-lo sem a influência de ideologias, isto porque, um simples  
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Democracia com desigualdades: sinais da vulnerabilidade social em ambientes politicamente  
ideologizados  
exame das relações entre capital e trabalho e, sob o signo do neoliberalismo, é possível  
estruturar as ideias que tenham como objetivo justificar a sujeição dos coletivos sociais ao  
poderio das elites conservadoras e dominantes (Teixeira; Pinho, 2018). O elemento  
conservador, estreitamente vinculado com as crenças postuladas como novas diretrizes político-  
institucionais, envereda para um território de constante conflito e enfrentamento. Como  
afirmam González, Baquero e Grohmann (2021, p. 14), o conservadorismo como um sistema  
de crenças “É considerada como uma doutrina que defende determinados fundamentos, como  
o patriotismo e a tradição, e desconfia de princípios abstratos de direitos humanos e  
democracia”.  
O fato é que neste impasse sociológico, em que o modelo neoliberal impõe aos grupos  
desestruturados a compreensão compulsória da dinâmica cartesiana, levando às pessoas o  
estratagema da liberdade de expressão e de decisão com uma concessão para justificar os  
desequilíbrios existentes, a necessidade de resiliência destes grupos na ótica mercantilista é  
imperioso, a fim de que os fluxos de mercados transitem com a segurança que o capital precisa  
para se reinventar, porque é este o seu principal alimento de sobrevivência em um sistema pleno  
de fendas sociais. Sobre a resiliência, Wilke (2021) defende a seguinte concepção:  
[…] a abordagem da resiliência flexibiliza o que é considerado vulnerável e  
embaralha as fronteiras entre zonas de segurança e zonas de insegurança –  
podendo ser um país, uma região, um grupo ou um perfil de indivíduos –,  
assim como entre o que ou quem é passível de responsabilização, entre táticas  
de defesa e de manutenção da ordem, entre políticas de segurança e políticas  
sociais (Wilke, 2021, p. 578).  
359  
Esta resiliência nada mais é do que a representação silenciosa da opacidade do sujeito  
social (Bobbio, 2011), perplexo que fica diante da postura desagregadora e opressora imposta  
pelo Estado à sociedade em geral, visto que este instituto é mediador do mercado como um  
agente de intervenção e, concomitantemente, provedor das insuficiências sociais. Como  
afirmam Bitencourt e Pase (2015), o Estado é o gerenciador dos interesses públicos. A  
resiliência se torna, assim, um requisito essencial para que o sujeito social se adeque ao modelo  
de mercado e da política descompromissada que se confere na atualidade brasileira, buscando  
“tocar” a sua vida dentro do seu minúsculo mundo e a partir das suas condições  
socioeconômicas, as quais o Estado e o mercado não têm responsabilização alguma por tal  
circunstância, visto que a condição de pobreza é, na perspectiva cartesiana, conforme conferem  
Diehl e Costa (2021), um problema de falta de capacidade do sujeito, evocando, para tal  
equacionamento, a cultura empreendedora.  
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A visão de que a proteção social com foco no combate à pobreza e às desigualdades  
sociais deve orientar as ações dos gestores públicos, torna-se mais urgente especialmente em  
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Jairo de Carvalho Guimarães  
países periféricos ou em nível de desenvolvimento, como pontuam Ferrarini, Nelson e Palme  
(2016) e Sirén (2020), porém, os discursos ideológicos têm influenciado na condução desta  
perspectiva que, num mero exercício de bom-senso, deveria ser tomada como prioritária,  
fundamentalmente face às repercussões da COVID-19. Na Austrália, por exemplo, conforme  
comprovam os estudos de Clarke, Klas e Dyos (2021) desenvolvido com vários grupos, a  
ameaça provocada pela COVID-19 apresentou indícios de submissão (fator positivo) e  
convencionalismo e anti-igualitarismo (fator negativo), implicando na conclusão de que a  
ideologia de direita contribuiu para emplacar algumas restrições governamentais, tendo sido  
determinantes na movimentação das pessoas e também na ruptura de algumas normais sociais  
e econômicas.  
