verdades já descobertas, ‘socializá-las’, por assim dizer; e, portanto,
transformá-las em base de ações vitais, em elemento de coordenação e de
ordem intelectual e moral (GRAMSCI, CC 1999: 96; Q, 1977: 1378).
Se os conceitos gramscianos fundamentaram a compreensão sobre a formação sócio-
histórica brasileira, a realidade social, cultural e política, as expressões do Estado e da sociedade
civil, a movimentação das classes sociais em diferentes conjunturas, se foram essenciais ao
enfrentamento do conservadorismo que historicamente marcou a profissão, seguem de extrema
relevância na compreensão da atual crise econômica, moral e política, no combate às posturas
antimarxistas, anti-intelectuais e neoconservadoras que grassam nos meios acadêmico e
profissional e que tendem ao retrocesso das conquistas do projeto ético-político profissional e
de seus princípios emancipatórios.
Tendências teórico-interpretativas e os conceitos predominantes na produção do Serviço
Social: avanços, continuidades e desafios
As incursões pela literatura produzida do final dos anos 1970 aos dias atuais permitem
asseverar a continua presença do pensamento de Gramsci nas produções elaboradas na área do
Serviço Social, denotando um processo de aprofundamento teórico e conceitual. As categorias
Estado, sociedade civil, hegemonia, intelectual orgânico, filosofia da práxis, já presentes nas
primeiras aproximações, prosseguiram como eixo central nos períodos posteriores, em conexão
a outros temas, como classes subalternas, revolução passiva, guerra de movimento, guerra de
posição, bloco histórico, relações de força, vontade coletiva, transformismo, americanismo e
fordismo, crise de hegemonia, crise orgânica, fascismo, para mencionar os principais. Tais
conceitos são abordados tanto do ponto de vista teórico quanto analítico, para a apreensão dos
processos macrossociais, da conformação dos Estados nacionais, com destaque para a
particularidade brasileira em diferentes conjunturas, das políticas e direitos sociais, do mundo
do trabalho, dos fundamentos do Serviço Social e do fazer profissional.
O tema do Estado ganha centralidade nas produções, compreendido em seu sentido
integral ou ampliado, como “o resultado das relações orgânicas entre [...] sociedade política e
‘sociedade civil’”, a primeira referente ao “Estado-coerção”, formado pelos aparelhos de
repressão e violência, e a segunda pelos “aparelhos privados de hegemonia”, ou seja, as
organizações responsáveis pela elaboração ou difusão das ideologias (GRAMSCI, CC, 2002:
139; Q, 1977: 2.288). Nas indicações de Liguori (2003: 174), Gramsci “é o autor que melhor
apreendeu, no campo marxista, a nova relação entre Estado e sociedade que se realiza na
modernidade do século XX, seja sob a forma do Estado fascista ou do keynesiano, do Estado
bolchevique ou do Estado socialdemocrata”, o que corresponde às diversas expressões de sua