Sob a concepção neoliberal, o isolamento do sujeito social representa um procedimento  
necessário tendo em vista a interferência direta que a ideologia pode impor na construção de  
um discurso pragmático capaz de abduzi-lo para o território dos incautos, frágeis, por natureza.  
A ideologia se torna, então, um meio eficaz de persuasão e controle sobre as massas dispersas  
e, sob este domínio, convém mencionar o que Navarro (2007) infere, para quem a ideologia  
neoliberal,  
[…] postula que a redução das intervenções estatais nas atividades  
econômicas e sociais e a desregulamentação dos mercados de trabalho e  
financeiro, bem como do comércio e dos investimentos, liberaram o enorme  
potencial do capitalismo para criar uma era sem precedentes de bem-estar  
social no mundo (Navarro, 2007, p. 47).  
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Conforme assentam Di Giovanni e Nogueira (2018, p. 441), “As ideologias não são […]  
neutras, mas estão impregnadas de ênfases e distorções que correspondem à estrutura das  
sociedades, e sobretudo, às relações de dominação entre as classes sociais”. A missiva  
ideológica é bem clara: enfraquecer quem pensa diferente do establishment fulminando a  
pluralidade , fortalecer a conduta deletéria e o livre-pensar dos grupos imaginários ditos  
majoritários , e definir regras, ações e diretrizes para cooptar os grupos indecisos.  
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Este conjunto de estratégia expede, com bastante eficácia, um comando capaz de  
desmobilizar as resistências e os arranjos sociais, implicando no recrudescimento da pobreza,  
num contexto democrático, adicionado do tempero nada apropriado das reticências ideológicas  
como fio condutor para as decisões sociopolíticas às vezes, simples caprichos sociopatas–  
voltadas ao bem-estar dos contingentes enfraquecidos, abandonados e invisibilizados.  
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Democracia com desigualdades: sinais da vulnerabilidade social em ambientes politicamente  
ideologizados  
Pobreza, Democracia e Capitalismo  
Naturalmente, em ambientes onde o capitalismo se faz presente é inevitável a  
constatação de exemplos recorrentes de desigualdade social, condição esta que contribui para a  
ampliação do fosso que se estabelece entre os ricos e os pobres. Em nações comprovadamente  
democráticas, a desconfiança nas instituições e nos partidos políticos se expressa com elevado  
grau (Castells, 2018) e, portanto, retira a legitimidade da representação política dos  
governantes. Neste aspecto, o bem comum perde relevância e os desequilíbrios  
socioeconômicos se agudizam, fulminando as possibilidades de redução das disparidades  
sociais.  
Pesquisas que discutem a influência da pandemia sobre grupos minoritários (Couch;  
Fairlie; Xu, 2020) sugerem a utilização de instrumentos e de meios visando à reversão da  
situação desfavorável, considerando que o cenário pandêmico agudizou as vulnerabilidades  
destes arranjos sociais, especialmente o Brasil. Como assevera Luna (2013, p. 91), […] a  
pobreza não pode ser definida objetivamente e tudo depende do ponto de vista com que é visto  
e muda conforme o tempo e o espaço. Isso, como diria Marx, é ficar na superfície e não ir à  
essência”, isto porque a aproximação conceitual de pobreza remete à carência de serviços e à  
falta de ocupação, que pudessem proporcionar renda ao indivíduo. Mas, como pontuado por  
Luna (2013), esta concepção é simplória e se coloca na superfície das discussões, porque a  
pobreza pode ser intensificada, sim, em ambientes democráticos, porém submetidos às posições  
políticas contraditórias e invertidas nos signos que encaminham as medidas cujo foco deveria  
ser o bem-estar coletivo.  
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Como pontua Castells (2018, p. 19), “[…] as elites triunfantes da globalização […]”  
determinam a direção e o sentido das relações sociais da modernidade e este encaminhamento  
naturaliza os descompassos sociais, aprofundando as desigualdades sociais. A piora nas  
relações entre Estado, mercado ambos alinhados e subordinados à incansável máquina  
capitalista e sociedade, é acentuada pelo discurso de ódio que pauta o comportamento de  
governantes, mesmo sob o signo do regime democrático, o qual nada garante em termos de  
bens, serviços e suporte às classes menos favorecidas, mas define bem o modus operandi dos  
grupos hegemônicos organizados. Neste particular, convém apresentar a ideia que Bernardi e  
Morais (2021) desenvolvem no seu estudo crítico:  
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Há um perigo iminente para a democracia; afinal, embora seja possível a  
conivência entre um regime democrático e uma ideologia fascista, o regime  
fica deteriorado pelo autoritarismo de um líder que se coloca acima das demais  
instituições democráticas. Também há o perigo de aumento das desigualdades  
econômicas e sociais, visto que desumaniza segmentos da população,  
excluindo grupos, exercendo repressão da liberdade, dividindo a população  
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Jairo de Carvalho Guimarães  
por meio de distinções étnicas, religiosas e raciais (Bernardi; Morais, 2021, p.  
306).  
Nesta linha de raciocínio, na qual a concepção neoliberal ordena as decisões societárias,  
as imbricações que permeiam as conexões entre pobreza e capital parecem reluzir um horizonte  
nada expectado. Sobre isto, González (2022) faz um longo arrazoado, destacando que as  
soluções em momentos de crise são particularmente insensatas se conduzidas pelas mãos de  
políticos desqualificados ou inabilitados ao posto. Para sanar esta lacuna, que distancia ricos e  
pobres, González (2022) orienta que novas formas políticas de enfrentamento à ordem vigente  
devem ser estruturadas. O autor denomina esta postura visando à organização da vida comum  
de “democracia plebeia” (González, 2022, p. 2). Como afirmam Batalha e Gomes (2019, p. 1-  
2),  
[…] os estudos sobre a pobreza apontam geralmente que os problemas estão  
em uma relação administrativa: pois se não é a falta de assistência que perpetra  
a pobreza, então seria a indolência dos pobres; outrossim, se os problemas não  
estão nos escassos recursos, logo seria pela falta de vontade política.  
Estudos desenvolvidos por Hiariej (2017) na Indonésia, indicam que, mesmo sob uma  
aura democrática ascendente, há indicadores de desequilíbrios no país asiático, especialmente  
em relação às minorias, que tentam defender os seus interesses, porém, sem força popular  
consistente que permita enfrentar as oligarquias que se instalaram há anos no poder local. O  
problema é que, na Indonésia, a democracia é mais favorável às elites, o que ressalta o caráter  
discriminatório que existe por trás deste regime, supostamente igualitário, quando se discute os  
direitos sociais, comprometendo diretamente a cidadania. Nestes termos, a pobreza tende a se  
manter intacta, embora Sirén (2020) afirme que a proteção social orquestrada pelo Estado por  
meio da ampliação dos gastos sociais naturalmente expande a cidadania.  
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Aprofundando a análise sobre as implicações da democracia na condição vulnerável das  
pessoas, é importante conhecer os estudos de Gao e Zang (2021), os quais, utilizando um painel  
transnacional, realizaram uma pesquisa desenvolvida com dados de mais de 100 países, cujo  
levantamento compreendeu o período de 1995 a 2015, mostrou que a democracia reduz a  
pobreza, embora o tamanho deste efeito tenha variado conforme a linha de pobreza escolhida,  
ou seja, no estudo há indicadores que podem confirmar que a democracia contribui para a  
solução do problema envolvendo a pobreza. Todavia, não é possível assegurar uma linearidade,  
face aos níveis heterogêneos das referências.  
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Sob a trilha da globalização a qual, para Rudra e Tobin (2017), não tem contribuído  
para a redução da pobreza em diversas nações que interfere sensivelmente para a adoção de  
práticas ideologizadas, a aceleração da vida cotidiana fortalece as condutas abruptas e  
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Democracia com desigualdades: sinais da vulnerabilidade social em ambientes politicamente  
ideologizados  
desmesuradas, tanto que, como alerta Rosa (2019), o espaço na modernidade se tornou  
contingente e irrelevante, muito face às mudanças sociais, políticas, culturais e econômicas que  
têm demarcado um elevado processo de aceleração nas relações entre estas dimensões, entre o  
Estado e a sociedade, entre o capital e o trabalho, entre os representantes e os representados,  
entre os livres e os encarcerados. Neste caminhar, as tecnologias digitais têm papel importante  
na massificação das análises, falas e relatos, muitos dos quais se constituindo em mero jogo de  
cena e de inverdades (fake news, fake videos, fake ideas).  
É tão séria a discussão acerca do binômino espaço-social na atualidade, que convém  
reproduzir o que diz Anthony Giddens em sua obra Konsequenzen der Moderne (1995),  
resgatado por Rosa (2019, p. 436) na sua obra Aceleração: “[…] intimidade e estranheza não  
correspondem mais a proximidade e distância, pois o distante pode ser bem íntimo, enquanto o  
próximo, devido a rápida transformação, ao contrário, completamente ‘estranho’” (itálicos no  
original). Ou seja, o capitalismo não precisa de espaços físicos para definir as suas regras, mas  
de intimidades e complacências que deem condições favoráveis para reproduzir os seus  
desígnios e, nestes passos, a impotência dos grupos desprestigiados se amplifica, muito em  
função dos postulados autoritários do poder político, cujos aportes conceituais serão discutidos  
na próxima seção.  
363  
Marcos autoritários do poder político  
A realidade social de uma nação pode ser explicada pela forma como as relações de  
poder foram se moldando durante a trajetória histórica. No Brasil, as imbricações étnico-raciais  
que pautaram a sua gênese e justificaram o processo de formação dos estratos sociais dão sinais  
de que a evolução dialética definida como razoavelmente necessária para a construção de bases  
harmônicas a partir de uma visão que permita conciliar diferenças e identidades específicas –  
não obteve consideração neste percurso. O ideal democrático, no qual as decisões políticas são  
conduzidas pela pluralidade dos segmentos sociais, demonstra a sua fraqueza e desencanta as  
massas, exatamente pelo isolamento territorial-ideológico que os governantes determinam a seu  
livre arbítrio e conveniência.  
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Miguel (2014), discorrendo sobre o distanciamento das pessoas no que remete à  
participação política, enfatiza os impasses concretizados entre a democracia e a tomada de  
decisão, os quais, com um olhar voltado para a noção de modernidade, impedem a  
expressividade dos coletivos sociais, fortalecendo o conflito e o enfrentamento como única  
forma viável de resgate da democracia clássica. No que diz respeito à modernidade, Abbagnano  
(2012, p. 791) define assim o termo: “Costuma ser associado a alguns termos-chave como  
Revista Libertas, Juiz de Fora, v. 23, n. 2, p. 354-374, jul./dez. 2023. ISSN 1980-8518  
Jairo de Carvalho Guimarães  
razão, ciência, técnica, progresso, emancipação, sujeito, historicismo, metafísica, niilismo,  
secularização”. Neste raciocínio, vê-se que a prática moderna de democracia no Brasil parece  
andar na contramão dos preceitos históricos ou mesmo a partir de uma teoria crítica que se  
apoia na ideia de democracia tomada a partir da inatividade e na apatia do cidadão comum  
(Pateman, 1992).  
A motivação para este distanciamento entre o cidadão e o Poder Público pode ser  
justificada pelo reconhecimento de não pertencimento do sujeito social no território do jogo  
político o qual não deve ser adstrito apenas ao sufrágio universal cuja situação desencadeia  
um cenário de desinteresse e de afastamento do homem comum, ao perceber a frágil  
representatividade promovida entre os atores políticos e a sociedade, em geral, como repositório  
finalístico das ações visando ao bem-estar coletivo, isto é, com foco no interesse público. A  
mera sinalização de que não participa da tomada de decisão em relação a temas do seu interesse  
(Bitencourt; Pase, 2015), remete o sujeito ao estado de isolamento, afastando-o da dinâmica  
política que, ao cabo, influencia diretamente a sua vida regular.  
Uma posição emblemática que Lavalle e Zaremberg (2014) apontam é que a não-  
participação do homem comum nos debates políticos em busca das soluções aos problemas  
socioeconômicos desloca o enredo para o campo do clientelismo e do assistencialismo e é,  
precisamente neste território no qual a submissão à ideologia, a imposição de práticas não-  
republicanas e as decisões emanadas pelos detentores do poder sem uma prévia deliberação  
coletiva se mostram presentes que tais configurações costumam prosperar. Neste sentido,  
Silagadze et al. (2022) afirmam que:  
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Os cidadãos acreditam cada vez mais que os direitos sociais e os esforços para  
combater as desigualdades sociais constituem um elemento central da  
cidadania democrática. Para que os tomadores de decisão possam decretar as  
políticas sociais apropriadas para lidar com as preocupações sobre a  
desigualdade social, os cidadãos precisam canalizar suas preocupações para o  
processo de tomada de decisão política formal. O mecanismo mais comum  
para estabelecer uma ligação entre cidadãos e tomadores de decisão é a  
participação política, em várias formas. Portanto, é importante avaliar como  
as preocupações com a desigualdade social estão associadas às diferentes  
formas de participação política (Silagadze et al., 2022, p. 1-2).  
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É necessário, portanto, desenvolver uma análise serena, adensada e despretensiosa  
quando há reportes ao arroubo e à falta de limites razoáveis em relação ao discurso ideológico  
o qual, via de regra, fomenta o ódio, a conduta desmedida quanto às fronteiras do tolerável e  
estimula as transgressões legais. Neste aspecto, vale mencionar o que pensa Arendt (2012, p.  
619), para quem “abolir as cercas da lei entre os homens – como o faz a tirania significa tirar  
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Democracia com desigualdades: sinais da vulnerabilidade social em ambientes politicamente  
ideologizados  
dos homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade política viva; pois o espaço  
entre os homens, delimitado pelas leis, é o espaço vital da liberdade”.  
Quanto ao termo ideologia, pelo seu caráter polissêmico, convém apresentar a ideia  
trazida por Di Giovanni e Nogueira (2018, p. 440) para quem designa tanto “[…] a explicitação  
de um conjunto de ideias, valores e concepções do mundo de uma pessoa, de um grupo ou de  
um movimento político, quanto a manifestação de uma forma mais ou menos dissimulada de  
falsificação dos fatos”.  
O que é uma ideologia senão uma tentativa de impedir ou dificultar a evolução social  
de certos coletivos por vezes desarticulados e desorganizados por grupos que têm o  
propósito de distorcer ou alterar a realidade social, a qual é a principal motivação para a  
demarcação, por parte dos grupos fragilizados, de mobilizações e resistências visando à  
reversão desta condição. Uma ideologia se reveste, em última análise, em instrumento de  
abdução de indivíduos leigos, desinteressados e que, por vezes, não detêm discernimento sobre  
o contexto sociopolítico, ou simplesmente optam por acompanhá-la por mera ignorância.  
Dardot e Laval (2016) alertam para esta particularidade, visto que, para os professores  
da Universidade de Paris, trata-se de um exemplo de biopolítica, na qual o grupo dominador  
orienta as condutas dos coletivos sociais, estabelecendo controle, demarcação e rigidez de  
ideias, permeadas por conceitos, discursos e decisões com vistas a manter inalterada a posição  
político-territorial estabelecida. Uma ideologia é, no sentido deslustrado do termo, um  
mecanismo tecnicamente viável de indução de massas, porém desprezível no que remete à  
valorização das ideias e das convicções deste mesmo grupo social, daí o seu caráter indecoroso  
e deletério.  
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É neste espectro de desmantelamento da democracia, com ataques diretos ao pluralismo  
enquanto forma de pensamento, que ocorre a desconstrução dos direitos sociais (Finchelstein,  
2020), alargando, portanto, o fosso social que existe sob o estatuto neoliberal. Promovendo uma  
análise sobre a nova conjuntura política brasileira na atualidade, Bernardi e Morais (2021)  
levantam uma questão interessante, buscando justificar a postura inconsequente de autoridades  
quando supostamente apoiadas por uma maioria imaginária, posição esta que demarca  
desfavoravelmente as decisões que aparentemente seriam voltadas para os grupos em  
desvantagem (minorias). Para os autores,  
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[...] se a existência de um comportamento autoritário e conversador da  
população brasileira não são os responsáveis pela manutenção do fascismo ao  
longo dos anos, o qual vem à tona em momentos de crise democráticas e  
instabilidades, principalmente econômicas, que ampliam o ceticismo na  
política (Bernardi; Morais, 2021, p. 305).  
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Jairo de Carvalho Guimarães  
Em um estudo conduzido com vários grupos, Waldfogel et al. (2021), concluíram que  
as pessoas com predileções pela ideologia de esquerda tendem a valorizar a igualdade com  
predisposição coletiva; por outro lado, os participantes com tendências ideológicas de direita  
expressaram tolerância com as disparidades, inclusive explorando a ideia de que a esquerda vê  
desigualdades sociais onde elas não existem. Tal constatação provoca um fluxo contínuo de  
orientações ideológicas a partir da percepção do sujeito social e, no sentido inverso, o homem  
comum absorve as orientações das ideologias como forma de se perceber pertencente a um  
coletivo no qual parece haver afinidade retórica.  
Constata-se que, quanto à relação entre ciência e ideologia, nada de comum existe, pois,  
como afirma Abbagnano (2012, p. 615), pertencem a campos distintos, visto que “[…] a  
primeira ao campo da observação e do raciocínio; a segunda ao campo do sentimento e da fé”.  
Isto se explica porque a ideologia tem afinidade com a persuasão, sob o domínio subjetivo,  
enquanto a ciência se relaciona aos aspectos objetivos, a partir dos fundamentos da experiência  
e da lógica. Não à toa, no transcurso do processo vacinal no Brasil, visando à imunização contra  
a COVID-19, a ciência foi solapada pela ideologia, em muitas situações. O fato é que os dados  
iniciais da COVID-19 (Mellan et al., 2020) foram assustadores e os indicadores do aumento  
dos óbitos implicavam em uma ação imediata por parte do Governo Federal, o qual se mostrou  
omisso, desinteressado e lento, produzindo ainda mais desigualdades, desmantelando a  
proteção social que se esperava do Poder Público.  
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A prepotência política e a formação dos cinturões de pobreza: sinais históricos  
Na democracia, situações deletérias como a manutenção do poder a partir de uma visão  
não de Estado, mas de Governo, invariavelmente remetem ao domínio de grupos privilegiados  
que naturalmente tendem a manter, a todo custo, o status quo. A ausência de renovação nos  
mandatos eletivos de grupos de interesse costuma indicar que o estatuto social, na prática, não  
será modificado, isto é, a ausência de rotatividade de governantes, especialmente na condução  
das políticas públicas voltadas aos coletivos fragilizados, geralmente não se modifica com a  
manutenção do poder, isto porque os fundamentos político-partidários são mantidos na  
trajetória do grupo político postulante ao poder supostamente a ser renovado. São as políticas  
públicas o meio adequado para assegurar os direitos sociais (Carvalho, 2019) e se o sistema não  
funciona com foco no social é porque a tomada de decisão foi pautada em deliberações  
discricionárias, às vezes não republicanas.  
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O ponto que se pretende levantar com mais ênfase aqui, na medida em que há uma  
relação estreita entre arrogância política e prejuízos sociais, é que a postura ideológica  
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